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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Vidas Secas


Dispensa adjetivações desnecessárias, bastando o devido respeito ao estilo do autor e a degustação da temática cuja sede parece longe de ser saciada


“Vidas Secas” – consagrada obra literária de autoria do romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista carioca, Graciliano Ramos, prestes a completar oitenta anos desde a sua publicação em 1938 – é traduzida para os palcos teatrais com o auxílio de bonecos, máscaras e com total ausência de palavras – adaptação essa cuja proposta se concentra no diálogo entre a memória cultural do público e os sentimentos provocados pela encenação. Nessa empreitada, a companhia ítalo-brasileira Caravan Maschera – representada pela italiana Giorgia Goldoni e pelo paulista Leonardo Garcia Gonçalves – busca inspiração para a criação dos bonecos que elencam os oito personagens eleitos para encenarem o clássico romance de Graciliano Ramos, nas obras do artista plástico Cândido Portinari e do fotógrafo Sebastião Salgado. Também responsáveis por darem vida aos bonecos no palco, a dupla narra a história da família de retirantes nordestinos em sua constante luta pela sobrevivência, que assumem, obrigatoriamente, o papel de nômades em busca de regiões menos castigadas pela seca.

As imagens de beleza incomum e de efeito impactante convidam a plateia para se entregarem às sensações de angústia diante da esperança presente no cotidiano do povo sertanejo – a despeito da sua localização geográfica e da temporalidade dos acontecimentos. A relação simbiótica entre atores, bonecos e personagens definida pela orgânica direção da dupla Goldoni e Gonçalves define um paralelismo entre gestual, emissão de sons e características físico-sociais, inserindo o espectador na construção pessoal de diálogos inexistentes e do psicológico angustiante da sofrida família. O lastro metafórico contido na cenografia de Goldoni define o desejo de se ter um lugar para se viver presente nas entranhas dos representantes de uma horda de sertanejos ainda muito identificados na realidade brasileira. A falta de perspectiva de um futuro promissor é ressaltada pelo rústico figurino expurgado por Adelfa Bergonzini. Os nômades estruturados simbolicamente pelos bonecos de Fernanda Paredes e Goldoni impressiona por sua delicadeza e suas expressões realísticas ao se depararem com a seca, a miséria e injustiças sociais que transitam de geração em geração sem qualquer solução. A onisciência presente no desenho de luz assinado por Daiane Baumgartner transmite a presença de um narrador externo sob o ponto de vista de cada espectador ao capturar a dramaticidade de cada facho lumínico, relacionando-os às cenas sequenciais de aridez física e espiritual.  A pungente musicalidade de Luiz Maria e Garcia soa como discurso indireto que rege a pantomima contemplando fortes olhares e expressões faciais cuja estaticidade é compensada pela mágica direção de movimento.


A aridez voluntária presente no espetáculo “Vidas Secas” dispensa adjetivações desnecessárias, bastando o devido respeito ao estilo do autor e a degustação da temática cuja sede parece longe de ser saciada e de ser transformada em uma lenda com final feliz.


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