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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Enrolados - A Comédia


A sutileza de uma bola de canhão

Textos que relatam a rotina e as idiossincrasias sociais – sob os olhares debochados, satíricos, imorais, escatológicos e sagazes de Fernanda Young e Alexandre Machado, que se fundem à comicidade e ao humor do cronista Luis Fernando Veríssimo que iluminam as angústias, as fraquezas e os vícios humanos de maneira reflexiva, em paralelo com a degradação do cotidiano na escrita autêntica e poderosa do roteirista Paulo Halm – são prejudicados pelos flagrantes explícitos da mão pesada que se digna moldar o espetáculo “Enrolados – A Comédia”.

A tortuosa direção que segue a linha da concepção segundo o menor esforço resulta na chula tentativa dramatúrgica de Rodrigo Candelot e endossa a falta de envolvimento e compromisso na fusão de texto e de personagens, resultando na tentativa de materializar uma dramaturgia cômica, longe de ser engraçada, diante de uma plateia em busca de uma pegada inteligente a ponto de provocar risadas genuínas. A falta de espontaneidade do elenco composto por Evandro Rocha, Michele Ribeiro, Camila Abrantes, Fernanda Esteves, Igor Paiva e Ronan Horta trilha um caminho incapaz de cambiar manifestações positivas de quem assiste as vergonhas, os vexames, as paixões, os males-entendidos, as birras, os ódios, as infidelidades, os casos e acasos incapazes de divertir e de despertar o mínimo interesse por parte de uma já numericamente combalida plateia. O desenho luminotécnico de Fernanda Mantovani peca pela escassez de intensidade de luz e pelos excessivos momentos nos quais os atores permanecem sob penumbra e sombras, mesmo quando em cena, a despeito do possível fomento ao viés tragicômico adotado durante o espetáculo. A concepção cenográfica de José Dias é inconsistente ao parecer justificar a simplicidade presente com falta de recurso. O mediano figurino, assinado por Constança Whitaker, que dá um desfecho ao clichê de maneira digna, poderia ter sido acompanhado por um visagismo que se faz ausente.

Ao não conseguir delinear o imenso território opaco, denso e impreciso dos personagens, a crítica comportamental social dos indivíduos, nos quais os homenageados transitam, ficou nas pseudo entrelinhas que o espetáculo “Enrolados – A Comédia” acrescentou, com a sutileza de uma bola de canhão.

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