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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dogville


Um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana

A falta de fé na humanidade, o fracasso de uma sociedade e a ilusão da fé religiosa podem ser considerados o tripé que sustenta espetáculo “Dogville”, expondo, de forma conseqüente e articulada, um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana.

A adaptação do filme de Lars Von Trier para os palcos conserva convenções estéticas da narrativa, própria de teatro filmado, amplificando os detalhes do universo mesquinho das intrigas, das invejas, dos preconceitos e dos julgamentos – uma inusitada interpretação de Zé Henrique de Paula que traduz, através de sua direção, a essência de “Dogville” em algo concreto, familiar e muito próximo a cada um dos espectadores. Assumindo um paralelismo ao roteiro original do filme, dividido em capítulos, os atos do espetáculo são precedidos por um prólogo pelo narrador incorporado pelo ator Eric Lenate, que apresenta os seguintes personagens no primeiro ato, interpretados por um elenco irretocável que assimila a força presente nos diversos papéis: Grace (Mel Lisboa), Chuck (Fábio Assunção), Vera (Bianca Byington), Tom Edison (Rodrigo Caetano), Martha (Anna Toledo), Ben (Marcelo Villas Boas),  Sr Henson (Gustavo Trestini), Liz (Fernanda Thuran), Bill Henson (Thalles Cabral), Sra Henson (Chris Couto), Thomas Pai (Blota Filho), Jack McKay (Munir Pedrosa), Ma Ginger (Selma Egrei), Glória (Fernanda Couto) e Jason (Dudu Ejchel). Uma trupe que induz o olhar do espectador para muito além daquela pequena comunidade – sua paisagem, suas montanhas, até mesmo, sua cidade vizinha.

De forma distinta à condução na versão cinematográfica, na qual a ação se passa sobre um cenário em 2D, traçado em branco sobre um fundo negro – de forma tão didática quanto a escrita de giz sobre uma lousa escolar – na versão assinada por de Paula, para o teatro, o cenário desenhado por Bruno Anselmo se impõe com eficiência, a despeito de sua simplicidade, ousando projetar o caos em telões com dimensões proporcionais às dores, às dúvidas e às inseguranças dos personagens de uma vila chamada Dogville, habitada por pessoas simples, com anseios modestos e sem nenhuma pretensão de mudança. Pessoas com escassos contatos com o mundo exterior, isoladas segundo limites que lhes são impostos, até a chegada de uma forasteira que muda, substancialmente, a rotina do pequeno vilarejo que, antes com ares de felicidade idílica, dá lugar à verdade por detrás das nuvens densas, fúnebres e tenebrosas do ser.

Ao revelar a verdadeira identidade do vilarejo, o desenho de luz de Fran Barros acolhe não só os habitantes, mas também o espectador que, como uma ave de rapina à espera de uma carnificina, é poupado em meio à penumbra voraz que contribui no esmagamento da identidade da protagonista e sua desumanização. O entrelaçamento do real com o irreal, durante todo o espetáculo, é subvertido pelo figurino, com ares surrealistas, assinado por João Pimenta, que altera a percepção padrão de que a roupa faz o monge. O visagismo intimista de Wanderley Nunes enfatiza a dramaticidade e a tensão necessária junto aos personagens. A atenuação da atmosfera cênica na qual a história se insere, fica por conta da trilha sonora de Fernanda Maia, que ampara o espectador de tal forma a não permitir que também seja aprisionado em Dogville e permaneça inerte no tempo, juntamente com seus habitantes vítimas de amarguras e solidão, em meio à mediocridade e imersos em torpor, vitimados pela cegueira e que não se reconhecem como indivíduos.

A Vila do Cão, onde o instinto animalesco do poder camuflado em aparências e declarações de amor e de zelo ao próximo, tem como preposto o algoz que açoita e flagela, respaldado pelo nome de Deus e pela intenção da prestação do bem a toda a humanidade. “Dogville” acontece em plena década de 1930, em meio à miséria causada pela Grande Depressão e à sorte da violência gângster – uma história repleta de similaridade aos tempos atuais, em que Deus está acima de todos e “Dogville”, apesar de tudo que já foi vivido, acima de tudo.

Aquaman


O aparente déjà-vu presente ao longo de todo o filme concede a Aquaman, ares de um personagem que tem sua chegada atrasada no universo cinematográfico dos heróis

Uma história de amor que tem início a partir de um incidental encontro entre o faroleiro Thomas (Temuera Morrison) e Atlanna (Nicole Kidman) – a rainha do reino submerso de Atlântida, que aflora do mar à superfície – define a origem do garoto Arthur Curry (Jason Momoa), nos anos 1980, fruto do relacionamento amoroso entre dois mundos.

O longa-metragem “Aquaman” recicla o icônico herói DC, de olho na nova geração de fãs de HQs. A direção de James Wan, ao abraçar os personagens mitológicos do universo do herói, miscigena ficção científica, fantasia, drama e muita ação, sem a menor chance de apartar o espectador menos familiarizado com os personagens aquáticos. O aparente déjà-vu presente ao longo de todo o filme concede a Aquaman, ares de um personagem que tem sua chegada atrasada no universo cinematográfico dos heróis.

A perversidade de seu irmão não mestiço, sedento por poder e que forja uma batalha sobre o legítimo herdeiro do trono do reino de Atlântida, confronta os dois filhos de Atlanna em um ringue de gladiadores. A despeito da trilha sonora beirando a um metal pesado e das longas sequências de perseguição submarina impactada por muita porradaria, a galeria de seres com aspecto cem por cento submarino e aqueles com aparência humana, embora não mestiços como o herói protagonista, o filme não deixa de induzir o espectador a um estado de observação limítrofe à monotonia. Mas sem sombra de dúvida, o longa faz uma festa em meio aos efeitos especiais subaquáticos.

Pondo algo aqui e tirando algo dali, dentre nomes e locais e entre mortos e feridos, nada mais, nada menos do que uma sinopse da concorrente Marvel.

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Beijo no Asfalto


Formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original

Uma peça teatral escrita em 21 dias e publicada em 1960, inspirada em fatos reais, criteriosamente distorcidos pelo teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro – Nelson Rodrigues. Tomadas cinematográficas mixadas à leitura do texto no palco de um teatro se confundem com desempenho performático em estúdios de gravação, homenageiam a obra de Rodrigues através de todas as formas de manifestações artísticas – literatura, teatro e cinema. Um filme em preto e branco elenca, com requinte Suassuano, um ator negro para desempenhar o papel do protagonista. Dessa forma, o roteiro e a direção de Murilo Benício ousa reinventar “O Beijo no Asfalto” e o projeta nas telonas em formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original.

Amor e tragédia conduzem a polêmica em torno do drama que conta a história de um homem casado que corresponde ao pedido de um beijo de um homem que agoniza à beira da morte após ser atropelado em plena Praça da Bandeira. Sem se dar conta do potencial de repercussão de seu gesto de piedade, Arandir é arrolado em uma matéria de primeira capa de um jornal sensacionalista que deturpa aquele beijo no asfalto e o transforma no assunto de maior repercussão na cidade.

A ousadia de Benício trilha a essência Rodriguiana ao desiludir as crenças do espectador – manipulando, despudoradamente, a geografia dos fatos e o formato da narrativa – e ao transportá-lo para dimensões que vão muito além das poltronas das salas de projeção – ora para o compartilhamento da intimidade entre diretor, atores em plena leitura e análise do texto, ora para os bastidores de locações urbanas, ora para o confronto com a desmistificação das tomadas em estúdio. Com isso, Benício mostra a produção teatral e cinematográfica tal e qual a vida como ela é. A perversão do Anjo Pornográfico é destilada e sorvida por Benício ao redefinir a relação conjugal do casal protagonista como inter-racial, vivenciada, visceralmente, por Lázaro Ramos e por Debora Falabella. O diretor não deixa por menos ao elencar Augusto Madeira, Otávio Muller e Luiza Tiso como coadjuvantes e as participações especiais de Amir Haddad, Stênio Garcia e Fernanda Montenegro.

“O Beijo no Asfalto” conta uma história, de certa forma, elementar, contudo, com enredo intrincado e repleta de significados que se distancia do trivial ‘o bem e o mal’, concebida a partir de uma dinâmica teatral ágil com personagens que colecionam infindáveis segredos e que carregam consigo o moralismo natural dos hipócritas. Um thriller policial com mistério enxuto, atos eletrizantes e equilibradamente pesados em seu desfecho. Uma obra de um surpreendente novato diretor, imerso na amoralidade constante nas histórias de Rodrigues. Atual e provocativo, até mesmo com o seu término que, como música de fechamento, ouvimos Ney Matogrosso interpretando a canção “A Vida é Ruim”, cedida por Caetano Veloso.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Tinta Bruta


O longa promove uma falta de acolhimento através de um diálogo com o espectador a partir de um tom pessimista

A história de um jovem que assiste as suas performances eróticas com auxílio de tintas fluorescentes pela webcam, como seu único propósito de vida – um jovem com um passado recente um tanto quanto perturbador, que tem a sua vida virada de ponta-cabeça quando é expulso da faculdade e se vê na espera do julgamento pelo crime que lhe custou a sua expulsão.

Protagonista do longa “Tinta Bruta”, um jovem vive sem um destino definido, sem um projeto de vida, sem a certeza de um futuro edificante – um jovem que represa infelicidade por detrás de suas relações, que anda na corda-bamba da vida, que experimenta a solidão em toda a sua paleta de cores e que sofre da enfermidade dos sentimentos.

A direção dos gaúchos  Filipe Matzembacher e Márcio Reolon projeta uma cidade de Porto Alegre limítrofe ao antagonismo, prestes a sucumbir de mãos dadas ao protagonista e aos coadjuvantes – uma Porto Alegre repleta de insegurança e frustração atenuadas pela beleza  das cenas, pela luz negra, por neon e por música eletrônica.

O longa promove uma falta de acolhimento através de um diálogo com o espectador a partir de um tom pessimista. Não obstante, as cenas da vida íntima do protagonista assumem um seu papel coadjuvante, cedendo a relevância para a paisagem urbana local, para a pluralidade de gênero e para um Garoto Neon, possivelmente segundo uma existência latente dentro de cada jovem.

Encantado



A ideia central da animação “Encantado” é legítima, ao contar a verdadeira história por detrás do mito de um Príncipe Encantado – um infeliz garoto rico, cujo apelo irresistível às mulheres não é uma bênção, mas uma maldição, no verdadeiro sentido da palavra. Para quebrar o feitiço, é necessário confrontar uma série de perigosos desafios, auxiliado por Demore – uma ladra, cuja sua maldição é a incapacidade de amar, o que lhe dá a imunidade aos encantos do garoto.

Embalado por aborrecidas músicas pop e tendo Branca de Neve, Cinderela e a Bela Adormecida como coadjuvantes fúteis e egoístas, que brigam para serem eleitas a escolhida do príncipe, a animação aflora da leitura das histórias para dormir, pelo diretor Ross Venokur para suas filhas. Ao perceber que cada Princesa era casada com um Príncipe Encantado, Venokur passa a questionar a origem dos Príncipes e a sua verdadeira função no universo dos contos de fadas.

O público infantil, provavelmente, não tem a maturidade suficiente a ponto de perceber tais questões, tampouco os adultos não atinam para tal conflito, por completa falta de empatia com os personagens. Na contramão dos tempos, em “Encantado”, a carência da força feminina se manifesta como algo politicamente dosado,  no contexto de um mundo onde o homem ainda é o único meio de fazer com que uma mulher seja feliz para sempre.



sábado, 1 de dezembro de 2018

Filho do Pai


Carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração

Deixando-se tocar pela reivindicação de um pai, um filho transforma tal experiência na verbalização de sentimentos represados através do texto de autoria de Maurício Witczak que ousa mixar o drama de sua autoria com passagens da peça ‘Hamlet’, em total sintonia com a essência do texto do Bardo inglês. À frente da materialização desse argumento no palco, Antônio Pitanga e Nando Cunha discorrem acerca do ceticismo enraizado no amor entre um pai e um filho – personagens que não conseguem exprimir o que sentem um pelo outro, deixando, generosamente, o benefício da dúvida, nas mãos do espectador.


A vida estampada pelas interpretações de Pitanga e Cunha é configurada pela essência da busca – de um lado, pela negação de um relacionamento e, por outro, pelo resgate de algo não vivido por conta de um drama familiar. Cercando-se de cuidados para não carregar o desempenho no palco com tendenciosa erudição, Clarissa Kahane dirige o espetáculo de tal forma a demandar do espectador o processamento das palavras e gestuais em imagens, tornando a assimilação do texto palatável e permitindo, até mesmo, a identificação do público com diversas passagens da obra. Dando suporte ao trabalho imagético de Kahane, o desenho de luz de Aurélio di Simoni se alterna entre a angustiante e remota tragédia do ‘Ser ou não ser’ e a contemporaneidade do drama que sufoca o relacionamento entre duas gerações. O controverso e fascinante confronto entre pai e filho é personificado pela direção musical de Isabela Vicarpi, que acentua hesitação e inércia como causas e revanche familiar como efeito. O simbolismo temático que transita, quase como uma linha investigativa do ser, é traduzido pelo minimalismo contido na concepção do projeto cenográfico e pela neutralidade da configuração básica do figurino assinados por Desirrée Bastos.


Da mesma forma que em Hamlet, “Filho do Pai” carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração – tensões que afloram em momentos de conflito e que questionam o direito de optar pela morte, fundamentando o sofrimento humano como coisas da vida.


terça-feira, 27 de novembro de 2018

De Repente uma Família


A ingenuidade da história contempla a repetição de momentos ‘cheios de graça’ – passando a nítida impressão, na maior parte do tempo, de uma desnecessária indução voluntária do espectador ao riso, não natural e inconsistente

Pete (Mark Wahlberg) e Ellie (Rose Byrne) configuram um casal estilo comercial de margarina, de classe média alta e sem filhos. Após uma discussão com a sua irmã, Ellie passa a admitir a possibilidade de adotarem uma criança mais velha. O casal acaba se interessando por Lizzy (Isabela Moner) – uma afiada adolescente que tem dois irmãos mais novos: um sensível, chamado Juan(Gustavo Quiroz) e uma birrenta, chamada Lita (Julianna Gamiz). Os três se mudam para a casa do casal e, em um curto espaço de tempo, repleto de alegria e de entusiasmo, passam a representar o caos para os pais de primeira viagem que têm que lidar com uma adolescente traumatizada e duas crianças assustadas.


“De Repente uma Família” – um longa cujo argumento e roteiro se debruçam sobre a verdadeira história do seu diretor, Sean Anders que, juntamente com a sua esposa, adota três crianças fora do sistema de adoção oficial e, juntos, encontram incontáveis desafios durante todo o processo.


A ingenuidade da história contempla a repetição de momentos ‘cheios de graça’ – passando a nítida impressão, na maior parte do tempo, de uma desnecessária indução voluntária do espectador ao riso, não natural e inconsistente. Em contrapartida, “De Repente uma Família” promove emoções através de cenas ora tristes ora felizes,  genuínas diante de uma família que passa por dificuldades, muitas vezes sombrias, mas sem perder a esperança.

Robin Hood - A Origem


Radicaliza, ao superar o título, há muito batido, ao atingir o espectador com imagens lançadas, como catapultas de efeito moral, contra muralhas contemporâneas resistentes à compreensão do já conhecido, sob pontos de vista repletos de atualidade


Personagem lendário que, provavelmente, teria vivido entre 1250 e 1300 e cujas histórias têm acumulado inúmeras versões desde o século XIV, Robin Hood – se tornou, a partir dos anos 1900, um clássico da literatura juvenil mais do que explorado pela indústria cinematográfica, tanto em filmes quanto em adaptações para animação, bem no espírito das histórias para ninar. Ao largo das histórias da carochinha e dos contos de encantar, o roteiro de Bem Chander e David James Kelly para o longa “Robin Hood - A Origem”, sob a direção do britânico Otto Bathurst, reinventa a fábula do homem que rouba dos ricos para dar aos pobres.

A atual versão, enfatiza a natureza dualista do justiceiro: como Robin de Locksley – um homem rico, afastado dos problemas de sua comunidade; e como o  ‘Capuz’ (uma releitura do chapéu com pena que lhe rendeu o codinome ‘hood’ pelo qual é conhecido) – um misterioso arqueiro que causa pânico em meio à classe dominante. Robin de Locksley é um traidor de sua classe, um veterano das Cruzadas e que luta contra o xerife de Nottingham depois que volta do campo das cruzadas e percebe que sua comunidade é extorquida pelo déspota nacionalista. Incorporando ambas identidades, o carismático ator Taron Egerton toma posse da essência da lenda. Ao denunciar padres pedófilos, aldeões revoltados e xerife corrupto, a direção carrancuda de Bathurst, repleta de licença de criação, atordoa o espectador, como se o conto de sete séculos de idade discorresse muito sobre a história contemporânea.


Sem rodeios, a soberania extremamente despótica e cruel para com o povo é uma das ousadas denúncias a serem detectadas no longa, com detalhes deliberadamente contemporâneos, e sinaliza para uma franquia voltada para um público menos persuasivo às ficções engessadas. A moderníssima pegada do roteiro transforma o que, em qualquer outra produção, poderia ser taxado como clichê. Radicaliza, ao superar o título, há muito batido, ao atingir o espectador com imagens lançadas, como catapultas de efeito moral, contra muralhas contemporâneas resistentes à compreensão do já conhecido, sob pontos de vista repletos de atualidade.


domingo, 25 de novembro de 2018

As Brasas - Direção: Pedro Brício

As Brasas



Potencial de despertar, junto à plateia, sensações de tortura através de labaredas ardentes que conduzem à angústia promovidas pelas incertezas e pelos segredos que não se permitem ser desvendados

Passados quarenta e um anos, um reencontro entre um velho general – Henrik (Herson Capri) – e seu amigo de infância – Konrad (Genézio de Barros) – no castelo do primeiro, na região dos Cárpatos - Hungria. Durante o encontro, um colóquio oscila entre a perfeição de um passado e o suave e permanente declínio de um mundo, há muito, sendo soterrado. Mas algo incomoda o velho general, sedento pela verdade sobre o ocorrera na última vez em que se viram – um misterioso fato que, pouco a pouco, toma corpo, a ponto de evocar silêncios preteridos.


O mote do espetáculo “As Brasas” – cuja realização é inspirada na obra do escritor húngaro Sándor Márai, por Felipe Lima e Duda Rachid – embora aparentemente elementar, trata-se de um genuíno exercício dramatúrgico praticado por Rachid e Julio Fischer, em parceria com o ator, dramaturgo e diretor – Pedro Brício. Como se em uma prosa fluida, a direção do espetáculo regida por Brício não se extingue frente à mera impressão do tempo real em um mundo em que o passado se mantém vivo dentro dos protagonistas. A monumental elegância do elenco composto por Capri, Barros e Nana Carneiro da Cunha, investiga, com proficiência, a decadência de um universo repleto de perguntas sem respostas. A escuridão de um velho castelo imerso em atmosfera nostálgica é concebida pela cenógrafa Bia Junqueira que, com sua floresta esculpida com requintes de diversidade de materiais inusitados, recria os áureos tempos dos dois amigos.
O requinte contido no texto proferido pela dupla de atores passeia pela precisa direção musical de Marcelo Alonso Neves que, oscilando entre o rancor e a calmaria de dores vividas e sofridas, avança, de mãos dadas ao austeramente básico figurino de Marina Franco que, como em um encontro de almas, desperta lembranças e narrativas da infância e da juventude da memória visual do espectador. Renato Machado concebe um desenho de luz repleto de contemporaneidade usando técnicas que definem linhas, planos, sugerem imagens projetadas em meio ao fundo infinito desprovido de cor, delineiam silhuetas através de contornos reluzentes, e levam o espectador à reflexão sobre o significado de formas vegetais retorcidas e moldadas por Junqueira – recursos cênicos que abrilhantam a exposição sobre uma amizade consolidada, que precede um amor disputado.

A percepção do conjunto da obra de Brício tem o potencial de despertar, junto à plateia, sensações de tortura através de labaredas ardentes que conduzem à angústia promovidas pelas incertezas e pelos segredos que não se permitem ser desvendados – mesmo após o apagar das luzes e o cerrar das cortinas de “As Brasas”.





quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Excelentíssimos


O documentário, no contexto da dura realidade de um momento presente, incita o medo e apreensão sobre o futuro do País – onde o fundamentalismo religioso, a falta de empatia dos políticos pró-impeachment frente à população e o desrespeito aos direitos humanos dão margem para que paire a dúvida no ar

O evento histórico responsável por intensa polarização na conjuntura do Brasil de 2018 é retratado, com enfoque visionário, no registro documental cinematográfico “Excelentíssimos”, que desenha, minuciosamente, o porquê da instabilidade política no País, responsável pela divisão da população em coxinhas e mortadelas. A ousada e imparcial direção de Douglas Duarte exerce a capacidade de transferir para o espectador/eleitor o benefício da dúvida sobre a possibilidade de tudo ter passado de uma farsa ou de um grande acordo orquestrado com vistas à derrubada da então presidente da república.

De um lado, cidadãos crédulos no fato da chefe de Estado ter cometido crime de responsabilidade, tornando-se defensores de seu afastamento do cargo; do outro lado, uma resistência que vê no movimento pró-impeachment uma tentativa de golpe cuja gênesis teria eclodido logo após os resultados das urnas de 2014, contemplando, em sua maioria, futuros investigados e réus em meio aos mais variados processos de corrupção, seja ativa ou passiva.

O documentário, no contexto da dura realidade de um momento presente, incita o medo e apreensão sobre o futuro do País – onde o fundamentalismo religioso, a falta de empatia dos políticos pró-impeachment frente à população e o desrespeito aos direitos humanos dão margem para que paire a dúvida no ar – até que a condução da política por parte do novo governo, a partir de janeiro de 2019 prove o contrário – se, de fato, valeu a pena.


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Lago dos Cisnes


A luminosidade, fomentando a reflexão para as mentes que estão em fase de desenvolvimento intelectual

A história que conta o drama da princesa transformada em Cisne Branco por um feiticeiro – durante o dia, ela é a rainha dos cisnes; à noite, uma bela mulher – e que somente o juramento de fidelidade eterna de um amor tem o poder de libertá-la da magia – é a narrativa do espetáculo infantil “O Lago dos Cisnes”, Inspirado no balé do compositor russo Tchaikovscky.
 
O conflito entre o bem e o mal traduzido, com requinte e respeito ao público infantil, pela direção de Alexandre Lino, desobscurece as sombras e eclipcia a luminosidade, fomentando a reflexão para as mentes que estão em fase de desenvolvimento intelectual. A simbiótica relação entre a direção Lino e o sublime texto de Daniel Porto abastece o espectador com enumerados variados elementos do enunciado sobre o espetáculo, num sempre crescente afeto ao público alvo, com reflexos diretos na potencialização do dito ‘teatro infantil’. A graça contida na interação entre forma e conteúdo expressa na coreografia da protagonista transborda emoção, tamanho o desempenho da atriz Juliana Martins. A força do drama, em alguns momentos, sutilmente angustiante, não perde a sua essência mesmo quando o trágico torna-se belo, graças à trilha sonora assinada por Alex Fonseca que ousa incrustar Frank Lloyd Webber alienígena e um pouco mais de Tchaikovscky atemporal, compondo o prólogo do espetáculo. A intencionalidade do desenho de luz de Paulo Denizot percorre a intuição independentemente da idade do espectador, uma vez que lança os projetores no drama e provoca reações que vão muito além do mero status de se estar espectador na plateia, mas se sentir agente receptivo sensorial do espetáculo.
 
As reações intrínsecas no imaginário infantil contribui na constituição das diversas ideias materializadas na apresentação de “O Lago dos Cisnes” pois a sua trajetória pode ser compreendida como o quão é impossível  viver uma vida equilibrada, simplesmente desprezando o desequilíbrio que faz parte, inevitavelmente, de cada indivíduo.


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sueño Florianópolis



Momentos familiares, desarmados por diálogos flexíveis e camadas ininterruptas de agradáveis pseudos-improvisos, conferindo, ao espectador, a credibilidade desejada

O desconcertante fluxo errático emocional estruturado na essência de “Sueño Florianópolis” resulta em um longa regado por uma DR, em potencial, condutora de análises reveladoras sobre o cotidianos de uma família argentina, em férias no Brasil.


Lucrecia (Mercedes Morán) e Pedro (Gustavo Garzón), ambos psicanalistas, se encontram em um complicado processo de separação, dormindo em casas separadas, mas ainda em estado de compartilhamento de todos os rituais familiares de um matrimônio que gerou dois filhos. A família parte, em férias, em uma viagem de carro, de Buenos Aires – Argentina rumo a Florianópolis – Brasil, como última tentativa de salvar o casamento ou como apenas uma chance de pensar em conjunto sobre as possibilidades que possam se concretizar diante de uma separação sumária.

A empatia, naturalmente desenhada pela direção de Ana Katz, cría intuitivos momentos familiares, desarmados por diálogos flexíveis e camadas ininterruptas de agradáveis pseudos-improvisos, conferindo, ao espectador, a credibilidade desejada e, sutilmente, transmitindo o seu recado de que os momentos felizes devem ser enxergados nas pequenas coisas do dia a dia – enquanto isso, urge a luta cotidiana em busca de conquistas de maiores proporções na vida.



Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald


O longa não enfatiza a amizade, mas os males corrosivos da humanidade tomada pela intolerância e pela corrupção

Expandindo o universo ‘Animais Fantásticos e Onde Habitam’ deflagrado em 2016, J.K. Rowling  dá continuidade à pré-sequência de cinco histórias da obra derivada da série  Harry Potter – “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”.

Tudo começa com o recrutamento do bruxo Newt Scamander (Eddie Redmayne) por seu ex-professor em Hogwarts – Albus Dumbledore (Jude Law) – para enfrentar o terrível bruxo das trevas – Gellert Grindelwald (Johnny Depp) – que se encontra fugitivo da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos Estados Unidos) e que reúne seguidores, visando à segregação dos mundos dos seres magos sangue puro e seres não-mágicos. Na sequência, Scamander se reencontra com os amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein ( Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler).

O sexto filme do mundo de Rowling sob a direção de David Yates é tomado por camadas repletas de novas criaturas, efeitos visuais que impressionam e um enredo alimentado por três entradas finais instigantes. O longa não enfatiza a amizade, mas os males corrosivos da humanidade tomada pela intolerância e pela corrupção, deixando em aberto qual o lado que optará em meio à guerra pelo poder, entre bruxos e trouxas. 

A Rota Selvagem



A crueza e a inflexibilidade pungente sobre o amadurecimento e perseverança diante das adversidades da vida de um adolescente, constrói um filme pesado, porém, contemplado por uma essência cativante.

Assumindo corajosamente uma possível capacidade de indução do espectador ao erro diante da possibilidade de seu roteiro ser interpretado como base de uma história de um ‘menino e seu cavalo’, “A Rota Selvagem” supera, em muito, as produções carregadas de obviedades e clichês emocionalmente apelativos. A brutal, porém genuína direção de Andrew Haigh endossa tal assertiva carregando a película com o retrato de uma vida, sem atenuar suas dores com filtros ou qualquer outros subterfúgios capazes de atender à demanda do espectador por um final feliz ou, ao menos, consolador.


A crueza e a inflexibilidade pungente sobre o amadurecimento e perseverança diante das adversidades da vida de um adolescente, constrói um filme pesado porém, contemplado por uma essência cativante. Charley (Charlie Plummer) é um jovem de dezesseis anos que, levando-se em conta a sua pouca vivência temporal, é lançado a uma precoce e dura experiência de vida, lidando com abandono e uma overdose de tristeza provocados por perdas pessoais e afetivas consecutivas. Paulatinamente, o mundo se abre aos seus pés, expondo o espectador às passagens mais sombrias da vida do jovem, ao longo de uma conturbada viagem desde Portland - estado de Oregon, noroeste dos Estados Unidos – rumo ao leste, até o estado de Wyoming, durante a qual, o taciturno Charley enfrenta um mundo cheio de dificuldades e total falta de empatia.

Evitando sucumbir ao sentimentalismo sobre a relação ser humano e animal, o espectador é manipulado de modo a distanciá-lo das emoções triviais e o direciona à preservação da memória da inocência, da sutileza e da vulnerabilidade, mesmo que, angustiante, ao longo da narrativa. Privilegiado pela trilha sonora por James Edward Barker e pela direção de fotografia assinada por Magnus Nordenhof Jonck, “A Rota Selvagem” se faz crível, brutalmente sensível, passando ao largo do sentimentalismo barato, intencionalmente por parte de Haigh.


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Operação Overlord



‘O quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’

As cenas iniciais revelam um filme de guerra que bombardeia as telas de cinema deixando nada a dever a qualquer produção realista bélica previamente concebida. Paulatinamente, como em um degrade que se intensifica com o passar da história, surgem pérolas nacaradas por ação intensa, sutil humor e terror repleto de cenas assustadoras, incrementadas por uma seleta gama de efeitos visuais, marcadas por sons ensurdecedores e impactantes capazes de abalar a tranquilidade do espectador que possui, até mesmo, nervos de aço.


Dessa forma, “Operação Overlord”, sob a precisa direção de Julius Avery, apresenta um argumento e costura um roteiro inusitados para o gênero terror – a despeito do estereótipo dos mortos vivos que não se prendem a hábitos noturnos, que não se limitam a vaguear, agem instintiva e conscientemente e carregam consigo, uma boa fração de sua personalidade previamente às suas mortes. 

Um soldado paraquedista tem como a sua primeira missão ir atrás das linhas inimigas, abrir o caminho para a Normandia e derrubar a antena de rádio instalada pelos alemães, no topo de uma antiga igreja francesa. No subsolo da torre, ele se depara com algo que vai muito além do que apenas soldados.

A produção de J.J. Abrams impõe as suas conhecidas reviravoltas, nem sempre surpreendentes, mas contempla um questionamento muito subjetivo – ‘o quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’ – capaz de não gerar uma resposta direta, pelo simples pavor de se promover uma linha de raciocínio sobre o assunto.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Chacrinha: O Velho Guerreiro


Humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia

Estruturado a partir de um roteiro meteórico assinado por Claudio Paiva, Julia Spadaccini e Carla Faour, o longa “Chacrinha: O Velho Guerreiro” entra para o hall das cinebiografias com foco no maior fenômeno da comunicação brasileira.

Sem mais delongas, os registros da escalada de Abelardo Barbosa rumo ao sucesso ganham evidência em detrimento de um olhar mais aprofundado nas passagens de sua vida pessoal, deixando no ar, uma série de pontos carentes de esclarecimento. Consequentemente, a esmerada direção de Andrucha Waddington pode passar a equivocada impressão de que a figura do mito Chacrinha dá a vez à imagem de Abelardo Barbosa, em carne e osso – um workaholic ausente na sua vida matrimonial e paterna, mas com tempo que permite, a si próprio, manter supostos relacionamentos extraconjugais – tudo envolto com o exacerbado humor presente no palavreado, na postura e no figurino do apresentador.

E por falar em humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia, ninguém menos que os atores Eduardo Sterblitch e Stepan Necerssian para dar continuidade à essência de Abelardo Barbosa antes e no início de carreira e após a sua consagração como “Velho Palhaço”, respectivamente, capazes de levar ao público do cinema um espetáculo que, definitivamente, não acaba quando termina.



quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody


Um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock

Ao explorar o peculiar estereótipo das cinebiografias  de estrelas do rock moldadas pelo núcleo familiar, pelas dificuldades, pela perseverança, pela transposição das barreiras, pelo reconhecimento do talento, pela aquisição de fãs e, finalmente, pela conquista do estrelato, "Bohemian Rhapsody" se apresenta como um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock – Queen. Nessa empreitada, o produtor e diretor norte-americano Bryan Singer consegue a proeza de narrar a história de Freddie Mercury (Rami Malek) como o vocalista da banda, poupando o seu longa de ser rotulado por uma sugestiva e não intencional exclusiva biografia do pop star, porém uma generosa exposição dos demais membros da banda como elementos de uma família formada pela escolha pessoal. Com profundo respeito e a partir de um olhar clemente e flexível a todas das formas de amor, Singer delineia, despretensiosamente, a tão contestada e demandada ao juízo, sexualidade de Mercury.

O roteiro se desenvolve a partir do momento em que o trio de rock ‘Smile’ perde seu vocalista e é surpreendido pela performance de um de seus fãs mais atentos e esperançosos – Farrokh – ao se oferecer para uma audição, desprovida de qualquer formalidade que pudesse ser exigida para a contratação de um vocalista vislumbrado pelo guitarrista e estudante de astrofísica, Brian May (Gwilym Lee) e pelo baterista e estudante de odontologia, Roger Taylor (Ben Hardy), que se rendem, de imediato, ao talento daquele que ousaram ‘bullyinar’, por conta de sua dentição proeminente. Para a surpresa de May e de Taylor, Farrokh não apenas é um cara que conhece as canções da banda, mas demonstra, de imediato,  a sua capacidade de se harmonizar com a recente produção da ‘Smile’, potencializando-a com o alcance vocal do tímido, mas não menos arrogante fã.

A intrigante originalidade do longa se faz presente pelo título “Bohemian Rhapsody” – o nome da música mais popular do Queen, com duração de quase seis longos minutos, para um single pop em pleno 1975. A sua mistura barroca, mística, melodramática e sem refrão, define o que foi a banda britânica para o mundo musical – um furação com solo de guitarra de Brian May que abre espaço para uma ópera composta por Mercury, que termina com um hard rock memorável.

Paralelamente ao drama de Mercury compartilhado com a banda Queen, o longa revela o curioso processo do surgimento dos ritmos familiares a todas as gerações que testemunham os seus sucessos, até os dias de hoje, e se faz presente como uma nota adicional aos sucessos que projetaram a banda Queen no hall da fama.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Doutrinador


‘Democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.


O sentimento de revolta frente à indignação, à injustiça, à afronta ao bem comum e, até mesmo, ao desprezo à ética social desencadeia em um cidadão consciente dos ilícitos políticos, uma demonstração de violência implacável por conta de sua inconformidade, diante de liminares, de habeas corpus, de desmentidos do indesmentível e de tantas pizzas que sua geração é forçada a engolir.

O filme “O Doutrinador”, baseado na HQ homônima de Luciano Cunha, tem a sua adaptação realizada por Gabriel Wainer que, com a sua elegante direção, além de adaptar, transpõe, de maneira brilhante, a revolta contra o sistema político, do qual o espectador também é vítima. Conta a história de uma nação chafurdada nos problemas sociais, onde a elite política corrupta se utiliza das brechas da constituição e das leis e da doutrinação pela bíblia e, com isso, tira proveito de um povo em busca de um Messias. O potente roteiro, realizado a oito mãos traz, à tona, o ledo engano dos ingênuos que costumam citar o voto como ferramenta de mudança social, diante de fatos que contrariam o bom senso, a ética e a decência, dando lugar ao sentimento de impotência por parte do anti-herói Miguel (Kiko Pissolato) que, cansado, exaurido e sem nenhuma ponta de esperança, decide fazer justiça com as próprias mãos.

O longa se insere em um cenário onde não há espaço para ambiguidades e que define como coadjuvante, o verdadeiro herói, Edu (Samuel de Assis) – alguém que acredita que a justiça se faz dentro das leis e que estas existem para proteger as pessoas contra os malfeitores,  incluindo os corruptos e os salvadores da pátria, para os quais, a palavra ‘democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Fúria em Alto Mar



O impacto junto ao espectador é potente e nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra

Baseado no romance de 2012 “Firing Point”, de autoria de Don Keith e George Wallace, o filme “Fúria em Alto Mar” se concentra em uma missão, comandada por Joe Glass (Gerard Butler), em um submarino norte-americano, visando ao resgate do presidente da Rússia, refém de seu próprio ministro da Defesa Dmitri Durov (Mikhail Gorevoy), em pleno solo russo.


A produção subaquática, sob a direção de  Donovan Marsh, seria irretocável, não fosse o ranço de moral patriótica e a insipidez decorrente falta de humor. Em compensação, o impacto junto aos espectadores é potente e os nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Fantasma Autoral


Vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina

O ponto de partida – um texto sem maiores pretensões, senão fazer rir, que conta a história de Miguel (Bemvindo Sequeira) – um diretor cênico frente ao desafio da produção de um espetáculo teatral. Imediatamente após a conquista de um amparo, Miguel se vê coagido a submeter seu trabalho a diversas alterações, por exigência do patrocinador.


Em meio ao despojamento de Sequeira, que não se contém diante da menor possibilidade de interagir junto à plateia, o espectador emerge sob o impacto da comicidade intrínseca em “O Fantasma Autoral”. O texto, assinado por Maria Queiroz Azevedo, promove um pensamento sobre as dificuldades enfrentadas pelo mercado artístico, tais como as barreiras impostas aos produtores na luta para a obtenção de patrocínio e a dualidade definida pelo respeito a uma obra em nome da arte e pela venda da alma ao diabo, imposta pelo sucesso conquistado às custas da banalização da arte em detrimento da obra.

A direção de Ernesto Piccolo é outorgante, tendo em vista os contumazes e arrastados improvisos – marca registrada de Bemvindo Sequeira – que, em alguns momentos, torna o entendimento do espetáculo um tanto confuso e disperso mas que, de modo algum, impacta negativamente a plateia a ponto de impedi-la demonstrar a receptividade com que acolhe os viciosos predicados cênicos do comediante mineiro de Carangola. Entregando-se à complacência de Piccolo, Alexandre Lino dá a vez à comicidade rasgada e faz brotar personagens díspares aos até então criados ao longo de sua carreira. Pedro Garcia compartilha com Sequeira, hilários instantes em que se permite rir das cenas em que toma parte com a estrela do espetáculo, em pleno palco e diante de uma plateia que, em não raros momentos, não se priva de instigar os atores com sugestões para proferirem novos cacos. As nuances dramáticas ficam por conta da carismática participação afetiva composta por Paulo Vilela, Maria Queiroz Azevedo, Pedro Roquette-Pinto e Giulia Boccaletti.

Os recursos cênicos “minimalistas”, conforme definição caricata dos mesmos pelo personagem Miguel, no texto de Azevedo, conferem dignidade à produção na medida certa, de modo a permitir que o brilho do espetáculo fique por conta do desempenho do elenco, seja no palco ou, invasivamente, na plateia. As restrições tão peculiares no universo teatral, onde a pouca verba se rende à enorme vontade de levar um espetáculo ao público é muito bem definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Débora Cancio, retratando o diálogo entre bastidores e a realidade enfrentada pela grande maioria dos produtores. Nesse embate, o jogo de poder e o duelo de personalidades enquadram o desenho de luz de  Aurélio de Simoni que adota o conceito do menos ser mais.

Por entre mortos e feridos, a monocórdia fenda cômica de “O Fantasma Autoral” vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina e que não se rende à perversidade de entregar ao público uma obra que já teria nascido fadada ao fracasso.



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carmen


O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios

Dotada de profusa carga de criatividade na adaptação do roteiro e de sensualidade emanada pela triangulação amorosa definida pela linha mestra do argumento, a mais nova versão da trágica ópera francesa “Carmen” conta com a performance e a beleza de Natalia Gonsales que incorpora a protagonista, mantendo-se afastada do estereótipo de diva – o que confere à sua Carmen, um apelo que aproxima o espectador de uma realidade palpável. O segundo vértice do triângulo é ocupado pelo charme natural e generosamente doado por  Flávio Tolezani ao seu extremado José – cabo do exército enlouquecido por um sentimento desgovernado e passional. A formatação do relacionamento é definida pela virilidade do toureiro – o grande amor de Carmem – incorporado por Vitor Vieira.

Sob a espontânea e instintiva direção de Nelson Baskerville, o espetáculo é esculpido de modo a promover, ao espectador, impactos que vão muito além da obviedade de expressões faciais e de movimentos corporais já explorados em produções à luz do mesmo tema. Notavelmente, a viciosa e egocêntrica lascívia emanada pelos personagens torna-se fascinante através do olhar de Baskerville.

A direção de movimento e a coreografia de Fernando Bueno define um dinâmico bailar de corpos ao longo de toda a dramatização, com marcações de cenas e de bailado que explora a totalidade do palco com requintes de composição cênica, para o deleite do olhar do espectador. Ameaçado de privação de seu fôlego, o público acompanha a história de uma mulher sensual e independente, que seduz José a fim de aliciá-lo para a prática do contrabando. Cego de amor, José se entrega a Carmem e se permite mergulhar em um relacionamento amoroso triangular fadado a um final trágico.

Fomentando o drama, a trilha sonora de Marcelo Pellegrini reage à explosiva química entre Carmem e José e preenche a sala de espetáculos com retumbante flamenco, com potencial inebriante sobre todos os espectadores. A concepção do projeto cenográfico funde plateia e palco, aproxima público e personagens através de elementos simbólicos, muitos deles, artisticamente artesanais, conferindo intensa tridimensionalidade às cenas em comum união ao desenho de luz –  ambos assinados por Marisa Bentivegna – que incinera os espectadores com o fogo da paixão, asperge o sangue da tragédia por toda a sala de espetáculos, e chicoteia cada um dos presentes com jatos de areia que cobre as arenas da vida. Tecidos selecionados segundo textura, cor, transparência e densidade são moldados, recortados e costurados em obediência ao figurino concebido por Leopoldo Pacheco e Carol Badra e repousam sobre os corpos esculturais do elenco.

“Carmen”, com seu feminismo tácito contido, chega ao espectador como algo trágico e fatal. O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Legalize Já



Fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock

Uma história ocorrida na década de 1990 – contemplando problemas financeiros, gravidez não planejada, conflitos familiares e opressão policial – é resgatada segundo um olhar que, de tão atual, acaba por conferir aos fundadores do grupo ‘Planet Hemp’ uma significativa parcela de responsabilidade pela luta contra o preconceito e pela quebra de paradigmas.


“Legalize Já” leva para as telas do cinema uma visão em preto e branco, com toques de sutil cromatismo aguado, a batalha de um vendedor ambulante pela sua sobrevivência, através da venda de camisetas tematizadas segundo o mundo do Rock. Em um extremo, Marcelo divide sua luta com o amor que sente por sua namorada grávida; no outro, acrescenta ao seu esforço, um pai que faz de tudo um pouco para colocá-lo para fora de casa.

Em meio a essa peleja, o capricho da vida faz com que a sua trajetória cruze com a de outro jovem envolvido em constante conflito com a PM – um jovem que não se permite entregar-se ao derrotismo e que canaliza todo o seu potencial de investimento em paixão e amizade para o seu mais recente companheiro de vida dura. Fruto desse acaso, nasce a parceria de Marcelo (Renato Góes ) e Skunk (Ícaro Silva ).

Assinada por Pedro Cardillo, a fuscalva fotografia, concebida a partir de sólida veia artística, confere à trama uma aspereza poeticamente realista, desenhando a ascensão de jovens discriminados que vivem à margem de uma sociedade que os encara como mero delinquentes. A ousada e concisa direção de Gustavo Bonafé e Johnny Araújo manda o recado, sem conferir à obra uma essência biográfica, mas uma história nos moldes de fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock, explicitamente posicionado a favor da legalização da maconha.

Um prato cheio para debates sobre os pós e os contras à liberação da maconha e para muita divergência sobre o assunto.