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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Desobediência


Uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa

Um célebre rabino da comunidade judaica ortodoxa de Londres sucumbe ao término de seu sermão sobre o livre-arbítrio, onde fala de anjos, bestas e os únicos seres que são ‘livres para escolher’ – os humanos. Sua filha, uma fotógrafa de Nova York, volta para aquele universo imutável de sua infância, que há muito tempo deixou para trás, tendo que ser alvo dos olhares de parentes e de velhas amizades, e constatar, de forma dolorosa, que seu pai, declara, em seu testamento, não possuir herdeiros, deixando a casa, o seu único bem, como herança para a sua comunidade, ignorando os direitos de sua filha de sangue.

A modelagem do assunto pela direção de Sebastián Lelio permite um aprofundamento da análise sobre as maneiras com as quais as sociedades repressivas enquadram o gênero feminino, através da história de amor entre duas mulheres – uma paixão proibida, aflorada na adolescência, que promove uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa. Contudo, a inércia assumida pelo roteiro não permite que a temática tome rumos, minimamente conclusivos, fazendo de “Desobediência” uma experiencia frustrante e desanimadora, conduzida por personagens perdidos em seus dilemas frente à ‘liberdade’ e às suas ‘escolhas’.

Tungstênio


Alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado

A primeira graphic novel assinada por Marcello Quintanilha, lançada em 2014 – “Tungstênio”, impulsiona a veia criativa do diretor, roteirista e ator pernambucano Heitor Dhalia que leva às telas do cinema, a partir de 21 de junho de 2018, o longa homônimo, adaptação da HQ do quadrinista brasileiro premiado no Festival Internacional de Quadrinhos de Angulême – França. Passível de ser interpretado livremente pelo leitor e pelo espectador, o título da obra de Quintanilha é alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado.

Atemporal, considerando-se as últimas décadas de mandos e desmandos que o Brasil tem passado, “Tungstênio” conta uma história situada, geograficamente, nas proximidades do forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, litoral da capital baiana, tendo como protagonistas o policial casca grossa – Richard (Fabrício Boliveira), sua mulher Keira (Samira Carvalho), Cajú - um jovem envolvido com tráfico e pequenos roubos (Wesley Guimarães) e Seu Ney - um sargento reformado (José Dumont), sendo narrada em off pelo ator Milhem Cortaz.

Quatro vidas e a ocorrência corriqueira de um crime ambiental definem o roteiro original, compartilhado na produção do longa entre Quintanilha, Marçal Aquino e Fernando Bonas, sedimentado pela proposta hiper-realista cinematográfica de Dalhia, que traduz os enquadramentos gráficos da HQ em fotogramas e mantém compromisso de fidelidade para com os diálogos, com o linguajar coloquial e com a estrutura sequencial definida por flashbacks e flashforwards tão acentuados quanto o compromisso do cartunista com a realidade de fato, refletida em suas obras.


Hereditário


O espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção


Uma mulher casada, mãe de dois filhos, maquetista por profissão – após a morte de sua própria mãe, torna-se insegura quanto à sua vocação como cuidadora de seus filhos e estranhamente perturbada para com o seu relacionamento familiar. Entre símbolos pagãos, invocações e sessões com velas, o ocultismo se apresenta à sombra e não define a essência da história que, lentamente, derrama no espectador algo pungente, não explícito, mas os conflitos presentes dentro dos núcleos familiares –  partir dos quais perseguem-se os responsáveis pelas causas de problemas e por distorções morais, sejam os componentes daquele núcleo , divindades, demônios, ou algo qualquer, mesmo incapaz de ser identificado.

A desconfortante direção de Ari Aster domina todo o longa – manipula os personagens com requintes de crueldade, da mesma forma que o faz com o espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção, que retrata uma doutrina horrorosa e terrível, que passa de geração em geração, como um maldito gene dominante que mina as relações e destrói qualquer vestígio de crescimento em comum.

A crueza ameaçadora do iniciante Aster na direção demonstra a frenética vontade de acertar e inovar em um gênero que já se encontra convalescendo há um tempo considerável e que ganha carga de fôlego em “Hereditário” – por seu aflitivo esforço na tentativa de subtrair dos fãs de filme de terror, o marasmo ou, jargonescamente falando, tirá-los da sua zona de conforto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O Amante Duplo

Parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador

A direção insana do labiríntico e delirante melodrama psicossexual francês, por François Ozon, desperta o estado cognitivo do espectador ao penetrar na teia psicológica da protagonista onde, intrometimento de vizinhança, exotismos felinos, abugalhação ocular e estilo musical causam forte impacto frente às vigorosas e ousadas cenas de sexo, capazes de escandalizar os espectadores mais conservadores. Ozon manipula, com esmero, a psiquê de uma jovem perturbada que se apaixona por seu psicanalista e que, logo em seguida, desposa aquele homem que aparenta esconder algo de seu passado – segundo a fantasiosa mente, em processo de degeneração, da protagonista.

Assuntos correlatos a transtornos dissociativos de identidade à parte, “O Amante Duplo” parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador e torna-se um vício. Sua atmosfera inquietante, reviravoltas, revelações instigantes e sequências repletas de tensão o torna assustadoramente pulsante a ponto de excitar e aterrorizar sua plateia.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Aproximando-se de A Fera na Selva


Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais

Personagens tonalizados pela incidência da luz solar difusa, em alguns momentos, sem contornos definidos, projetando silhuetas luminosas e matizadas em conformidade com os princípios das complementares, em franco contraponto com as sombras negras delineadas por diversa incidência luminosa, dessa vez, precisa. Como inertes esculturas vivas, fundem luz e sombras em meio ao relevo de seus corpos e do panejamento que os cobrem, postando-se como se obras inacabadas o fossem, para serem contempladas através de janelas abertas para o impressionismo, a partir do interior de uma caliginosa arquitetura barroca, saturada de emoções e do apelo aos sentidos visuais e auditivos.

Um texto, de cujas sementes germinam puro intelecto ao longo de três séculos, aborda condições inevitáveis a todo ser humano, incluindo os anseios, os receios e as frustrações. Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais.

A indagativa dramaturgia de Marina Corazza lança o seu olhar em ‘A Fera na Selva’ – obra de um dos mais marcantes escritores do realismo do século XIX, o americano, britânico naturalizado, Henry James, datada de 1903. Inspirada na sua relação com a escritora Constance Fenimore Woolson, James discorre sobre admiração, amizade e confiança, sobre narcisismo egoísta, entrega comedida e amor velado. Corazza, obstinada pela compreesão do mecanismo das relações interpessoais, escreve Aproximando-se de “A Fera na Selva”, aprofundando-se na alusiva embriagues dos processos emocionais que caracterizam os diferentes comportamentos humanos que direcionam e intensificam as decisões, evocando a capacidade analítica do espectador, de suas próprias reações diante dos obstáculos que a vida o reserva.

Com pitadas de sarcasmo, de ceticismo e de verdades abissais amparadas pela relação entre Woolson e James, o texto de Marina Corazza confere a base necessária para a arte da ficção desempenhada nos palcos, delineando os personagens May Bartran e John Marcher de maneira peculiar. As verdades retratadas durante todo o espetáculo são reveladas pela criteriosa direção de Malú Bazán, que valoriza cada pormenor factível de lapidação, merecedor de toda a percepção e apreciação por parte do espectador, a começar pela concepção cenográfica de Renato Caldas, capaz de converter a atmosfera pulsante em um vácuo seletivo – onde a luz não se propaga e que extermina qualquer vestígio de vida proveniente do inesperado – atenuado pelo desenho de luz de Miló Martins que, se por um lado, rompe o equilíbrio entre o sentimento e a razão, por outro, traz à luz, as verdades dos personagens sob efeitos, ora da aurora, ora do crepúsculo. Os registros simbólicos capturados por Bázan transmutam os figurinos, assinados por Mareu Nitschke, em obra de arte – estejam em estado dinâmico ou estático – até o desenlace, quando lhes são conferidos status de reflexos inanimados dos próprios protagonistas. Sombria, ao mesmo tempo, delicada, a trilha sonora de Daniel Maia, intriga, ao criar expectativas que não se cumprem, entre a surdez do destino incerto e a cegueira do amor improvável. Incorporando os protagonistas, declamam o texto de Corazza com clareza de dicção ímpar e interagem com os recursos técnicos de palco como se extensão de seus desempenhos os fossem, os pictóricos Helô Cintra Castilho e Gabriel Miziara se relacionam no palco como mulher instigante, lúcida, serena e apaixonada e como homem preso às conjecturas que controlam a sua vida.

Seja intencional por parte da dramaturga ou voluntario pela direção de um espetáculo impregnado de sentimentos, perdas e sequelas, Aproximando-se de “A Fera na Selva”, com desvelo ao espectador, lhe concede, em seu final, nada mais que fragmentos desconjuntados de certezas arrebatadoras que sugerem convicções merecedoras de plena confiança – uma angustiante advertência expressa nas entrelinhas não menos tortas, do que as linhas certas escritas por mãos divinas.




quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sol da Meia-Noite


A história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas

Uma adolescente, se exposta à mais baixa radiação solar, tem a sua vida ceifada pela doença herdada de sua falecida mãe - Xerodermia Pigmentosa, conhecida como XP – um mal genético que se caracteriza por uma extrema sensibilidade à luz do sol e que resulta no desenvolvimento de um tipo de câncer de pele e de problemas severos no sistema nervoso. Uma história na qual a protagonista passa os dias vendo o mundo através de uma abertura vedada por vidros escurecidos, sendo educada pelo pai, escrevendo letras de músicas, dormindo e que descobre o amor quando, de sua janela, avista um jovem que passa por sua casa todos os dias a caminho da escola.

Uma temática estranha abordada por um filme que é claramente direcionado ao público adolescente. “Sol da Meia-Noite” é desenhado pela sensível direção assinada por Scott Speer, trazendo à luz do conhecimento coletivo, uma doença genética que afeta 0,0004% das pessoas do grupo demográfico dos Estados Unidos da América. Vertente documentária à parte, a história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas.  O roteiro é pouco esclarecedor omitindo, ao espectador: o lado familiar do jovem enamorado; o fato dele não levantar suspeitas quanto a razão pela qual os encontros são marcados para ocorrerem somente à noite; a fonte de sua renda justificar gastos elevados, como alugar um estúdio de gravação para que a sua amada pudesse gravar uma canção de sua própria autoria.

Possivelmente, por essas razões, o longa assume um caráter extrema e absurdamente melodramático, além de confundir o espectador ao optar pela reflexão ou pelo sentimentalismo – escolha que acaba pairando no ar, de forma tão clara quanto um adorável dia nublado.



Talvez uma História de Amor


A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor


Um homem inupto, tomado por costumes muito rígidos, monomaníaco com aversão à vida social, inclusive, ao casamento – é o que de melhor pode se afirmar sobre a personalidade do protagonista do filme “Talvez uma História de Amor”.

Um dia, ao voltar do trabalho, o personagem encontra uma mensagem de uma mulher, em sua secretária eletrônica, rompendo o relacionamento entre eles. Mas a questão é que lhe falta lembrança de qualquer relacionamento recente.

A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor. O protagonista de Bernardo não é cativante e sem capacidade de sustentar, sequer, a loucura necessária para dar convencimento à delirante história, tão bem arquitetada por Page.

Baronesa



Ao fazer o espectador indagar o quanto da projeção é ficção ou documentário, “Baronesa” se mostra a que veio

A história de duas mulheres – a de uma manicure de Vila Mariquinhas, na região metropolitana de Belo Horizonte, que tem como sonho morar na favela da Baronesa; e a de sua amiga, que luta para cuidar dos filhos – é a base do roteiro do longa “Baronesa”, a partir de temas abordados de maneira simples e objetiva, tais como: a  masturbação feminina, instruções comportamentais dentro do casamento e as melhores posições para se fazer sexo – que se trombam com a violência na favela em que as protagonistas vivem.

A direção de Juliana Antunes flui naturalmente, como se fosse, simplesmente, mais um dia na comunidade, sem poesia e com muita tensão, diante da iminência de um tiroteio e da tentativa de escape para se proteger a própria vida. A suposta fortaleza imposta aos personagens femininos não se diferencia dos preconceitos dos ainda jurássicos masculinos – como se o fato de se ter um homossexual como membro da família fosse motivo de vergonha ou até mesmo a razão para matar, caso o pai viesse tomar ciência de tal comportamento por parte de um dos filhos, segundo uma das protagonistas.

Ao fazer o espectador indagar o quanto da projeção é ficção ou documentário, “Baronesa” se mostra a que veio, promovendo um contato maior do público com o que pode ser classificado como gênero híbrido.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tia Julia e o Escrevinhador


Processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia


O romancista, dramaturgo, jornalista, ensaísta e crítico Mario Vargas Llosa, natural de Arequipa, responsável por levar a literatura peruana à aclamação internacional, através do sétimo livro de sua autoria - uma inspiração autobiográfica intitulada “Tia Julia e o Escrevinhador” –  homenageia duas figuras responsáveis por moldar a sua juventude: um jornalista de rádio boliviano, com quem trabalhou em Lima, na década de 1950; e Julia, sua tia, muito embora, não consanguínea. Cerca de quarenta anos após a publicação da obra de Llosa, em 1977, a comédia romântica situada na cidade de Lima dos anos 1950 e contemplando forte viés crítico sócio racial, é transportada para aos palcos pela adaptação da dramaturga norte americana Caridad Svich e da engenhosa tradução assinada por Gonzalo Martinez Cortez.

“Tia Julia e o Escrevinhador” conta a história de Julia – uma mulher divorciada, com cerca de 40 anos de idade, que retorna ao Peru para encontrar um outro homem disposto a bancar o seu estilo de vida, mas que acaba se casando com Mário – sobrinho do marido de sua irmã - estudante de direito, com 19 anos de idade, ainda imaturo e sem vida financeira consolidada. Nesse meio tempo, Mário se torna uma espécie de discípulo de Pedro Camacho – autor de radionovelas, conceituado pelos peruanos, revoltado com os interesses exclusivamente comerciais sobre o seu trabalho. Exposto aos conflitos vivenciados por Mário e Júlia, Camacho entra em processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia.

A direção de Ritcheli Santana é estampada na complexidade que a trama que, de um simples envolvimento amoroso, se avoluma e se formata cômica e absurdamente, através do empenho, quase lúdico, do coeso elenco composto por Arthur Portella, Fernanda Teixeira, Flavio Moraes, Gabi Soledade, Gonzalo Martinez Cortez, Lucas Gonjú, Marcelo Ferreira, Otavio Tardelli e Relise Adamo, que metamorfoseiam heróis em vítimas e vilões. De forma integrada ao multifacetado projeto cenográfico de Alice Cruz – que define as diversas camadas temporais de atuação dos personagens – o desenho de luz de Anderson Ratto viabiliza, através dos reflexos e não reflexos dos personagens nos elementos cenográficos, a intercalação da história dos protagonistas. Diogo Matos assina uma consistente trilha sonora, febril, non sense e passionalmente latina, dando margem para que o permissivo figurino de Maria Duarte assuma, livremente, os movimentos dos personagens – por sua vez, explorados em potencial pela direção de movimento de Laura de Castro, moldando, harmoniosamente, imaginação do espectador e história.

A audiência de “Tia Julia e o Escrevinhador” – como ouvintes de uma clássica transmissão de uma radionovela dos meados do século XX –  é testemunha da inusitada construção de personagens em meio a um enredo colorido pelas nuances cromáticas definidas pela jovialidade e maturidade, pela imaturidade e pelo devaneio da responsabilidade.  Um público que anseia por um final feliz – cuja mágica se traduz na expectativa pelos próximos capítulos, mesmo que, ao apagar das luzes do palco do teatro, sejam apresentados no palco da vida real.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Memória D’Alma


Um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle


O abuso sexual infantil responsável pela atrofia do desenvolvimento moral e emocional entre mãe e filho e a estrutura da baixa hierarquia social, danosa somente àqueles que se situam na passageira cronologia dos simbolismos religiosos, são causas viróticas que acometem “Memória D’Alma” – um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle.

A natureza humana, perversamente romantizada no texto de Fabiano Barros, expia a culpa de cada um dos envolvidos e cresce, patologicamente, nas mãos da direção de Guilherme Scarpa e Camilo Pellegrini que, em sua efervescência e propositais distorções religiosas, não apontam um caminho quando se trata de amor incondicional. A explosiva interpretação de Juliana Teixeira, em fusão simbiótica com a renúncia de Niaze Neto de seu próprio arbítrio em prol de seu personagem,  acua, sabota, confunde e induz à fatalidade em nome da intimidade intergeracional. As faces dramáticas são evidenciadas pela subjetiva trilha sonora de Danni Carlos, que tende à um sensualismo desconcertante e sombrio. A completude do desejo harmonizada com o figurino de Carolina Monte e Ivã Ribeiro, encobre a castração moral e a insuportável inocência do gozo. A desconstrução da hipocrisia, que desponta na invenção da infância, é revelada pelo cenário de Vanessa Alves de maneira rústica e hostil, com essência severina que toma conta de vidas castigadas pela secura do esquecimento de um povo que habita os confins das desigualdades de classe.  O criterioso desenho de luz de Mauricio Cardoso atua como um bisturi que disseca corpos e expõe a perversidade, desde sempre, neles incorporada e latente e que, como um jato de sangue, atinge em cheio a face do espectador. As expressões de desejo e de prazer violam o visagismo de Tainá Lasmar, como um não consentimento dos atos de força reprimidos naquele micromundo, repugnados por mãe e filho.

O caminho do conflito entre a tendência sexual do espectador e o temeroso erotismo de uma história – em que são concebidas coisas que não se deveria conceber –  torna cada indivíduo presente na plateia um voyeur das perversões delineadas pelos protagonistas de uma história real – dentre muitas outras amplamente denunciadas pelas mídias que empunham a bandeira da defesa ao Estatuto da Criança e do Adolescente – que faz de “Memoria D’Alma”, um necessário canal multiplicador em potencial.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Martinho da Vila 8.0 | Uma Filosofia de Vida


Pouco contribui para com a potencialização do tributo ao primeiro sambista a conquistar o disco de diamante pela venda de mais de um milhão de cópias


Discorrer sobre a pluricultural vida de Martinho da Vila é evocar as forças ancestrais dos orixás, é descrever sua fé, é exaltar a sua comunidade e a sua família. É levar a identidade cultural do artista a um público que anseia conhecer e se permitir ser aliciado pela chamada de um espetáculo, que se propõe a homenagear o sambista, classificado pelas mídias de divulgação cultural, ora como espetáculo musical – gênero teatral que combina música, canções, dança, e diálogos falados ; ora como musicado – que transcorre ao som de música, muitas vezes, com o desempenho vocal de um ou mais integrantes do elenco.

O lado obscuro de divulgações como essas fica por conta do uso de palavras ambíguas para adjetivar um espetáculo biográfico-jornalístico-iconográfico em um momento de proliferação dos musicais nos teatros do eixo Rio-São Paulo, induzindo o espectador desinformado ao erro – como ocorre com “Martinho da Vila 8.0 | Uma Filosofia de Vida”, baseado em um livro de autoria do protagonista – “Memórias Póstumas de Teresa de Jesus”.

A extensa produção videográfica, sem muito aprimoramento, a partir de registros extraídos da obra do homenageado, pela direção de William Vita, é responsável pela condução da história, da sabedoria, das lições e dos valores do artista, que acaba se sobrepondo ao simplório texto assinado por Ana Ferguson e Solange Bighetti, cuja dramaturgia é timidamente desempenhada pelo elenco composto por Nill Marcondes, Victor Hugo, Junior Vieira, Ana Miranda e Babi Xavier.

A iluminação de Marlon Ribeiro e Mariana Pitta pouco contribui para com a potencialização do tributo ao primeiro sambista a conquistar o disco de diamante pela venda de mais de um milhão de cópias – muito provavelmente, pelo fato de não terem sido contemplados números em que o canto e a coreografia demandassem um caráter apoteótico ao espetáculo, por mais reservado que o seja – promovendo uma ambientação equivalente à mínima necessária para se escutar Martinho da Vila a partir de um toca-discos, à meia-luz, na Santa paz do lar.

Acompanhando a falta do aprimoramento conceitual e da estética temática, a cenografia e de Ana Paula Lopes cumpre seu papel funcional, dentro de uma zona de conforto suficiente a ponto de contentar os olhares menos exigentes. O figurino, também de responsabilidade de Lopes, não poderia ser mais elementar porém, retratando a forma despretensiosa e genuína com que os personagens se apresentam na vida real. Com aparente simplicidade, contida na análise de uma complexa e diversa realidade histórica do artista, o visagismo de Vavá Torres contribui para com a representação de imagem conceitual estruturada, através da caracterização de cada personagem.

O Circuito Geral - sob a ótica do espectador, decepcionado quanto às suas expectativas relativas ao espetáculo em comparação ao espetáculo propriamente assistido, vale a pena recorrer à matéria publicada em 6/12/2015, na coluna do  jornalista, apresentador de televisão e escritor brasileiro, Amaury Jr., na página Band.com.br, sobre a crítica de ‘enredos sem mensagem’ por Martinho da Vila – que justifica a bronca do artista para “com enredos que fazem mera exaltação, sem contar algo mais para a reflexão do público”.

Os Estranhos: Caçada Noturna


História – repleta de infinitas cenas de personagens correndo, tropeçando e gritando em meio a um banho de sangue e sem mistério a ser desvendado


Sem nenhum compromisso para com qualquer tipo de justificativa e costurado a partir de um terror atmosférico, “Os Estranhos: Caçada Noturna” soa como uma ensanguentada e frustrada homenagem ao primeiro filme de 2008 – ‘Estranhos’, subtraído da sua inquietude peculiar e assustadora, digna da direção de Bryan Bertino – o responsável pelo roteiro da atual versão dirigida por Johannes Roberts.

A previsível história – repleta de infinitas cenas de personagens correndo, tropeçando e gritando em meio a um banho de sangue e sem mistério a ser desvendado – em muito pouco se assemelha ao filme de 2008, restando apenas uma pergunta proferida por uma das vítimas dos personagens mascarados: “Porque você está fazendo isso?” E sua respectiva resposta: “Porque não fazer?”.

Oito Mulheres e um Segredo



Gary Ross, confiante de sua direção, rouba a franquia de seus proprietários originais e transforma a comunhão feminina em algo inegavelmente significativo e propenso ao sucesso


Sofisticação e trama extremamente bem desenhada definem o perfil do spin off da trilogia ‘Onze Homens e um Segredo’ – o longa intitulado “Oito Mulheres e um Segredo”, contemplando um elenco estelar constituído por Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling, Awkwafina e Sarah Paulson.


Assistir a um elenco dessa magnitude tramando o roubo do colar de diamantes mais valioso do mundo, no prestigiado Met Gala, em Nova York, definitivamente, não tem preço. Gary Ross, confiante de sua direção, rouba a franquia de seus proprietários originais e transforma a comunhão feminina em algo inegavelmente significativo e propenso ao sucesso - tamanha a elegância com que o filme se apresenta ao espectador e a atração que desperta aos apreciadores dos golpes de mestre, que endossam a negativa da máxima de que o crime não compensa.

Assumindo tal vertente, o longa de Ross desafia e subverte todas as expectativas e, sem ponderação, sai vitorioso ao elevar o entretenimento em algo espetacular, quase mágico, tal e qual uma linda história infantil que conta que ‘em algum lugar existe uma menina de oito anos deitada na cama, sonhando em ser uma criminosa’ – fazendo com que, quem conta o conto, convoque suas sete ouvintes a praticarem um crime em nome da pequena personagem.


As Boas Maneiras



A despeito da atmosfera de terror na qual o longa se insere, a carga emotiva presente no roteiro faz da projeção, um percurso repleto de loopings em uma montanha russa de inúmeras sensações.


A corajosa insanidade da dupla de cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra estampada no longa “Boas Maneiras” inunda a tela de nuances em meio a um universo fantástico, onde uma jovem é contratada por uma mulher grávida para ser sua enfermeira, com vistas a que, tão logo venha dar à luz, ela se torne a babá de seu filho. Contudo, com o avanço da gravidez, a contratada passa a perceber o estranho comportamento de sua contratante – em particular, os seus hábitos noturnos.

O rumo inesperado tomado pelo filme é mágico à percepção do espectador, ao dividir a história em dois momentos – o anterior e o posterior ao nascimento do primogênito da estranha mulher.

A despeito da atmosfera de terror na qual o longa se insere, a carga emotiva presente no roteiro faz da projeção, um percurso repleto de loopings em uma montanha russa de inúmeras sensações.




Contracapa


Ultrapassa a simplicidade do existencialismo e se embrenha em terrenos onde mentiras carecem de significados para se tornarem verdades concretas


A geometria de um relacionamento familiar, não tão incomum – um casal e sua filha, o patriarca da família e um amigo que faz parte do passado do casal – com capacidade de potencializar os meandros que conduzem a concepção literária. A inspiração arrastada à expiração temporal, cuja indefinição do prazo fica por conta dos esforços da escritora na tentativa de desatar os nós do passado. A negativa diante da compreensão da legitimidade dos papéis desempenhados na vida real e a consequente entrega de um esboço criativo da ficção, de sua autoria, ao futuro leitor.

O espetáculo “Contracapa” ultrapassa a simplicidade do existencialismo e se embrenha em terrenos onde mentiras carecem de significados para se tornarem verdades concretas. Ao idealizar a história, Rócio Durán expõe a sua espontaneidade reflexiva contemplando impulsividade e potencial calculista que priva a dramaturgia – criativamente assinada por Suzana Nascimento – de qualquer possibilidade de desempenho involuntário por parte do elenco. O fluxo e o refluxo, instrumentalizados pela direção geral de Priscila Vidca, fazem dos personagens dóceis instrumentos em mãos hábeis que os guiam no processo da realização de um projeto – no caso específico, um livro. A espontaneidade dos personagens é transmitida ao espectador da mesma forma que é meticulosamente capturada e traduzida pela trilha sonora de Federico Puppi e Gastão Villeroy, que realizam, sem muito esforço, o encantamento de toda a plateia pela criação de um livro. A complexidade que reside na essência de cada papel é mutuamente compartilhada – em consequência da interdependência de todos daquele núcleo – pelo coeso elenco formado por José Karini, Rocio Durán, Roberto Frota e Saulo Rodrigues. O dualismo entre a ficção e a não ficção, traduzido sob a forma de inúmeras camadas temporais e presenciais diante da plateia,  são viabilizadas pela dobradinha formada pela simplicidade e pela eficiência contempladas na concepção cenográfica de José Dias – que rege as regras da imaginação criadora, a partir da qual os grandes segredos são deflagrados; e pela riqueza cromática e intensidade do fluxo luminoso orquestrados pelo desenho de luz de Paulo Denozot – que banha o palco de sensualidade em alguns momentos. Passível de ser analisado a partir das entrelinhas, o institucional totalitário e enigmático figurino desenhado por Desirée Bastos, contempla marcas quase hieroglíficas, em sutis alusões ao formato ditatorial de comportamento do patriarca e à profissão literata de sua filha – remetendo aos marcadores de texto para os que são da família.

Embora não tenha sido levado ao público, o segmento da história que define as razões pelas quais o casal se entregou ao desejo mútuo e estabelecer a configuração familiar que perdura até o momento presente dos personagens, é possível responsabilizar a postura do patriarca pela hibernação das evidências, um dia responsáveis por aquela atração e que, ao longo do tempo, passou a dar lugar a cobranças e constrangimentos em meio a uma relação amparada pela inércia. Omitindo tal hipótese, o espetáculo “Contracapa” concede autonomia para que o espectador conjecture toda uma gama de possibilidades de finalização da história, de forma entusiasmante e sem fundamentar a paixão, mas abrindo um espaço para a reflexão sobre a mesquinhez que age em nome de um amor incondicional.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Edson Cordeiro - “Fado Tropical”


Em apresentação única de encerramento da turnê, “Fado Tropical” emociona o espectador com a interpretação de Cordeiro de uma seleta coletânea de fados


A poderosa voz de Edson Cordeiro ecoa na noite do dia 30 de maio de 2018, quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi, na plateia lotada do Theatro Net Rio.

Em apresentação única de encerramento da turnê, “Fado Tropical” emociona o espectador com a interpretação de Cordeiro de uma seleta coletânea de fados de autoria de Alfredo Marceneiro, Alberto Janes, David Mourão Ferreira e Matheus Nunes, dentre outros, igualmente surpreendentes. Acompanhado pelos fadistas brasileiros – Wallace Oliveira, na guitarra portuguesa e Sérgio Borges, no violão – a límpida voz do contratenor paulista de Santo André faz da noite uma experiência emocionante, não só para os apreciadores do estilo musical português, mas do seu público consagrado que acompanha a sua trajetória como cantor solo há quase trinta anos.

Em breve pausa no estilo que define o playlist principal do espetáculo, Cordeiro presenteia a plateia homenageando a Pequena Notável – Carmem Miranda, interpretando “Disseram que eu voltei americanizada” e a Voz do Brasil – Dalva de Oliveira, com “Estrela do Mar”. Sua generosidade para com os parceiros de profissão traz ao palco o convidado especial da noite – o sambista Leo Russo, com quem compartilha o microfone em “Que Tiro é Esse”. Preservando a mística veia lusitana do espetáculo, Cordeiro provoca efusivos aplausos por parte de uma plateia encantada pelo seu carisma e pela sua voz, entoando uma versão soft do sucesso de 1989 – “Lovesong”, de autoria de Robert Smith da banda The Cure.

A cantora e atriz Amália Rodrigues se faz presente com “Fria Claridade”, através da ambivalente voz de Cordeiro que enuncia o fim de sua apresentação, sob aplausos e pedidos de bis, prontamente concedido pelo contor, com a derradeira interpretação da noite do sucesso homônimo do show – “Fado Tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Dedo na Ferida


Não obstante da velada intenção de provocar debate sobre o assunto, com sua narrativa esclarecedora, o documentário não se mostra forte o suficiente a ponto de mobilizar ou conscientizar


Abordando a influência do capital na política, o carioca Silvio Tendler – conhecido como “o cineasta dos sonhos interrompidos” – põe o “Dedo na Ferida” – o seu mais novo documentário – através do qual constrói a hipótese do sistema financeiro levar o mundo à miséria absoluta.

De forma didática, toma como paradigma um indivíduo, morador de Japeri, profissão podólogo, e compartilha com o espectador, um dia da sua rotineira viagem diária até Copacabana, onde trabalha. De forma tal a embasar a sua linha de raciocínio, Tendler conta com os depoimentos do ex-ministro das finanças da Grécia, do ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, do vice-presidente do banco dos Brics, além de testemunhos de outros cineastas, de intelectuais e de economistas. Não obstante da velada intenção de provocar debate sobre o assunto, com sua narrativa esclarecedora, o documentário não se mostra forte o suficiente a ponto de mobilizar ou conscientizar o povo brasileiro, quiçá a população de todo o mundo, muito em função de seu caráter crítico político, aquém da necessária divulgação das informações contidas no longa para uma considerável fração de mundo apartidário.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Eu Só Posso Imaginar


A via crucis percorrida pela direção de Andrew e Jon Erwin soa muito comercial e deixa claro, a grosso modo, a supremacia capitalista do show business gospel


Anunciada como a canção cristã mais tocada nas rádios Americanas, ‘I Can Only Imagine’ serve de base para o longa “Eu Só Posso Imaginar”, que desenha como a música foi criada, a partir da vida do seu autor Bart Millard.

O público alvo do longa é representado pelos contumazes usuários da palavra ‘superação’ para qualquer percalço ao longo da vida, faz uso do perdão seletivo para se cobrir com o manto da generosidade e ama o próximo em nível diretamente proporcional à distância que dele se encontra. A via crucis percorrida pela direção de Andrew e Jon Erwin soa muito comercial e deixa claro, a grosso modo, a supremacia capitalista do show business gospel diante de uma atividade produtiva, com um objetivo claro de gerar lucro às custas daqueles que acreditam que vão para o céu ou para o inferno quando passarem desta para melhor.

Paraíso Perdido


Uma obra rica pelas suas diferenças contra os males da sociedade contemporânea


Ao definir o paraíso como uma dimensão que se encontra na essência do ser humano, o utópico longa “Paraíso Perdido” imanta a fascinação de cada espectador pela paz abstrata emanada pela diversidade de personagens incorporados pelo elenco sob a direção enraizada de Monique Gardenberg.  Conta a história de um inferninho no centro da cidade de São Paulo, que abriga uma família nada convencional, e cujo proprietário, o patriarca, é interpretado, com placidez, por Erasmo Carlos.

O longa estabelece um mundo interior desviado da razão e conduzido pelo amor mútuo coletivo, sob a trilha sonora assinada por Zeca Baleiro, contemplando sucessos, há muito consagrados, de Márcio Greyck, Odair José, Reginaldo Rossi, Belchior, Paulo Sérgio, Raul Seixas e Roberto Carlos. As dores e as perturbações do homem moderno fazem de “Paraíso Perdido” uma obra rica pelas suas diferenças contra os males da sociedade contemporânea.

Não se Aceitam Devoluções


Um exercício através do qual Hassum se autoafirma como um ator polivalente – não desmerecendo, em momento algum, a sua já consagrada trajetória nas telas e no palco, como comediante

Um bon-vivant, que somente se interessa pelas mulheres aleatórias com as quais acorda a cada dia, tem sua vida revirada quando uma de suas ‘casuais’, bate à sua porta com uma menina bebê, alegando ser sua filha. Em seguida, a mulher lhe pede algum dinheiro para pagar o taxi, entra no carro e desaparece, deixando o homem com quem fornicara plantado na porta, com cara de pastel, com o bebê em seus braços.

Breve introdução ao argumento do filme mexicano, de 2014 – ‘No Se Aceptan Devoluciones’, roteirizado e dirigido por Eugenio Derbez, que ganha a sua versão brasileira – “Não se Aceitam Devoluções”, sob a leitura do músico, produtor musical, autor de trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão e diretor cinematográfico – André Moraes. O protagonismo, entregue a Leandro Hassum, dá o desnecessário tom de comicidade à produção original que completa, em 2018, meia década de aniversário de seu lançamento e que já carrega consigo um remake de sucesso – ‘Uma Família de Dois”, dirigido por Hugo Gélin.

A produção repeteco pode, até mesmo, ser enaltecida como um exercício através do qual Hassum se autoafirma como um ator polivalente – não desmerecendo, em momento algum, a sua já consagrada trajetória nas telas e no palco, como comediante – mas não deixa de ser desgastante e cansativo para o espectador que, já tendo experimentado as versões anteriores, corre o risco de sair da sala de projeção com o gosto de quem acaba de consumir um pouco mais do mesmo. 

Circuito Geral - Não se Aceitam Devoluções

sábado, 26 de maio de 2018

O Porteiro


Cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias


A partir de uma coletânea de histórias extraídas de entrevistas de um universo de porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal em busca da realização de seus sonhos, o espetáculo “O Porteiro” é um convite ao espectador para um estreito contato com um personagem real e presente na vida de todos os frequentadores de condomínios – em especial, os moradores dos residenciais. Uma obra teatral que fala dos profissionais que gentilmente lhes abrem as portas, os recebem ou deles se despedem, com sinceros cumprimentos, ao transitarem pelas portarias ao longo do dia e que, como abnegados plantonistas, são os olhos e ouvidos de todos os apartamentos, das áreas comuns e de seus respectivos usuários – em suma, tudo sabem e, de forma muito simplória, carinhosa e naturalmente dedicada, tomam conta da vida de todos. Não são raros os momentos em que se prestam a ajudar os mais necessitados para carregarem as suas sacolas de compras, além de assumirem o papel de fiéis depositários de encomendas que vem e que vão, muitas vezes sem receberem, sequer, uma palavra de agradecimento. Por outro lado, corações afetivos são capazes de lhes retribuírem com mimos, simples que sejam, mas que somente a essência generosa que reside em cada um desses profissionais é capaz de reconhecer o valor de tais gestos. Sem ultrapassar o limite que a cerimônia lhes permite, se inserem nos núcleos multifamiliares como se a cada uma daquelas famílias fizessem parte e encaram suas, muitas vezes, longas trajetórias como funcionários dos condomínios como se estivessem vivendo parte de suas vidas em seus próprios lares.

A irreverente visibilidade contida no texto e na direção de Paulo Fontenelle, além de promover generosos minutos de entretenimento, capacita o espectador a se entregar à reflexão e à comoção, ao lhe ser apresentado aspectos do dia a dia que, eventualmente, lhe pode ser invisíveis aos olhos. A naturalidade e aparente facilidade com que tudo isso acontece, deve-se à espontaneidade e ao autêntico sangue nordestino que corre nas veias do ator, produtor de arte e documentarista pernambucano gravataense Alexandre Lino que, através de sua incomum interatividade ao personificar o protagonista, quebrar a quarta parede e doá-lo ao espectador, libera sentimentos de afeição em via dupla, saturando a sala de espetáculos de pura empatia.

A escassa monotonia da rotina de um porteiro é refletida no sensível desenho de luz de Renato Machado – ora difusa enquanto operante, ora intimista enquanto reservado, ora dramática enquanto quase invisível aos olhos de muitos. A estratificação, sob o ponto de vista social e funcional – muitas vezes varrida para debaixo dos tapetes, mas identificável por olhares zelosos direcionados aos trabalhadores de condomínios, neste caso específico, os porteiros – encontra-se presente, esteticamente amenizada porém, precisamente definida pela genuína leitura da realidade que precede a concepção dos elementos cenográficos e do figurino assinados por Karlla de Luca.

A mágica agregada ao espetáculo fica por conta da reação da plateia que se permite transmutar do teatro para o seu próprio habitat – fenômeno capaz de agigantar a interpretação de Lino e descarrilá-la do roteiro de Fontenelle, assumindo os moldes de uma intensa relação entre condôminos e porteiro.  Não obstante do caráter cômico do espetáculo, “O Porteiro” cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias. A partir do seu potencial humanitário, do orgulho que tem de suas origens, de seu carisma, e do carinho que tem para com o seu ofício, Lino não poupa o espectador de encontrar e de se pôr em seu devido lugar – mesmo que às custas de muito, inteligente e diferenciado, bom humor.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Alguém como eu



Um pacote fotográfico com características de marketing turístico com foco no país peninsular ibérico


Uma história que tem início no contexto de um cenário carioca e que se transpõe para Lisboa – mudança de ares que não justifica qualquer demanda por parte do argumento que embasa o roteiro da comédia romântica “Alguém Como Eu”, mas quiçá, conexões afetivas de Leonel Vieira, cineasta português, realizador do longa luso-brasileiro e um dos seus coprodutores, juntamente com os irmãos paulistas Caio e Fabiano Gullane.

Em meio a esse panorama, se insere a viagem a Portugal, pela linda publicitária Helena – interpretada por uma previsível Paolla Oliveira – após uma desatinada crise existencial e sem credibilidade, ainda no Brasil, como fio condutor para o despertar de um relacionamento, no outro lado do Atlântico, com o português Alex – vivenciado, sem maiores esforços, pelo galã lusitano, Ricardo Pereira. A direção de Leonel Vieira se mostra inconsciente e sem ritmo, extremamente fantasiosa e tangenciando o plágio de filmes já consagrados, incluindo os seus clichês que, em “Alguém Como Eu”, minimamente, beiram o constrangimento.

A tudo aquilo, é adicionado um pacote fotográfico com características de marketing turístico com foco no país peninsular ibérico e a tentativa, muito além das entrelinhas, de rotular as mulheres brasileiras como berço do narcisismo, da futilidade e da impertinência, e que só encontram a plenitude, ao lado de homens que, preferencialmente, não compartilham a sua linha de pensamento.

Antes que eu me Esqueça


Repensa a relação entre vida, memória e esquecimento, tomando como ponto de referência a família construída com o passar do tempo


Um juiz aposentado que, ao perceber a manifestação dos primeiros sinais de Alzheimer, toma uma decisão inesperada – investir seu dinheiro na abertura de uma casa de strip-tease. Mas para levar a cabo o seu projeto, o juiz enfrenta a aprovação de seus herdeiros, estabelecendo um conflito na relação entre pai e filhos.

O longa “Antes que eu me Esqueça” repensa a relação entre vida, memória e esquecimento, tomando como ponto de referência a família construída com o passar do tempo. A direção de Tiago Arakilian é volátil e mutável enquanto parceira da evolução do roteiro de Luísa Parnes, que reduz o amor a uma escala sentimental que se alimenta de parcos momentos felizes. Com isso, Parnes vulgariza a natureza do incerto e a complexidade dos personagens a partir de caricaturas extremadas e drama metafórico que, em alguns momentos, se perdem em meio a história. 

Dessa forma, os acúmulos de “Antes que eu me Esqueça” desaguam em uma represa estagnada, após uma longa navegação em um rio repleto de reflexões sobre uma vida intensa.