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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra


Conduz à reflexão sobre o social, tornando-o em um divisor de águas no universo dos heróis


A representatividade e a essência do filme “Pantera Negra” no universo das HQs são consagradas desde a inserção do personagem, por Stan Lee e Jack Kirby, nas páginas do Quarteto Fantástico em 1966, marcando a estreia do primeiro super-herói negro no Universo Marvel Comics.

Com um elenco predominantemente negro e audaciosamente dirigido por Ryan Coogler, o longa é politizado, sério, consciente e maduro, garantindo-lhe um equilíbrio que transita em meio ao preconceito de raça, à segregação social, ao aviltamento aos direitos humanos e ao desafio do processo de aceitação sem deixar de lado a face do entretenimento que todo o filme de herói se propõe e dele é exigido pelos seus fãs expectadores.

A trama permeia os meandros das origens milenares dos Panteras Negras – manto que é passado de pai para filho e que, tradicionalmente, fica na linha de sucessão entre os aspirantes ao trono do evoluído reino da fictícia nação localizada no Leste Africano – Wakanda. Em passado remoto, Wakanda é atingida por um enorme meteriorito composto pelo elemento absorvente de som Vibranium. Desenterrado, o mais resistente, versátil e poderoso metal do universo torna Wakanda a nação tecnologicamente mais avançada do mundo. T’Chaka, rei de Wakanda, receoso das ambições de nações exteriores, contemplando o Vibranium, que poderiam ameaçar o seu país, o isola do resto do mundo e passa a comercializar pequenas quantidades do valioso elemento, o que viabiliza o envio de alunos expoentes para estudar no estrangeiro, fato este que eleva Wakanda à posição de um dos países mais tecnologicamente desenvolvidos na face do planeta. Após a morte do rei T’Chaka - em “Capitão América: Guerra Civil”, seu filho T’Challa passa pelo ritual de aceitação pelas cinco tribos de Wakanda e, desse momento em diante, os erros de seu pai, no passado, assombram o novo Pantera Negra.

Apesar da riqueza da qual detém Wakanda e dos exacerbados recursos tecnológicos apresentados ao longo do filme, em contraste com as condições de um continente marcado pela miséria, pela fome, e pela instabilidade política, a mensagem humanista de “Pantera Negra” conduz à reflexão sobre o social, tornando-o em um divisor de águas no universo dos heróis.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para um Crime


A cegueira da paixão, a falta de percepção da realidade e o silêncio da razão


Sete meses após a morte de sua filha e a ausência de qualquer ação concreta investigativa por parte da polícia local, Mildred Hayes (Frances McDormand) aluga três outdoors instalados na na mesma estrada deserta, nas proximidades onde sua filha fora assassinada, contemplando palavras de ordem através das quais tenta mobilizar a população local, questionando o desempenho da polícia, e chamar a atenção do próprio delegado da cidade – Bill Willoughby (Woody Harrelson) e demais autoridades, para a tragédia que envolve a sua família.

Com base nesse argumento, “Três Anúncios Para um Crime” discorre sobre a cegueira da paixão, a falta de percepção da realidade e o silêncio da razão. A inflamada direção de Martin McDonagh manipula, com maestria, esses desvios emocionais que vão de encontro à redenção debaixo de fúria, à descrença, à perversidade e ao sarcasmo – como mera consequência comportamental e não como solução dos fatos causadores daqueles distúrbios emocionais. A aniquilante atuação de Frances McDormand gera imediata empatia da personagem junto ao espectador – no que diz respeito à iniquidade através da qual se permite viver – que acolhe, como se natural o fosse, a sua forma de fazer com que a justiça saia da sua zona de conforto, provando o quanto a humanidade pode fracassar em suas “verdades” absolutas.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O Que te Faz Mais Forte


A desconstrução da expectativa criada por um tema tão forte


Um longa que tem como pano de fundo a série de ataques ocorridas em Boston no dia 15 de abril de 2013 – quando duas bombas feitas com panelas de pressão explodiram durante a Maratona daquele ano. O ataque causa a morte de três pessoas e ferimento em outras duzentas e sessenta e quatro – dentre elas, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), o protagonista de “O Que te Faz Mais Forte” que, por conta da explosão, perde as duas pernas.

A limitada direção de David Gordon Green abusa do uso exaustivo de clichês com perfil de auto-ajuda, trauma, superação, depressão e redenção. Tudo elaborado no desimaginativo roteiro de John Pollono que, em alguns momentos, consegue conduzir o espectador ao “riso nervoso”, tamanha a desconstrução da expectativa criada por um tema tão forte.

A inexistente de essência no contexto do filme “O Que te Faz Mais Forte” expõe, de certa forma, uma possível falta de interesse de Green em levar para a tela um drama inesquecível para aqueles que viveram, sofreram e assistiram o começo, o meio e o fim daquele fatídico dia na Boylston Street.

O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças


Delicadeza e respeito ao público infantil, acumulando, em paralelo, uma legião formada pelo público adulto ansioso pela próxima produção em tributo a mais um expoente da música popular brasileira

Carlos Alberto Ferreira Braga, mais conhecido como Braguinha ou, se preferirem, João de Barro – o compositor de mais de quatrocentas canções, dentre elas: “Balancê”, “Cantores do Rádio”, “Pirulito que Bate Bate”, “Carinhoso”, “Chiquita Bacana”, “Pirata da Perna de Pau”, “Tem Gato na Tuba” e “Yes, Nós Temos Bananas”, são apresentadas ao público infantil no musical “O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças”, que faz parte de uma série de espetáculos infantis que já se consagra como necessária para a formação de uma plateia intelectualmente ativa, que vai ao encontro da máxima que proclama nossas crianças como o futuro do país.

Diego Morais confere uma coerente direção com ar de contos de fadas que, debruçada no fluente e acessível texto de Pedro Henrique Lopes, imprime um ritmo dinâmico e convidativo à interatividade da plateia ao longo de toda a apresentação do musical. Não menos importantes do que a iniciativa de Morais e a regência técnica de Lopes, a deliciosa direção musical de Claudia Elizeu seduz gerações de espectadores com recordações por parte dos veteranos e manifestações positivas por parte dos calouros mirins. O dinamismo musical é ilustrado pela composição dos roteiros de movimento de Victor Maia, coreografando o espetáculo de forma tal a conferir qualidades assimiladoras quase didáticas às músicas de Braguinha. Os layers técnicos que compõem o musical não seria completo não fossem a ambientação concebida pela composição cênica minimalisticamente infantil e hiper carioca, assinada por Clívia Cohen e pelo cromatismo alegórico promovido pelo desenho de luz cênica de Pedro Mendonça. O alto nível de capacidade de diálogo com o público infantil, definindo plena identificação da plateia com os personagens, faz parte da índole artística do elenco formado por Pedro Henrique Lopes (Carlinhos), Martina Blink (Dona Isaura), Rodrigo Morura (Henrique), Augusto Volcato (Alvinho) e Beto Vandesteen (Sr. Jerônimo Braga).

Mais uma vez, a Entre Entretenimento mergulha no universo musical de grandes compositores – como o tem feito com Luiz Gonzaga e Milton Nascimento – com tamanha delicadeza e respeito ao público infantil, acumulando, em paralelo, uma legião formada pelo público adulto ansioso pela próxima produção em tributo a mais um expoente da música popular brasileira.



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Insulto


Humanizado e sensivelmente positivo, sem a menor intenção de extorquir lágrimas


O surrealismo incomodo e que retrata uma realidade específica – embora distante daquilo que aceitamos como crível – permite o espectador se entregar a interpretações extremamente radicais a partir do longa “O Insulto” – cujo roteiro e direção são assinados por Ziad Doueiri.

O argumento da história é concebido a partir de um desentendimento de motivo torpe que toma proporções inimagináveis, ocorrido entre o libanês cristão Toni (Adel Karam) e o refugiado palestino Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), que trabalha irregularmente em uma empreiteira prestadora de serviços para o setor de obras públicas urbanas em Beirute, capital libanesa.  O impasse tem início quando Toni, ao regar rotineiramente as plantas de sua varanda, acaba molhando Yasser, por uma falha de execução do esgotamento de água de sua varanda. Utilizando a prerrogativa que seu ofício lhe confere como empreiteiro a serviço do poder público, Yasser entra em contato com Toni pedindo permissão de acesso ao interior da varanda, para que a falha no esgotamento seja corrigida. Diante da recusa da entrada da equipe de Yasser na sua residência, uma vez identificada a sua nacionalidade, o empreiteiro executa o conserto pelo lado de fora do apartamento, despertando um sentimento de ira em Toni, que o leva a destruir, a marteladas, o serviço executado pelo palestino e que, por sua vez, o insulta.

Ao mostrar os dois lados da moeda, Doueiri expõe a dor sentida por Tony ao se achar insultado e as razões que levam Yasser a recusar se desculpar pelo insulto, conforme exigido pelo libanês. O tema político, humanizado e sensivelmente positivo, sem a menor intenção de extorquir lágrimas dos espectadores, torna essa obra de Ziad necessária, tanto sob a ótica da ficção convertida em dramaturgia quanto da realidade transmutada em arte, retratando o confronto entre de dois povos, de forma imparcial, e permitindo a exposição dos pontos de vista individuais sobre o real significado de um simples pedido de desculpas.


Cabaret do Milton


Plumas e paetês, beijos e abraços, consagrando um cabaret que jamais fechará suas portas

O universo carnavalesco abre alas no Rio de Janeiro, na noite de quarta-feira, dia 07 de fevereiro de 2018, na Sala Baden Powell, com o “Cabaret do Milton”. O roteiro e a direção por Milton Cunha transportam o espírito momesco para o palco do teatro com a mesma autenticidade de quando as primeiras agremiações de samba se propuseram abrir as portas de seus terreirões, para ali reunir seus instrumentistas, compositores, intérpretes, passistas e toda a sorte de artistas que brotam das comunidades. Cunha lança mão de sua popularidade decorrente da sua veia espontânea e do estreitamento que a sua profissão promove junto ao público de todo o país, reunindo um elenco de vinte e um artistas – dentre passistas, ritmistas de escolas de samba, e apresenta um pot-pourri de sambas, sambas enredos, funk e música brega executados por uma banda composta por músicos da Unidos da Tijuca, Grande Rio e Estácio de Sá, interpretado por Sandra Portela e pelo cantor Zé Paulo Bolinha.

Jocosa e carinhosamente, Cunha chama ao palco a dupla que intitula “gêmeas univitelinas” - as performáticas Drag Queen Samile Cunha e a anã Viviane de Assis, a musa da Viradouro e Rainha do bloco “Senta que eu te Empurro”, formado por cadeirantes – que roubam a cena do espetáculo. Também apresentam-se Marquinhos, ex-mestre-sala da Mangueira e da Paraíso do Tuiuti, a passista Karla Moreno e a dançarina Camila Reis, dentre outros que, em perfeita sintonia com o público, fazem rir, cantar, tietar e relembrar que os da terceira idade ainda têm garra para buscar muito ritmo no pé para sambar.

Não obstante da calorosa recepção de cada um dos espectadores, ao acessarem a sala de espetáculos pela escadaria que os leva à plateia, o apoteótico encerramento do espetáculo conduz artistas em pleno desempenho e seu público, em total interatividade, ao foyer e à calçada do número 360 da avenida mais consagrada da zona sul carioca – Nossa Senhora de Copacabana – para celebrarem aquela noite com muitas fotos e selfies, plumas e paetês, beijos e abraços, consagrando um cabaret que jamais fechará suas portas enquanto Milton Cunha for o fiel depositário de sua própria reputação, em meio à folia de Momo.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Luiz & Nazinha – Luiz Gonzaga Para Crianças


Belíssima colagem das canções do Gonzagão, amplificando a narrativa, sem a necessidade de artifícios cênicos pirotécnicos

Em pleno sertão nordestino, passagens da infância do menino Luizinho e a descoberta de seu amor por Nazinha – filha do rígido e austero Coronel Raimundo – são transportadas para o palco do teatro infantil, contando uma história livremente adaptada da biografia do Rei do Baião – Luiz Gonzaga. “Luiz & Nazinha – Luiz Gonzaga Para Crianças” é materializada pela singela direção de Diego Morais e introduz, ao público infantil, uma belíssima colagem das canções do Gonzagão, amplificando a narrativa, sem a necessidade de artifícios cênicos pirotécnicos.

Guilherme Borges – o responsável pela empolgante direção musical – celebra a alegria a cada quadro apresentado. A pureza infantil compõe a dramaturgia de Pedro Henrique Lopes – como Luizinho – que divide a protagonização do conto com a docilidade de Aline Carrocino – no papel de Nazinha. Martina Blink e Sergio Somene se proliferam no palco, como num passe de mágica, assumindo os papéis de Santana e Elvira e de Januário e Raimundo – os pais de Luizinho e de Nazinha, respectivamente. Agregado ao conjunto da obra, a concepção cenográfica minimalista de José Claudio Ferreira não se contém em sua carga artística, salpicando a boca de cena com bandeirinhas que remetem à marca de Alfredo Volpi, estampando o horizonte com roupas penduradas no varal, pontilhando o céu com gambiarras de lâmpadas e alinhando a ribalta com gravatás luminosos com a mesma inocência das obras de Heitor dos Prazeres. Em plena sintonia com o cenário, Wanderley Nascimento veste os personagens com um figurino segundo estilo e cromatismo que se identificam com o espírito infantil do espetáculo. Finalmente, o desenho de luz de Pedro Mendonça realça todas as qualidades dos recursos cênicos com objetividade tamanha a satisfazer os anseios das crianças e dos adultos enquanto vítimas de uma injeção de cultura travestida de grande brincadeira – o que, de fato, o espetáculo se propõe a oferecer. 

“Luiz e Nazinha” faz parte de uma experiência de sucesso, o estopim de um projeto que não deve ter fim, tamanho o universo das produções artístico musicais por grandes talentos nacionais a ser introduzido ludicamente às crianças e relembrado pelos adultos.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Todo o Dinheiro do Mundo


Aprofunda as observações sobre ganância e o preço de cada indivíduo

O sequestro do neto do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer) movimenta a trama do mais recente longa de Ridley Scott - “Todo o Dinheiro do Mundo”. Baseado em uma história real, Scott explora a imagem do homem mais rico do mundo, expondo suas relações dualistas com foco na família e no dinheiro, interceptadas pelo inesperado sequestro de seu neto e cujo resgate, o bilionário se recusa a pagar. Contrapondo a essa conduta, sua nora Gail (Michelle Williams), luta pela libertação de seu filho, custe o que custar.

O roteiro de David Scarpa, por pouco, não cai em um lugar comum, deixando de impactar o espectador ao humanizar um dos sequestradores e não desenvolvendo as atrocidades de um sequestro de maneira mais convincente.

A forma fria e calculista que o bilionário enxerga a vida faz da interpretação de Plummer algo que valoriza o filme, ao máximo, e aprofunda as observações sobre ganância e o preço de cada indivíduo em meio ao sistema capitalista.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Bituca, Milton Nascimento para Crianças


Define, de maneira eficaz, que criança merece respeito

O espetáculo “Bituca, Milton Nascimento para Crianças” tem levado uma legião de pais ao teatro, com o subterfúgio de simplesmente estarem acompanhando seus pimpolhos a um musical infantil, enquanto que, de fato, são os pais os que mais têm sido tocados com a essência moral inserida nas entrelinhas do estratégico roteiro e do potente e encantador texto assinados por Pedro Henrique Lopes que harmoniza a narrativa altamente emotiva e que coloca o espectador em total empatia com a excelência da musicalidade dirigida por Guilherme Borges. A seleção musical é precisa ao adaptar as canções ao roteiro – baseado nos primeiros anos de vida do icônico representante da MPB – e à fantasiosa ficção, imprescindível para atingir, de forma certeira, as crianças que habitam nos espectadores de todas as faixas etárias. A empolgação emotiva de cada adulto sequencia as inesperadas e surpreendentes canções de autoria do compositor, cantor e parceiros, entoadas pelos personagens, uníssonas com o contexto definido temporalmente entre a fase pré-natal e a infância do protagonista. A história discorre sobre as passagens de sua vida – nascido em uma comunidade no Rio de Janeiro, órfão, antes mesmo de ter completado dois anos de idade, adotado pelos patrões de sua avó, mudado para Três Pontas em Minas Gerais e exposto ao preconceito racial – uma vez negro, filho de pais brancos. Seu semblante de menino contrariado, potencializado pelo bico que demonstrava seu descontentamento com situações diversas, lhe rende o apelido “Bituca”, em referência aos índios botocudos. A inspirada direção de Diego Morais rege a dramaturgia que acompanha a obra musical de Milton ao criar o seu universo infantil.

Dando vida aos personagens, a interpretação impressa por Aline Carrocino, Anna Paula Black, Marina Mota, Martina Blink, Pedro Henrique Lopes e Udylê Procópio acolhe o espectador com tamanha sutileza, capaz de levar os mais sensíveis do riso às lágrimas. O volátil cenário de Clívia Cohen define a atmosfera provinciana impregnada de intrigas e mexericos, retratada pela composição monumental de fuxico como pano de fundo e sequencial como detalhe decorativo da ribalta – em breves instantes a boca de cena que acolhe uma comunidade carioca onde lavadeiras se ocupam do ofício, se transforma em uma estação de trem cuja locomotiva transporta personagens para Minas Gerais, define o interior de uma residência ou de uma sala de aula – tudo isso em sintonia fina com o figurino igualmente assinado por Cohen. A expressão da luz cênica concebida por Carlos Lafert define momentos, emoções e dá amplitude à aparente simplicidade do cenário. O visagismo de Vitor Martinez é fundamental na caracterização do elenco em meio à multiplicidade dos personagens e, dessa forma, cumpre o seu papel com presteza.

Testemunho da parceira e da interação entre pais e filhos oriundos de toda uma diversidade de composições familiares presentes, o Circuito Geral comparece à Grande Sala da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, no domingo, dia 21 de janeiro de 2018, para a cobertura do primeiro espetáculo que faz parte da série “Férias Musicais dos Grandes Músicos para Pequenos”, diante de uma plateia expressivamente lotada.

A transparência das canções, que mais soam como hinos para o espectador adulto, eterniza os líricos momentos que “Bituca, Milton Nascimento para Crianças” define, de maneira eficaz, que criança merece respeito.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Sem Fôlego


Um filme não mais que burocrático

New Jersey, 1927 - Rose (Millicent Simmonds), uma jovem surda, sofre os reflexos da intransigência do severo pai. Meio século depois, um raio cai sobre Gunflint Lake, Minnesota, e atinge o pequeno Ben (Oakes Fegley) causando-lhe a perda da audição. Em paralelo, na linha de tempo, Rose e Ben se conectam pela vontade de fugir para New York. Enquanto a menina quer encontrar sua mãe – a renomada atriz Lilian Mayhem (Julianne Moore), o garoto procura seu pai, com quem nunca teve contato. A direção fragmentada de Todd Haynes rotula “Sem Fôlego” como uma produção desconectada entre sonhos, pesadelos, memórias e lembranças que se intercalam em duas épocas: 1977 em Minnessota e 1927 em New Jersey.

Embora a responsabilidade do roteiro caia sobre o autor do livro - Brian Selznick - no qual o longa se baseia, não há naturalidade narrativa, a estética visual se torna enfadonha durante as quase duas horas de projeção ao mesmo temo em que se desconstrói, completamente, ao apelar para um viés melodramático, em vez de fomentar a sensibilidade e a fantasia dos protagonistas. Ademais, a previsibilidade presente em função do uso abusivo de clichês faz de “Sem Fôlego” um filme não mais que burocrático e beirando à pobreza criativa.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Benedita


Um ritual de passagem

Uma instalação viva – uma idosa e uma enorme trouxa com seus pertences próxima à encruzilhada do fim de sua existência - conta a história das marcas deixadas em sua vida ao sacar do atado indumentárias e toda a sorte de objetos – elementos que simbolizam suas perdas, encontros, desencontros, afetos, maledicências, tragédias, risos e dores.

Assim se desenrola o espetáculo “Benedita” cujo arquétipo projeto cenográfico projetado com excelência plástica por Rodrigo Frota se agiganta ao ser edificado pelo protagonista, a partir de um amontoado de roupas sujas – físicas, psicológicas e espirituais – ao longo dos sessenta minutos do monólogo, juntamente com a construção da personagem que vai muito além  da caracterização e da dramatização de Bruno de Souza - o homem que dá vida à contadora de histórias, que não se limita à atuação, mas acumula a mística direção sob a orientação de Fábio Vidal e Danilo Pinho e a assinatura do texto que se desvia do comum, mas que soa programado em sutil demasia. Moldando Benedita, o simbólico figurino de Diana Moreira reage como uma força da natureza diante da fábula do mito ou divindade, impregnado pelo jogo de luzes e sombras estrategiado pelo místico desenho de luz de Pedro Dutra, cromatiza a personagem em seu púlpito, destacando-a de seu próprio horizonte obscuro. A abordagem espiritual ascende diante do visagismo escultural de Ramona Azevedo com uma pegada quase mitológica, somente compreensível dentro do contexto em que Benedita fora concebida.

Em meio a um ritual de passagem, o espetáculo “Benedita” insere o espectador como o ponto de vista de observação do horizonte dos problemas relacionados à existência, da forma que cada um entende o mundo, lida com os perigos reais e os imaginários criados por deuses, semideuses, heróis e governantes e, como em um passe de mágica, a vida se vai.


sábado, 20 de janeiro de 2018

Bem Sertanejo, O Musical

Legitimado pelo seu público que entende que a música é capaz de transpor fronteiras e transformar as diferenças em igualdades

Após curtíssima temporada na Cidade das Artes, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – “Bem Sertanejo, O Musical” torna-se matéria da Circuito Geral, presente no penúltimo dia de sua apresentação, em meio a uma casa lotada, em sua segunda sessão daquele sábado, dia 13 de janeiro de 2018.

A história da evolução da música sertaneja é contada em prosa e canto, dividida em dois atos – uma viagem em meio a cinquenta e seis canções que consagraram o estilo musical que nasceu como, simplesmente, caipira, desde o seu surgimento no campo até a sua consolidação nas grandes cidades – sob o poético olhar de Gustavo Gasparani que se debruça nesta produção como autor do texto e diretor do espetáculo. O lirismo que constrói a identidade de “Bem Sertanejo”, inspira o figurino de Marcelo Olinto, de mãos dadas à concepção do cenário videográfico de Gringo Cardia, que se permite assumir uma roupagem modernista brasileiro, a partir de um preciso e respeitoso domínio das imagens das obras de Tarsila do Amaral – um mais que merecido tributo àquela artista marcante da pintura e da primeira fase de um momento marcado pela efervescência de novas ideias e modelos, igualmente transportados para o palco. A quarta dimensão de uma generosa boca de cena é garantida pelo cromatismo e pela intensidade da iluminação cênica regida por Maneco Quinderé, em plena sintonia com o sempre tão dinâmico cenário de Cardia quanto se faz presente o trabalho corporal empregado nas coreografias de Renato Vieira.

Abrilhantando e impingindo um caráter apoteótico à essência do espetáculo, o cantor, compositor, multi-instrumentista e ator de Medianeira – PR, Michel Teló, em associação à empresa Aventura Entretenimento, assume o papel icônico em meio ao elenco de “Bem Sertanejo”, em um mais que estratégico resgate do breve quadro de sucesso de um consagrado programa televisivo, levado ao ar nos anos 2014 e 2015. Aflorando em meio a esse solo fértil composto por uma ficha técnica irretocável, os principais nomes da música sertaneja são homenageados - Angelino de Oliveira, Raul Torres, João Pacífico, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro, Zezé Di Camargo e Luciano, Fernando e Sorocaba, Milionário e Zé Rico, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó. Dentro desse universo, cativam a plateia os carismáticos personagens elencados por Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima, Sérgio Dalcin, Lílian Menezes e, apesar de visualmente, oculto ou em segundo plano, a imprescindível banda de Michel Teló que além de sua missão no acompanhamento das vozes que justificam o espetáculo, sutilmente, hora se define como elenco, hora como parte integrante do cenário.

Pérolas que exemplificam, de modo impecável, o orgulho sertanejo, e que expurgam qualquer atmosfera discriminatória entre o modo urbano de viver e o enraizamento do povo do campo, respeitosa e carinhosamente apelidada, caipira – Rodrigo Lima cantando ‘Romaria’ de Renato Teixeira e o resgate do trabalho agrário através da composição vocal de ‘Cio da Terra’ de Milton Nascimento e Chico Buarque – são responsáveis por levar o espectador do sorriso às lágrimas.

Sem a intenção de apresentar uma pura e simples dramaturgia, a superprodução "Bem Sertanejo" edifica um mega show, legitimado pelo seu público que entende que a música é capaz de transpor fronteiras e transformar as diferenças em igualdades.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Correndo atrás de um Pai

Busca incessante, bizarra, inusitada e despretensiosa de momentos de diversão e de, para alguns, até mesmo, emoção

Estreando na direção cinematográfica, Lawrence Sher se exercita no filme “Correndo atrás de um Pai” e transporta para a tela, uma busca incessante, bizarra, inusitada e despretensiosa de momentos de diversão e de, para alguns, até mesmo, emoção.

Os irmãos gêmeos Peter (Ed Helms) e Kyle Reynolds (Owen Wilson), no dia do casamento de sua mãe – Sra. Reynolds (Glenn Close) – tomam conhecimento de que ela teria lhes mentido sobre a identidade de seu pai, e que o teria feito por não saber, de fato, de quem concebera os filhos, uma vez que desfrutou de uma vida sexual muito ativa e desregrada, quando jovem.  A partir de então, os gêmeos resolvem cruzar os Estados Unidos, munidos de somente um nome em busca de vários homens que haviam passado pela vida de sua mãe.

O roteiro de Justin Malen é fundamentado em estereótipos que, como estratégia, até consegue segurar o longa, sem se tornar enfadonho. A cada “aventura” dos protagonistas, situações inusitadamente constrangedoras fazem com que o espectador fique atento à comicidade presente, mas que acaba sendo contrastada com o drama entranhado na vida dos dois irmãos.

A obra não se propõe a ser levada para o lado da seriedade por se tratar de uma comédia mas, em sua primeira direção, Lawrence constrói momentos cômicos, não muito engraçados, e instantes dramaticamente burocráticos, visivelmente emotivos, mas sem qualquer apelação à condução da plateia à tristeza – alguma coisa indefinida quanto à intenção de Sher.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Saudade


A condição metafísica do ser humano que vai muito além da saudade

Uma palavra com significado invulgar e cuja essência é extremamente palpável no âmbito filosófico ou quando da verbalização de sentimentos específicos. Sua existência é considerada como se um privilégio somente da língua portuguesa.

A partir dessas premissas, a direção de Paulo Caldas se empenha em decifrar o vocábulo saudade no documentário homônimo. Em simbiose com a direção, Pedro Sotero dá vazão ao seu olhar sensível e atento ao pano de fundo do documentário, com a sua fotografia fugaz e eminentemente próxima à sensibilidade em potencial de cada espectador.

A imersão sobre o significado da palavra é intrínseco aos convidados a depor suas impressões, que relatam um pouco de seus próprios históricos nos quais a palavra se encontra presente - Adriana Falcão,  Alex Flemming, Arnaldo Antunes, Déborah Colker, João Câmara, Johnny Hooker, Karim Aïnouz, Lira, Milton Hatoun, Nilda Maria, Ruy Guerra e Zé Celso são apenas alguns dos nomes que deixam no ar indagações como, por exemplo, “ser saudade o sentimento que aflora durante o tempo que se espera por alguém  ou aquele que toma conta da alma devido ao tempo da ausência daquele alguém”. 

A delicadeza e a poesia de "Saudade" o fazem inevidente acerca do tema, ao investir com sensibilidade, não somente pelos depoimentos apresentados especificamente sobre o vocábulo, mas sim na liberdade de expressão dos depoentes que, diante da demanda pela descrição de um sentimento tão complexo, expõem suas experiências, lembranças e impressões, divagando, com muita propriedade, sobre a condição metafísica do ser humano que vai muito além da saudade.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O Touro Ferdinando


Potencializa a inocência dos pequenos e abranda a sisudez dos adultos

A simplicidade da animação “O Touro Ferdinando” potencializa a inocência dos pequenos e abranda a sisudez dos adultos ao se depararem com um touro que não aceita o seu “destino” e, diferentemente de seus companheiros de cativeiro, prefere amar as flores ao invés de se entregar aos duelos com toureiros na Monumental Praça de Touros Las Ventas, em Madri.

A mistura de drama com humor contida na direção de Carlos Saldanha faz do filme - baseado no livro ‘The Story of Ferdinand’ de Munro Leaf de 1936, ilustrado pelo premiado Robert Lawson, consagrado pelos prêmios Lewis Carroll Shelf (1961) e Newbery Award (1945) e, em 1938, adaptado para o cinema pela Disney Productions – um drama espirituoso e atraente para todas as gerações.

Os 108 minutos de animação transcorrem sem que o espectador se dê conta da sua extensão, a despeito da intensa essência contida nas entrelinhas sobre os indivíduos sociáveis que dependem da convivência com seus semelhantes para formular valores que os posicione no mundo, de modo a torná-los aptos a contribuir para com o desenvolvimento da sociedade. Um marco filosófico visto pelo olhar de seres considerados irracionais travestido em deliciosa ironia direcionada ao público adulto e fantasiada de ingênua realidade a ser, naturalmente, assimilada pelo público infantil.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Lou


Mulher de vanguarda dos séculos XIX e XX

Filósofa, poeta, romancista e psicanalista - uma mulher que, no final do século XIX, vincula a psicanálise freudiana com a filosofia de Nietzsche e desenvolve estudos tendo como paradigmas o narcisismo e a sexualidade feminina - Lou Andreas-Salomé ganha uma cinebiografia dirigida por Cordula Kablitz-Post intitulada, simplesmente, “Lou”.

Nascida em São Petersburgo em 1861, Lou escandaliza a sociedade ao quebrar regras, dogmas e o moralismo cristão, fatos evidenciados em relacionamentos amorosos abrangendo os ilustres Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Paul Rée.

A história tem início no ano de 1933, no auge do movimento nazista, quando um homem bate à sua porta, segundo ele, em busca de um apoio psicanalítico para um amigo. Os dois começam um relacionamento no qual, ele se torna o escritor das memórias de Lou, já com setenta e dois anos de idade e afastada do ofício em decorrência das barbáries cometidas pelo nazismo.

O longa é consagrado por um jogo gráfico e fotográfico criativo e impecável e por uma trilha sonora que segue a linha das estruturas minimalistas e repetitivas, de autoria de Judit Varga. O roteiro de Cordula Kablitz e Susanne Hertel intensifica a vida amorosa da intelectual – fato que soa apelativo em se tratar de uma personalidade tão independente e à frente de seu tempo, mas que não tira o brilho da produção e da ousada personalidade da mulher de vanguarda dos séculos XIX e XX.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Um Casamento Feliz


A conjuminação da adaptação e tradução de Flavio Marinho e da direção de Eri Johnson rende um punhado de bons momentos de descontração e de divertimento a partir do espetáculo comédia “Um Casamento Feliz”.

A história, de autoria dos escritores franceses Gerald Bitton e Michel Munz – “Le Gai Mariage”, conta a tramoia na qual Henrique (Eri Johson) e Dodô (Renato Rabelo) – dois amigos heterossexuais e solteiros convictos – se casam, sob o conselho de Roberto (João Lima Jr.) - um terceiro amigo advogado – para que Henrique possa fazer jus à herança milionária de sua excêntrica tia Carola que, em seu testamento, demanda que o sobrinho se case e, assim permaneça, pelo prazo de, pelo menos, um ano. O plano parece perfeito – exceto pela iminência da visita de um oficial de justiça que deve comprovar a veracidade da união, da intrusão do hiper-católico e homofóbico pai de Henrique (Raymundo de Souza) na trama e da ameaça da composição de um triângulo amoroso, junto a Henrique e Dodô, por Elza (Rayanne Morais).

No palco, a química entre os cinco atores em meio a mentiras e males entendidos promove um balé onde o humor define a coreografia bem marcada, sem apelação e que promove a manifestação genuína de uma plateia que comparece ao teatro em busca de momentos de prazer.

A concepção cenográfica de Léo Shehtman desenha uma sala de estar – que ocupa toda a boca de cena com um acesso ao exterior e outro ao interior do, aparentemente, compacto apartamento – cujos revestimento e adereços, facilmente cambiáveis, definem, com sutileza, duas etapas distintas que marcam o desenrolar da história. O básico figurino de Martina Guenthe compõe os personagens e traça o estilo de cada um, com ênfase à caracterização do personagem Dodô, como o hilário “porquinho Bartolomeu”, através da qual Rabelo cativa a plateia e extrai gargalhadas dos espectadores que se entregam a emoções que os remetem a manifestações infantis. O clima intimista do apartamento é garantido pelo desenho de luz de Hery Araujo que não se propõe a evidenciar mais do que o necessário, mas a garantir uma boa acuidade visual do espectador e a suave definição das passagens de cenas.

Não só o machismo, o preconceito e a misoginia servem como pano de fundo de “Um Casamento Feliz”, mas também a evidente demonstração da aceitação das diferenças por parte de uma plateia que tem lotado a casa de espetáculos e que retorna ao lar com o semblante suavizado pelo humor e com um bônus da salutar reflexão sobre o “se vale tudo por dinheiro”.