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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Grelo em Obras


Uma grata surpresa dentre os espetáculos do gênero cujo clímax se manifesta em uma catarse a partir da voluntariedade do público

Ao comemorar os vinte anos de jornada, iniciada em 1998, o grupo ‘O Grelo Falante’ tenta erradicar o machismo tóxico que, em pleno ano de 2018, incomoda os que ainda vivem do significado de ser ‘menos’ homem ou ‘menos’ mulher e exalta aqueles que defendem a necessidade de dar espaço, respeito e igualdade a todos, independentemente de seu gênero.

A partir de uma reação contra resistentes fragmentos da evolução dos costumes, dos entraves religiosos, da atrofia cultural e das distorções entre hierarquia social e desigualdade de gênero, o espetáculo “O Grelo em Obras” lança uma lente de aumento na desigualdade presente nos direitos e deveres entre homens e mulheres, denunciando o estigma da superioridade do gênero masculino sobre o gênero feminino. De forma ativa, três mulheres fazem valer suas vozes ao explicitar seus desejos, suas frustrações e a reviravolta à qual se propõem para firmarem a sua individualidade, à despeito de qualquer sugestão de demérito, seja pela prepotência, seja pelo descaso do sexo oposto.

A envolvente direção de Fabiano de Freitas transmite intensa repulsa e menosprezo à hostil agressividade contida na exclusão seletiva do sexo feminino por parte de homens e, até mesmo, por parte de mulheres machistas, em meio aos movimentos pela igualdade de gêneros. Longe de qualquer apologia ao femismo, o elenco composto por Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucília de Assis não se presta a induzir a plateia considerar uma eventual inferioridade dos homens em relação ao sexo oposto e, com isso, definem um contraponto com o machismo, sem ditar regras, procedimentos e comportamentos pró-feministas.  Os padrões da direção de arte e do figurino de Nivea Faso conferem ao espetáculo uma paleta de cores e um padrão vestuário indicativos de um embrionário movimento social, político e filosófico, em potencial, desconstruído pelo enraizado discurso machista contra o sistema femista e estruturado pelo respeito entre os gêneros. Adicionalmente, a transformação das atrizes nas imagens concebidas pelo diretor fica por conta de Duoelo Visagismo, que estampa em cada uma das personagens o caráter de quem não vê nos filhos uma benção, que a formação de uma prole está muito aquém de sua realização pessoal e que a felicidade não se resume em constituir uma família visando colocá-la acima de suas vontades. O desenho de luz de Renato Machado ludibria os olhares e transforma o palco em uma pista dançante iluminada, poupa a atuação das protagonistas de qualquer vínculo com a sexualidade, dramatiza os momentos que passam ao largo da comédia e media a relação entre personagens e espectadores quando estes são metamorfoseados em transitórios protagonistas do espetáculo.

“O Grelo em Obras” é uma grata surpresa dentre os espetáculos do gênero cujo clímax se manifesta em uma catarse a partir da voluntariedade do público, que passa a se manifestar como se em uma plenária mediada pelas atrizes, limítrofe a uma terapia em grupo que desbanca o monopólio dos monólogos outrora proferidos somente por uma das partes situadas no exterior dos órgãos genitais femininos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Elza



Fala sobre a mulher, sobre a pobreza, sobre a cor da pele, sobre a igualdade, sobre a diversidade, sobre a resistência feminina, sobre as perdas e, sobretudo, sobre as conquistas.

Uma criança nascida em uma favela carioca, feliz, apesar de pobre e de ter que carregar latas d’água na cabeça, por sobrevivência. Uma menina compelida pelo pai a largar os estudos e a se casar com um homem já maduro e que a submetia à violência doméstica. Uma ainda menina que dá à luz um garoto cuja vida foi interrompida por conta de enfermidade. A mesma menina, que na busca pela cura da doença de seu filho, participa de um programa no auditório de uma grande emissora de rádio, sendo vitimada moralmente pela arrogância de seu apresentador. Uma adolescente que perde seu segundo filho para a fome que se impõe aos habitantes do “planeta” em que nasceu. Uma jovem adulta que enviúva e, com cinco filhos para criar, não teve outra saída senão trabalhar como doméstica. Uma mulher que jamais declinou do seu propósito na vida que era cantar.


Sete fases de uma vida que se desdobra em sete vidas – um breve prólogo do espetáculo biográfico “Elza”.

O extremo sofrimento, contido na história de vida de uma das maiores cantoras do Brasil – Elza Soares – conta com a estruturada direção de Duda Maia, que não concebe a possibilidade de transformar o musical em um melodrama lacrimejante. Muito pelo contrário, Maia presenteia o espectador com um testemunho de vida marcado pela garra e pela luta, para muito além da tristeza.

“Elza” fala sobre a mulher, sobre a pobreza, sobre a cor da pele, sobre a igualdade, sobre a diversidade, sobre a resistência feminina, sobre as perdas e, sobretudo, sobre as conquistas. No palco, treze mulheres – sete notáveis atrizes e cantoras – Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz – desafiam o espectador ao desnudarem todas as mulheres que Elza representa; seis explosivas musicistas – Antonia Adnet (vilões, cavaquinho e voz), Georgia Camara (bateria e percussão), Guta Menezes (trompete, flugelhorn e gaita), Marfa Kourakina (baixo), Neila Kadhí (programações, pandeiro, guitarra e voz) e Priscilla Azevedo (teclado, sanfona, escaleta e voz) escoltam as sete “Elzas” e potencializam a essência do espetáculo, sob a atenção e a emoção de uma plateia delirante.

O encantador texto de Vinícius Calderoni expõe ao público, sem o menor esforço, os tributos humanos e artísticos da primeira mulher brasileira a puxar um samba enredo. A beleza e a sensualidade furiosas que afloram da carne negra de cada uma das sete Elzas que representam Soares no palco são adornadas, de forma precisa e personalizada, pelo figurino de Kika Lopes e Rocio Moureque e pelo visagismo de Uirandê de Holanda. Definindo uma atmosfera mixada em meio à bossa, ao samba e à contemporaneidade, o cenário de André Cortez joga com o simbolismo, as marcas da trajetória de Elza Soares desde a sua infância até os dias atuais, permitindo a concepção de um desenho de luz cênica, por Renato Machado – que passa ao largo dos hiatos depressivos nos quais a vigorosa forte biografia poderia mergulhar a plateia – de tal forma a ofuscar as amarguras e as tristezas e a iluminar a voz da mulher de pele preta que clama por deixarem-na cantar até o fim. No embalo da retrospectiva da filha do operário tocador de violão, consagrada a cantora do milênio em 2007 pela BBC de Londres, é deflagrado um amistoso duelo entre a potente sonoridade das vozes que representam a voz da mulher do fim do mundo – em franca sintonia com a transformação da obra musical escrita em arranjos inebriantes sob os arranjos assinados por Letieres Leite – e o extasiante desenho de som Gabriel D’Angelo, atualizando o que já é de vanguarda, atingindo, em cheio, o leque de gerações que compõem os ainda crescentes admiradores de Elza Soares.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Megatubarão



Aparente tributo bem-humorado, aos filmes protagonizados por criaturas que excedem as proporções daquelas consideradas como normais dentro de sua espécie



“Megatubarão” – um longa com ares Xing Ling que, apesar de impregnado de clichês identificados em filmes do gênero terror suspense tubaronesco, sem exageros, é capaz de satisfazer os anseios do público de cinema, consumidor de pipoca com guaraná, em busca de instantes de diversão.

Uma estação de pesquisa subaquática, onde um grupo de cientistas explora os limites das profundezas do Oceano Pacífico, é atacada por um ser descomunal, deixando inoperante, um módulo submarino e sua respectiva tripulação. Para salvá-los a base recorre a um especialista em evacuação marinha, que há cinco anos, não realizava tal função, em consequência de uma ocorrência de iguais proporções, identificada pelo mesmo, como um ataque por um monstruoso ser abissal.

Ao tentar estabelecer trajetórias distintas para cada um dos personagens, Jon Turteltaub atola a sua direção em meio a extensos e enfadonhos argumentos, com indesejáveis efeitos anticlímax, mas que não desmerecem, de modo algum, o seu aparente tributo bem-humorado, aos filmes protagonizados por criaturas que excedem as proporções daquelas consideradas como normais dentro de sua espécie, caçadas por exploradores e cientistas, movidos pela ganância.

Sem margem de dúvida, o longa de Turteltaub cumpre todos os requisitos para ser o blockbuster do momento. Contudo, para que a experiência seja comprovada como satisfatória, minimamente, as salas contempladas pelo formato IMAX e pelo recurso 3D são recomendadas, em benefício das tomadas no fundo do mar e do design de som, permitindo que o espectador se sinta parte integrante das cenas.


Vidas à Deriva



A coragem que triunfa sobre a força da mãe natureza em seus momentos mais alucinantes

Em setembro de 1983, Tami Oldham Ashcraft e seu noivo, Richard Sharp, foram contratados para conduzir um iate de 44 pés em uma viagem de 4.000 milhas, do Taiti a San Diego. Na metade da travessia do Pacífico, o casal se depara com o furacão Raymond – Sharp é jogado ao mar e Ashcraft permanece no iate durante quarenta e um dias, à base de manteiga de amendoim.

Baseado na história real do casal, o cineasta Baltasar Kormákur descreve uma relação de amor e de uma luta por sobrevivência que vai muito além do termo ‘superação’, fazendo de “Vidas à Deriva”, um longa inspirador sobre a coragem que triunfa sobre a força da mãe natureza em seus momentos mais alucinantes.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Acrimônia


A conflitante direção de Tyler Perry se confunde com produtivos surtos de transtorno de personalidade limítrofe, durante os quais, desenha protagonistas de caráter moralmente ambíguos, situações cruéis e doentias

Uma história na qual amargura e ira se exacerbam e tomam para si totalidade da tela, bem diante dos olhos do espectador atordoado, impossibilitado de se posicionar diante das cenas que evoluem durante o longa “Acrimônia” - a narrativa de uma mulher sobre seu conturbado relacionamento conjugal com um homem, razão da sua raiva corrosiva. Ele, obstinado por seu projeto de ciência como perspectiva única para conquista de uma vida abastada e permanentemente estável; ela, a provedora financeira de sua ambição, durante anos de matrimônio, até o momento em que é decretada a falência financeira do casal, juntamente com a sua tolerância, reduzida a zero – fato não menos instigado por suas irmãs e respectivos cônjuges – levando-a, a não menos, que à decisão pela separação judicial, afastando, ainda mais, a conquista de quem parece nunca declinar de seu projeto de vida.

A conflitante direção de Tyler Perry se confunde com produtivos surtos de transtorno de personalidade limítrofe, durante os quais, desenha protagonistas de caráter moralmente ambíguos, situações cruéis e doentias sob o manto do verdadeiro amor e da ruptura dos sonhos que se sonham juntos.

Ao incentivar a participação do espectador diante de suas reviravoltas dinâmicas, “Acrimônia” evidencia o prolífico roteiro que parece advertir sobre a pior das hipóteses comportamentais inspiradas na emoção, independente de gênero, de raça e de status do psiquismo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

De Carona Para o Amor


Uma deleitosa comédia e cuja essência desabrocha em uma linda história de amor


Um protagonista mitômano – grande empresário e típico madurão paquerador, que fantasia a sua condição física como se fosse portador de necessidades especiais e se passa por paraplégico para conquistar uma jovem mulher. Ela, por sua vez, lhe apresenta a irmã – uma mulher extraordinária, atraente, educada, bem-sucedida e, de fato, paraplégica. A partir desse momento, o longa “De Carona Para o Amor” sofre uma metamorfose, transformando-se em uma deleitosa comédia e cuja essência desabrocha em uma linda história de amor.

Franck Dubosc, além de interpretar o ardiloso personagem, também debuta na bem-vinda direção, ao se permitir o uso dos clichês na medida certa, sem vitimizar quem quer que seja, independentemente de suas “deficiências” morais, sociais ou fisiológicas.

A leveza e o bom humor previsível do roteiro isentam a obra de Dubosc de qualquer tipo de preconceito e, mesmo não se aprofundando na questão de acessibilidade, irradia alto astral em sua aparente inacabada obra cinematográfica.

O Nome da Morte


O filme faz da mira do calibre a solução do seu enredo violento e muito longe de um final tranquilo


Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2017, o longa “O Nome da Morte”, de Henrique Goldman, tem estreia prevista para o dia 2 de agosto de 2018.

“O Nome da Morte” conta a história de Júlio Santana – matador de aluguel responsável por 492 homicídios em várias regiões do país. Santana foi apresentado ao ‘ofício’ por seu tio – um policial militar, quando Júlio ainda tinha 17 anos de idade.

Ao deixar o espectador indeciso na tentativa de identificação do matador como mocinho ou bandido, Goldman revela os ‘Brasis’ que desconhecemos onde, o que impera é a pobreza extrema e, a única forma de sobrevivência são os atos de frieza, impunidade e desigualdade desenhado no filme, sob o manto da lei e da justiça seletiva.

Baseado no livro homônimo, o filme faz da mira do calibre a solução do seu enredo violento e muito longe de um final tranquilo.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Missão Impossível: Efeito Fallout”


Convence o espectador a tal ponto de demovê-lo do questionamento quanto aos possíveis exageros vistos por seus próprios olhos

O super agente Ethan Hunt (Tom Cruise) e seus amigos do FMI – Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg) – são convocados para uma nova missão: recuperar três núcleos de plutônio antes que o terrorista John Lark, em conluio com uma organização conhecida como Apóstolos, possa usá-los para destruir o Vaticano, Jerusalém e Meca, em um único ataque coordenado – uma brevíssima sinopse do sexto filme da franquia “Missão Impossível”.

Em “M.I: Efeito Fallout”, as artimanhas de Cruise, ao desafiar a morte pendurado em helicópteros, correndo pelos telhados e saltando de um edifício para o outro, fazem da franquia um sucesso absoluto. A estilosa direção de Christopher McQuarrie convence o espectador a tal ponto de demovê-lo do questionamento quanto aos possíveis exageros vistos por seus próprios olhos, preferencialmente, no formato IMAX. Uma fotografia excepcional que captura ações em ousadas tomadas em cenas urbanas e em ambientes naturais, acompanhadas pela trilha sonora de Lorne Balfe – que exala a adrenalina que o filme oferece ao espectador – ao longo da Champs-Élysées e ao redor do Arco do Triunfo, em Paris, nas cercanias da Catedral de St. Paul, em Londres e em meio às geleiras em pleno processo de descongelamento da Caxemira.

A impetuosidade de Cruise e a incapacidade de McQuarrie em conceber um fracasso impressiona de maneira incrivelmente revigorante, e torna “Missão Impossível: Efeito Fallout” um filme irretocável.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

A Vida ao Lado


Laços que transformam o sofrimento e as neuroses em sucessivas e dosadas pérolas de bom humor

O conteúdo alegórico contido no texto da diretora teatral e atriz carioca, Cristina Fagundes invade o território de cada espectador presente ao espetáculo “A Vida ao Lado”, como se estivesse se apropriando da capacidade correlativa entre o que se passa na sala de espetáculos e na vida privada de cada espectador. Quebrando o estigma da figurinha repetida, Fagundes completa a ficha técnica como integrante do elenco e como diretora que define uma dinâmica para o espetáculo visando dissecar cada um dos presentes, com precisão cirúrgica, aflorando seus medos, suas angústias, seus preconceitos e suas revoltas.

Tais sentimentos são pontuados em núcleos familiares que compõem uma sociedade edificada que se protege às custas de seus muros, de suas restrições, de sua vigilância e de regras promulgadas e executadas por grupos alheios ao coletivo. Prisioneira de si mesma, uma edificação que constitui um condomínio residencial vive o drama da contagem regressiva de trinta dias para a sua implosão, dando lugar a um expansivo e exótico aquário municipal.

Como se radiografando as entranhas dos labirintos condominiais – de forma minimalista e engenhosamente estilizados pela concepção cenográfica assinada por Alice Cruz e Tuca Benvenutti – o dramático e agressivo desenho de luz de Aurélio De Simoni diagnostica a patologia que pulsa no sistema vascular que mantém o ciclo da vida nos grandes complexos de moradia - nada mais do que conjuntos habitacionais, não importando o status socioeconômico e cultural de seus ocupantes, onde a vida se repete, alucinadamente. Inserida em uma atmosfera contaminada por um pseudo déjà-vu, a desprotegida plateia se presta como testemunha da opressão, de rituais de ostentação e de humilhação que eclodem com requintes de violência, a despeito da segurança sugerida dentro dos frágeis limites de um condomínio fechado. Na esfera do coletivo, percebe-se a desarticulação de interesses dos personagens vividos por Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flavia Espírito Santo e Marcello Gonçalves com fidelidade comportamental irrepreensível, contemplando déficits de reconhecimento de suas intolerâncias e de suas equidades, a despeito do sofrimento promovido pelos interesses individuais de representantes das classes empresarial e política. A avaliação das perdas é substituída pela criação do inimigo de porta, reinventado e materializado pelo figurino de Sol Azulay, permitindo que os personagens se reformulem a ponto de estabelecerem uma regra do jogo, cuja vitória conduz ao podium, ninguém mais, do que o espectador. A aparente supressão dos sentimentos desenhada para cada um dos personagens, com reflexos na aceitação das mesmices que lhe são impostas, reage, de forma catártica, junto à revigorante trilha sonora de Isadora Medella, como se oásis pontuados em meio à aridez desértica, banalizada pelo lema ‘cada um por si’. A linguagem corporal do coletivo sob a direção de movimento de Daniel Leuback, define percursos virtuais por onde transitam condôminos e funcionários do edifício, criando laços que transformam o sofrimento e as neuroses em sucessivas e dosadas pérolas de bom humor.

“A Vida ao Lado” promove uma grata surpresa ao expor a coexistência desestabilizada de diversos fatores dentro da coletividade, lançando mão do bom senso e da essência da vida em grupo em um momento contemporâneo que garante que os direitos de uns não terminam quando começam os de outros.

A Incrível Jornada do Narcoléptico Edmundo em Busca da Impenetrável, porém, Coração Nobre, Catharina… Ou, Ed & Cath


Dois indubitáveis talentosos atores


Sem qualquer aviso prévio, toda uma plateia sofre a sugestão de que deve transportar as suas atenções para algum ponto da Idade Média, onde um monarca, ao perceber sua dinastia sob forte ameaça – na hipótese de sua filha, de 30 anos, não se casar imediatamente – promove um torneio entre nobres, cujo vencedor, desposará a sua primogênita. Um plebeu, apaixonado pela princesa, vê no torneio, a chance de realização de seu sonho de amor. Contudo, o pobre enamorado sofre de narcolepsia – uma perturbação neurológica caracterizada pela diminuição da capacidade de regulação do ritmo do sono e do despertar – o que comprometeria o seu desempenho durante a competição, pela mão de sua amada.  Arrasado, o desolado apaixonado pede ajuda à sua melhor amiga. Juntos, convocam a Fada Madrinha dos Amigos para que a torne invisível, permitindo, dessa forma, interagir com seu parceiro durante a peleja, de forma imperceptível.

Assim, fica estabelecido o ciclo soporífero da peça “A Incrível Jornada do Narcoléptico Edmundo em Busca da Impenetrável, porém, Coração Nobre, Catharina… Ou, Ed & Cath”, com potencial latente de condução das atenções do público à apatia, durante longos sessenta minutos de apresentação. A voluntária inexistência da luminotécnica cênica entrega os refletores à sorte de uma tediosa iluminação difusa, assemelhando-se a uma luz de serviço, que banha toda a sala de espetáculos, deixando a plateia na expectativa quanto ao apagar dos refletores para dar início ao espetáculo.

No palco, em formato de arena do Teatro Cândido Mendes, dois indubitáveis talentosos atores – Helena de Almeida e Ruy Carvalho – vestem um figurino performático atemático, concebido de tal forma a lhes dar a liberdade de movimento necessária ao desempenho de ambos. De resto, só desolação – sem cenário, sem trilha sonora, sob uma direção, aparentemente, sem vigília, e sob uma nebulosa e pouco visionária direção de produção. Uma performance, cuja vocação consagrou-se pelas apresentações em espaços urbanos públicos, é desviada para um espaço fechado, privado dos recursos técnicos naturais presentes em ambientes externos, por sua vez, iluminados a partir da incidência da radiação solar – atenuada pelas nuvens ou pelas copas das árvores – e sonorizada pela trilha composta pela paisagem acústica a céu aberto.

A tentativa de firmar uma interatividade com o expectador presente em uma sala de espetáculos esbarra no abismo que diferencia a plateia formada por indivíduos circulantes em praças públicas, por alunos de uma escola em Sepetiba no refeitório do estabelecimento de ensino e por aqueles que selecionam os espetáculos através das mídias, de modo se prevenirem, tanto quanto possível, contra produções que não se encaixam dentro de suas preferências. Consequentemente, a inevitável participação, não muito voluntária por parte da plateia, não contribui para com o desenrolar da história, mas cuja narrativa conta com a inquestionável qualidade do desempenho interpretativo e da acrobacia dramática indissociáveis do nome de Ruy Carvalho – certamente, o responsável por aliviar o espectador contra o mal que acomete o apaixonado plebeu sonhador.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ilha dos Cachorros


Um questionamento que se encrusta na mente dos espectadores sobre a essência da espécie humana e do papel de cada indivíduo ao longo de sua efêmera existência

Na contramão comportamental de uma fração da população humana de todo o planeta – que, apesar do nível de penúria e de violência em que vivem, não atentam para um necessário planejamento familiar visando à garantia do mínimo de dignidade à sobrevivência de sua espécie – uma frase proferida por uma cadela, na performática animação “Ilha dos Cachorros”, reflete o seu testemunho de vida e confessa não ter coragem de trazer cachorrinhos para o mundo em que vive.

Um mundo onde cães se combatem, se ferem, se sangram; um mundo onde os personagens são mortos a queima roupa, em franca composição de um conjunto de imagens assombrosas aos olhos de quem as vê; um mundo onde palavras de baixo calão são proferidas sem o menor constrangimento; um mundo que banaliza as referências ao acasalamento e a exposição do nu explícito – tudo isso posto em cena através da impiedosa visão de Wes Anderson, que transcende o simples relatar de uma história comovente sobre um menino em busca de seu cachorrinho de estimação. 

“Ilha dos Cachorros” também retrata uma comunidade de caninos indesejados, deportados para uma ilha artificial, formada pelo despejo de lixo na costa de um distópico futuro Japão, comandado por um demagogo fanático, que tem a disseminação do medo como sua plataforma política. Anderson flerta com a grotesca atualidade do mundo contemporâneo, fazendo com que o espectador saia de sua zona de conforto e desconsidere, por completo, que a arte da animação esteja atrelada, exclusivamente, ao gênero infantil. A preciosidade artística da animação desenvolvida através da técnica de stop motion, se traduz em um alerta de que o mundo em que vivemos não se encontra tão defasado da “Ilha dos Cachorros” e demanda uma réplica a um questionamento que se encrusta na mente dos espectadores sobre a essência da espécie humana e do papel de cada indivíduo ao longo de sua efêmera existência.

Uma Quase Dupla


Uma comédia no real sentido da palavra, sem subterfúgios ou entrelinhas, para o público gargalhar e sair da sala de projeção querendo mais

Dois policiais – Keyla (Tatá Werneck), uma investigadora que acredita poder resolver qualquer caso sem a menor ajuda e, Claudio (Cauã Reymond), um subdelegado cuja eficiência e competência deixam muito a desejar – mesmo sem terem nada em comum, se veem obrigados a trabalhar juntos na bucólica cidade de Joinlândia, por conta da ocorrência de um estranho homicídio.

Recheado de referências dos filmes policiais dos anos 1970 - “Uma Quase Dupla” é uma comédia no real sentido da palavra, sem subterfúgios ou entrelinhas, para o público gargalhar e sair da sala de projeção querendo mais. A direção de Marcos Baldini assume um desempenho visionário como se modelasse a produção com vistas a uma franquia em potencial. A pegada do roteiro, a partir do humor rasgado, captura a atenção do espectador, de tal forma, que denuncia uma natural capacidade de reciclagem, que vai muito além da produção de um primeiro episódio de um seriado.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Esse Vazio

Compartilhamento afetivo, junto ao espectador, desencadeando uma apatia frente ao implacável sentimento que aflora diante de uma perda - a solidão

A cumplicidade contagiante entre três amigos que compartilham seus medos, suas frustrações e seus sonhos estrutura a tônica do espetáculo “Esse Vazio”, cujos personagens se escondem sob um silêncio moral, arranham verbalmente a confiança e os ressentimentos disfarçados que, pouco a pouco, abrem o enorme buraco existencial descrito no texto de autoria dos portenhos Patricio Aramburu, Nahuel Cano, Alejandro Hener e Juan Pablo Gómez. O acridoce e as notas de humor delirante depositados na história devem-se à elaborada tradução de Daniel Dias da Silva, que também atua com Gil Hernandez e Sávio Moll em meio ao drama que os coloca diante de um dia pincelado pelas tintas sombrias que compõem a paleta de tons repletos de esperança e de resignação – dignos da observação atenta do espectador que lança o seu olhar sobre os três amigos que ao longo da história, se refugiam no vestiário de um clube da cidade em que cresceram, de onde observam a cerimônia do velório de um amigo.

Intensa carga emocional, opressão sufocante, culpa dolorosa e angústia profunda orbitam pelo nebuloso e claustrofóbico cenário de Claudio Bittencourt, concebido a partir de um vestiário equipado com dois armários de aço, um banco e uma mesa de apoio, delimitado por um piso alusivo a um revestimento cerâmico que, como uma trincheira, funciona para palavras que não possam ser proferidas olhando-se nos olhos de quem as escuta. Os ternos mal vestidos e acabrunhados definidos pelo figurino de Victor Guedes, envelopam os personagens como um catalizador de lembranças felizes e ingratas e de lacunas certeiras, dedicadas ao esquecimento a partir de uma tradicional subordinação ao luto. A solidão evocada pela possibilidade da morte é visível aos olhos do público, como se lesionados por uma névoa ocular, voluntariamente aliada ao desenho de luz de Tomás Ribas que traduz a imensidão do vazio, extensiva após o término do espetáculo. Alinhavando a póstuma homenagem sob as rédeas da observação à distância, a emocional direção de Sérgio Modena desnuda as relações dos protagonistas a partir do seu compartilhamento afetivo, junto ao espectador, desencadeando uma apatia frente ao implacável sentimento que aflora diante de uma perda - a solidão.

A carência de uma descarga emocional pulsante e aprofundada, não atinge o cerne do espetáculo “Esse Vazio”, mas aprisiona o espectador nas entranhas dos personagens que, por sua vez, parecem paralisados em um mundo tomado pelo vácuo, onde luz e som não se propagam.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

S'Blood


Provoca sentimentos de desestabilização e de deslocamento entre realidade e ficção, e promove tensões geradas por dúvidas e por ansiedade frente ao desejo pela compreensão da obra como um todo

A sugestão de um casamento entre uma mulher branca e um homem negro que, como verdadeiro líder, comanda os seus seguidores. Um aparente soldado, cuja ambição é destroçada ao constatar o posto que anseia escalar, ser dado a um outro homem. Uma mulher que se rebela como se somente em respeito aos seus instintos. A desconstrução da ordem definindo os rumos de uma tragédia.

Tendo como meta promover encontros criativos e fomentar processos artísticos através de um programa de residências voltado para produtores culturais e artistas, em um ambiente amigável às articulações de novas redes de colaboração criativa, uma casa do início do século XX - tombada por decreto específico em área de proteção de ambiente cultural, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde, atualmente, se encontra instalada a Casa Rio – abre as suas portas ao público teatral para uma experiência imersiva, interdisciplinar e intercultural, a partir da montagem de uma instalação performativa, configurada segundo uma situação espacial específica para aquele local e fundamentada no conceito de Site Specific, através do espetáculo ”S’Blood”.

A montagem faz parte da linha filosófica do processo criativo antropofágico do diretor Renato Rocha, cuja carreira internacional se caracteriza pela intervenção de espaços de criação como interface, plataforma de diálogo e local de concentração de diversos segmentos de expressões de arte. Sua transgressiva direção borra as fronteiras da nitidez e das certezas não estabelecidas, provoca sentimentos de desestabilização e de deslocamento entre realidade e ficção, e promove tensões geradas por dúvidas e por ansiedade frente ao desejo pela compreensão da obra como um todo.

Desconstruindo a configuração de palco e plateia, Rocha projeta o espectador em meio ao desempenho performático dramatúrgico experimental, sem qualquer condução que contrarie o seu livre arbítrio de como percorrer os cinco cômodos da Casa Rio e, consequentemente, definir a construção de sua própria dramaturgia, de acordo com o roteiro escolhido, com o seu olhar e da sua interação com a obra, formulando o seu final de acordo com o que foi vivenciado durante o espetáculo.

Produto de pesquisa artística de Rocha, “S’Blood” é concebido a partir de umas das mais comoventes tragédias shakespearianas, ‘Othello – o Mouro de Veneza’, impregnada de amor, de ciúme, de inveja, de traição e de preconceito racial.

A ilusão promovida pelo olhar seletivo de quem assiste e interage com o espetáculo está intimamente relacionada ao elenco que, embora composto por Camila Santanioni, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Edu Ibraim, Gabriel Delfino Marques, Gabrielle Novello, Joana Poppe, Miguel Malahary, Priscila Soeiro, Renan Fidalgo, Stella Brajterman e Tatyane Meyer, também conta com a participação indissociável do espectador que, ao se misturar ao elenco, é capaz de inflacionar a ficha técnica em proporção geométrica aos olhos que confundem quem é quem em meio a ilustres desconhecidos personagens do palco e da vida real. Os momentos exponenciais do drama são reiterados segundo um sensual balé de corpos sob a direção de movimento de Tony Rodrigues, que impinge a farsa ao desviar os olhares externos sedentos por respostas. Enquanto que o desenho de luz de Renato Machado interage com a instalação de Fernando Mello da Costa e Renato Rocha, ao estimular o sentido da visão e definir uma razão para o que parece renascer a cada instante - através da noite, da desordem, da anomia e do caos instaurado em um lugar selvagem - a audição dos nômades  espectadores é capturada pela instalação sonora de Daniel Castanheira que atua no subconsciente como um entorpecente que, juntamente com estímulos olfativos, é capaz de embriagar e promover dependência até o final do espetáculo. Tarsila Takahashi assina o figurino influenciado pelo signo da maldade, sob o qual nascem todos os personagens.

O produto final concebido por Renato Rocha não denuncia a negritude ou a denegação ao ocultar a hipocrisia muda e a religiosidade cega, mas revela a falha da virtude ao expor a visibilidade entre espectadores, lhes oferecendo uma genuína reflexão sobre as verdades dominantes daqueles que acreditam somente naquilo que não se pode enxergar.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas


Uma deliciosa e reflexiva bobagem – da mesma forma que um peidinho é capaz de provocar frouxos de risos nas crianças e o consequente agradecimento, a partir do seu público adulto

Amor, aceitação das diferenças e tolerância às divergências se mantém como viés filosófico incutido a animação “Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas”.

A grande sacada do terceiro filme da franquia infantil é a apresentação de Abraham Van Helsing – o inimigo número um de Drácula – cuja missão de vida é exterminá-lo, juntamente com seus amigos monstros, sem nunca ter êxito em suas tentativas. Em uma dessas ocasiões, Drácula reflete sobre o fato de nunca mais ter se apaixonado novamente, desde a perda de sua amada esposa. Erroneamente, sua filha Mavis toma a tristeza de seu pai como exaustão e stress devido ao seu trabalho junto ao Hotel e despacha toda a família e seus amigos em um cruzeiro monstruoso, como solução anti estresse para Drácula.

Genndy Tartakovsky, que assina a atual direção, da mesma forma que as duas anteriores, não adiciona qualquer novidade à história, mas somente trabalha o roteiro que se passa em um ambiente externo ao Hotel. Mas por incrível que possa parecer, Tartakovsky dá continuidade à sua proposta de fazer da franquia uma deliciosa e reflexiva bobagem – da mesma forma que um peidinho é capaz de provocar frouxos de risos nas crianças e o consequente agradecimento, a partir do seu público adulto.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Todo Dia


Arrisca em lançar holofotes sobre a ideia de que a essência de um ser não deve estar, obrigatoriamente, ligada à sua aparência física

‘A’ – um ser que, a cada raiar de um dia, toma posse de um corpo diferente, assume uma nova vida, se insere em um núcleo social distinto em localidades geográficas diversas. Por um dia inteiro, ‘A’ se apropria da vida de indivíduos que jamais se lembram do que com eles ocorreu, desde o momento em que foram possuídos por ‘A’.  Findo o ciclo de possessão de vinte e quatro horas, a criatura ignora quem será o próximo indivíduo cujo corpo ocupará, mas, somente, que terá, como ele mesmo, dezesseis anos de idade. Durante uma de suas possessões, ‘A’ conhece a estudante Rhiannon (Angourie Rice) por quem se sente atraído. Rhiannon, por sua vez, acredita desfrutar do melhor dia de sua vida, ao assumir o rapaz possuído por ‘A’ como sua paixão colegial. Mas a partir do fato de que ‘A’ pode permanecer no corpo de uma pessoa somente por vinte e quatro horas, o possessor em série busca arrumar subterfúgios para manter seus encontros com Rhiannon, tomando para si o corpo de outros indivíduos, independentemente de seu gênero.

Baseado no livro homônimo de David Levithan, “Todo Dia” é um longa teen contemplando argumentos complexos – em alguns momentos, abordando oportunas questões filosóficas sobre identidade de gênero, causa LGBTQ+ e saúde mental. Contudo, a história se perde na adaptação de Michael Sucsy que complementa a narrativa com furos impertinentes e clichês dispensáveis – mesmo levando-se em conta o roteiro de Jesse Andrews, que se arrisca em lançar holofotes sobre a ideia de que a essência de um ser não deve estar, obrigatoriamente, ligada à sua aparência física.

Ao sondar a natureza humana, “Todo Dia” se desfaz ao longo de sua projeção, permitindo que, quem não leu o livro, acredite que a protagonista não passa de uma adolescente esquizofrênica e, sem provocar empatia por ‘A’, tira do espectador o grande barato de imaginar a suposta aparência do espirito flutuante, segundo suas próprias crenças e histórias de vida.

domingo, 8 de julho de 2018

Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?


Assistir a “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” não basta – é necessário degustá-la e levar consigo a adorável sensação de que acabara de saborear o seu doce predileto ou, até mesmo, de experimentar os efeitos de uma droga obcecante

A crescente indústria em meio aos canais de multimídia e às redes sociais, dedicada ao suporte de encontros interpessoais, ao aprimoramento da forma de expressar sentimentos e à conservação de relacionamentos que se encontram na trilha do insucesso,  deixa a cargo do fiel da balança, o equilíbrio entre individualismo pseudo libertador e desapego em nome do amor – um dualismo presente no título do espetáculo “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” que, essencialmente, é definido por uma questão de escolha. 

O texto, baseado nos argumentos de Claudia Wildberger e Yuri Ribeiro, discorre sobre o amor, que mistura a ficção com a história de suas próprias vidas, imerso em uma atmosfera impregnada de humor, de romantismo, de poesia e de ternura. Concebido de forma lúdico circense, o espetáculo conta com a experiente direção de Jorge Farjalla, que imprime a real intensidade dos pensamentos intrusivos, a dependência emocional e o brilho no olhar que aborda as várias etapas do relacionamento dos protagonistas – Andrea, com 52 anos e Daniel, com 27 – interpretados por Paula Burlamaqui e Yuri Ribeiro, respectivamente. Ambos desempenham seus papéis, com elevado grau de interação fluida, ao darem vida ao casal estável que valoriza a relação monogâmica. Atuando como antagonista, dentre outros personagens coadjuvantes, Vitor Thiré vive Caio, filho de Andrea, que não vê com bons olhos o relacionamento da mãe com um homem com idade de ser seu irmão. Alimentando a realidade com o imaginário de Farjalla, o ator, palhaço e músico Jujuba Cantador se impõe nas cenas musicalizadas por uma diversidade de instrumentos, como um cicerone responsável por amenizar o drama vivenciado pelo casal – um estimulo a ser provocado pela diuturna trilha sonora de João Paulo Mendonça que se faz presente desde o acesso dos espectadores à sala de espetáculos, em franco preparo à incitação do desejo, do prazer, da felicidade e do amor compensatório, segundo o dito popular: "dou-lhe o pão em troca de um beijo".

O status transferencial canalizado pela direção de arte e da concepção cenográfica de José Dias atribui um caráter sublimativo de resgate da origem dos protagonistas – à frente de um fundo infinito negro enevoado, um panejamento tratado como desgastadas lonas de circo definem os limites das páginas de um livro pop-up de onde saltam, aos olhos dos espectadores atentos, personagens estruturados por dobraduras como se tomados pela missão de uma fábula, lhes fossem transmitida uma lição de moral a ser decodificada ao longo da vida de quem a lê. Em consonância com a irretocável identidade visual do espetáculo concebida por Farjalla, o figurino, também de sua autoria, e o visagismo de Rosa Bandeira, atuam como elementos responsáveis por transportar os personagens ao mundo imaginário cobiçado como instrumento da transformação de um sonho em realidade. Assumindo o ofício de folhear as páginas do livro do diretor do espetáculo, o desenho de luz cênica de Jacson Inácio e Vladimir Freire, desenvolve harmonicamente os estágios do desejo, da paixão e do amor e, de maneira complexa, influenciam na overdose de dopamina à qual o espectador é exposto ao desfecho do romance, muito em função da construção de cenas com sutil doses de surrealismo .

Assistir a “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” não basta – é necessário degustá-la e levar consigo a adorável sensação de que acabara de saborear o seu doce predileto ou, até mesmo, de experimentar os efeitos de uma droga obcecante capaz de estimular a formulação de uma resposta convincente à indagação título do espetáculo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Homem-Formiga e a Vespa


Longe da intenção da Marvel em posicioná-lo no patamar de heróis já consagrados pelas suas superações e ideologias


Dois anos após o apoio dado ao Capitão América em “Guerra Civil”, Scott Lang (Paul Rudd) cumpre a sua pena de privativa de liberdade domiciliar, ao mesmo tempo que tenta equilibrar as suas atividades como pai e os seus compromissos com a sua empresa de segurança. Acontece que, mais uma vez, Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) e Hank Pym (Michael Douglas) precisam de sua ajuda na busca de um fantasma do passado, mas sem saber da existência de Fantasma (Hannah John-Kamen) – causadora de muitos problemas naquele momento.

A direção burocrática de Peyton Reed, aborda questões de ordem familiar e de sobrevivência individual, o universo do longa “Homem-Formiga e a Vespa” é delineado segundo um perfil anedótico e longe da intenção da Marvel em posicioná-lo no patamar de heróis já consagrados pelas suas superações e ideologias.

A Noite Devorou o Mundo


Analisa, de forma psicanalítica, postulada no horror de se estar vivo


Um filme ambientado quase que, inteiramente, dentro de um prédio de apartamentos em Paris onde, a concepção do  novato diretor Dominique Rocher, repleta do conceito minimalista, impõe a arte zumbi de maneira a não provocar horror, muito menos mal-estar, mas exercitar o pensamento a capacidade de se viver em um mundo interior e, com isso, abrir mão do que há no mundo exterior.

O longa “A Noite Devorou o Mundo” tem início em uma festa no flat da ex-namorada do protagonista.  Esse, bêbado, procura por um recanto como local de isolamento e, ao encontrá-lo em um quarto nos fundos do imóvel, ali se tranca e adormece. Para a sua surpresa, no dia seguinte, Paris parece ter sido tomada por zumbis que são atraídos por som e por movimento e destroem tudo que lhes atravessam o caminho.

O filme degusta a passividade e as amarguras do protagonista ao enfrentar suas crises existenciais, alheio quanto à sua real situação naquele momento.  Como em um porto seguro, o solitário prédio no qual ele tenta sobreviver, o faz sentir protegido de tudo que há de ruim no mundo exterior. Ao não apresentar imagens impactantes, e valorizar a fotografia como expressão artística, contemplativa e controversa da natureza humana, “A Noite Devorou o Mundo”, com a sua abordagem incomum, analisa, de forma psicanalítica, postulada no horror de se estar vivo.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Mulheres Alteradas



Reconfigura, de maneira aparentemente proposital, a caricata visão descolada do lugar da mulher na sociedade contemporânea



Regado de muito bom humor, um seleto rol de problemas cotidianos, que parecem ser exclusividade do gênero feminino, é tratado no longa “Mulheres Alteradas” – inspirado nas HQs homônimas da cartunista argentina Maitena Burundarena. Embora o título possa sugerir que o longa tenha assumido uma abordagem totalmente direcionada às mulheres, uma expressiva legião de marmanjos se entregará à atmosfera hilariante promovida pelas situações criadas pelas protagonistas, interpretadas por Deborah Secco, Alessandra Negrini, Monica Iozzi e Maria Casadevall.

 A adoção dos diálogos nos moldes dos quadrinhos de Burundarena, pela direção de Luis Pinheiro, reconfigura, de maneira aparentemente proposital, a caricata visão descolada do lugar da mulher na sociedade contemporânea, ao explorar a perspectiva feminina por meio das personagens divididas entre os afazeres domésticos, o desenvolvimento profissional, o convívio com o marido, a dedicação à família e, sobretudo, a falta de satisfação contemplando as suas rotinas.

 A obcecada realização profissional como meta de vida, a crise no relacionamento entre marido e mulher, o tédio em meio à rotina familiar e a falta de relacionamento afetivo e de perspectiva de construção de seu próprio núcleo familiar como fator de exclusão social são dramas vivenciados por cada uma das personagens que remetem a situações muito semelhantes capazes de serem identificadas pelos espectadores como sendo parte de suas próprias vidas – fazendo cumprir, “Mulheres Alteradas”,  o papel de comédia inteligente e salutar.


sábado, 30 de junho de 2018

Um Tom de Saudade


Uma aura familiar, um encontro entre amigos e um brinde aos fãs e a uma nova geração de ouvintes das obras do maestro Tom Jobim


Um tributo a Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é a missão do projeto “Um Tom de Saudade”, que acontece na noite de 29 de junho de 2018, no Teatro Clara Nunes, bairro da Gávea, Rio de Janeiro – produzido, de forma lapidar, por Maria Braga Produções Artísticas.

Em um palco desprovido de recursos cênicos, mas somente a necessária luminotecnia cênica comedidamente dosada e o desenho de som, tão confortável para os instrumentistas e vocais quanto para a plateia, os maestros Rafael Barros Castro (piano e voz) e Jaime Alem (violão e voz) – responsáveis pela direção musical do show – acompanhados pela cantora Nair Cândia e pelo quinteto de cordas da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro (OSRJ) composto por André Cunha (violino I); Leonardo Fantini (violino II); Bernardo Fantini (viola); João Bustamante (violoncelo); e Cláudio Alves (contrabaixo acústico) apresentam dezesseis canções de Tom Jobim, dentre elas: ‘Chega de Saudade’, ‘Insensatez’ e ‘Anos Dourados’ que se misturam a outros sucessos instrumentais –  todos com arranjos exclusivamente criados para o show, assinados por Castro e Alem.

A proposta de levar a configuração de “Um Tom de Saudade” para uma casa de espetáculos como o Teatro Clara Nunes, cuja vocação é consagrada pelas peças de teatro e musicais, resulta em uma plateia lotada – da mesma forma que já ocorre em outros espaços voltados para a execução de música e realização de shows – em plena noite de quinta-feira e que, ao final do espetáculo, deixa o estabelecimento proferindo comentários mais que elogiosos,  sob o encantamento da experiência musical a que foi submetida.

A abrangência da seleção musical e a maneira descontraída com a qual os dois maestros conduzem o espetáculo, conseguem criar uma aura familiar, um encontro entre amigos e um brinde aos fãs e a uma nova geração de ouvintes das obras do maestro Tom Jobim.