Counter

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carmen


O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios

Dotada de profusa carga de criatividade na adaptação do roteiro e de sensualidade emanada pela triangulação amorosa definida pela linha mestra do argumento, a mais nova versão da trágica ópera francesa “Carmen” conta com a performance e a beleza de Natalia Gonsales que incorpora a protagonista, mantendo-se afastada do estereótipo de diva – o que confere à sua Carmen, um apelo que aproxima o espectador de uma realidade palpável. O segundo vértice do triângulo é ocupado pelo charme natural e generosamente doado por  Flávio Tolezani ao seu extremado José – cabo do exército enlouquecido por um sentimento desgovernado e passional. A formatação do relacionamento é definida pela virilidade do toureiro – o grande amor de Carmem – incorporado por Vitor Vieira.

Sob a espontânea e instintiva direção de Nelson Baskerville, o espetáculo é esculpido de modo a promover, ao espectador, impactos que vão muito além da obviedade de expressões faciais e de movimentos corporais já explorados em produções à luz do mesmo tema. Notavelmente, a viciosa e egocêntrica lascívia emanada pelos personagens torna-se fascinante através do olhar de Baskerville.

A direção de movimento e a coreografia de Fernando Bueno define um dinâmico bailar de corpos ao longo de toda a dramatização, com marcações de cenas e de bailado que explora a totalidade do palco com requintes de composição cênica, para o deleite do olhar do espectador. Ameaçado de privação de seu fôlego, o público acompanha a história de uma mulher sensual e independente, que seduz José a fim de aliciá-lo para a prática do contrabando. Cego de amor, José se entrega a Carmem e se permite mergulhar em um relacionamento amoroso triangular fadado a um final trágico.

Fomentando o drama, a trilha sonora de Marcelo Pellegrini reage à explosiva química entre Carmem e José e preenche a sala de espetáculos com retumbante flamenco, com potencial inebriante sobre todos os espectadores. A concepção do projeto cenográfico funde plateia e palco, aproxima público e personagens através de elementos simbólicos, muitos deles, artisticamente artesanais, conferindo intensa tridimensionalidade às cenas em comum união ao desenho de luz –  ambos assinados por Marisa Bentivegna – que incinera os espectadores com o fogo da paixão, asperge o sangue da tragédia por toda a sala de espetáculos, e chicoteia cada um dos presentes com jatos de areia que cobre as arenas da vida. Tecidos selecionados segundo textura, cor, transparência e densidade são moldados, recortados e costurados em obediência ao figurino concebido por Leopoldo Pacheco e Carol Badra e repousam sobre os corpos esculturais do elenco.

“Carmen”, com seu feminismo tácito contido, chega ao espectador como algo trágico e fatal. O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Legalize Já



Fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock

Uma história ocorrida na década de 1990 – contemplando problemas financeiros, gravidez não planejada, conflitos familiares e opressão policial – é resgatada segundo um olhar que, de tão atual, acaba por conferir aos fundadores do grupo ‘Planet Hemp’ uma significativa parcela de responsabilidade pela luta contra o preconceito e pela quebra de paradigmas.


“Legalize Já” leva para as telas do cinema uma visão em preto e branco, com toques de sutil cromatismo aguado, a batalha de um vendedor ambulante pela sua sobrevivência, através da venda de camisetas tematizadas segundo o mundo do Rock. Em um extremo, Marcelo divide sua luta com o amor que sente por sua namorada grávida; no outro, acrescenta ao seu esforço, um pai que faz de tudo um pouco para colocá-lo para fora de casa.

Em meio a essa peleja, o capricho da vida faz com que a sua trajetória cruze com a de outro jovem envolvido em constante conflito com a PM – um jovem que não se permite entregar-se ao derrotismo e que canaliza todo o seu potencial de investimento em paixão e amizade para o seu mais recente companheiro de vida dura. Fruto desse acaso, nasce a parceria de Marcelo (Renato Góes ) e Skunk (Ícaro Silva ).

Assinada por Pedro Cardillo, a fuscalva fotografia, concebida a partir de sólida veia artística, confere à trama uma aspereza poeticamente realista, desenhando a ascensão de jovens discriminados que vivem à margem de uma sociedade que os encara como mero delinquentes. A ousada e concisa direção de Gustavo Bonafé e Johnny Araújo manda o recado, sem conferir à obra uma essência biográfica, mas uma história nos moldes de fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock, explicitamente posicionado a favor da legalização da maconha.

Um prato cheio para debates sobre os pós e os contras à liberação da maconha e para muita divergência sobre o assunto.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nasce uma Estrela



O inovador olhar do diretor e ator Bradley Cooper para o clássico “Nasce uma Estrela” desfoca a leitura reducionista contida em uma trivial história de amor entre duas pessoas, insistentemente presente nas quatro versões anteriores que fazem parte da galeria de sucessos do cinema, desde o lançamento de “A verdade sobre Hollywood”, dirigida por George Cukor em 1932.

Embora seja evidente o engessamento do argumento que alimenta as cinco versões, a excelência contida na adaptação do roteiro para os dias atuais – em espantoso franco contraste com a versão de quarenta e dois anos de idade, dirigida por Frank Pierson – manipula o lugar comum de mais uma frustrada tentativa de um “e viveram felizes para sempre” – metamorfoseia envolvimento amoroso fruto de paixão desmedida em admiração mútua sustentada pela maturidade conquistada por intensa experiência de vida.

Ancorado por uma trilha sonora capaz de suprimir o fôlego do espectador – definida por clássicos, tais como “La Vie En Rose”, “Somewhere Over The Rainbow” e versões exclusivas para o filme – o longa conta a história de um guitarrista e cantor de meia idade, reconhecido por sua consagrada carreira e uma talentosa jovem aspirante ao estrelato dos palcos como cantora e musicista, conferindo uma atmosfera nostálgica porém, digna de Oscar, graças ao desempenho de Bradley Cooper (Jackson Maine) e Lady Gaga (Alli) que traduzem, apenas no olhar, o que está contido nas entrelinhas desta adaptação da obra original de William A. Wellman – notório diretor, produtor e consultor cinematográfico cuja produção se deu, em sua grande maioria, na primeira metade do século XX.

O casual encontro dos protagonistas Maine e Alli reage com potencial químico em igual proporção à empatia e entrosamento profissional de Cooper e Gaga. Enquanto Alli ascende ao estrelato – impulsionado pela admiração e pela confiança mútua que envolve a relação do casal – Cooper se entrega ao ostracismo, em função de sua dependência de drogas psicoativas. A autenticidade do roteiro é sólida o suficiente de modo a encantar o espectador que, certamente, se renderá ao cavalheirismo com que Cooper interage com Gaga que, por sua vez, se despe da sua própria fama para fazer nascer uma nova estrela de Wellman, pela quinta vez.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Venom


Aponta para uma tendenciosa franquia meia-bomba


Na contramão das expectativas do público MARVEL, o personagem ficcional das histórias em quadrinhos na série do Homem-Aranha – “Venom”, que deveria ter sua origem revelada como um supervilão, se apresenta como um anti-herói – um ser fracassado conforme definido pelos demais seres de sua espécie.

A abordagem radicalmente díspar da direção de Ruben Fleischer, contra o que vem sendo estabelecido pela Marvel ao formular o seu universo cinematográfico, não confere ao filme o status de uma obra consistente. Conta a história do jornalista investigativo Eddie Brock (Tom Hardy) que tem como objetivo detonar o bilionário Carlton Drake (Riz Ahmed) – dono da Fundação Vida e responsável pelo programa espacial para encontrar curas para os males da população e para a mudança climática. O simbionte alienígena passa a ser grande cartada de Drake, até o momento que o material orgânico mole se funde ao corpo de Brock, transformando-o em um hospedeiro perfeito e escravo de seus desejos.

De forma lamentável, com desenrolar do roteiro, a película assume o viés de algo similar a um estudo sobre o caráter humano – a despeito da ação, da ficção científica, do suspense e do terror propostos pela MARVEL – que aponta para uma tendenciosa franquia meia-bomba.

Juliet, nua e crua


Uma combinação de farsa com psicodrama

Em uma pacata cidade litorânea na Grã-Bretanha, vive Annie (Rose Byrne) – uma mulher cuja rotina é ditada por um emprego desmotivador; uma mulher integrante de um núcleo familiar dividido com uma irmã amante da liberdade; uma mulher que se entrega a um relacionamento amoroso contemplando um namorado impassível.

É visivelmente desoladora a complacência de Annie frente a um homem que a repreende pelo simples fato de não admirar o que ele, de fato, aprecia –  no contexto da película, o objeto passível de admiração por parte dele e de, minimamente, indiferença, por parte dela trata-se de um misterioso cantor e compositor chamado Tucker Crowe (Ethan Hawke) que, há muito, não faz sucesso. O hit mais conhecido do artista ressurge após 25 anos o seu lançamento no meio musical, através de uma gravação demo com a versão acústica de ‘Juliet, Naked’,  criticada por Annie em um fórum digital dedicado ao músico. Ao receber um e-mail de Crowe a protagonista é surpreendida e, ao mesmo tempo estimulada a se aprofundar na busca de informações sobre o artista.

O longa é acometido pela apática direção de Jesse Peretz, que se baseia no livro homônimo de Nick Hornby. “Juliet, nua e crua” coloca todos os aspectos familiares previsíveis de tal forma a sufocar o espectador com as frustrações, com a raiva e com a ironia da empatia, fazendo do filme uma combinação de farsa com psicodrama.  


sábado, 29 de setembro de 2018

INTERVENÇÕES Bradesco ArtRio




“Monumento ao Monumento” está dentro do projeto INTERVENÇÕES Bradesco ArtRio.

Uma exposição de arte com obras de grande escala que acontece na mesma semana que a ArtRio, vai ocupar o Complexo Turístico Bondinho Pão de Açúcar até o dia 30 de setembro de 2018.

A mostra terá 10 obras de artistas contemporâneos em um dos mais conhecidos cartões postais da cidade,

A curadoria da mostra é de Ulisses Carrilho.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Crimes em Happytime



Uma obra embaraçosa e fora dos limites da moralidade habitué

Uma evidente paródia de clássicos do cinema noir – “Crimes em Happytime” é um filme de fantoches e de ação, com muito estilo. A assinatura de Brian Henson na direção não remete aos filmes dos Muppets por mera coincidência.  Henson é filho de Jim e Jane Henson – os criadores dos fantoches mais célebres de todo o planeta.

A premissa do longa inicia com a opressão sofrida por fantoches no mundo dos humanos, traçando uma ponte entre a atual política nos Estados Unidos e a condição dos negros no país Norte-Americano. Nesse contexto, vive o primeiro policial fantoche que, após fracassar em uma missão, é expulso da corporação e passa a sobreviver como detetive, em um pequeno escritório. Após a visita de uma fantoche extravagante e sedutora, que paga pelos seus serviços de investigação, dá-se início à ocorrência de estranhas mortes em Happytime.


O filme torna-se repulsivo ao abarrotar, com violência explícita, as atrocidades feitas com os fantoches, introduzindo diálogos racistas e os estereótipos femininos e L.G.B.T.Q. Dessa forma, “Crimes em Happytime” assume o status de uma obra embaraçosa e fora dos limites da moralidade habitué.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Pé Pequeno


A ousadia e a coragem de Kirkpatrick, merece mais do que um simples agradecimento por parte dos progenitores que levam sua prole para assistir “Pé Pequeno”

Ao encaminhar ao público do cinema, com muita sutileza, a mensagem de que a ortodoxia deve sim, ser questionada e subvertida, a animação “Pé Pequeno” celebra a razão, a verdade que faz parte do credo de cada indivíduo e a civilidade da aceitação do que se apresenta diferente aos olhos de quem vê, mas não compreende.

O longa conta a história de uma civilização composta por uma espécie de ser conhecido como ‘Yeti’, ‘Abominável Homem das Neves’ ou ‘Pé Grande’ – denominações que diferem entre si em função da origem da lenda, da época em que surgiu o mito e da cor da pelagem da criatura. O preceito contido no argumento da obra parte de um Yeti chamado Migo, cuja índole o conduz na contramão do que todos os seus semelhantes aceitam como verdade sobre os seres humanos, a partir dos ensinamentos de seu líder.  Após testemunhar os fatos decorrentes de um acidente aéreo, no qual um ser humano estava presente, Migo tenta defender a sua tese – mesmo sob o risco da desconstrução do credo secular de seu povo sobre sua origem e de sua relação com a espécie humana.

A surpreendente direção de Karey Kirkpatrick – que se mostra contida na primeira parte do filme, mas que desabrocha em um turbilhão de visões e de ensinamentos – brilha na medida em que defende o questionamento da ordem dominante e das regras escritas que se assemelham a mandamentos gravados em pedra por dedos divinos, que parecem promover o surgimento de facções, mais do que grupos religiosos. A ousadia e a coragem de Kirkpatrick, merece mais do que um simples agradecimento por parte dos progenitores que levam sua prole para assistir “Pé Pequeno” em demonstração de estarem cientes de que seus pimpolhos são seres pensantes e que não há mais espaço para histórias sem fundamentos para explicar o sentido da vida.

A Moça do Calendário


Exige do espectador o sacrifício de explorar o seu colapso pessoal diante do fracasso, da ambição e da eficiência enquanto indivíduo e seus códigos de valores que rompem as barreiras no âmbito do convívio social

Em uma análise que beira o surrealismo, o longa “A Moça do Calendário” retrata, a partir de seus personagens, a imagem de uma sociedade dominadora, narcisista e autorreferente sobre a falta de desejo e a empatia. A direção que crava as unhas na incapacidade de construção de relacionamentos, assinada pela cineasta Helena Ignez, dá início a um processo que sugere um ponto de observação focado na sociedade contemporânea, no trabalho e na política contemporânea do Brasil.

Um jovem mecânico que trabalha em uma oficina de ferro velho, passa os seus momentos de descanso a devanear com a única imagem que colore a sua vida em preto e branco – a foto de uma jovem mulher estampada no calendário fixado na parede da oficina.

O filme impulsiona o ciclo vicioso demarcado pela autopreservação e exige do espectador o sacrifício de explorar o seu colapso pessoal diante do fracasso, da ambição e da eficiência enquanto indivíduo e seus códigos de valores que rompem as barreiras no âmbito do convívio social.

domingo, 23 de setembro de 2018

Bonifácio Bilhões

Limites pré-definidos pela essência de um texto original de quarenta e três anos de idade

A justiça social, levada à reflexão como democracia econômica e social, é passível de definir a essência do espetáculo “Bonifácio Bilhões”, onde o abismo entre classes sociais assume proporções perceptíveis a olhos nus. Tal ruptura, aparentemente racional, não insurge como algo razoável. O texto de 1975, de autoria de João Bethencourt, parece não buscar um lugar comum, mesmo sendo apresentado como uma comédia de costumes. Mas a direção de Marcus Alvisi, ao neutralizar o plausível posicionamento político no texto, também assume um caminho politizado. Conta a história de Walter – um economista de verve pretensamente socialista que ganha um prêmio da loteria de quase 4 bilhões de cruzeiros. Ao contrário do que prometera ao humilde profissional de vendas Bonifácio, na fila da lotérica, Walter não divide com o vendedor o prêmio. Para isso, o pseudossocialista foge do proletariado, que o persegue, em busca do cumprimento do que lhe fora prometido.

Conduzido pelo seleto elenco composto por Fernando Ceylão, Flávia Monteiro e João Camargo, o espetáculo recebe pontual e limitada cota de comicidade que, apesar de ser bem explorada pelo trio de atores, na medida em que lhes foi possível, se mostrava balizada segundo limites pré-definidos pela essência de um texto original de quarenta e três anos de idade. A concepção do desenho de luz de Marcus Alvisi e Carlos Lafert se mostra superficial e sem sinais de evolução voluntária, com passagens de cenas repentinamente abruptas e tão inexorável quanto a encenação do texto. O cenário e o figurino assinados por Cláudio Tovar, a partir de visível qualidade técnica e plástica, não são explorados na proporção do seu potencial ao longo do espetáculo, como se alheios ao seu papel interativo junto aos personagens. Até mesmo a trilha sonora de Marcus Alvisi reflete um ranço de uma desestrutura geral da concepção de um todo – muito possivelmente, por questões ligadas à voluntariedade, mas longe de razões denunciadas por incapacidade.

Sem retórica demagógica e sem abonar a carência de um esforço adicional, mais que merecido, por um “Bonifácio Bilhões” de João Bethencourt, o espetáculo dirigido por Alvisi reforça a matriz factual implementada na visão político social de cada um dos espectadores, ressentida pelo não cumprimento de uma promessa que não se traduz em dívida, mas em dúvida – como já dizia Fábio Jr.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Sabe Quem Dançou?


Se faz necessário ao conduzir o espectador à releitura e ao questionamento de suas próprias crenças, de seus valores herdados, do moralismo de ocasião e do preconceito travestido de liberdade de expressão

Diferenças subgrupais, datadas dos idos anos de 1980 – que rotulavam efeminados, bombados, ursos, maduros, drag queens, travestis, bissexuais, lésbicas, homossexuais, enrustidos e, simplesmente, entendidos – definiam guetos distintos, voluntariamente imiscíveis. Em meio a essa diversidade de papéis, nada fictícios, brota a personagem Madonna – um receptador de objetos roubados, que “ampara” homens jovens em sua casa.

A partir do intrigante texto de Zeno Wilde, o espetáculo “Sabe Quem Dançou?” aborda temas que envolvem fanchonos, michês, milícia, furto, receptação e homicídio. Em cena, um desfile de personagens e suas mazelas são contextualizadas em total sintonia com a atualidade, onde o desrespeito às minorias é identificado na política em nome de Deus, dos menores desamparados e da família.

A discriminação que parte dos ‘vigilantes da moral e dos bons costumes’ assume uma postura provocante na direção de Hermes Carpes que, por sua vez, também provoca um choque de realidade com a sua interpretação como protagonista da história, em conjunto com a fiel reprodução do habitat gay underground – cuja concepção cenográfica também é de sua autoria.  A desconstrução compulsiva da heterossexualidade é garantida pelos másculos personagens que orbitam o protagonista como satélites descartáveis, interpretados por Ronaldo Spedaletti, Saint-Clair de Castro e Alexandre Amaral, que interpelam a sociedade responsável pela criação de padrões tomados como ‘normais’ segundo o egocentrismo e prepotência daqueles que a comanda. As positivas referências, delimitadas pelo sadio e pelo depravado, são delineadas, com precisão, pelo visagismo de Max Vitor que carrega na tinta a consciência da imagem que rotula o homossexual como um ser ‘pecador’, em sintonia fina com o figurino assinado por Nonna Vintage, que associa a feiura do preconceito à beleza. O discurso dominante de cumplicidade do protagonista com seus jovens é ampliado pelas músicas de Louise Veronica Ciccone – Madonna, a partir de uma sonoplastia quase marginal de Flavio Toda, amplificado a tal ponto capaz de manter o espectador em involuntário estado de vigília. Os preconceitos heteronormativos, mesmo presentes em uma plateia diversificada, podem parecer ‘normais’ porém, não se perpetuam diante do tímido  desenho de luz de Drigo de Lisboa - que somente mostra para o que veio, quando da interação de Carpes com o espectador, a partir de quando os conceitos de luminotecnia cênica dão sinais de vida, necessária para promover a reflexão sobre a sexualidade, como um dos aspectos culturais da sociedade.

Os valores introjetados pelo preconceito só fortalece a homofobia e, um espetáculo como “Sabe Quem Dançou?” se faz necessário ao conduzir o espectador à releitura e ao questionamento de suas próprias crenças, de seus valores herdados, do moralismo de ocasião e do preconceito travestido de liberdade de expressão.

Salto no Vazio


A plasticidade acelerada e pouco elaborada isola a história em um labirinto de solidão e, até mesmo, desolação

Após a Segunda Guerra Mundial, o artista plástico francês Yves Klein – cuja totalidade da obra e de sua proposta de novas formas de fazer arte, se caracteriza pelo seu cunho experimental e pelo seu percurso pelas mais diversas formas de manifestações artísticas, tais como: pintura, literatura, fotografia e música – desponta como uma importante figura da arte europeia, tendo sido aclamado como um dos percursores da pós-modernidade.

O casal Cavi Borges e Patricia Niedermeier presta uma singela homenagem a Klein em seu mais novo filme – “Salto no Vazio”, título alusivo ao de sua obra mais conhecida – ‘Saut dans le vide’, explorando, não somente, o compartilhamento do  experimentalismo artístico contemporâneo com o foco na potência poética pelo artista, mas também a imagem do homem em queda, inserida no cartaz do longa nacional.

“Salto no Vazio” se apresenta como um diário de viagens, dividido em capítulos, com títulos baseados em cartas trocadas por um casal intensamente apaixonado. Ela, uma cineasta que deixa o Rio de Janeiro a caminho de Cannes, local onde se conhecem e pretendem se casar. Ele, repórter em Aleppo, Síria, realizando a cobertura fotojornalística dos terríveis conflitos que têm assolado a região.

Especialistas sugerem três palavras para resumir as obras de Klein: cor, corpo e imaterial.  Cavi e Niedermeier se apropriam desse conceito e expandem as palavras em expressões corporais, dança e imagens, durante toda a projeção.

A plasticidade acelerada e pouco elaborada isola a história em um labirinto de solidão e, até mesmo, desolação – segundo proposta de ficção mesclada com autobiografia. O resultado final se apresenta como uma das obras de Heráclito que a protagonista declama parcialmente e com livre adaptação – ‘Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio’ – do original que se aproxima da descrição de todo o longa – ‘Não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; esta se dispersa e se recolhe.”

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Buscando...



O impacto psicológico é a mais tênue dentre as reações que o ambicioso exercício estrutural, conferido ao longa “Buscando...”, sob a direção Aneesh Chaganty,  é capaz de provocar em cada um dos seus espectadores.

O cineasta, abraçando a tecnologia a ponto de lhe conferir um status que a eleva ao nível de protagonista, logo no início da película, simula um login da plateia através da sua possível imediata identificação com os personagens – que tomam os mesmos tipos de decisões, que exercem multitarefas, que abrem sucessivas janelas na tela do computador, que navegam através de uma infinidade de sites simultaneamente e efetuam todas as suas pesquisas online.

Em um breve momento, o espectador assume, involuntariamente, o seu papel em meio aos personagens que não vivem sem seu smartphone, seu notebook, seu tablet e cujas vidas encontram-se backupeadas, integralmente, na nuvem. A concepção central, consistente e inteligente, de “Buscando...” segue os movimentos online de um pai em pânico, na busca pela localização de sua filha adolescente desaparecida. Argumento e roteiro injetam emoção genuína no longa e investe pesado na reflexão sobre e existência humana e seu destino.

A identificação com o pai aflito, diante da omissão de réplica às suas mensagens de texto enviadas à sua filha única, intensifica a tensão e o aspecto ameaçador agregados à película, injetando intensa e crescente carga de fobia àquele progenitor, naqueles que se dispõem a se colocar na sua pele.

A visão de Chaganty, que conduz ao inevitável, faz de “Buscando...”  uma dimensão que não concede lugar para esconderijo – uma experiência inovadora e surpreendente, onde a rotina se resume em se logar e se deslogar.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os Inocentes de Ipanema


Um breve e voluntário luto



Dentre as inúmeras situações que, de fato, endossam a clássica assertiva suassunesca que proclama que “tudo que é vivo, morre”, o funeral se impõe como um evento social exaustivo, enfadonho e temperado, invariavelmente, por forte carga de dissimulação.

De forma burlesca, o espetáculo “Os Inocentes de Ipanema” transmuta a essência religiosa contida no ritual de despedida dos seres humanos que “partem desta para melhor”, em uma agnóstica assembleia cuja presença se impõe como obrigação, a despeito da vontade e da maneira de encarar a vida e a morte por parte de quem se foi – conforme a máxima de John Green, em sua obra ‘A Culpa é das Estrelas’ que sugere que “os funerais não são para os mortos, mas sim para os vivos”. O expressivo texto e a brilhante direção de Fabrisio Coelho processam a perda de um ente, supostamente, querido, como o apoio terapêutico para a prole – a partir de então, órfã – presenteando o expectador, com a vivência de um momento que encerra o ciclo de um ser.

A história da súbita morte da matriarca Brenda de Cândida – moradora do tradicional bairro de Ipanema – abala toda a estrutura da família que não compartilha de momentos em comum por vinte anos. Dessa forma, o funeral promove para os quatro irmãos, o momento de reencontro, de quatro indivíduos – naquela altura, praticamente, quatro desconhecidos. Compartilhando de, aparentemente, infindáveis embaraçosos momentos, Rita Luz, Jefferson Jima, Susana Savedra e Leonardo Gutierrez protagonizam, com mórbida naturalidade humorística, a coadjuvação da totalidade do elenco do espetáculo – fragilizando e divertindo o espectador, ao sugerirem ainda estar sob o domínio da finada progenitora que, mesmo inerte em seu esquife, mantém a sua capacidade de interferir na vida de seus filhos, como se ainda estivesse viva.

O espetáculo, concebido livre das pressões dos dogmas religiosos e familiares, ao permitir a reflexão sobre a realidade que paira sobre a existência terrena e espiritual e sobre o legado post mortem, aponta para a possibilidade de opção por um modus vivendi  e, com isso, enxergar a morte sob um ponto de vista diferenciado, facilitando a sua aceitação como um fato tão natural quanto grotesco se apresenta em meio a um funeral, onde o espectador de “Os Inocentes de Ipanema” se submete a um breve e voluntário luto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Nossas Mulheres


Um espetáculo onipresente, palpável e, até mesmo pérfido, cujo papel principal se faz como o de difusor da questão de violência que está longe de ser cheio de graça


‘Uma mentira que acalma é menos grave que uma verdade que destrói’ – questionável assertiva acolhida pelo despretensioso texto ‘Nos femmes’, de autoria do dramaturgo, diretor e roteirista tunisiano Éric Assous, residente na França. A despeito de seu recente lançamento e de ter sido transportado para o palco do Teatro de Paris em 2013, sob a direção de Richard Berry, o argumento se perde em meio à atualidade uma vez que, de forma evidente, banaliza a violência doméstica e familiar contra a mulher, à sombra de uma perniciosa cumplicidade entre comparsas do sexo masculino.

Classificado segundo o gênero comédia, o texto de Assous ganha a fiel tradução para a língua portuguesa por Beatriz Ittah e, acolhido pela zelosa produção de Maria Siman, “Nossas mulheres” estreia no Teatro Ipanema em 11 de agosto de 2018, sob a minuciosa e precisa direção de André Paes Leme que, mais uma vez, demonstra a sua segurança e habilidade em reger e integrar as disciplinas que compõem a dramaturgia cênica teatral.

Embora o título do texto de Assus tenha um forte potencial para definir uma vertente em prol da exaltação ao sexo feminino –  ou minimamente, às esposas dos três personagens, o conteúdo se perde em meio a um simplório convite ao riso frente a um feminicídio que perde em relevância para a preconização do egocentrismo masculino e para a forma pela qual a soberba é compartilhada entre camaradas.  O roteiro desenha a história de um homem que chega atrasado a um carteado com seus dois melhores amigos, os informa ter estrangulado sua mulher e que precisa da amizade de ambos para que lhe conceda um álibi, mesmo que, para isso, tenham que mentir durante a investigação do caso pela polícia. Ao optar pelo respeito à fidelidade textual em detrimento de uma sedutora e apelativa invocação ao riso fácil, a direção de Leme introduz considerável dose de formalidade a uma reunião de amigos, à base de pizza e vinho, que não passa de uma nauseabunda reflexão sobre os dilemas existenciais e morais do trio de machistas mesquinhos e individualistas.

A comédia encobre as proporções dramáticas dos fatos no interior de um apartamento, nos moldes de um loft industrial, que reflete o estilo e os momentos passados e presentes do anfitrião, a partir de elementos que conferem fidedignidade ao cenário assinado por Miguel Pinto Guimaraes, concebido segundo a austeridade sombria da solidão à três, à dois ou daquela que se presta coabitar com um único solitário. Os argumentos elementares dos amigos ganham destaque individual e coletivo, propagando-se em meio à tridimensionalidade espacial cênica graças ao sucinto e diversificado desenho de luz de Renato Machado que incorpora, com suas nuances, o dilema real do espetáculo – o estrangulamento – e não apenas um simples acerto de contas entre velhos amigos. As insinuações ritmadas com a trilha sonora de Ricco Viana soam cômicas, mas sem perder o seu verdadeiro peso – o da omissão covarde individual e da cumplicidade ideológica coletiva. Esquivando-se do ênfase à essência clichê dos personagens, o figurino de Bruno Perlatto se comporta como o fiel da balança, sem qualquer apelativo caricata tendencioso cômico ou dramático. Hábeis agentes ativos do mágico conteúdo cênico, representando fragmentos do universo comportamental da sociedade e incorporando papéis de maridos, Edwin Luisi, Isio Ghelman e Edmilson Barros promovem momentos de lazer mas, acima de tudo, de reflexões e de alertas no palco de “Nossas Mulheres” – um espetáculo onipresente, palpável e, até mesmo pérfido, cujo papel principal se faz como o de difusor da questão de violência que está longe de ser cheio de graça.

O Predador



O reboot de “O Predador”, que visa à revitalização da franquia de ação e de ficção científica com ideias novas, se limita a promover ação nonsense mesclada com mitologia híbrida.

A ação ocorre na atualidade, deflagrada pela queda de uma nave espacial, controlada por um Predador, na atmosfera terrestre, nas proximidades de um campo de batalha onde um sniper do exército americano – Quinn McKenna (Boyd Holbrook) – lidera uma operação de resgate de reféns da posse de um traficante. Após presenciar a chacina provocada pelo alienígena e consciente de seu destino que as forças armadas americana o reserva pelo fato de ser o único sobrevivente do ataque do Predador, McKenna se apropria dos equipamentos que encontra na nave alienígena, julgados por ele relevantes e os envia para o endereço de sua ex-esposa, visando à  garantia da própria integridade física.

O longa conta com a boa vontade do espectador em encontrar algo que alavanque a direção de Shane Black, combalida pelo o ritmo cansativo e aparentes voluntários cortes de cenas – numa aparente tentativa de provocar, no mínimo, ímpetos de tímidas risadas por parte do espectador, sem qualquer sucesso efetivo.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O Banquete



Um tratado sobre o desejo que induz a tomada de uma direção, mas, não necessariamente, capaz de conduzir a uma meta

Um argumento elementar capaz de deixar espectadores perplexos diante da genialidade contida em meio a sucintos e diversificados estilos na incorporação de papéis.


É assim que uma atípica ‘prisão’ edificada pela burguesia a caminho da decadência pessoal, nos idos anos 1990, serve de pano de fundo para o filme “O Banquete”. A desvelada dinâmica da direção de Daniela Thomas estabelece um acerto de contas entre representantes de uma elite atuante e perpétua, regada à vinho e comidas afrodisíacas que, pouco a pouco, derruba as máscaras e a hipocrisia de cada convidado para tomar parte de um velado e amoral jogo – dentre eles, profissionais da imprensa, representantes das classes artística e política e um assalariado que se presta a, somente, servir à mesa. O cenário é estabelecido em meio a um jantar de comemoração dos dez anos de casados de um editor de uma revista com uma atriz famosa – reunião organizada por uma amiga do casal que, intencionalmente, convida a amante do homenageado, promovendo uma noite tensa, ameaçadora e decisiva para todos os comensais.

As intensões de Thomas transparecem o desenvolvimento de um tratado sobre o desejo que induz a tomada de uma direção mas, não necessariamente, capaz de conduzir a uma meta. O laboratório obscuro e selvagem que o longa aparenta ser é grandiosamente instintivo e, todos os envolvidos, incluindo o expectador – animal humano de situações limítrofes – também se sente no direito de, senão incorporar o papel de mais um dentre os convidados a sentar à mesa, pelo menos mais um a servir a elite brasileira. 




quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Alfa



Cultiva a luta pela sobrevivência física muito além da devoção espiritual

Um jovem e um lobo em uma aventura fascinante – a história épica da gênesis do afeto entre duas espécies é transportada para a tela dos cinemas. O longa-metragem “Alfa”, sob a simples e objetiva direção de Albert Hughes, cultiva a luta pela sobrevivência física muito além da devoção espiritual, retratando a insignificância humana aos pés de um céu selvagem onde as geleiras enfatizam o quanto a natureza pode ser uma divindade arrogante e cruel. A fotografia de Martin Gschlacht e os efeitos visuais impressionam ao registrar um mundo belo e, ao mesmo tempo, traiçoeiro, sob o firmamento repleto de estrelas e contemplando superfícies formadas por gelo e água que reflete um  azul perturbador – uma preciosa ilustração da fábula do jovem Keda (Kodi Smit-McPhee), ferido e deixado para morrer após um acidente durante uma expedição de caça, uma vez, equivocadamente, tido como morto. Ao se dar conta do que acontecera, Keda recorre a todas as suas forças para retornar para a sua tribo. Contudo, antes mesmo que sua meta seja atingida, floresce uma concreta amizade entre o jovem caçador e um lobo, dando início a uma jornada durante a qual a luta contra as intempéries, os predadores, a sede e a fome se faz presente a cada minuto.


A credibilidade tendenciosa contida no longa diz respeito a um jovem beta que aprende com um animal a ser alfa – animal esse que se rende às condições de estimação e subserviência – um franco resgate das origens do ser que viria a se consolidar como o melhor amigo do homem.



quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças


Traça um paralelo entre um reino fictício, arcaico, contaminado por tradições severas e ditatoriais e um país cuja cultura de massa vislumbra a insubmissão e a democracia

O movimento cultural eminentemente brasileiro denominado Tropicalismo durou pouco mais que um ano e chegou ao seu final, reprimido pelo governo militar, culminando na prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, em dezembro de 1968 – uma história que mudou totalmente a cultura do País e que marcou para sempre a descoberta da modernidade ao se aprofundar no som experimental e romper com a passividade de uma geração que vinha almejando a liberdade de expressão.

Em terna homenagem que visa, antes de tudo, preservar a memória de grandes nomes da música popular brasileira, o projeto ‘Grandes Músicos para Pequenos’, leva aos palcos do teatro infantil, mais um inquestionável sucesso: “Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças”. O espetáculo conta uma história que se passa no Reino de Pindorama, governado por uma rainha autoritária que usa o seu poder para baixar decretos que proíbem a execução de músicas e a proliferação das cores no seu império. Contra tudo isso, dois amigos, Caê e Gil, se unem para trazer sons e cores de volta a Pindorama – uma alusão ao movimento tropicalista. Incorporando novas informações e referências de suma importância ao universo infantil, a direção de Diego Morais traça um paralelo entre um reino fictício, arcaico, contaminado por tradições severas e ditatoriais e um país cuja cultura de massa vislumbra a insubmissão e a democracia.

A sincrética e sedutora direção musical de Guilherme Borges, que transcende as diferenças existentes em meio à diversidade de gerações de espectadores presentes na sala de espetáculos, incorpora a mistura sonora às músicas sem a necessidade de serem somente do movimento, mas de autoria de Caetano e Gil. A assimilação do sedutor e instigante texto de Pedro Henrique Lopes pelo público infantil fragmenta a estranheza contraditória de um país desigual frente ao discurso de resistência dos dois amigos. A construção sensível do elenco formado por Pedro Henrique Lopes, Orlando Caldeira, Martina Blink, Rafael de Castro, Flora Menezes e Hamilton Dias – na sua totalidade, comprometido com uma interpretação contagiante – faz do uso da linguagem híbrida munição sofisticada e desenha um panorama crítico ao conservadorismo acentuado e ao falso nacionalismo.

A linha evolutiva contida no cenário e no figurino de Clívia Cohen sugere a temporalidade ideológica e reafirmação cultural vinculada à arte e a uma sociedade justa diante dos olhares dos futuros cidadãos infantis e de seus já combalidos soldados do passado – todos entoando as canções que marcaram época e que ainda conquistam adeptos no presente. O manifestante desenho de luz de Tiago e Fernanda Mantovani dá o tom convergente ao procedimento artístico dos fundadores do movimento vanguardista, dotando-os de consciência e civilidade, marcando momentos de eterna alegria e de levemente sugeridos momentos dramáticos, percebidos pelo público adulto. A explosão de alegria contida no espetáculo conta com o visagismo de Vitor Martinez que evoca a pureza infantil sem banalizar um dos maiores movimentos artísticos do Brasil.

Mais uma vez, percebe-se o respeito que muitas produções pontuais têm prestado, não só ao público infantil, mas aos seus acompanhantes de todas as idades – é o caso do projeto “Grandes Músicos para Pequenos” produzido pela ENTRE Entretenimento que, através do diluído esboço de engajamento político e cultural subjetivado em “Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças” amplia a noção de que a resistência tem que ser aprendida desde o berço.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Vida em Família



Não se arrisca no campo da comédia clássica italiana, não apresenta piadas sujas e não discorre sobre a máfia

“A Vida em Família” não se arrisca no campo da comédia clássica italiana, não apresenta piadas sujas e não discorre sobre a máfia. Ao invés, a direção de Edoardo Winspeare aposta na beleza natural e respectivo potencial para o turismo sustentável, sem deixar de lado os verdadeiros problemas do imaginário município de Disperata.

A história de uma amizade improvável entre o melancólico prefeito da aldeia com dois criminosos de baixíssimo calibre, faz renascer a paixão civil e, com isso, um possível futuro para as questões locais, desemprego, falta de perspectivas e alienação.

Uma película política.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas


O longa constrói o seu principal objetivo – fazer as diversas gerações de espectadores rir de si mesmas e fazer com que não se levem tão à sério

Para os não iniciados, os Jovens Titãs são personagens animados do universo DC – irreverentes por excelência – mais precisamente, pertencentes à Liga da Justiça, dentre os quais, o mais conhecido e ridicularizado é Robin – o ex ajudante de Batman – cujas desventuras são conhecidas no Cartoon Network.

Durante quase noventa minutos de metanarrativa e de muita diversão, o longa “Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas” potencializa as dificuldades dos pequenos semi heróis de conquistarem a sua própria franquia cinematográfica, agravadas após serem barrados na estreia do filme “Batman Again”, onde todos os VIPs – incluindo o protagonista, Superman e a Mulher Maravilha, dentre outros – marcam a sua presença no maior lançamento do ano. Cansados de constatar sua tamanha insignificância diante do público, os Jovens Titãs retornam no tempo e reescrevem as principais histórias de todos os grandes heróis, na esperança de que, com isso, o mundo atual passe a contar com o quinteto como a única esperança de proteção do planeta Terra.

A inteligente direção de Aaron Horvath e Peter Rida Michail alternam muito bem a vertente naïf e as grandes sacadas visando ao público com quilometragem rodada no mundo HQ, sem entediar crianças e adultos, mas garantindo o equilíbrio demográfico tão difícil em se tratando de animação direcionada ao grupo infantil.

Longe de ser um filme projetado para garantir comentários ao seu final, o longa constrói o seu principal objetivo – fazer as diversas gerações de espectadores rir de si mesmas e fazer com que não se levem tão à sério – mesmo que, em breves devaneios por suas vãs filosofias, possam se considerar, mesmo que por um dia, um pouco mais do que meros auxiliares de seu super-herói preferido.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Minha Futura Ex


Tem muito mais a dizer ao público e fazê-lo pensar do que fazê-lo gargalhar


Com a promessa de despertar fortes emoções, o matrimônio passa a falsa impressão de que autoriza àqueles que se curvam ao seu apelo, não levá-lo tão à sério, omitindo, nesse velho ritual, não haver lugar para fantasias quando os incautos despertam em um universo onde o contraditório é o resultado final. Essa insuportável e insustentável verdade é compartilhada por um casal na vida real, ao mesmo tempo personagens fictícios no espetáculo “Minha Futura Ex” que, sem evitar as armadilhas e desarmando o lúdico do relacionamento à dois, Agnes Xavier e Hélio Zachi definem, de forma precisa, a diferença entre a felicidade e a insatisfação dentro de um elevador que para de funcionar, no momento em que os personagens incorporados por ambos saem de casa para assinar os papéis do divórcio. Dessa forma, a iluminação cênica necessária à visibilidade do palco a partir da plateia – ou seja, permeabilidade de visão de fora para dentro – passa a ser entendida como escuridão total dentro do ascensor, demandando do casal de atores, além da exímia capacidade de convencimento frente ao expectador, sobre a crise conjugal que vêm atravessando por tantos anos, um preciso controle do foco de seus olhares limitados às paredes, ao teto e ao piso do cubículo onde se encontram – salvo os poucos minutos quando o breu é sangrado pela chama de um isqueiro ou pelo facho de uma lanterna de bolso.

A avalanche de sentimentos e ressentimentos que pululam no palco causa calafrios na plateia, uma vez estabelecida uma relação Orwelliana entre espectadores e personagens, tendo como ponto de fuga a cenografia de Francisco Leite, concebida segundo padrões estéticos minimalistas capazes de convergir os olhares atentos do público para o interior do elevador enguiçado. Tão estático quanto o ascensor, um enorme relógio marca a paralização do tempo durante o qual o relacionamento passa a ser discutido entre as partes, antes mesmo que a separação seja levada a termo no escritório de advocacia – destino do casal interrompido pela pane do equipamento de circulação vertical.  Tão objetivamente quanto a concepção do cenário, Leite desenha um figurino que dispensa legendas – definindo o marido apaixonado, inconformado com o pedido de separação e a esposa frustrada, decidida pelo divórcio – qualificativos plenamente correspondidos pelo desempenho e interação de Zachi e Xavier face às suas vestimentas, respectivamente. Sob a classificação comédia através da qual se camufla, “Minha Futura Ex” tem muito mais a dizer ao público e fazê-lo pensar do que fazê-lo gargalhar – sutileza levada a cabo pelo desenho de luz de Demétrio Nicolau que, além de cumprir seu papel funcional, assume a responsabilidade de definir o que está por detrás dos momentos em que o casal se permite ao diálogo sincero e aberto e aqueles em que se entregam ao combate verbal. Com a mesma sensibilidade que Nicolau pincela cenário e atores com sua paleta de luz, o lighting designer se entrega à leveza da trilha sonora, também de sua autoria.

O texto de Lina Rossana Ostrovsky revela os enganos assumidos como verdades anteriormente ao casamento, que se tornam o mal necessário que sustenta a paixão diluída pela acomodação involuntária, em meio à rotina do convívio sob um mesmo teto. Fiel à vertente definida por Ostrovsky, a direção de Rogério Fabiano se apropria, a ferro e fogo, da instituição do casamento e a compartilha com o público como  um instrumento de busca da felicidade, mas sem a menor garantia de que seja para sempre sem o empenho dos envolvidos.


“Minha Futura Ex” vai além de uma bem-humorada história de um marido e de uma esposa presos no elevador, onde lavam a roupa suja acumulada durante o seu relacionamento conjugal. O espetáculo contempla o potencial de promover a sensação de um passeio em um trem fantasma durante o qual, os casais ou aqueles que desejam se tornar a metade de uma laranja, e que se encontram na fila de espera daquele “brinquedo”, ouvem gritos do pavor e das gargalhadas do medo que estão prestes a vivenciar ou com os quais já convivem, até que o destino se encarregue da separação, seja pelo motivo que for, em algum momento de suas vidas.