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sexta-feira, 20 de abril de 2018

7 Dias em Entebbe


Não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável

A história do sequestro de um avião francês, em 27 de junho de 1976, sob autoria de um grupo de ativistas pró-Palestina liderado por Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) – a mais nova versão de fatos reais de José Padilha, “7 Dias em Entebbe”. O longa político propulsivo direcionado a um perigo crescente tenta conectar o espectador aos diálogos ‘revolucionários’ que, em alguns momentos, tornam-se desmotivadores diante da trajetória do avião que parte de Tel Aviv - Israel com 248 passageiros e é desviado para o aeroporto de Entebbe – Uganda. A negociação parte da exigência dos sequestradores para que o governo de Israel liberte 53 terroristas mantidos em prisões israelenses. Caso contrário, seriam mortos todos os 100 israelenses dentre os 248 passageiros da aeronave sequestrada.

Padilha concede uma atmosfera épica ao longa, sem definição de fronteira entre o bem e o mal, mas transformando uma questão complexa diante de ações repreensíveis realizadas por aqueles que se intitulam combatentes da liberdade. Padilha não se aprofunda no conflito entre Israel e a Palestina que dura mais de 40 anos. Consequentemente, não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável, ao lembrar que houve um breve período durante o qual as conversações de paz pareciam viáveis. Mas que, nos dias atuais, tal utopia se encontra cada vez mais distante.

Circuito Geral - 7 Dias em Entebbe

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Todo Clichê do Amor


O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento


“Clichê” – palavra que se tornou sinônimo de tudo o que já foi objeto de repetição excessiva e que perdeu a originalidade.

O particular olhar da direção do ator, cineasta, escritor e dramaturgo paulista Rafael Primot projetado no seu mais recente longa – “Todo Clichê do Amor” – aquece o coração ao compartilhar espaço com a estrutura predominante das comédias românticas. Primot se aproveita dos lugares comuns, nada revolucionários, para contar três histórias com um suave frescor de genialidade, tendo em comum triângulos amorosos formados por – duas amigas e um jovem tímido; uma madrasta e sua enteada velando o falecido marido e pai, respectivamente; um homem separado de seu verdadeiro amor, um ator pornô e sua mulher prostituta que sonha em dar à luz. Histórias que se entrelaçam sem a obviedade linear da intercessão de núcleos de personagens de origens distintas.

A qualidade da ficha técnica mesclada com os clichês dispostos de maneira eficiente por Primot, não cai na mesmice. O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento, do que há de tão equivocado na adoção de clichês. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Quase Memória



“Quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”



Baseado no romance homônimo de Carlos Heitor Cony, o longa “Quase Memória” funde uma narrativa atemporal que transita entre a emissão do Ato Institucional número 5, em 1968 e a morte do piloto brasileiro de Fórmula 1, Airton Senna, em 1994.

A partir desses fatos, a circense direção de Ruy Guerra define dobras no tempo sem qualquer lampejo de esperança – quando a loucura, a ilusão, os fragmentos da memória, o choque de realidade, o esquecimento, a alienação, a ditadura, a fuga do consciente, os traumas e a sobrevivência ganham camadas de teatralidade, picardia, excentricidade, sarcasmo, inocência e humor. Guerra tem  a seu favor o performático elenco protagonizado por um Tony Ramos – interpretativamente condenado na estrutura do velho Carlos – diante de um subversivo Charles Fricks – aprisionado no jovem Carlos. Ambos ambientam um universo psicológico que permite o encontro do jovem com o velho, quando este recebe um estranho pacote, envolto em um nó, acompanhado por um envelope endereçado e cuja grafia somente poderia ser imputada a seu pai, morto há anos.

Essa obra de Guerra que, ao parecer tratar das escolhas feitas durante uma vida que se refletem na velhice, tocam o espectador mais sensível de maneira poética e transcreve as lembranças do protagonista com um “quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”.


Submersão


Impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa

Uma adaptação do romance do ex-correspondente de guerra J.M. Ledgard – conta a história de amor entre uma bio-matemática e um suposto engenheiro da água, satisfatoriamente interpretados por Alicia Vikander e James McAvoy. Sob o título de “Submersão”, o mais recente longa de Wim Wenders leva às telas uma produção cinematográfica, rica em simbolismo global, discorrendo sobre assuntos que permeiam por entre o meio ambiente e aspectos ligados ao “jihad” - termo árabe que se traduz em luta, esforço ou empenho e que pode ser considerado um dos pilares da fé islâmica, defino por deveres religiosos visando ao desenvolvimento do espírito da submissão a Deus.

Em meio a esse universo temático, eclode um romance não convencional, traçado por caminhos divergentes, que definem a separação dos protagonistas durante grande parte do filme, dando lugar a lembranças, a palavras e à certeza de que o amor e a paixão nem sempre recompensam as partes envolvidas. Wenders compensa a provável ironia do destino ao apresentar os personagens já mergulhados em seus sentimentos, onde a atração súbita é tão poderosa que faz com que o espectador, definitivamente, acredite no amor à primeira vista. O roteiro, equivalente à mortalidade presente no filme, conta com a concepção de iluminação cênica crucial, em alguns momentos, totalmente esmaecida, como uma tentativa de aprofundamento nas memórias do casal romântico e de fazer com que os espectadores acreditem que aquela experiência amorosa é tão poderosa quanto a luz do dia.

O ciclo de qualidade que envolve “Submersão” impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa.



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Exorcismos e Demônios


Baseado em uma história real – porém, repleta de clichês que, em outras obras do gênero, já deram seu tempo e não encontram espaço para releituras


Uma jovem jornalista viaja até a Romênia para investigar a morte de uma noviça, ocorrida durante um ritual de exorcismo, culminando na condenação do padre responsável pelo esconjuro. Cética e pouco sociável, a jornalista carrega seus próprios fantasmas do passado os quais ela mesma deverá exorcizar, além de ter que lidar com a desconfiança da população local e lidar com o embate contra vários indivíduos envolvidos no caso.

Uma típica sinopse de um filme investigativo, com sérias ressalvas à condução do argumento na linha do terror, da forma mais precária possível. Em meio a frustradas tentativas de propagar o medo e a agonia durante o longa, resta somente a bela fotografia de Daniel Aranyó como protagonista da produção. Clímax e emoção passam longe do preguiçoso roteiro de Chad e Carey Hayes, que se diz baseado em uma história real – porém, repleta de clichês que, em outras obras do gênero, já deram seu tempo e não encontram espaço para releituras, como as inseridas em “Exorcismos e Demônios”.

domingo, 15 de abril de 2018

O Olho de Vidro



O trânsito por uma percepção poeticamente infantil e pela construção de devaneios flexionados no imaginário adulto se faz presente no espetáculo “O Olho de Vidro”, que insere uma visão documental do livro do autor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós - ‘O Olho de Vidro do Meu Avô’.

A narrativa do monólogo é agraciada pela livre inspiração do texto de Queiroz, que alimenta o afetivo texto de Renata Mizrahi, por sua vez, encrustado com relatos de vida do ator, produtor, diretor teatral Charles Asevedo – que se desmembra em idealizador e ator da pueril epifania das lembranças expostas ao espectador.

A deslumbrada proximidade dos dois mundos constituídos pela infância e pela maturidade – em meio à dor e ao compromisso para com o resgate de uma memória desconectada – é amparada pela criação artística de Vera Holtz, de Guilherme Leme Garcia e de Flávia Pucci. Esses três olhares catalisam as impressões de um primeiro contato com o mundo de gente grande, tão logo se deixa de ser criança, liberando o livre acesso ao necessário alcance perceptivo de Asevedo à imaterialidade do limite estético e psicológico ao qual o ator se entrega.

A iluminação de Tomás Ribas se faz essencial aos olhos do espectador ao segmentar os detalhados focos investigativos do monologuista, sombreando sua adaptada precedência e irradiando sua personalidade paradoxal. Tão puro quanto a ingenuidade infantil, na qual o protagonista submerge com a sua narrativa e olhar doces e cativantes, o cenário concebido por Aurora dos Campos, parte para o minimalismo que define os traços da realidade entrincheirada donde reverberam as atividades do mundo interior e do mundo exterior do protagonista – enquanto criança, enquanto adulto. A anímica trilha musical de Marcelo H estrutura o simbolismo da fabulação como se uma paisagem sonora embalasse as prosas e os versos, aprofundando-se na imagem do personagem.

Ao virar do avesso o íntimo de Asevedo, o espetáculo “O Olho de Vidro” ativa e aglutina sensações de um universo tenso, onde a culpa transcende a infância em uma dicotomia entre a organização da matéria representada pelo olho de vidro e a entropia inerente ao desenrolar da sorte de cada ser vivo. A partir desse confronto, resta ao espectador ser conduzido através da concretização do objeto de um avô à autocompreensão e autoaceitação, não tardiamente, mas em respeito ao seu tempo, por parte de seu neto. 


quinta-feira, 12 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais


Nenhum tipo de lucidez ao seu final, mas dilacera o âmago imaginativo da necessidade de uma razão

O processo de criação de um texto literário – método individual, intrasferível e adequado à individualidade de cada escritor. A partir da compreensão e exploração desse processo, o diretor, produtor, roteirista e ator polaco – Roman Polanski, artesanalmente, dirige o longa “Baseado em Fatos Reais”. Nessa trama, Eva Green é Elle – uma ghostwritter; e Emmanuelle Seigner é Delphine – uma escritora consagrada que conhece Elle em uma noite de autógrafo do seu mais recente best-seller.

A inercia da capacidade criativa de Delphine para a concepção de um novo livro se transforma em um profundo abismo que demanda, por parte da escritora, reescritas, correções, acréscimos, supressões e mudanças repentinas visando à composição de mais uma obra de sucesso de sua autoria.

Polanski, com clareza sombria, redefine teorias, desenvolve novas relações em atmosfera sinuosa, insere discursos ficcionais e textos dissertativos com caráter reflexivo sobre o objeto observado pelo espectador. Não lhe traz nenhum tipo de lucidez ao seu final, mas dilacera o âmago imaginativo da necessidade de uma razão.



Aos Teus Olhos


Em plena contemporaneidade incômoda, quando um culpado para os males sociais se faz necessário, o longa mergulha, inquietantemente, no claustrofóbico início que nunca chegará a termo

Terreno movediço - a dubiedade que desponta das contradições humanas no âmbito social. A ampliação dos indícios de uma possível injustiça ao retratar a história de um professor de natação infantil, sob suspeita de assédio, ao ser acusado pela mãe de um aluno de tê-lo abraçado e beijado a sua boca - segundo ela, declarado pela própria criança.

Debruçando-se na dramaturgia do catalão Josep Maria Miró – 'O Princípio de Arquimedes' – Carolina Jabor, através de uma direção coercitiva, recheia o seu novo longa "Aos Teus Olhos" com perguntas esquivas que se alteram, constantemente, a cada um dos noventa minutos de seu tempo narrativo.

O espectador é conduzido à manipulação de fatos, ao livre arbítrio nas redes sociais, a indignações seletivas, à privacidade imaginária em meio a uma sociedade em constante atrito com o individualismo.

O polido tratamento dedicado ao multifacetado diálogo que distende, sem nenhuma sutileza, a indeterminação da veracidade que, em rota de colisão com o espectador, explode indeciso e de maneira irascível diante de seus olhos – um espectador que anseia pelo suposto acerto de contas, como um jurado em um tribunal, onde a “moral social” é o juiz que exalta a fúria em seu veredicto, baseado em suposições que lhes parecem óbvias.

Em plena contemporaneidade incômoda, quando um culpado para os males sociais se faz necessário, o longa mergulha, inquietantemente, no claustrofóbico início que nunca chegará a termo.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Edward Bond Para Tempos Conturbados


Terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação


Livremente inspirado no “Pequeno livro para tempos conturbados” composto por quatorze capítulos contemplando textos teóricos, fábulas e poemas escritos por Edward Bond, entre 1984 e 1998, um espetáculo teatral se propõe ratificar o caráter longevo e profícuo da obra do dramaturgo, poeta e argumentista britânico. "Edward Bond Para Tempos Conturbados" se propõe a preencher uma lacuna em potencial, na discussão da relação do teatro com a sociedade, em meio ao pensamento sobre a violência e os rumos das relações sociais, mesmo que, de forma radicalizada.

A direção de Daniel Belmonte assume um caráter épico e cruza o âmbito das técnicas específicas dos desejos que beiram a experiências multissensoriais que expõem a obra de Bond.  Seu trabalho traz à luz da informação crítica o escrutinar da justiça e a desumanidade do ser, dando forma à dramaturgia de André Pellegrino como se um recital disforme que relaciona o texto brutal de Pellegrino com as imagens videográficas assinadas pela dupla Leonardo Bianchi e Kaio Caiazzo, de modo a manter o espectador consciente das suas coordenadas no âmbito do mapa social.

Seguindo o pensamento de Bond, que define a forma fundamental da mente funcionar como imaginação à procura da razão, o confrontante elenco composto por Susanna Kruger, Fernando Melvin, João Sant’Anna, Kallanda Caetana, Leonardo Bianchi e Lívia Feltre, eficientemente, faz com que o espectador se veja em busca da razão em respeito à sua própria imaginação. A descolonizada concepção cenográfica de Julia Marina e Ana Barbiere transporta para o palco um campo de batalha onde se desembaraçam as mentiras da complexidade humana e o vazio da sociedade expressados pela arte cênica. A atmosfera repleta de teatralidade, provocadora e emocionante, que não atinge somente a razão, mas também a sensibilidade repercutida pelo texto de Bond, tem como aliado o figurino de Anouk Van Der Zee, que dá corpo às ideias do dramaturgo, mesmo quando o figurino formal se faz ausente. A hecatombe contida nas entrelinhas do desenho de luz dos Irmãos Mantovani convida o espectador a se lançar nas profundezas do inferno imaginativo, muitas vezes, sob penumbra tão intensa que dá margem para ser interpretada como uma nuvem que anuncia o apocalipse que condena todos à angústia pela simples falta de acuidade visual por tempo indeterminado. O visagismo de Marianna Pastori afirma a natureza metaliguística dos personagens ao facilitar a construção dramatúrgica do espetáculo, em comum união ao desenho de som de Antonio Nunes que, de forma articulada, contribui para com o escopo imaginativo, extensivo às cenas apresentadas.

Os densos movimentos pincelados na pintura do cartaz de divulgação do espetáculo por Lívia Feltre é algo que chama atenção como uma forma de expressão diante do caos social no qual o espetáculo mergulha – inclusão que pode ser imputada ao olhar sensível de Colmar Diniz, diretor de arte do espetáculo.

Como uma variante da vida, "Edward Bond Para Tempos Conturbados" é terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação.

sábado, 7 de abril de 2018

Romeu & Julieta


Com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno

A partir de uma estética clássica mixada com as músicas de carreira de Marisa Monte, surge a adaptação da famosa tragédia concebida por William Shakespeare entre 1501 e 1595, nos primórdios de sua carreira, “Romeu & Julieta”. A versão, que não se trata de mais uma qualquer, é assinada e dirigida pelo ator, diretor e produtor Guilherme Leme Garcia, que se permite a ousadia de traduzir o romance com acentuada atenuação do rebuscamento da linguagem shakespeariana, visando ao seu alcance pelo grande público, e contemporaneamente deduzível pelas letras das canções de MM.


O argumento sobre o romance proibido entre os jovens Romeu e Julieta, integrantes das famílias rivais Montéquio e Capuleto, respectivamente, em nada difere do original, resgatando as lembranças de quem já conhece a obra do poeta, dramaturgo e ator inglês e despertando o interesse da nova geração pela literatura clássica – um legado para uma fração de público com representatividade expressiva na sessão das 16:30 do dia 31 de março de 2018, no Teatro Riachuelo, Cinelândia – Rio de Janeiro.

A trama, em seu estado substanciado, coloca em evidência a eximia capacidade de adaptação e da incrustação do roteiro original com o musical, por parte de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, ao elegerem os sucessos de Caetano Veloso e Gilberto Gil – ‘Panis et Circense’; Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – ‘Um Só’; Roberto Corte Real – ‘Esqueça’; George Harrison – ‘Give me Love’; Pedro Baby – ‘Vilarejo’; Adriana Calcanhoto – ‘Pelo Tempo que Durar’; Davi Moraes – ‘Velha Infância’; Roberto Carlos – ‘De que Vale Tudo Isso’, Nelson Motta – ‘Bem que se Quis’, dentre outros, como condutores auxiliares da narrativa. Com isso, a dupla injeta exuberância à história e condecora a produção com um selo de qualidade, ao conferirem um status elevado às canções que definem o musical, a despeito da já consagrada notabilidade dos jovens apaixonados. A obcecada coreografia de Toni Rodrigues é harmônica e esteticamente concebida, sendo criteriosamente interpretada pela a totalidade do elenco, que a desenvolve de modo a se integrarem ao arco dramático narrativo. O pano de fundo erudito, definido pela liberdade minimalista na concepção do projeto cenográfico de Daniela Thomas, recria uma Verona híbrida que conversa com a proposta clássica-pop do espetáculo, de igual para igual. Confiante em sua experiência como figurinista, João Pimenta enfatiza a ação de cada cena segundo a liberdade interpretativa que toma para si enquanto senhor das vestes. O visagismo de Fernando Torquatto subtrai a excessiva carga sentimental dos personagens e aposta no desenlace sentimental, em nome de um drama desenhado por um comportamento social e traçado pelo destino. Monique Gardenberg e Adriana Ortiz assinam o volátil e ambivalente desenho de luz que banha, com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno, diante do grande elenco composto por Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo), Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz. A ode ao belo mecanismo dialético do espetáculo é regida pela maestrina Claudia Elizeu e brilhantemente executada por: Gabriel Gravina - no teclado, André Barros – nos violões e no bandolim,  Arthur Pontes – no violino e viola,  Fábio Meg no cello acústico, Gabriel Guenther – na percussão orquestral,  e Gelton Galvão – na harpa; estrategicamente posicionados em meio ao cenário de Thomas e visualizado, seletivamente, pela permissividade controlada da iluminação cênica de Gardenberg e Ortiz. 


Leme demonstra sapiência ao introduzir a gota de comédia necessária – possivelmente com carga faceta tão dosada quanto o fora enquanto linguagem dantesca, no Inferno da Divina Comédia – para que o público se sinta incluído na tragédia e dela sair ileso, a despeito da carga emotiva provocada pela metamorfose do drama em espetáculo musical com referências de contemporaneidade limitada às últimas três décadas. Dessa forma a desgraça encarnada que corrompe a pureza, de braços dados com a violência que destroça a inocência, faz do espetáculo “Romeu & Julieta” uma constatação atualíssima, que ainda há, de verdade, gente morrendo de amar.


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso


Sob misterioso e ameaçador silêncio, que dispensam palavras para contar uma história e barulhos para tirar o espectador da sua zona de conforto por conta de sustos inesperados


O planeta Terra invadido por monstros alienígenas reptilianos – predadores que não enxergam suas presas, mas as percebem através de sua incrementada acuidade auditiva e as caçam, implacavelmente, devido à sua agilidade.

“Um Lugar Silencioso” percorre um caminho paralelo aos filmes de terror, quando os barulhos assustadores destes correspondem ao impacto provocado pela sua trilha sonora. A invasiva direção de John Krasinski lança mão do combalido e ultrapassado recurso, tão utilizado nos atuais filmes do gênero, discorrendo sobre as vidas pós-apocalípticas de um núcleo composto por um chefe de família – Lee (John Krasinski); sua esposa – Evelyn (Emily Blunt); e os dois filhos do casal – Regan (Millicent Simmonds), uma deficiente auditiva e Marcus (Noah Jupe). Isolados por silêncio arrebatador, a família se afoga, ironicamente, em sentimentos de pesar e de culpa, causadores dos seus próprios medos, a despeito do clima de horror inerente aos monstruosos seres alienígenas.

Estes, por sua vez, são capazes de despertar respeito em função de suas habilidades ao longo dos noventa minutos do filme, sob misterioso e ameaçador silêncio, que dispensam palavras para contar uma história e barulhos para tirar o espectador da sua zona de conforto por conta de sustos inesperados – possivelmente, o trunfo de Krasinski, ao definir o som como elemento invasor, que nem mesmo os alienígenas, sequer os terráqueos demostram entender o seu real significado.

terça-feira, 3 de abril de 2018

O Homem das Cavernas


Esmaece frente às demais obras do gênero, oferecendo ao público uma história estruturada por um argumento gratuito e sem espaço para o engajamento imaginativo


Em um momento em que a imaginação não tem limites no universo das produções animadas, os visuais exuberantes concebidos a partir de potentes roteiros desenhados para crianças, adolescentes e adultos correm o sério risco de se perderem diante da menor permissividade e opção pelo humor mediano, simplesmente pelo fato equivocado de uma animação ter como alvo, o público infantil. A alfabetização visual, narrativa e moral dessas animações é repleta de detalhes que podem passar desapercebido pelo público infanto juvenil, mas não podem perder a oportunidade de oferecer a aquele grupo de espectadores, cada vez mais antenado, a dignidade ser tratado como composto por indivíduos pensantes e complexos, não obstante de seu status de classificação de faixa etária livre.

Amparado por essa visão, “O Homem das Cavernas” – esmaece frente às demais obras do gênero, oferecendo ao público uma história estruturada por um argumento gratuito e sem espaço para o engajamento imaginativo.  O resultado de tamanho esforço, enquanto arte de modelagem em argila e técnica cinematográfica quadro-a-quadro é uma comédia sem inspiração motivadora, contemplando mensagens anti-sexismos desestimulantes e embasadas em convicções emocionais naif de tal forma a prender a atenção de bebês capazes de se distraírem e se sentirem admiradas com imagens e cores. No centro das atenções, a aurora da civilização protagonizada por Dug – um homem das cavernas que faz parte de uma tribo de ineptos que encontra dificuldade, até mesmo para garantirem a sua subsistência através da caça e que vê a sua tranquilidade interrompida quando civilização mais desenvolvida invade o vale no qual Dug e os seus habitam.

A direção de Nick Park é escassa em lógica narrativa com efeito sonífero tão forte quanto uma canção de ninar, por mais inadequadas sejam para tal prática, as poltronas ergonomicamente confortáveis instaladas nas atuais salas de cinema.

O grau de previsibilidade de “O Homem das Cavernas” evidencia-se na tentativa de promover algo coerente e justo ao público ao qual se destina, ou seja, aqueles que saem de situações ruins através das forças combinadas pela sorte e pela imprudência - uma aposta às cegas no imprevisível ou um desserviço de ensinamento aos pequenos seres em fase de crescimento e de formação moral.


sexta-feira, 30 de março de 2018

Zama


Como uma metáfora fatídica, munida de frases soltas que socam o ar e que se agiganta diante do espectador

Lucrecia Martel recria uma atmosfera testemunhal da velha América e mergulha na consciência de um infortúnio beirando o quixotesco, em seu novo filme – “Zama”, cujo universo soa como eco de uma América do Sul do século XVIII. Precisamente crua e sem pompa para mostrar a obviedade da realidade transatlântica, Martel promove um confronto entre colonizadores, escravos e indígenas.

O filme conta a história de Diego de Zama - um corregedor da Coroa Espanhola isolado em uma colônia localizada na fronteira entre o Paraguai e a Argentina, que anseia ser transferido para Buenos Aires - interpretado pelo multifacetado Daniel Giménez Cacho. 

Em meio às produções do gênero, “Zama” pode ser traduzida como uma metáfora fatídica, munida de frases soltas que socam o ar e que se agiganta diante do espectador, a despeito da intensa sensação de desasseio e de decadência que se faz presente, lado a lado com a plasticidade vibrante de um longa politicamente estético.



Um dia como os outros


Como em qualquer fim de festa, anfitriões exaustos apagam as luzes e se recolhem, preparando-se para, na manhã seguinte, limpar suas casas, reorganizar o que foi desarrumado, jogar fora o que se tornou inservível e decidir o que fará com os presentes que lhes foram dados da forma mais impessoal possível

Relações familiares reveladas através de um olhar cáustico, em um espetáculo despretensioso e atemporal – “Um dia como os outros” de Agnés Jaoui e Jean-Pierre Bacri sofre uma releitura transportada para os anos 1990.

Um cenário extremamente funcional, que brota da essência arquitetônica da própria sala de espetáculos, ambienta um bar onde relações familiares são postas como cartas na mesa de uma peleja da qual não saem vencedores, mas alguns jogadores com suas armas descarregadas ao longo do embate e outros, com munição suficiente para um próximo confronto datado por eventos comemorativos socialmente obrigatórios. Ao final, todos com a sensação comum de que não passam de personagens de mais um ensaio repleto de males entendidos, aversões, ressentimentos e tolerâncias à beira do limite.

Em “Um dia como os outros”, a motivação do encontro de uma família composta pela mãe, seus dois filhos casados e sua filha, ainda solteira, é a comemoração do aniversário da esposa de um daqueles, a partir da qual, cada membro desse núcleo familiar provoca uns os outros sob o tênue véu da malícia. Se por um lado, no palco, os seis personagens digladiam, cada um com suas armas e da forma que suas personalidades lhes permitem, de outro, na plateia, espectadores se surpreendem como se penetras fossem em uma festa na qual, interagem apenas como ouvintes e olheiros, mas com a sensação de estarem experimentando um déjà vu, cuja reação a antigas dores é manifestada através de risos nervosos. Situações desconcertantes e melindrosas ganham autenticidade pela direção embaraçosamente diabólica de Bianca Byington e Leonardo Netto, que manipula cada um dos personagens, de forma contundente e infernal, incorporados, de forma lapidar, por Analu Prestes, Bianca Byington, Flávio Pardal, Leandro Castilho, Marcio Vito – em alternância com Alexandre Dantas – e Silvia Buarque.

Emília Duncan desenha as vestes da trupe, garantindo-lhes o status de comicidade comportamental e de quanto patético é o desperdiço de suas vidas baseadas em padrões adotados por uma sociedade que não enxerga alternativas além do que aceita como visível. A concepção do projeto luminotécnico cênico de Paulo Cesar Medeiros demostra a sua capacidade de adaptação e do uso otimizado dos recursos das diferentes salas de espetáculo, como o faz no espaço onde se apresenta a atual temporada de “Um dia como os outros”.  Descontraindo a plateia frente à tensão involuntária causada pelo festival de vergonha alheia ao qual é exposta, a trilha sonora de Leonardo Netto fornece o apego necessário aos personagens quando aflitos, ou quando dialogam sobre suas diferenças. A ambígua evolução dos personagens, que beiram a opressão e a estagnação, deixa transparecer o desejo de resgate da essência do texto original de Jaoui e Bacri, muito em função da excelente tradução de Angela Leite Lopes, Barbara Duvivier e Bianca Byington.

Como em qualquer fim de festa, anfitriões exaustos apagam as luzes e se recolhem, preparando-se para, na manhã seguinte, limpar suas casas, reorganizar o que foi desarrumado, jogar fora o que se tornou inservível e decidir o que fará com os presentes que lhes foram dados da forma mais impessoal possível. Assim o faz o elenco, ainda sob o domínio de seus personagens, enquanto que, do outro lado do palco, a plateia evacua a sala de espetáculos com a sensação de saciedade e do expurgo de algo que, desta vez, foram agraciados para que o fizessem de forma passiva.

Circuito Geral - Um dia como os outros

segunda-feira, 26 de março de 2018

Com Amor, Simon


A despeito do datado e ultrapassado bordão que define os indivíduos como sendo todos iguais


Abordando dilemas da adolescência inseridos em um contexto familiar, o livro ‘Simon vs. A Agenda Homo Sapiens’, assinado pela psicóloga e premiada autora americana de ficção para jovens adultos - Becky Albertalli, se transforma em argumento do longa “Com Amor, Simon”, regido pela eficaz direção de Greg Belardi, que lança a inclusão como meio eficaz de se exercitar a tolerância, por sua vez, como forma simplificada de se quebrar as barreiras de gênero, raça e sexualidade, a despeito do datado e ultrapassado bordão que define os indivíduos como sendo todos iguais.

O protagonista Simon, em total plenitude de seus dezessete anos, guarda um segredo considerado, por ele mesmo, um drama o qual prefere que se resolva por si só, com o passar do tempo.

Repleto de personagens de qualidade relevante e que orbitam a vida de Simon, o longa deixa marcas no espectador, até mesmo em quem já ultrapassou a adolescência, enquanto lida com identidade, despertar sexual e escolhas. O dinamismo estabelecido em “Com Amor, Simon”, se faz presente nas relevantes situações construídas pelo roteiro sobre as mudanças a que todos são sujeitos durante a vida e pelas quais lutam para preservar durante a jornada do crescimento como seres humanos, mascarados socialmente, em um mundo de fantasias promovido pelas telas dos computadores.

Não obstante da presença real de uma sociedade intransigente, preconceituosa e retrógrada, capaz de fazer com que o mundo regrida às trevas, consumir um produto voltado para o público juvenil, romântico com apelos sociais edificantes – tais como diversidade, respeito e tolerância – “Com Amor, Simon” é uma obra a ser degustada com a certeza de que a gratificação será líquida e certa.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Farnese de Saudade


Em meio a fragmentos simbólicos expostos como se em um bricabraque de recordações, humanizado pelo monologuista atormentado por seu transtorno de devaneio excessivo


Dotado de uma personalidade peculiar e autor de produções marcantes na área das artes plásticas, o pintor mineiro Farnese de Andrade expõe suas memórias de infância – levando ao conhecimento do espectador aspectos obscuros sobre sua vida em meio à sagrada família mineira da qual teve origem, composta por seus pais e por seus irmãos – poeticamente traçada no espetáculo “Farnese da Saudade”. Totalmente pautado no inconsciente do artista, o lirismo na atuação de Vandré Silveira, oscila do concreto ao abstrato, chegando no denominador comum envolto em beleza bruta e crua.  Em meio a fragmentos simbólicos expostos como se em um bricabraque de recordações, humanizado pelo monologuista atormentado por seu transtorno de devaneio excessivo, percebe-se a multiplicidade visionária da direção de Celina Sodré, que entrelaça a vida e a arte com total domínio quanto à sua densidade autoral. Sodré também assina o figurino com linguagem única e singular, incorporando o personagem, não somente em Vandré, mas também como parte indissociável da instalação cenotécnica de Hélio Lopes Barcelos que ganha vida, se expõe e se esconde sob os claros e escuros que refletem as aceitações e as negações da vida de Farnese, comandados pelo desenho de luz de Renato Machado. O resultado dessa engrenagem cênica é um grande buraco negro que se alimenta da atenção dos espectadores, na tentativa de decifrar as diferentes nuances das fases da obra do artista, habilmente articulada em meio às influências por ele sofridas – sejam barrocas, românticas ou simbolistas; regionalistas, populares, pessoais ou vanguardistas – mesmo que de modo sombrio, beirando ao fatalismo.

A essência contrastante do personagem abstracionista, construtivo e positivista, imbui a arte representada no espetáculo como uma duradoura jornada a partir de 1964 quando se lança como artista, pertencente a um mundo estranho, às vezes mórbido e com fortes referências eróticas, mas deixando-o intacto ao não mencionar a sua morte em 1996.

A estética presente no meticuloso posicionamento de cada objeto e de cada imagem imersos em simbolismo, define a forte temporalidade na qual o espetáculo “Farnese de Saudade” transita – em meio a infância, a proibições e a interdições das lembranças que são desvendadas com muito sofrimento, culpa e o peso da expiação que verga sob as responsabilidades da vida.

Pedro Coelho


Uma preciosidade contemporânea em formato de uma jornada mais do que divertida


Adrenalina pura na habilidosa direção de Will Gluck, faz da animação “Pedro Coelho” uma saudável diversão para todas as idades. A nostalgia assimilada, inocentemente, pelos adultos faz com que os gags dos personagens sejam traduzidos para as crianças sem nenhuma malícia, mesmo que maliciosa e sutilmente se façam presentes, mas com timming engenhosamente elaborado.

Diretamente das páginas do livro infantil britânico intitulado “A História do Coelho Pedro”, escrito e ilustrado por Beatrix Potter, o longa conta as peripécias de Pedro - um coelho travesso e indisciplinado – que assume a liderança de sua família, reduzida às suas três irmãs, desde a morte de seus pais. A forte e cativante personalidade egocêntrica de Pedro o leva a cometer deslizes de forma contumaz. Seu antagonista, o rabugento Severino Mc Gregor (Sam Neil) passa dessa para melhor de forma inesperada e, literalmente, a festa dos bichos se torna uma realidade na horta e na casa do falecido. Contudo, seu herdeiro - Thomas (Domhnall Gleeson), um sujeito com fortes tendências obsessivas, para o desolamento de Pedro, assume o papel  do velho McGregor tão logo se instala no casarão. A singela homenagem à renomada autora do livro no qual o longa é baseado - Beatrix Potter - é delegada à personagem Bea (Rose Byrne) que acumula para si o mesmo codinome e o hobby de desenhar animais silvestres.

O carisma dos personagens representados pela bicharada de Potter, aliados a uma carga de humor negro, dão braços à empolgante trilha sonora e se fundem a uma tecnologia de computação gráfica capaz de iludir o cinéfilo mais atento quanto ao que é visto na tela – realidade ou animação hiper-realista. A partir de todos esses predicados, Gluck metamorfoseia um conto infantil nostálgico em uma preciosidade contemporânea em formato de uma jornada mais do que divertida para toda a família.

quarta-feira, 21 de março de 2018

A Odisseia


Mito que vai se humanizando e se conscientizando do seu real motivo de existir


Um oficial da marinha francesa, documentarista, cineasta, oceanógrafo, inventor e mundialmente conhecido por suas viagens de pesquisa a bordo do Calypso - uma lendária embarcação equipada como um laboratório móvel difundida pelos documentários de seu indissociável comandante, Jacques-Yves Cousteau. Um dos pioneiros no mergulho autônomo, após sua atuação na Segunda Guerra, Cousteau percebe o interesse das pessoas por lugares desconhecidos – o que o motiva para dar início a uma série de filmagens no fundo do mar, com o objetivo de aproximá-lo daqueles cujo interesse foi despertado pela, até então, desconhecida e misteriosa vida submarina.

O longa “A Odisseia” retrata, na medida do possível, a vida do homem Cousteau, dotado de qualidades e sujeito a falhas, identificado por seus pontos tanto positivos quanto negativos, sujeito a sucessos e decepções e, acima de tudo, tomado por um amor incondicional pelo seu filho mais novo, Philippe, o qual torna-se seu cúmplice e sua redenção. A impecável direção de Jérôme Salle faz da variação temporal, dos anos 1950 até os 1970, um mito que vai se humanizando e se conscientizando do seu real motivo de existir - servir de exemplo e de alerta sobre a importância da preservação do mundo em que vivemos.

terça-feira, 20 de março de 2018

A Livraria



Tal e qual uma fábula

Tal e qual uma fábula, o filme “A Livraria” é apresentado aos cinéfilos sob uma confusa direção de Isabel Coixet, salvo pela belíssima estética e fotografia deslumbrante. O longa conta a história de Florence Green (Emily Mortimer) – uma viúva que se muda para um pequeno vilarejo, habitado por pessoas conservadoras e condicionadas à rotina sem muitas surpresas. Florence decide abrir uma livraria no pacato local, como uma forma de manter viva as memórias do seu passado e levar, à sua população, o hábito da leitura.  Porém os moradores não lidam bem com a ideia, e uma classe mais influente tenta acabar com o pequeno negócio de Florence.


Um filme que fala sobre o conservadorismo atrelado ao retrocesso possui características comportamentais que permite ao espectador a identificá-lo com a sociedade que emerge em nome das pessoas de bem e da justiça, mas somente como plataforma política.

Talvez por não se tratar de uma grande história atrelada a uma evolução, de certa forma, cansativa e confusa, o longa “A Livraria” vai, pouco a pouco, perdendo o brilho durante os seus cento e dez minutos de projeção e não gera interesse por parte do espectador para que atente para a essência dos fracos diálogos e para as motivações dos personagens de uma sociedade formal do litoral da Inglaterra, extremamente retraída, do final da década de 1950.


segunda-feira, 19 de março de 2018

O Dia Depois


A face das inverdades existentes em muitos relacionamentos entre homens e mulheres


A direção do cineasta sul coreano Hong Sang-soo se aprofunda, de modo fragmentada, nos sentimentos das razões e das emoções, em “O Dia Depois”. O olhar em preto e branco, através do qual o longa é apresentado, experimenta uma veia filosófica sobre o universo masculino no quesito paixão, onde o desordenado dono de uma editora – casado e sofredor pelo seu abandono por sua amante, por sua vez, funcionária de seu negócio. O empresário contrata uma substituta para a função, que assume o papel de ouvinte de suas lamúrias. A partir desse ponto, a história ruma ao encontro de verdades delicadas e de situações desconcertantes, enfatizadas a partir do retorno de sua ex-amante.

A estética coreana de Sang-soo define um paralelelismo entre fotografia e longos diálogos, que beiram à comicidade diante das lições pseudo moralistas do quadrilátero formado, que encontram, nas palavras, a face das inverdades existentes em muitos relacionamentos entre homens e mulheres.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Os Farofeiros


Uma comédia repleta de clichês, estereótipos voltados para o público saudosista e adepto das chanchadas de fácil assimilação e fomentadoras do riso fácil

Quatro colegas de trabalho se cotizam para passar o Réveillon, juntamente com suas famílias, em uma casa de praia. O destino seria Búzios, não fosse, de fato, Maringuaba. A casa, minimamente, em petição de miséria, dista da praia na mesma proporção de sua lotação por uma horda capaz de causar vergonha alheia ao mais recatado dentre os incautos observadores de tamanha falta de modos. Um drible improvisado na situação, para que o feriado da passagem de ano não frustrasse, ainda mais, as expectativas de cada um dos personagens de “Os Farofeiros” – longa sob a despretensiosa porém, perspicaz direção de Roberto Santucci, capaz de farejar uma fórmula para arquitetar uma bem sucedida bilheteria às custas de uma comédia repleta de clichês, estereótipos voltados para o público saudosista e adepto das chanchadas de fácil assimilação e fomentadoras do riso fácil.

Um mix comportamental é definido pela encarnação da malandragem, da simplória e da pseudo honestidade, da ingenuidade, da confiança, da discórdia dramática e da boy magia, sem qualquer cerimônia para chafurdar em piadas homofóbicas, sexistas e machistas, sem estrutura ou fluidez, mas empenhado na confecção de um retalho das relações sociais e familiares, com zelo desconcertante para com as classes sócio econômicas, de modo a justificar frases preconceituosas. Tudo isso em prol do humor intolerante, imaturo e realisticamente nítido, definindo-se tanto como implacável sitcom, quanto como impiedosa comédia humana e seus grotescos personagens, cientes das dificuldades de seu cotidiano, de manter seu trabalho, de não ser reconhecido pelo que faz, de contar moedas para completar a passagem do transporte público, de garantir seu emprego e de aproveitar a vida enquanto ela se esvai ao tentar oferecer o mínimo de dignidade para os seus filhos.

Longe de ser um filme medíocre – muito pelo contrário, “Os Farofeiros” preenche os 103 minutos de ócio dedicados ao lazer com momentos de identificação de um público em potencial consigo mesmo ou com algum conhecido, em situações nas quais o luxo pode se manifestar na companhia de amigos para um churrasco em dia de futebol e na esperança de que o dia seguinte será, possivelmente, melhor.

quinta-feira, 1 de março de 2018

A Maldição da Casa Winchester



Entorpecente e previsível roteiro que torna o longa algo involuntariamente genérico

Uma composição de fatos reais com a atmosfera de terror em potencial norteia a intimidade familiar da proprietária da empresa Winchester Repeating Arms Company – “A Maldição da Casa Winchester” leva para as telas do cinema uma ficção que tem início com a tentativa de alegação de insanidade da viúva herdeira de 51% das ações da empresa de armas de fogo – Sarah Winchester (Helen Mirren), fundada por Oliver Winchester em 1855 em New Haven, nos Estados Unidos.


Na ocasião, Sara é tomada por sua excentricidade, através da qual gasta fortunas na ampliação ininterrupta da mansão da família, com anexos, sob a justificativa não publicamente revelada de estar se submetendo às ordens de fantasmas vitimados por alguma arma fabricada pela sua empresa. De modo a atestar as suas condições de sanidade mental e de determinar a sua capacidade de permanência na presidência da Winchester, o psiquiatra Eric Price (Jason Clarke) é contratado pela empresa e constata o fundamento alegado por Sara, que justifica a sua suposta excentricidade.

A “empreiteira” direção dos irmãos Spiering permite que Helen Mirren adentre com o tom necessário em um terreno pouco explorado em sua carreira como a misteriosa viúva. Os Spierings também assinam o entorpecente e previsível roteiro que torna o longa algo involuntariamente genérico.

Quanto aos espectadores ortodoxos, fãs do gênero terror, o longa pode, até mesmo, lhes causar um afã pela maldição dos cem minutos de projeção do filme, sob a escusa de este ser incapaz de sair de sua zona de conforto técnico-narrativa, não permitindo-lhes outra opção, mas somente esquecê-lo, por considerá-lo não menos que medíocre.




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Grande Jogada


Excelentes momentos de dinamismo e de sutil humor que tornam atraente, a crônica criminal desenrolada


Marcando a sua estreia como diretor cinematográfico, Aaron Sorkin se debruça na regência do longa “A Grande Jogada”. Sem qualquer compromisso para com a cronologia dos fatos, Sorkin discorre sobre a história de Molly Bloom (Jessica Chastain) – uma jovem promissora esquiadora olímpica que, devido a um acidente que a impossibilitou de dar continuidade à sua vida esportiva, acaba por fazer de si a maior gerenciadora do exclusivíssimo e milionário clube de pôquer do mundo e, consequentemente, alvo do FBI. Sorkin também assina o verborrágico e frenético roteiro que, em conjunto com a fotografia de Charlotte Bruus Christensen, arquitetam excelentes momentos de dinamismo e de sutil humor que tornam atraente, a crônica criminal desenrolada no filme.