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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Benedita


Um ritual de passagem

Uma instalação viva – uma idosa e uma enorme trouxa com seus pertences próxima à encruzilhada do fim de sua existência - conta a história das marcas deixadas em sua vida ao sacar do atado indumentárias e toda a sorte de objetos – elementos que simbolizam suas perdas, encontros, desencontros, afetos, maledicências, tragédias, risos e dores.

Assim se desenrola o espetáculo “Benedita” cujo arquétipo projeto cenográfico projetado com excelência plástica por Rodrigo Frota se agiganta ao ser edificado pelo protagonista, a partir de um amontoado de roupas sujas – físicas, psicológicas e espirituais – ao longo dos sessenta minutos do monólogo, juntamente com a construção da personagem que vai muito além  da caracterização e da dramatização de Bruno de Souza - o homem que dá vida à contadora de histórias, que não se limita à atuação, mas acumula a mística direção sob a orientação de Fábio Vidal e Danilo Pinho e a assinatura do texto que se desvia do comum, mas que soa programado em sutil demasia. Moldando Benedita, o simbólico figurino de Diana Moreira reage como uma força da natureza diante da fábula do mito ou divindade, impregnado pelo jogo de luzes e sombras estrategiado pelo místico desenho de luz de Pedro Dutra, cromatiza a personagem em seu púlpito, destacando-a de seu próprio horizonte obscuro. A abordagem espiritual ascende diante do visagismo escultural de Ramona Azevedo com uma pegada quase mitológica, somente compreensível dentro do contexto em que Benedita fora concebida.

Em meio a um ritual de passagem, o espetáculo “Benedita” insere o espectador como o ponto de vista de observação do horizonte dos problemas relacionados à existência, da forma que cada um entende o mundo, lida com os perigos reais e os imaginários criados por deuses, semideuses, heróis e governantes e, como em um passe de mágica, a vida se vai.


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