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sábado, 27 de janeiro de 2018

Bituca, Milton Nascimento para Crianças


Define, de maneira eficaz, que criança merece respeito

O espetáculo “Bituca, Milton Nascimento para Crianças” tem levado uma legião de pais ao teatro, com o subterfúgio de simplesmente estarem acompanhando seus pimpolhos a um musical infantil, enquanto que, de fato, são os pais os que mais têm sido tocados com a essência moral inserida nas entrelinhas do estratégico roteiro e do potente e encantador texto assinados por Pedro Henrique Lopes que harmoniza a narrativa altamente emotiva e que coloca o espectador em total empatia com a excelência da musicalidade dirigida por Guilherme Borges. A seleção musical é precisa ao adaptar as canções ao roteiro – baseado nos primeiros anos de vida do icônico representante da MPB – e à fantasiosa ficção, imprescindível para atingir, de forma certeira, as crianças que habitam nos espectadores de todas as faixas etárias. A empolgação emotiva de cada adulto sequencia as inesperadas e surpreendentes canções de autoria do compositor, cantor e parceiros, entoadas pelos personagens, uníssonas com o contexto definido temporalmente entre a fase pré-natal e a infância do protagonista. A história discorre sobre as passagens de sua vida – nascido em uma comunidade no Rio de Janeiro, órfão, antes mesmo de ter completado dois anos de idade, adotado pelos patrões de sua avó, mudado para Três Pontas em Minas Gerais e exposto ao preconceito racial – uma vez negro, filho de pais brancos. Seu semblante de menino contrariado, potencializado pelo bico que demonstrava seu descontentamento com situações diversas, lhe rende o apelido “Bituca”, em referência aos índios botocudos. A inspirada direção de Diego Morais rege a dramaturgia que acompanha a obra musical de Milton ao criar o seu universo infantil.

Dando vida aos personagens, a interpretação impressa por Aline Carrocino, Anna Paula Black, Marina Mota, Martina Blink, Pedro Henrique Lopes e Udylê Procópio acolhe o espectador com tamanha sutileza, capaz de levar os mais sensíveis do riso às lágrimas. O volátil cenário de Clívia Cohen define a atmosfera provinciana impregnada de intrigas e mexericos, retratada pela composição monumental de fuxico como pano de fundo e sequencial como detalhe decorativo da ribalta – em breves instantes a boca de cena que acolhe uma comunidade carioca onde lavadeiras se ocupam do ofício, se transforma em uma estação de trem cuja locomotiva transporta personagens para Minas Gerais, define o interior de uma residência ou de uma sala de aula – tudo isso em sintonia fina com o figurino igualmente assinado por Cohen. A expressão da luz cênica concebida por Carlos Lafert define momentos, emoções e dá amplitude à aparente simplicidade do cenário. O visagismo de Vitor Martinez é fundamental na caracterização do elenco em meio à multiplicidade dos personagens e, dessa forma, cumpre o seu papel com presteza.

Testemunho da parceira e da interação entre pais e filhos oriundos de toda uma diversidade de composições familiares presentes, o Circuito Geral comparece à Grande Sala da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, no domingo, dia 21 de janeiro de 2018, para a cobertura do primeiro espetáculo que faz parte da série “Férias Musicais dos Grandes Músicos para Pequenos”, diante de uma plateia expressivamente lotada.

A transparência das canções, que mais soam como hinos para o espectador adulto, eterniza os líricos momentos que “Bituca, Milton Nascimento para Crianças” define, de maneira eficaz, que criança merece respeito.


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