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quinta-feira, 22 de março de 2018

Farnese de Saudade


Em meio a fragmentos simbólicos expostos como se em um bricabraque de recordações, humanizado pelo monologuista atormentado por seu transtorno de devaneio excessivo


Dotado de uma personalidade peculiar e autor de produções marcantes na área das artes plásticas, o pintor mineiro Farnese de Andrade expõe suas memórias de infância – levando ao conhecimento do espectador aspectos obscuros sobre sua vida em meio à sagrada família mineira da qual teve origem, composta por seus pais e por seus irmãos – poeticamente traçada no espetáculo “Farnese da Saudade”. Totalmente pautado no inconsciente do artista, o lirismo na atuação de Vandré Silveira, oscila do concreto ao abstrato, chegando no denominador comum envolto em beleza bruta e crua.  Em meio a fragmentos simbólicos expostos como se em um bricabraque de recordações, humanizado pelo monologuista atormentado por seu transtorno de devaneio excessivo, percebe-se a multiplicidade visionária da direção de Celina Sodré, que entrelaça a vida e a arte com total domínio quanto à sua densidade autoral. Sodré também assina o figurino com linguagem única e singular, incorporando o personagem, não somente em Vandré, mas também como parte indissociável da instalação cenotécnica de Hélio Lopes Barcelos que ganha vida, se expõe e se esconde sob os claros e escuros que refletem as aceitações e as negações da vida de Farnese, comandados pelo desenho de luz de Renato Machado. O resultado dessa engrenagem cênica é um grande buraco negro que se alimenta da atenção dos espectadores, na tentativa de decifrar as diferentes nuances das fases da obra do artista, habilmente articulada em meio às influências por ele sofridas – sejam barrocas, românticas ou simbolistas; regionalistas, populares, pessoais ou vanguardistas – mesmo que de modo sombrio, beirando ao fatalismo.

A essência contrastante do personagem abstracionista, construtivo e positivista, imbui a arte representada no espetáculo como uma duradoura jornada a partir de 1964 quando se lança como artista, pertencente a um mundo estranho, às vezes mórbido e com fortes referências eróticas, mas deixando-o intacto ao não mencionar a sua morte em 1996.

A estética presente no meticuloso posicionamento de cada objeto e de cada imagem imersos em simbolismo, define a forte temporalidade na qual o espetáculo “Farnese de Saudade” transita – em meio a infância, a proibições e a interdições das lembranças que são desvendadas com muito sofrimento, culpa e o peso da expiação que verga sob as responsabilidades da vida.

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