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sexta-feira, 30 de março de 2018

Um dia como os outros


Como em qualquer fim de festa, anfitriões exaustos apagam as luzes e se recolhem, preparando-se para, na manhã seguinte, limpar suas casas, reorganizar o que foi desarrumado, jogar fora o que se tornou inservível e decidir o que fará com os presentes que lhes foram dados da forma mais impessoal possível

Relações familiares reveladas através de um olhar cáustico, em um espetáculo despretensioso e atemporal – “Um dia como os outros” de Agnés Jaoui e Jean-Pierre Bacri sofre uma releitura transportada para os anos 1990.

Um cenário extremamente funcional, que brota da essência arquitetônica da própria sala de espetáculos, ambienta um bar onde relações familiares são postas como cartas na mesa de uma peleja da qual não saem vencedores, mas alguns jogadores com suas armas descarregadas ao longo do embate e outros, com munição suficiente para um próximo confronto datado por eventos comemorativos socialmente obrigatórios. Ao final, todos com a sensação comum de que não passam de personagens de mais um ensaio repleto de males entendidos, aversões, ressentimentos e tolerâncias à beira do limite.

Em “Um dia como os outros”, a motivação do encontro de uma família composta pela mãe, seus dois filhos casados e sua filha, ainda solteira, é a comemoração do aniversário da esposa de um daqueles, a partir da qual, cada membro desse núcleo familiar provoca uns os outros sob o tênue véu da malícia. Se por um lado, no palco, os seis personagens digladiam, cada um com suas armas e da forma que suas personalidades lhes permitem, de outro, na plateia, espectadores se surpreendem como se penetras fossem em uma festa na qual, interagem apenas como ouvintes e olheiros, mas com a sensação de estarem experimentando um déjà vu, cuja reação a antigas dores é manifestada através de risos nervosos. Situações desconcertantes e melindrosas ganham autenticidade pela direção embaraçosamente diabólica de Bianca Byington e Leonardo Netto, que manipula cada um dos personagens, de forma contundente e infernal, incorporados, de forma lapidar, por Analu Prestes, Bianca Byington, Flávio Pardal, Leandro Castilho, Marcio Vito – em alternância com Alexandre Dantas – e Silvia Buarque.

Emília Duncan desenha as vestes da trupe, garantindo-lhes o status de comicidade comportamental e de quanto patético é o desperdiço de suas vidas baseadas em padrões adotados por uma sociedade que não enxerga alternativas além do que aceita como visível. A concepção do projeto luminotécnico cênico de Paulo Cesar Medeiros demostra a sua capacidade de adaptação e do uso otimizado dos recursos das diferentes salas de espetáculo, como o faz no espaço onde se apresenta a atual temporada de “Um dia como os outros”.  Descontraindo a plateia frente à tensão involuntária causada pelo festival de vergonha alheia ao qual é exposta, a trilha sonora de Leonardo Netto fornece o apego necessário aos personagens quando aflitos, ou quando dialogam sobre suas diferenças. A ambígua evolução dos personagens, que beiram a opressão e a estagnação, deixa transparecer o desejo de resgate da essência do texto original de Jaoui e Bacri, muito em função da excelente tradução de Angela Leite Lopes, Barbara Duvivier e Bianca Byington.

Como em qualquer fim de festa, anfitriões exaustos apagam as luzes e se recolhem, preparando-se para, na manhã seguinte, limpar suas casas, reorganizar o que foi desarrumado, jogar fora o que se tornou inservível e decidir o que fará com os presentes que lhes foram dados da forma mais impessoal possível. Assim o faz o elenco, ainda sob o domínio de seus personagens, enquanto que, do outro lado do palco, a plateia evacua a sala de espetáculos com a sensação de saciedade e do expurgo de algo que, desta vez, foram agraciados para que o fizessem de forma passiva.

Circuito Geral - Um dia como os outros

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