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domingo, 29 de abril de 2018

Um Baile de Máscaras


Sem abandonar o estilo sustentado pela atmosfera trágica que conduz a uma fatalidade predestinada, a ópera, segmentada em três atos, teatraliza um amor proibido, interrompido por um desfecho inexorável

Uma coprodução do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com o Kiel Theater - Alemanha abre a temporada lírica de 2018, no dia 27 de abril, com “Um Baile de Máscaras” - de autoria do compositor de óperas do período romântico italiano – um dos mais influentes do século XIX - Giuseppe Verdi.

Encenada pela primeira vez no TMRJ há cem anos, a obra-prima romântica de Verdi chega ao público com nova roupagem, em versão multimídia. A revolucionária e futurística concepção do diretor Pier Francesco Maestrini transporta a ópera para um cenário de grande impacto visual, por meio da projeção de imagens assinadas peli videomaker Juan Guillermo Nova. A atual versão mantém inalteradas as relações entre os personagens, sem perder de vista a coerência narrativa. O espetáculo, aclamado em sua estreia mundial em janeiro deste ano, oferece aos espectadores, a oportunidade de conhecer o estado da arte das apresentações em palcos internacionais.

A ópera é uma adaptação de Verdi, em parceria com o libretista Antonio Somma, da obra de autoria do dramaturgo francês Eugène Scribe – Gustave III, trazendo à luz dos fatos, historicamente inexatos, o assassinato do rei da Suécia, defensor do despotismo esclarecido, em 1792, pelas mãos de conspiradores políticos, durante um baile de máscaras.

Após passar por um processo de sucessivas censuras, o até então projeto de Verdi transfere a trama da corte sueca para uma colônia inglesa nos Estados Unidos, transfigurando o rei Gustave III no abnóxio Riccardo – conde de Warwick e governador de Boston. Sem abandonar o estilo sustentado pela atmosfera trágica que conduz a uma fatalidade predestinada, a ópera, segmentada em três atos, teatraliza um amor proibido, interrompido por um desfecho inexorável.

I Ato

Durante uma audiência no palácio, Riccardo, ao rever a lista de convidados do seu próximo baile de máscaras, se mostra feliz ao constatar o nome da mulher a quem ama –  Amelia, esposa de seu assessor de confiança Renato. Ao final da definição da lista, Renato se apresenta a Riccardo e o alerta sobre uma tentativa de conspiração contra ele – aviso esse que não desperta atenção por parte do conde. Em seguida, sua jovem pajem Óscar lhe informa que a cartomante Ulrica acabara de ser acusada de feitiçaria. Se por um lado Ulrica é defendida por Óscar, por considerá-la inofensiva, outros exigem a sua condenação sob a pena de exílio. A pedido de Óscar, Riccardo parte em rumo à habitação da vidente, disfarçado de pescador, para fazer o seu próprio julgamento.

Invocando seus poderes, Ulrica profeta o futuro do marinheiro Silvano que, segundo ela, será promovido e será contemplado com riquezas. Dissimuladamente, Riccardo coloca uma nota de promoção e um punhado de ouro no bolso de Silvano, que se regozija ao constatar e se convencer das habilidades da vidente, da mesma forma que os habitantes de Boston.

Amelia também procura Ulrica para compartilhar, com a vidente, o tormento causado pela sua paixão proibida por Riccardo, que se esconde com a entrada de seu amor naquela cabana. Para aplacá-la de seu transtorno, a vidente orienta Amelia ir em busca de uma erva mágica, aventurando-se ao ar livre, sob o manto da noite.

Após a partida de Amelia, Ricardo entrega a sua mão a Ulrica para que lhe seja previsto o seu futuro. Lhe é dito, pela vidente, que ele será morto pelas mãos de pessoa de sua confiança e que se revelará através da primeira pessoa a lhe dar um aperto de mão - o que é feito, em seguida, à entrada de Renato. Contrapondo a lealdade de seu amigo à predição da vidente, Riccardo declara Ulrica estar errada. Naquele momento, cai seu disfarce de pescador e sua verdadeira identidade é revelada, levando os habitantes de Boston a exaltá-lo.

II Ato

Tomada pelo medo, na escuridão da noite, Amelia busca a erva mágica de modo a aplacar o seu amor por Riccardo que, surge inesperadamente e, incapaz de controlar seus sentimentos, a abraça, levando ambos à manifestação de sua paixão mútua. Nesse ínterim, Renato surge diante dos dois amantes, informando a Riccardo sobre a vinda de conspiradores prontos para matá-lo.  Mas antes mesmo de ser reconhecida, Amelia oculta seu rosto com um véu, por sua vez encaminhada a Renato, a pedido de Riccardo, para que este a acompanhe, em segurança, para Boston, sob a condição de que seu véu não seja, em hipótese alguma, removido. Em seguida, desaparece na escuridão. No entanto, antes de chegaram ao seu destino, o casal é confrontado pelos conspiradores, fazendo com que Amelia tome a decisão de revelar-se mulher infiel, removendo o véu de sua face.

III Ato

Renato e Amelia brigam sob a ameaça do marido de matá-la, devido à desonra provocada pela sua infidelidade levada ao conhecimento de todos. Amelia lhe implora ver seu único filho antes de sua morte e sai de cena. Renato chega à conclusão de que deve matar Riccardo em vez de sua esposa, junta-se ao grupo de conspiradores e informa a Samuel e a Tom que planeja matar o conde. A decisão de quem assumirá a papel de matador fica por conta de uma disputa definida pela sorte, dentre os nomes de Samuel, Tom e Renato. Quando do retorno de Amelia à cena, seu marido a obriga a sortear um nome dentre os três depositados em uma urna – Amelia sorteia o nome de Renato, tomando-o de grande satisfação.

No baile de máscaras, informações involuntárias sobre a fantasia de Riccardo por parte de Óscar fazem com que Renato identifique o conde mascarado. Riccardo, ao se encontrar com Amelia, declara sua decisão de pôr um ponto final naquele amor impossível – quando, então, é apunhalado por Renato.

Antes de seu suspiro final, Riccardo confessa a Renato que, não obstante do seu amor pela esposa de seu leal companheiro, os juramentos de fidelidade ao casamento, feitos por Amelia, nunca haviam sido quebrados. Riccardo perdoa Renato e os demais conspiradores antes de morrer e pede a todos do condado que não alimentem sentimentos de vingança pela sua morte.



quinta-feira, 26 de abril de 2018

Somente o Mar Sabe


Uma poderosa história, baseada em fatos reais, que se digna compartilhar com o espectador circunstâncias que não merecem ser salvas de se afogarem em um mar de misericórdia


Donald Crowhurst (Colin Firth), um autêntico homem de família e empresário dos anos 1960, decide turbinar a sua pacata vida a partir de uma decisão unilateral de abandonar sua família e tomar parte em uma disputa, durante a qual deverá navegar pelo mundo em uma pequena embarcação, por um vultuoso prêmio – a despeito de sua inexperiência e despreparo frente ao desafio que deverá enfrentar. A aventura de Crowhurst flui em alto mar e marcada por tragédia anunciada.

A direção de James Marsh é obstinada e chafurda no tão antiquado orgulho solitário masculino, temperado com azedume de realidade desconfortante, ao fazer o espectador analisar o porquê de um ser humano, com suas faculdades mentais aparentemente saudáveis, arriscar tudo o que tem na vida, por uma satisfação pessoal comandada pela vaidade e pelo egocentrismo. O atoleiro moral psicológico do protagonista é baseado nos diários encontrados na embarcação, quando fora encontrada em 1969.

“Somente o Mar Sabe” é uma poderosa história, baseada em fatos reais, que se digna compartilhar com o espectador circunstâncias que não merecem ser salvas de se afogarem em um mar de misericórdia.

Praça Paris


Sua dinâmica de suspense, desprovida de clichês, retrata a violência urbana e a pobreza que vem alterando o perfil sócio-urbano do Brasil, induzindo, patologicamente, a prática comportamental por parte de uma expressiva parcela da população, tornando-a cada vez mais egoísta, mais individualista e, perigosamente, mais conservadora

Cenários cariocas imersos em desolação, degradação e negligência por parte do poder público – o prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, a Praça Paris. Na UERJ, uma ascensorista moradora do Morro da Providência – quando criança, abusada pelo pai, morto por seu irmão, na tentativa de preservá-la das inúmeras e contínuas ações das incursões paternas – sente-se endividada para com o irmão, pelo seu altruísmo e mantém com ele, fortes laços afetivos, apesar de sua condição de apenado sob acusação de ser ele, chefe de tráfico de drogas. Uma história de vida que vai ao encontro de outra, envolvendo uma psicanalista portuguesa, domiciliada no Brasil como discente de um curso de pós-graduação na UERJ, sob a temática da violência urbana. Nessa fusão de núcleos, psicanalista e ascensorista desenvolvem uma relação profissional entre terapeuta e paciente que se torna tão invasiva a ponto de se tornar ruidosa e hostil – um verdadeiro abismo entre dois mundos.

Poucas palavras são capazes de sintetizar o argumento de “Praça Paris” porém, firmes são os sentimentos e as emoções provocadas para quem é forte o suficiente para degustar seu roteiro. Sua dinâmica de suspense, desprovida de clichês, retrata a violência urbana e a pobreza que vem alterando o perfil sócio-urbano do Brasil, induzindo, patologicamente, a prática comportamental por parte de uma expressiva parcela da população, tornando-a cada vez mais egoísta, mais individualista e, perigosamente, mais conservadora.

Ao transparecer a exclusão social e suas múltiplas facetas, Lúcia Murat imprime, em “Praça Paris”, uma direção analítica onde o terror psicológico parece investigar a importância de se compreender a dinâmica social dos relacionamentos, tanto pessoais como institucionais. A realidade indizível e inominável entre a violência e a sociedade do longa de Murat traz à tona o imperativo enquadramento das consequências de quando se deseja aquilo o que não se pode ter.



segunda-feira, 23 de abril de 2018

Tudo que Quero


Digerível, mas não consegue transcender as inconsistências, sequer diminuir a incredibilidade do conceito global do longa, ao não se aprofundar em temas, tais como auto realização e família


Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem autista, órfã de mãe e que vive separada de sua irmã, cujo filho, um bebê relativamente recém-nascido, pode ser, a qualquer momento, vítima de sua incapacidade de controle da própria raiva. Fã da saga "Jornada nas Estrelas", Wendy decide concluir o roteiro de um filme épico, composto por um total de quinhentas páginas, para ser submetido a um concurso patrocinado pela Paramount Pictures.

A partir desse quadro, observa-se uma série de infortúnios que recaem sobre a protagonista, provocados por ladrões, por funcionários públicos insensíveis, dentre outros agentes, que surgem durante a tentativa de entregar o seu roteiro a tempo de participar do concurso. A direção de Ben Lewin é digerível, mas não consegue transcender as inconsistências, sequer diminuir a incredibilidade do conceito global do longa, ao não se aprofundar em temas, tais como auto realização e família, remetendo às demandas pró-forma de um roteiro inconvincente, assinado por Michael Golamco.

A inegável integridade de “Tudo que Quero” – ao estruturar a jornada de uma autista em direção de seus objetivos, o torna previsível. No entanto, o fantasioso universo do longa é belo, alegre e fantasioso, e conta com uma trilha sonora que estimula os sentimentos.

O Papagaio


A chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente


Contos adaptados para o teatro, a partir de dois livros assinados por Thiago Picchi – “O Papagaio e Outras Músicas” e “A Arte de Salvar um Casamento” – conduzem aos palcos a chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente. Um espetáculo que alça voo em direção a uma realidade surreal, a começar pelo relato sobre a fuga de um papagaio de seu cativeiro. Embora distinto do primeiro, o conto seguinte dá continuidade à dramatização sob a temática da solitude e apresenta um idoso diante do desafio de um novo emprego no setor público. O exílio pessoal é continuado pelo drama vivido por conta das provocações, de parte a parte, entre um casal de irmãos, aparentemente atreguadas pela morte da irmã. Finalmente, após a travessia de uma tênue fronteira entre contos, o espetáculo introduz um telespectador que se apaixona pelas mãos de uma apresentadora de um programa televisivo de leilão de joias.

Como a ave da história, que foge em busca da sua liberdade, “O Papagaio” inspira-se em personagens que vivem as suas loucuras em plenitude cotidiana e perverte a realidade de maneira perturbadora. A fluida direção de Thiago Picchi dramatiza cada conto, de tal forma, a estabelecer ligações sutis nas motivações de cada personagem, ao definir seus textos como foco do espetáculo – ora sufocante, ora libertador. A inusitada e louvável atuação de Marcelo Picchi, frente à sua trajetória artística, até o presente momento, prende a atenção do espectador, a ponto de levá-lo à dúvida quanto ao momento do desfecho do espetáculo - mesmo após o apagar dos projetores de luz, toma-se por surpreendido e sem ação ao sinal auditivo derradeiro de agradecimento por parte do ator.

Definindo o corriqueiro cotidiano traçado pelo texto, a cenografia de Zé Carlos Garcia é simplória e se basta, da mesma forma que o desenho de luz cênica de Pedro Paulo, que faz imprescindível frente à tenuidade presente nas passagens de cenas, de um conto para outro. A trilha sonora de Beto Ferreira, apesar de discreta, ameniza a verborragia do monólogo e emociona, a partir de seus cantos por Marcelo Picchi.

“O Papagaio” é pleno de linguagem provocante relacionada com domínio de palco e com a responsabilidade por manter o espectador como foco receptor de experiência dramatúrgica, reivindicada pela excelência de texto e de atuação.

sábado, 21 de abril de 2018

Os Monólogos da Vagina


A equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos

Baseado na peça teatral “Os Monólogos da Vagina” – aclamado em 2006, como a obra mais importante do teatro político dos anos 1990 pelo New York Times, de autoria da jornalista, dramaturga artista, feminista e ativista norte-americana, Eve Ensler – a atual turnê do espetáculo comemora 18 anos desde a sua primeira condução aos palcos cariocas, em 2000, com adaptação e direção de Miguel Falabella. O texto de Ensler é fruto de depoimentos de mais de duzentas mulheres em todo o mundo, tomados pela própria autora, que construiu um espaço isento de estigma e, de forma inteligente, consciente ao extremo. Em sua adaptação, Falabella define um roteiro inédito para o espetáculo no qual o texto é encenado por três atrizes – formato esse adotado, a partir de então, em todas as produções em todo o mundo, assim definido por Ensler, presente à estreia do espetáculo no Brasil.

No palco, quatro atrizes – Cacau Melo, Maximiliana Reis, Rebeca Reis e Sônia Ferreira se revezam em meio ao trio de encenadoras – assim definido por Falabella. A contida permissividade da direção das atrizes, por Maximiliana Reis, não só mantém acessa a essência do texto original, mas conduz a dramaturgia com respeitosa celebração à dignidade feminina, fazendo pulsar em cada espectador o sentimento de admiração e reverência às mulheres, independentemente de sua etnia e cultura – mesmo naquelas onde o estupro, o espancamento, a prostituição, as mutilações, os assassinatos e o assédio são práticas banalizadas ou, até mesmo, silenciadas em nome do temor, que pode ter sua origem desde a infância.  A dramatização transforma o palco em um campo de batalha, cuja guerra declarada ainda tem como foco a desrespeitosa desvalorização da mulher. Não obstante, a equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos. O acentuado visagismo de Anderson Bueno confere identidade aos diversos papéis interpretados pelo trio e, ao fazê-lo, evidencia o poderio necessário a cada uma das personagens, ora acentuado, ora atenuado pelo consistente desenho de luz de Matheus Chaves que interage para com a acuidade visual do espectador, como um receptáculo de raiva, de violência e de agressão, mas cuja leitura é atenuada com pela sutileza da alma feminina. A simbiose entre refinado humor e reverente dramaturgia, capacitada para promover diversão e indignação, é adornada pelo espirituoso figurino de Anderson Bueno e Milton Fucci Júnior que preenche, com vivacidade, o processo criativo e de movimento das atrizes. A cenografia videográfica de Cássio L. Reis se faz presente por meio de uma pesquisa de imagens alusivas ao título do espetáculo, por sua vez concebidas segundo os preceitos artísticos plásticos, além de elementos complementares minimalistas.

‘Vagina´- uma palavra ainda cercada de tabus, capaz de provocar impactos negativos quando proferida fora do contexto do espetáculo. “Os Monólogos da Vagina” carrega consigo uma dose pungente de humor, de poemas, de fatos inebriantes e de um leque de emoções que, emparelhados com a atmosfera acolhedora promovida pela direção do espetáculo, cativa o espectador, com suas vertentes antropológicas, sociais, ritualísticas e exorcísticas, totalmente teatrais.

Circuito Geral - Os Monólogos da Vagina

sexta-feira, 20 de abril de 2018

7 Dias em Entebbe


Não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável

A história do sequestro de um avião francês, em 27 de junho de 1976, sob autoria de um grupo de ativistas pró-Palestina liderado por Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) – a mais nova versão de fatos reais de José Padilha, “7 Dias em Entebbe”. O longa político propulsivo direcionado a um perigo crescente tenta conectar o espectador aos diálogos ‘revolucionários’ que, em alguns momentos, tornam-se desmotivadores diante da trajetória do avião que parte de Tel Aviv - Israel com 248 passageiros e é desviado para o aeroporto de Entebbe – Uganda. A negociação parte da exigência dos sequestradores para que o governo de Israel liberte 53 terroristas mantidos em prisões israelenses. Caso contrário, seriam mortos todos os 100 israelenses dentre os 248 passageiros da aeronave sequestrada.

Padilha concede uma atmosfera épica ao longa, sem definição de fronteira entre o bem e o mal, mas transformando uma questão complexa diante de ações repreensíveis realizadas por aqueles que se intitulam combatentes da liberdade. Padilha não se aprofunda no conflito entre Israel e a Palestina que dura mais de 40 anos. Consequentemente, não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável, ao lembrar que houve um breve período durante o qual as conversações de paz pareciam viáveis. Mas que, nos dias atuais, tal utopia se encontra cada vez mais distante.

Circuito Geral - 7 Dias em Entebbe

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Todo Clichê do Amor


O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento


“Clichê” – palavra que se tornou sinônimo de tudo o que já foi objeto de repetição excessiva e que perdeu a originalidade.

O particular olhar da direção do ator, cineasta, escritor e dramaturgo paulista Rafael Primot projetado no seu mais recente longa – “Todo Clichê do Amor” – aquece o coração ao compartilhar espaço com a estrutura predominante das comédias românticas. Primot se aproveita dos lugares comuns, nada revolucionários, para contar três histórias com um suave frescor de genialidade, tendo em comum triângulos amorosos formados por – duas amigas e um jovem tímido; uma madrasta e sua enteada velando o falecido marido e pai, respectivamente; um homem separado de seu verdadeiro amor, um ator pornô e sua mulher prostituta que sonha em dar à luz. Histórias que se entrelaçam sem a obviedade linear da intercessão de núcleos de personagens de origens distintas.

A qualidade da ficha técnica mesclada com os clichês dispostos de maneira eficiente por Primot, não cai na mesmice. O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento, do que há de tão equivocado na adoção de clichês. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Quase Memória



“Quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”



Baseado no romance homônimo de Carlos Heitor Cony, o longa “Quase Memória” funde uma narrativa atemporal que transita entre a emissão do Ato Institucional número 5, em 1968 e a morte do piloto brasileiro de Fórmula 1, Airton Senna, em 1994.

A partir desses fatos, a circense direção de Ruy Guerra define dobras no tempo sem qualquer lampejo de esperança – quando a loucura, a ilusão, os fragmentos da memória, o choque de realidade, o esquecimento, a alienação, a ditadura, a fuga do consciente, os traumas e a sobrevivência ganham camadas de teatralidade, picardia, excentricidade, sarcasmo, inocência e humor. Guerra tem  a seu favor o performático elenco protagonizado por um Tony Ramos – interpretativamente condenado na estrutura do velho Carlos – diante de um subversivo Charles Fricks – aprisionado no jovem Carlos. Ambos ambientam um universo psicológico que permite o encontro do jovem com o velho, quando este recebe um estranho pacote, envolto em um nó, acompanhado por um envelope endereçado e cuja grafia somente poderia ser imputada a seu pai, morto há anos.

Essa obra de Guerra que, ao parecer tratar das escolhas feitas durante uma vida que se refletem na velhice, tocam o espectador mais sensível de maneira poética e transcreve as lembranças do protagonista com um “quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”.


Submersão


Impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa

Uma adaptação do romance do ex-correspondente de guerra J.M. Ledgard – conta a história de amor entre uma bio-matemática e um suposto engenheiro da água, satisfatoriamente interpretados por Alicia Vikander e James McAvoy. Sob o título de “Submersão”, o mais recente longa de Wim Wenders leva às telas uma produção cinematográfica, rica em simbolismo global, discorrendo sobre assuntos que permeiam por entre o meio ambiente e aspectos ligados ao “jihad” - termo árabe que se traduz em luta, esforço ou empenho e que pode ser considerado um dos pilares da fé islâmica, defino por deveres religiosos visando ao desenvolvimento do espírito da submissão a Deus.

Em meio a esse universo temático, eclode um romance não convencional, traçado por caminhos divergentes, que definem a separação dos protagonistas durante grande parte do filme, dando lugar a lembranças, a palavras e à certeza de que o amor e a paixão nem sempre recompensam as partes envolvidas. Wenders compensa a provável ironia do destino ao apresentar os personagens já mergulhados em seus sentimentos, onde a atração súbita é tão poderosa que faz com que o espectador, definitivamente, acredite no amor à primeira vista. O roteiro, equivalente à mortalidade presente no filme, conta com a concepção de iluminação cênica crucial, em alguns momentos, totalmente esmaecida, como uma tentativa de aprofundamento nas memórias do casal romântico e de fazer com que os espectadores acreditem que aquela experiência amorosa é tão poderosa quanto a luz do dia.

O ciclo de qualidade que envolve “Submersão” impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa.



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Exorcismos e Demônios


Baseado em uma história real – porém, repleta de clichês que, em outras obras do gênero, já deram seu tempo e não encontram espaço para releituras


Uma jovem jornalista viaja até a Romênia para investigar a morte de uma noviça, ocorrida durante um ritual de exorcismo, culminando na condenação do padre responsável pelo esconjuro. Cética e pouco sociável, a jornalista carrega seus próprios fantasmas do passado os quais ela mesma deverá exorcizar, além de ter que lidar com a desconfiança da população local e lidar com o embate contra vários indivíduos envolvidos no caso.

Uma típica sinopse de um filme investigativo, com sérias ressalvas à condução do argumento na linha do terror, da forma mais precária possível. Em meio a frustradas tentativas de propagar o medo e a agonia durante o longa, resta somente a bela fotografia de Daniel Aranyó como protagonista da produção. Clímax e emoção passam longe do preguiçoso roteiro de Chad e Carey Hayes, que se diz baseado em uma história real – porém, repleta de clichês que, em outras obras do gênero, já deram seu tempo e não encontram espaço para releituras, como as inseridas em “Exorcismos e Demônios”.

domingo, 15 de abril de 2018

O Olho de Vidro



O trânsito por uma percepção poeticamente infantil e pela construção de devaneios flexionados no imaginário adulto se faz presente no espetáculo “O Olho de Vidro”, que insere uma visão documental do livro do autor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós - ‘O Olho de Vidro do Meu Avô’.

A narrativa do monólogo é agraciada pela livre inspiração do texto de Queiroz, que alimenta o afetivo texto de Renata Mizrahi, por sua vez, encrustado com relatos de vida do ator, produtor, diretor teatral Charles Asevedo – que se desmembra em idealizador e ator da pueril epifania das lembranças expostas ao espectador.

A deslumbrada proximidade dos dois mundos constituídos pela infância e pela maturidade – em meio à dor e ao compromisso para com o resgate de uma memória desconectada – é amparada pela criação artística de Vera Holtz, de Guilherme Leme Garcia e de Flávia Pucci. Esses três olhares catalisam as impressões de um primeiro contato com o mundo de gente grande, tão logo se deixa de ser criança, liberando o livre acesso ao necessário alcance perceptivo de Asevedo à imaterialidade do limite estético e psicológico ao qual o ator se entrega.

A iluminação de Tomás Ribas se faz essencial aos olhos do espectador ao segmentar os detalhados focos investigativos do monologuista, sombreando sua adaptada precedência e irradiando sua personalidade paradoxal. Tão puro quanto a ingenuidade infantil, na qual o protagonista submerge com a sua narrativa e olhar doces e cativantes, o cenário concebido por Aurora dos Campos, parte para o minimalismo que define os traços da realidade entrincheirada donde reverberam as atividades do mundo interior e do mundo exterior do protagonista – enquanto criança, enquanto adulto. A anímica trilha musical de Marcelo H estrutura o simbolismo da fabulação como se uma paisagem sonora embalasse as prosas e os versos, aprofundando-se na imagem do personagem.

Ao virar do avesso o íntimo de Asevedo, o espetáculo “O Olho de Vidro” ativa e aglutina sensações de um universo tenso, onde a culpa transcende a infância em uma dicotomia entre a organização da matéria representada pelo olho de vidro e a entropia inerente ao desenrolar da sorte de cada ser vivo. A partir desse confronto, resta ao espectador ser conduzido através da concretização do objeto de um avô à autocompreensão e autoaceitação, não tardiamente, mas em respeito ao seu tempo, por parte de seu neto. 


quinta-feira, 12 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais


Nenhum tipo de lucidez ao seu final, mas dilacera o âmago imaginativo da necessidade de uma razão

O processo de criação de um texto literário – método individual, intrasferível e adequado à individualidade de cada escritor. A partir da compreensão e exploração desse processo, o diretor, produtor, roteirista e ator polaco – Roman Polanski, artesanalmente, dirige o longa “Baseado em Fatos Reais”. Nessa trama, Eva Green é Elle – uma ghostwritter; e Emmanuelle Seigner é Delphine – uma escritora consagrada que conhece Elle em uma noite de autógrafo do seu mais recente best-seller.

A inercia da capacidade criativa de Delphine para a concepção de um novo livro se transforma em um profundo abismo que demanda, por parte da escritora, reescritas, correções, acréscimos, supressões e mudanças repentinas visando à composição de mais uma obra de sucesso de sua autoria.

Polanski, com clareza sombria, redefine teorias, desenvolve novas relações em atmosfera sinuosa, insere discursos ficcionais e textos dissertativos com caráter reflexivo sobre o objeto observado pelo espectador. Não lhe traz nenhum tipo de lucidez ao seu final, mas dilacera o âmago imaginativo da necessidade de uma razão.



Aos Teus Olhos


Em plena contemporaneidade incômoda, quando um culpado para os males sociais se faz necessário, o longa mergulha, inquietantemente, no claustrofóbico início que nunca chegará a termo

Terreno movediço - a dubiedade que desponta das contradições humanas no âmbito social. A ampliação dos indícios de uma possível injustiça ao retratar a história de um professor de natação infantil, sob suspeita de assédio, ao ser acusado pela mãe de um aluno de tê-lo abraçado e beijado a sua boca - segundo ela, declarado pela própria criança.

Debruçando-se na dramaturgia do catalão Josep Maria Miró – 'O Princípio de Arquimedes' – Carolina Jabor, através de uma direção coercitiva, recheia o seu novo longa "Aos Teus Olhos" com perguntas esquivas que se alteram, constantemente, a cada um dos noventa minutos de seu tempo narrativo.

O espectador é conduzido à manipulação de fatos, ao livre arbítrio nas redes sociais, a indignações seletivas, à privacidade imaginária em meio a uma sociedade em constante atrito com o individualismo.

O polido tratamento dedicado ao multifacetado diálogo que distende, sem nenhuma sutileza, a indeterminação da veracidade que, em rota de colisão com o espectador, explode indeciso e de maneira irascível diante de seus olhos – um espectador que anseia pelo suposto acerto de contas, como um jurado em um tribunal, onde a “moral social” é o juiz que exalta a fúria em seu veredicto, baseado em suposições que lhes parecem óbvias.

Em plena contemporaneidade incômoda, quando um culpado para os males sociais se faz necessário, o longa mergulha, inquietantemente, no claustrofóbico início que nunca chegará a termo.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Edward Bond Para Tempos Conturbados


Terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação


Livremente inspirado no “Pequeno livro para tempos conturbados” composto por quatorze capítulos contemplando textos teóricos, fábulas e poemas escritos por Edward Bond, entre 1984 e 1998, um espetáculo teatral se propõe ratificar o caráter longevo e profícuo da obra do dramaturgo, poeta e argumentista britânico. "Edward Bond Para Tempos Conturbados" se propõe a preencher uma lacuna em potencial, na discussão da relação do teatro com a sociedade, em meio ao pensamento sobre a violência e os rumos das relações sociais, mesmo que, de forma radicalizada.

A direção de Daniel Belmonte assume um caráter épico e cruza o âmbito das técnicas específicas dos desejos que beiram a experiências multissensoriais que expõem a obra de Bond.  Seu trabalho traz à luz da informação crítica o escrutinar da justiça e a desumanidade do ser, dando forma à dramaturgia de André Pellegrino como se um recital disforme que relaciona o texto brutal de Pellegrino com as imagens videográficas assinadas pela dupla Leonardo Bianchi e Kaio Caiazzo, de modo a manter o espectador consciente das suas coordenadas no âmbito do mapa social.

Seguindo o pensamento de Bond, que define a forma fundamental da mente funcionar como imaginação à procura da razão, o confrontante elenco composto por Susanna Kruger, Fernando Melvin, João Sant’Anna, Kallanda Caetana, Leonardo Bianchi e Lívia Feltre, eficientemente, faz com que o espectador se veja em busca da razão em respeito à sua própria imaginação. A descolonizada concepção cenográfica de Julia Marina e Ana Barbiere transporta para o palco um campo de batalha onde se desembaraçam as mentiras da complexidade humana e o vazio da sociedade expressados pela arte cênica. A atmosfera repleta de teatralidade, provocadora e emocionante, que não atinge somente a razão, mas também a sensibilidade repercutida pelo texto de Bond, tem como aliado o figurino de Anouk Van Der Zee, que dá corpo às ideias do dramaturgo, mesmo quando o figurino formal se faz ausente. A hecatombe contida nas entrelinhas do desenho de luz dos Irmãos Mantovani convida o espectador a se lançar nas profundezas do inferno imaginativo, muitas vezes, sob penumbra tão intensa que dá margem para ser interpretada como uma nuvem que anuncia o apocalipse que condena todos à angústia pela simples falta de acuidade visual por tempo indeterminado. O visagismo de Marianna Pastori afirma a natureza metaliguística dos personagens ao facilitar a construção dramatúrgica do espetáculo, em comum união ao desenho de som de Antonio Nunes que, de forma articulada, contribui para com o escopo imaginativo, extensivo às cenas apresentadas.

Os densos movimentos pincelados na pintura do cartaz de divulgação do espetáculo por Lívia Feltre é algo que chama atenção como uma forma de expressão diante do caos social no qual o espetáculo mergulha – inclusão que pode ser imputada ao olhar sensível de Colmar Diniz, diretor de arte do espetáculo.

Como uma variante da vida, "Edward Bond Para Tempos Conturbados" é terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação.

sábado, 7 de abril de 2018

Romeu & Julieta


Com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno

A partir de uma estética clássica mixada com as músicas de carreira de Marisa Monte, surge a adaptação da famosa tragédia concebida por William Shakespeare entre 1501 e 1595, nos primórdios de sua carreira, “Romeu & Julieta”. A versão, que não se trata de mais uma qualquer, é assinada e dirigida pelo ator, diretor e produtor Guilherme Leme Garcia, que se permite a ousadia de traduzir o romance com acentuada atenuação do rebuscamento da linguagem shakespeariana, visando ao seu alcance pelo grande público, e contemporaneamente deduzível pelas letras das canções de MM.


O argumento sobre o romance proibido entre os jovens Romeu e Julieta, integrantes das famílias rivais Montéquio e Capuleto, respectivamente, em nada difere do original, resgatando as lembranças de quem já conhece a obra do poeta, dramaturgo e ator inglês e despertando o interesse da nova geração pela literatura clássica – um legado para uma fração de público com representatividade expressiva na sessão das 16:30 do dia 31 de março de 2018, no Teatro Riachuelo, Cinelândia – Rio de Janeiro.

A trama, em seu estado substanciado, coloca em evidência a eximia capacidade de adaptação e da incrustação do roteiro original com o musical, por parte de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, ao elegerem os sucessos de Caetano Veloso e Gilberto Gil – ‘Panis et Circense’; Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – ‘Um Só’; Roberto Corte Real – ‘Esqueça’; George Harrison – ‘Give me Love’; Pedro Baby – ‘Vilarejo’; Adriana Calcanhoto – ‘Pelo Tempo que Durar’; Davi Moraes – ‘Velha Infância’; Roberto Carlos – ‘De que Vale Tudo Isso’, Nelson Motta – ‘Bem que se Quis’, dentre outros, como condutores auxiliares da narrativa. Com isso, a dupla injeta exuberância à história e condecora a produção com um selo de qualidade, ao conferirem um status elevado às canções que definem o musical, a despeito da já consagrada notabilidade dos jovens apaixonados. A obcecada coreografia de Toni Rodrigues é harmônica e esteticamente concebida, sendo criteriosamente interpretada pela a totalidade do elenco, que a desenvolve de modo a se integrarem ao arco dramático narrativo. O pano de fundo erudito, definido pela liberdade minimalista na concepção do projeto cenográfico de Daniela Thomas, recria uma Verona híbrida que conversa com a proposta clássica-pop do espetáculo, de igual para igual. Confiante em sua experiência como figurinista, João Pimenta enfatiza a ação de cada cena segundo a liberdade interpretativa que toma para si enquanto senhor das vestes. O visagismo de Fernando Torquatto subtrai a excessiva carga sentimental dos personagens e aposta no desenlace sentimental, em nome de um drama desenhado por um comportamento social e traçado pelo destino. Monique Gardenberg e Adriana Ortiz assinam o volátil e ambivalente desenho de luz que banha, com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno, diante do grande elenco composto por Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo), Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz. A ode ao belo mecanismo dialético do espetáculo é regida pela maestrina Claudia Elizeu e brilhantemente executada por: Gabriel Gravina - no teclado, André Barros – nos violões e no bandolim,  Arthur Pontes – no violino e viola,  Fábio Meg no cello acústico, Gabriel Guenther – na percussão orquestral,  e Gelton Galvão – na harpa; estrategicamente posicionados em meio ao cenário de Thomas e visualizado, seletivamente, pela permissividade controlada da iluminação cênica de Gardenberg e Ortiz. 


Leme demonstra sapiência ao introduzir a gota de comédia necessária – possivelmente com carga faceta tão dosada quanto o fora enquanto linguagem dantesca, no Inferno da Divina Comédia – para que o público se sinta incluído na tragédia e dela sair ileso, a despeito da carga emotiva provocada pela metamorfose do drama em espetáculo musical com referências de contemporaneidade limitada às últimas três décadas. Dessa forma a desgraça encarnada que corrompe a pureza, de braços dados com a violência que destroça a inocência, faz do espetáculo “Romeu & Julieta” uma constatação atualíssima, que ainda há, de verdade, gente morrendo de amar.


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso


Sob misterioso e ameaçador silêncio, que dispensam palavras para contar uma história e barulhos para tirar o espectador da sua zona de conforto por conta de sustos inesperados


O planeta Terra invadido por monstros alienígenas reptilianos – predadores que não enxergam suas presas, mas as percebem através de sua incrementada acuidade auditiva e as caçam, implacavelmente, devido à sua agilidade.

“Um Lugar Silencioso” percorre um caminho paralelo aos filmes de terror, quando os barulhos assustadores destes correspondem ao impacto provocado pela sua trilha sonora. A invasiva direção de John Krasinski lança mão do combalido e ultrapassado recurso, tão utilizado nos atuais filmes do gênero, discorrendo sobre as vidas pós-apocalípticas de um núcleo composto por um chefe de família – Lee (John Krasinski); sua esposa – Evelyn (Emily Blunt); e os dois filhos do casal – Regan (Millicent Simmonds), uma deficiente auditiva e Marcus (Noah Jupe). Isolados por silêncio arrebatador, a família se afoga, ironicamente, em sentimentos de pesar e de culpa, causadores dos seus próprios medos, a despeito do clima de horror inerente aos monstruosos seres alienígenas.

Estes, por sua vez, são capazes de despertar respeito em função de suas habilidades ao longo dos noventa minutos do filme, sob misterioso e ameaçador silêncio, que dispensam palavras para contar uma história e barulhos para tirar o espectador da sua zona de conforto por conta de sustos inesperados – possivelmente, o trunfo de Krasinski, ao definir o som como elemento invasor, que nem mesmo os alienígenas, sequer os terráqueos demostram entender o seu real significado.

terça-feira, 3 de abril de 2018

O Homem das Cavernas


Esmaece frente às demais obras do gênero, oferecendo ao público uma história estruturada por um argumento gratuito e sem espaço para o engajamento imaginativo


Em um momento em que a imaginação não tem limites no universo das produções animadas, os visuais exuberantes concebidos a partir de potentes roteiros desenhados para crianças, adolescentes e adultos correm o sério risco de se perderem diante da menor permissividade e opção pelo humor mediano, simplesmente pelo fato equivocado de uma animação ter como alvo, o público infantil. A alfabetização visual, narrativa e moral dessas animações é repleta de detalhes que podem passar desapercebido pelo público infanto juvenil, mas não podem perder a oportunidade de oferecer a aquele grupo de espectadores, cada vez mais antenado, a dignidade ser tratado como composto por indivíduos pensantes e complexos, não obstante de seu status de classificação de faixa etária livre.

Amparado por essa visão, “O Homem das Cavernas” – esmaece frente às demais obras do gênero, oferecendo ao público uma história estruturada por um argumento gratuito e sem espaço para o engajamento imaginativo.  O resultado de tamanho esforço, enquanto arte de modelagem em argila e técnica cinematográfica quadro-a-quadro é uma comédia sem inspiração motivadora, contemplando mensagens anti-sexismos desestimulantes e embasadas em convicções emocionais naif de tal forma a prender a atenção de bebês capazes de se distraírem e se sentirem admiradas com imagens e cores. No centro das atenções, a aurora da civilização protagonizada por Dug – um homem das cavernas que faz parte de uma tribo de ineptos que encontra dificuldade, até mesmo para garantirem a sua subsistência através da caça e que vê a sua tranquilidade interrompida quando civilização mais desenvolvida invade o vale no qual Dug e os seus habitam.

A direção de Nick Park é escassa em lógica narrativa com efeito sonífero tão forte quanto uma canção de ninar, por mais inadequadas sejam para tal prática, as poltronas ergonomicamente confortáveis instaladas nas atuais salas de cinema.

O grau de previsibilidade de “O Homem das Cavernas” evidencia-se na tentativa de promover algo coerente e justo ao público ao qual se destina, ou seja, aqueles que saem de situações ruins através das forças combinadas pela sorte e pela imprudência - uma aposta às cegas no imprevisível ou um desserviço de ensinamento aos pequenos seres em fase de crescimento e de formação moral.