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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Edward Bond Para Tempos Conturbados


Terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação


Livremente inspirado no “Pequeno livro para tempos conturbados” composto por quatorze capítulos contemplando textos teóricos, fábulas e poemas escritos por Edward Bond, entre 1984 e 1998, um espetáculo teatral se propõe ratificar o caráter longevo e profícuo da obra do dramaturgo, poeta e argumentista britânico. "Edward Bond Para Tempos Conturbados" se propõe a preencher uma lacuna em potencial, na discussão da relação do teatro com a sociedade, em meio ao pensamento sobre a violência e os rumos das relações sociais, mesmo que, de forma radicalizada.

A direção de Daniel Belmonte assume um caráter épico e cruza o âmbito das técnicas específicas dos desejos que beiram a experiências multissensoriais que expõem a obra de Bond.  Seu trabalho traz à luz da informação crítica o escrutinar da justiça e a desumanidade do ser, dando forma à dramaturgia de André Pellegrino como se um recital disforme que relaciona o texto brutal de Pellegrino com as imagens videográficas assinadas pela dupla Leonardo Bianchi e Kaio Caiazzo, de modo a manter o espectador consciente das suas coordenadas no âmbito do mapa social.

Seguindo o pensamento de Bond, que define a forma fundamental da mente funcionar como imaginação à procura da razão, o confrontante elenco composto por Susanna Kruger, Fernando Melvin, João Sant’Anna, Kallanda Caetana, Leonardo Bianchi e Lívia Feltre, eficientemente, faz com que o espectador se veja em busca da razão em respeito à sua própria imaginação. A descolonizada concepção cenográfica de Julia Marina e Ana Barbiere transporta para o palco um campo de batalha onde se desembaraçam as mentiras da complexidade humana e o vazio da sociedade expressados pela arte cênica. A atmosfera repleta de teatralidade, provocadora e emocionante, que não atinge somente a razão, mas também a sensibilidade repercutida pelo texto de Bond, tem como aliado o figurino de Anouk Van Der Zee, que dá corpo às ideias do dramaturgo, mesmo quando o figurino formal se faz ausente. A hecatombe contida nas entrelinhas do desenho de luz dos Irmãos Mantovani convida o espectador a se lançar nas profundezas do inferno imaginativo, muitas vezes, sob penumbra tão intensa que dá margem para ser interpretada como uma nuvem que anuncia o apocalipse que condena todos à angústia pela simples falta de acuidade visual por tempo indeterminado. O visagismo de Marianna Pastori afirma a natureza metaliguística dos personagens ao facilitar a construção dramatúrgica do espetáculo, em comum união ao desenho de som de Antonio Nunes que, de forma articulada, contribui para com o escopo imaginativo, extensivo às cenas apresentadas.

Os densos movimentos pincelados na pintura do cartaz de divulgação do espetáculo por Lívia Feltre é algo que chama atenção como uma forma de expressão diante do caos social no qual o espetáculo mergulha – inclusão que pode ser imputada ao olhar sensível de Colmar Diniz, diretor de arte do espetáculo.

Como uma variante da vida, "Edward Bond Para Tempos Conturbados" é terrível, cênico e, em alguns momentos, tão monótono quanto à espera por tempos melhores, mas com um poder imobilizador pós apresentação.

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