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domingo, 15 de abril de 2018

O Olho de Vidro



O trânsito por uma percepção poeticamente infantil e pela construção de devaneios flexionados no imaginário adulto se faz presente no espetáculo “O Olho de Vidro”, que insere uma visão documental do livro do autor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós - ‘O Olho de Vidro do Meu Avô’.

A narrativa do monólogo é agraciada pela livre inspiração do texto de Queiroz, que alimenta o afetivo texto de Renata Mizrahi, por sua vez, encrustado com relatos de vida do ator, produtor, diretor teatral Charles Asevedo – que se desmembra em idealizador e ator da pueril epifania das lembranças expostas ao espectador.

A deslumbrada proximidade dos dois mundos constituídos pela infância e pela maturidade – em meio à dor e ao compromisso para com o resgate de uma memória desconectada – é amparada pela criação artística de Vera Holtz, de Guilherme Leme Garcia e de Flávia Pucci. Esses três olhares catalisam as impressões de um primeiro contato com o mundo de gente grande, tão logo se deixa de ser criança, liberando o livre acesso ao necessário alcance perceptivo de Asevedo à imaterialidade do limite estético e psicológico ao qual o ator se entrega.

A iluminação de Tomás Ribas se faz essencial aos olhos do espectador ao segmentar os detalhados focos investigativos do monologuista, sombreando sua adaptada precedência e irradiando sua personalidade paradoxal. Tão puro quanto a ingenuidade infantil, na qual o protagonista submerge com a sua narrativa e olhar doces e cativantes, o cenário concebido por Aurora dos Campos, parte para o minimalismo que define os traços da realidade entrincheirada donde reverberam as atividades do mundo interior e do mundo exterior do protagonista – enquanto criança, enquanto adulto. A anímica trilha musical de Marcelo H estrutura o simbolismo da fabulação como se uma paisagem sonora embalasse as prosas e os versos, aprofundando-se na imagem do personagem.

Ao virar do avesso o íntimo de Asevedo, o espetáculo “O Olho de Vidro” ativa e aglutina sensações de um universo tenso, onde a culpa transcende a infância em uma dicotomia entre a organização da matéria representada pelo olho de vidro e a entropia inerente ao desenrolar da sorte de cada ser vivo. A partir desse confronto, resta ao espectador ser conduzido através da concretização do objeto de um avô à autocompreensão e autoaceitação, não tardiamente, mas em respeito ao seu tempo, por parte de seu neto. 


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