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segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Papagaio


A chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente


Contos adaptados para o teatro, a partir de dois livros assinados por Thiago Picchi – “O Papagaio e Outras Músicas” e “A Arte de Salvar um Casamento” – conduzem aos palcos a chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente. Um espetáculo que alça voo em direção a uma realidade surreal, a começar pelo relato sobre a fuga de um papagaio de seu cativeiro. Embora distinto do primeiro, o conto seguinte dá continuidade à dramatização sob a temática da solitude e apresenta um idoso diante do desafio de um novo emprego no setor público. O exílio pessoal é continuado pelo drama vivido por conta das provocações, de parte a parte, entre um casal de irmãos, aparentemente atreguadas pela morte da irmã. Finalmente, após a travessia de uma tênue fronteira entre contos, o espetáculo introduz um telespectador que se apaixona pelas mãos de uma apresentadora de um programa televisivo de leilão de joias.

Como a ave da história, que foge em busca da sua liberdade, “O Papagaio” inspira-se em personagens que vivem as suas loucuras em plenitude cotidiana e perverte a realidade de maneira perturbadora. A fluida direção de Thiago Picchi dramatiza cada conto, de tal forma, a estabelecer ligações sutis nas motivações de cada personagem, ao definir seus textos como foco do espetáculo – ora sufocante, ora libertador. A inusitada e louvável atuação de Marcelo Picchi, frente à sua trajetória artística, até o presente momento, prende a atenção do espectador, a ponto de levá-lo à dúvida quanto ao momento do desfecho do espetáculo - mesmo após o apagar dos projetores de luz, toma-se por surpreendido e sem ação ao sinal auditivo derradeiro de agradecimento por parte do ator.

Definindo o corriqueiro cotidiano traçado pelo texto, a cenografia de Zé Carlos Garcia é simplória e se basta, da mesma forma que o desenho de luz cênica de Pedro Paulo, que faz imprescindível frente à tenuidade presente nas passagens de cenas, de um conto para outro. A trilha sonora de Beto Ferreira, apesar de discreta, ameniza a verborragia do monólogo e emociona, a partir de seus cantos por Marcelo Picchi.

“O Papagaio” é pleno de linguagem provocante relacionada com domínio de palco e com a responsabilidade por manter o espectador como foco receptor de experiência dramatúrgica, reivindicada pela excelência de texto e de atuação.

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