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sábado, 21 de abril de 2018

Os Monólogos da Vagina


A equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos

Baseado na peça teatral “Os Monólogos da Vagina” – aclamado em 2006, como a obra mais importante do teatro político dos anos 1990 pelo New York Times, de autoria da jornalista, dramaturga artista, feminista e ativista norte-americana, Eve Ensler – a atual turnê do espetáculo comemora 18 anos desde a sua primeira condução aos palcos cariocas, em 2000, com adaptação e direção de Miguel Falabella. O texto de Ensler é fruto de depoimentos de mais de duzentas mulheres em todo o mundo, tomados pela própria autora, que construiu um espaço isento de estigma e, de forma inteligente, consciente ao extremo. Em sua adaptação, Falabella define um roteiro inédito para o espetáculo no qual o texto é encenado por três atrizes – formato esse adotado, a partir de então, em todas as produções em todo o mundo, assim definido por Ensler, presente à estreia do espetáculo no Brasil.

No palco, quatro atrizes – Cacau Melo, Maximiliana Reis, Rebeca Reis e Sônia Ferreira se revezam em meio ao trio de encenadoras – assim definido por Falabella. A contida permissividade da direção das atrizes, por Maximiliana Reis, não só mantém acessa a essência do texto original, mas conduz a dramaturgia com respeitosa celebração à dignidade feminina, fazendo pulsar em cada espectador o sentimento de admiração e reverência às mulheres, independentemente de sua etnia e cultura – mesmo naquelas onde o estupro, o espancamento, a prostituição, as mutilações, os assassinatos e o assédio são práticas banalizadas ou, até mesmo, silenciadas em nome do temor, que pode ter sua origem desde a infância.  A dramatização transforma o palco em um campo de batalha, cuja guerra declarada ainda tem como foco a desrespeitosa desvalorização da mulher. Não obstante, a equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos. O acentuado visagismo de Anderson Bueno confere identidade aos diversos papéis interpretados pelo trio e, ao fazê-lo, evidencia o poderio necessário a cada uma das personagens, ora acentuado, ora atenuado pelo consistente desenho de luz de Matheus Chaves que interage para com a acuidade visual do espectador, como um receptáculo de raiva, de violência e de agressão, mas cuja leitura é atenuada com pela sutileza da alma feminina. A simbiose entre refinado humor e reverente dramaturgia, capacitada para promover diversão e indignação, é adornada pelo espirituoso figurino de Anderson Bueno e Milton Fucci Júnior que preenche, com vivacidade, o processo criativo e de movimento das atrizes. A cenografia videográfica de Cássio L. Reis se faz presente por meio de uma pesquisa de imagens alusivas ao título do espetáculo, por sua vez concebidas segundo os preceitos artísticos plásticos, além de elementos complementares minimalistas.

‘Vagina´- uma palavra ainda cercada de tabus, capaz de provocar impactos negativos quando proferida fora do contexto do espetáculo. “Os Monólogos da Vagina” carrega consigo uma dose pungente de humor, de poemas, de fatos inebriantes e de um leque de emoções que, emparelhados com a atmosfera acolhedora promovida pela direção do espetáculo, cativa o espectador, com suas vertentes antropológicas, sociais, ritualísticas e exorcísticas, totalmente teatrais.

Circuito Geral - Os Monólogos da Vagina

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