Counter

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Praça Paris


Sua dinâmica de suspense, desprovida de clichês, retrata a violência urbana e a pobreza que vem alterando o perfil sócio-urbano do Brasil, induzindo, patologicamente, a prática comportamental por parte de uma expressiva parcela da população, tornando-a cada vez mais egoísta, mais individualista e, perigosamente, mais conservadora

Cenários cariocas imersos em desolação, degradação e negligência por parte do poder público – o prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, a Praça Paris. Na UERJ, uma ascensorista moradora do Morro da Providência – quando criança, abusada pelo pai, morto por seu irmão, na tentativa de preservá-la das inúmeras e contínuas ações das incursões paternas – sente-se endividada para com o irmão, pelo seu altruísmo e mantém com ele, fortes laços afetivos, apesar de sua condição de apenado sob acusação de ser ele, chefe de tráfico de drogas. Uma história de vida que vai ao encontro de outra, envolvendo uma psicanalista portuguesa, domiciliada no Brasil como discente de um curso de pós-graduação na UERJ, sob a temática da violência urbana. Nessa fusão de núcleos, psicanalista e ascensorista desenvolvem uma relação profissional entre terapeuta e paciente que se torna tão invasiva a ponto de se tornar ruidosa e hostil – um verdadeiro abismo entre dois mundos.

Poucas palavras são capazes de sintetizar o argumento de “Praça Paris” porém, firmes são os sentimentos e as emoções provocadas para quem é forte o suficiente para degustar seu roteiro. Sua dinâmica de suspense, desprovida de clichês, retrata a violência urbana e a pobreza que vem alterando o perfil sócio-urbano do Brasil, induzindo, patologicamente, a prática comportamental por parte de uma expressiva parcela da população, tornando-a cada vez mais egoísta, mais individualista e, perigosamente, mais conservadora.

Ao transparecer a exclusão social e suas múltiplas facetas, Lúcia Murat imprime, em “Praça Paris”, uma direção analítica onde o terror psicológico parece investigar a importância de se compreender a dinâmica social dos relacionamentos, tanto pessoais como institucionais. A realidade indizível e inominável entre a violência e a sociedade do longa de Murat traz à tona o imperativo enquadramento das consequências de quando se deseja aquilo o que não se pode ter.



Nenhum comentário:

Postar um comentário