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sábado, 7 de abril de 2018

Romeu & Julieta


Com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno

A partir de uma estética clássica mixada com as músicas de carreira de Marisa Monte, surge a adaptação da famosa tragédia concebida por William Shakespeare entre 1501 e 1595, nos primórdios de sua carreira, “Romeu & Julieta”. A versão, que não se trata de mais uma qualquer, é assinada e dirigida pelo ator, diretor e produtor Guilherme Leme Garcia, que se permite a ousadia de traduzir o romance com acentuada atenuação do rebuscamento da linguagem shakespeariana, visando ao seu alcance pelo grande público, e contemporaneamente deduzível pelas letras das canções de MM.


O argumento sobre o romance proibido entre os jovens Romeu e Julieta, integrantes das famílias rivais Montéquio e Capuleto, respectivamente, em nada difere do original, resgatando as lembranças de quem já conhece a obra do poeta, dramaturgo e ator inglês e despertando o interesse da nova geração pela literatura clássica – um legado para uma fração de público com representatividade expressiva na sessão das 16:30 do dia 31 de março de 2018, no Teatro Riachuelo, Cinelândia – Rio de Janeiro.

A trama, em seu estado substanciado, coloca em evidência a eximia capacidade de adaptação e da incrustação do roteiro original com o musical, por parte de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, ao elegerem os sucessos de Caetano Veloso e Gilberto Gil – ‘Panis et Circense’; Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – ‘Um Só’; Roberto Corte Real – ‘Esqueça’; George Harrison – ‘Give me Love’; Pedro Baby – ‘Vilarejo’; Adriana Calcanhoto – ‘Pelo Tempo que Durar’; Davi Moraes – ‘Velha Infância’; Roberto Carlos – ‘De que Vale Tudo Isso’, Nelson Motta – ‘Bem que se Quis’, dentre outros, como condutores auxiliares da narrativa. Com isso, a dupla injeta exuberância à história e condecora a produção com um selo de qualidade, ao conferirem um status elevado às canções que definem o musical, a despeito da já consagrada notabilidade dos jovens apaixonados. A obcecada coreografia de Toni Rodrigues é harmônica e esteticamente concebida, sendo criteriosamente interpretada pela a totalidade do elenco, que a desenvolve de modo a se integrarem ao arco dramático narrativo. O pano de fundo erudito, definido pela liberdade minimalista na concepção do projeto cenográfico de Daniela Thomas, recria uma Verona híbrida que conversa com a proposta clássica-pop do espetáculo, de igual para igual. Confiante em sua experiência como figurinista, João Pimenta enfatiza a ação de cada cena segundo a liberdade interpretativa que toma para si enquanto senhor das vestes. O visagismo de Fernando Torquatto subtrai a excessiva carga sentimental dos personagens e aposta no desenlace sentimental, em nome de um drama desenhado por um comportamento social e traçado pelo destino. Monique Gardenberg e Adriana Ortiz assinam o volátil e ambivalente desenho de luz que banha, com leveza de sentimentos e de sonhos, o lirismo rígido da morte, em dois atos, nos quais o ódio entre as famílias e o mergulho no irracional é uma alquimia de bálsamo e veneno, diante do grande elenco composto por Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo), Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz. A ode ao belo mecanismo dialético do espetáculo é regida pela maestrina Claudia Elizeu e brilhantemente executada por: Gabriel Gravina - no teclado, André Barros – nos violões e no bandolim,  Arthur Pontes – no violino e viola,  Fábio Meg no cello acústico, Gabriel Guenther – na percussão orquestral,  e Gelton Galvão – na harpa; estrategicamente posicionados em meio ao cenário de Thomas e visualizado, seletivamente, pela permissividade controlada da iluminação cênica de Gardenberg e Ortiz. 


Leme demonstra sapiência ao introduzir a gota de comédia necessária – possivelmente com carga faceta tão dosada quanto o fora enquanto linguagem dantesca, no Inferno da Divina Comédia – para que o público se sinta incluído na tragédia e dela sair ileso, a despeito da carga emotiva provocada pela metamorfose do drama em espetáculo musical com referências de contemporaneidade limitada às últimas três décadas. Dessa forma a desgraça encarnada que corrompe a pureza, de braços dados com a violência que destroça a inocência, faz do espetáculo “Romeu & Julieta” uma constatação atualíssima, que ainda há, de verdade, gente morrendo de amar.


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