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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Dedo na Ferida


Não obstante da velada intenção de provocar debate sobre o assunto, com sua narrativa esclarecedora, o documentário não se mostra forte o suficiente a ponto de mobilizar ou conscientizar


Abordando a influência do capital na política, o carioca Silvio Tendler – conhecido como “o cineasta dos sonhos interrompidos” – põe o “Dedo na Ferida” – o seu mais novo documentário – através do qual constrói a hipótese do sistema financeiro levar o mundo à miséria absoluta.

De forma didática, toma como paradigma um indivíduo, morador de Japeri, profissão podólogo, e compartilha com o espectador, um dia da sua rotineira viagem diária até Copacabana, onde trabalha. De forma tal a embasar a sua linha de raciocínio, Tendler conta com os depoimentos do ex-ministro das finanças da Grécia, do ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, do vice-presidente do banco dos Brics, além de testemunhos de outros cineastas, de intelectuais e de economistas. Não obstante da velada intenção de provocar debate sobre o assunto, com sua narrativa esclarecedora, o documentário não se mostra forte o suficiente a ponto de mobilizar ou conscientizar o povo brasileiro, quiçá a população de todo o mundo, muito em função de seu caráter crítico político, aquém da necessária divulgação das informações contidas no longa para uma considerável fração de mundo apartidário.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Eu Só Posso Imaginar


A via crucis percorrida pela direção de Andrew e Jon Erwin soa muito comercial e deixa claro, a grosso modo, a supremacia capitalista do show business gospel


Anunciada como a canção cristã mais tocada nas rádios Americanas, ‘I Can Only Imagine’ serve de base para o longa “Eu Só Posso Imaginar”, que desenha como a música foi criada, a partir da vida do seu autor Bart Millard.

O público alvo do longa é representado pelos contumazes usuários da palavra ‘superação’ para qualquer percalço ao longo da vida, faz uso do perdão seletivo para se cobrir com o manto da generosidade e ama o próximo em nível diretamente proporcional à distância que dele se encontra. A via crucis percorrida pela direção de Andrew e Jon Erwin soa muito comercial e deixa claro, a grosso modo, a supremacia capitalista do show business gospel diante de uma atividade produtiva, com um objetivo claro de gerar lucro às custas daqueles que acreditam que vão para o céu ou para o inferno quando passarem desta para melhor.

Paraíso Perdido


Uma obra rica pelas suas diferenças contra os males da sociedade contemporânea


Ao definir o paraíso como uma dimensão que se encontra na essência do ser humano, o utópico longa “Paraíso Perdido” imanta a fascinação de cada espectador pela paz abstrata emanada pela diversidade de personagens incorporados pelo elenco sob a direção enraizada de Monique Gardenberg.  Conta a história de um inferninho no centro da cidade de São Paulo, que abriga uma família nada convencional, e cujo proprietário, o patriarca, é interpretado, com placidez, por Erasmo Carlos.

O longa estabelece um mundo interior desviado da razão e conduzido pelo amor mútuo coletivo, sob a trilha sonora assinada por Zeca Baleiro, contemplando sucessos, há muito consagrados, de Márcio Greyck, Odair José, Reginaldo Rossi, Belchior, Paulo Sérgio, Raul Seixas e Roberto Carlos. As dores e as perturbações do homem moderno fazem de “Paraíso Perdido” uma obra rica pelas suas diferenças contra os males da sociedade contemporânea.

Não se Aceitam Devoluções


Um exercício através do qual Hassum se autoafirma como um ator polivalente – não desmerecendo, em momento algum, a sua já consagrada trajetória nas telas e no palco, como comediante

Um bon-vivant, que somente se interessa pelas mulheres aleatórias com as quais acorda a cada dia, tem sua vida revirada quando uma de suas ‘casuais’, bate à sua porta com uma menina bebê, alegando ser sua filha. Em seguida, a mulher lhe pede algum dinheiro para pagar o taxi, entra no carro e desaparece, deixando o homem com quem fornicara plantado na porta, com cara de pastel, com o bebê em seus braços.

Breve introdução ao argumento do filme mexicano, de 2014 – ‘No Se Aceptan Devoluciones’, roteirizado e dirigido por Eugenio Derbez, que ganha a sua versão brasileira – “Não se Aceitam Devoluções”, sob a leitura do músico, produtor musical, autor de trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão e diretor cinematográfico – André Moraes. O protagonismo, entregue a Leandro Hassum, dá o desnecessário tom de comicidade à produção original que completa, em 2018, meia década de aniversário de seu lançamento e que já carrega consigo um remake de sucesso – ‘Uma Família de Dois”, dirigido por Hugo Gélin.

A produção repeteco pode, até mesmo, ser enaltecida como um exercício através do qual Hassum se autoafirma como um ator polivalente – não desmerecendo, em momento algum, a sua já consagrada trajetória nas telas e no palco, como comediante – mas não deixa de ser desgastante e cansativo para o espectador que, já tendo experimentado as versões anteriores, corre o risco de sair da sala de projeção com o gosto de quem acaba de consumir um pouco mais do mesmo. 

Circuito Geral - Não se Aceitam Devoluções

sábado, 26 de maio de 2018

O Porteiro


Cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias


A partir de uma coletânea de histórias extraídas de entrevistas de um universo de porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal em busca da realização de seus sonhos, o espetáculo “O Porteiro” é um convite ao espectador para um estreito contato com um personagem real e presente na vida de todos os frequentadores de condomínios – em especial, os moradores dos residenciais. Uma obra teatral que fala dos profissionais que gentilmente lhes abrem as portas, os recebem ou deles se despedem, com sinceros cumprimentos, ao transitarem pelas portarias ao longo do dia e que, como abnegados plantonistas, são os olhos e ouvidos de todos os apartamentos, das áreas comuns e de seus respectivos usuários – em suma, tudo sabem e, de forma muito simplória, carinhosa e naturalmente dedicada, tomam conta da vida de todos. Não são raros os momentos em que se prestam a ajudar os mais necessitados para carregarem as suas sacolas de compras, além de assumirem o papel de fiéis depositários de encomendas que vem e que vão, muitas vezes sem receberem, sequer, uma palavra de agradecimento. Por outro lado, corações afetivos são capazes de lhes retribuírem com mimos, simples que sejam, mas que somente a essência generosa que reside em cada um desses profissionais é capaz de reconhecer o valor de tais gestos. Sem ultrapassar o limite que a cerimônia lhes permite, se inserem nos núcleos multifamiliares como se a cada uma daquelas famílias fizessem parte e encaram suas, muitas vezes, longas trajetórias como funcionários dos condomínios como se estivessem vivendo parte de suas vidas em seus próprios lares.

A irreverente visibilidade contida no texto e na direção de Paulo Fontenelle, além de promover generosos minutos de entretenimento, capacita o espectador a se entregar à reflexão e à comoção, ao lhe ser apresentado aspectos do dia a dia que, eventualmente, lhe pode ser invisíveis aos olhos. A naturalidade e aparente facilidade com que tudo isso acontece, deve-se à espontaneidade e ao autêntico sangue nordestino que corre nas veias do ator, produtor de arte e documentarista pernambucano gravataense Alexandre Lino que, através de sua incomum interatividade ao personificar o protagonista, quebrar a quarta parede e doá-lo ao espectador, libera sentimentos de afeição em via dupla, saturando a sala de espetáculos de pura empatia.

A escassa monotonia da rotina de um porteiro é refletida no sensível desenho de luz de Renato Machado – ora difusa enquanto operante, ora intimista enquanto reservado, ora dramática enquanto quase invisível aos olhos de muitos. A estratificação, sob o ponto de vista social e funcional – muitas vezes varrida para debaixo dos tapetes, mas identificável por olhares zelosos direcionados aos trabalhadores de condomínios, neste caso específico, os porteiros – encontra-se presente, esteticamente amenizada porém, precisamente definida pela genuína leitura da realidade que precede a concepção dos elementos cenográficos e do figurino assinados por Karlla de Luca.

A mágica agregada ao espetáculo fica por conta da reação da plateia que se permite transmutar do teatro para o seu próprio habitat – fenômeno capaz de agigantar a interpretação de Lino e descarrilá-la do roteiro de Fontenelle, assumindo os moldes de uma intensa relação entre condôminos e porteiro.  Não obstante do caráter cômico do espetáculo, “O Porteiro” cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias. A partir do seu potencial humanitário, do orgulho que tem de suas origens, de seu carisma, e do carinho que tem para com o seu ofício, Lino não poupa o espectador de encontrar e de se pôr em seu devido lugar – mesmo que às custas de muito, inteligente e diferenciado, bom humor.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Alguém como eu



Um pacote fotográfico com características de marketing turístico com foco no país peninsular ibérico


Uma história que tem início no contexto de um cenário carioca e que se transpõe para Lisboa – mudança de ares que não justifica qualquer demanda por parte do argumento que embasa o roteiro da comédia romântica “Alguém Como Eu”, mas quiçá, conexões afetivas de Leonel Vieira, cineasta português, realizador do longa luso-brasileiro e um dos seus coprodutores, juntamente com os irmãos paulistas Caio e Fabiano Gullane.

Em meio a esse panorama, se insere a viagem a Portugal, pela linda publicitária Helena – interpretada por uma previsível Paolla Oliveira – após uma desatinada crise existencial e sem credibilidade, ainda no Brasil, como fio condutor para o despertar de um relacionamento, no outro lado do Atlântico, com o português Alex – vivenciado, sem maiores esforços, pelo galã lusitano, Ricardo Pereira. A direção de Leonel Vieira se mostra inconsciente e sem ritmo, extremamente fantasiosa e tangenciando o plágio de filmes já consagrados, incluindo os seus clichês que, em “Alguém Como Eu”, minimamente, beiram o constrangimento.

A tudo aquilo, é adicionado um pacote fotográfico com características de marketing turístico com foco no país peninsular ibérico e a tentativa, muito além das entrelinhas, de rotular as mulheres brasileiras como berço do narcisismo, da futilidade e da impertinência, e que só encontram a plenitude, ao lado de homens que, preferencialmente, não compartilham a sua linha de pensamento.

Antes que eu me Esqueça


Repensa a relação entre vida, memória e esquecimento, tomando como ponto de referência a família construída com o passar do tempo


Um juiz aposentado que, ao perceber a manifestação dos primeiros sinais de Alzheimer, toma uma decisão inesperada – investir seu dinheiro na abertura de uma casa de strip-tease. Mas para levar a cabo o seu projeto, o juiz enfrenta a aprovação de seus herdeiros, estabelecendo um conflito na relação entre pai e filhos.

O longa “Antes que eu me Esqueça” repensa a relação entre vida, memória e esquecimento, tomando como ponto de referência a família construída com o passar do tempo. A direção de Tiago Arakilian é volátil e mutável enquanto parceira da evolução do roteiro de Luísa Parnes, que reduz o amor a uma escala sentimental que se alimenta de parcos momentos felizes. Com isso, Parnes vulgariza a natureza do incerto e a complexidade dos personagens a partir de caricaturas extremadas e drama metafórico que, em alguns momentos, se perdem em meio a história. 

Dessa forma, os acúmulos de “Antes que eu me Esqueça” desaguam em uma represa estagnada, após uma longa navegação em um rio repleto de reflexões sobre uma vida intensa.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Ilhada em Mim – Sylvia Plath


Submergindo pelos recortes de vida de Sylvia e delineando a melodiosa narrativa, ao atuar, como uma preparação, para o trágico final que conduz à liberdade após o cativeiro por um anjo exterminador

Uma bolha vazia cognominada vida à deriva em meio a um mar estéril – uma breve mas adequada visão da essência do espetáculo “Ilhada em Mim – Sylvia Plath”, sob o olhar explorador passivo do espectador diante de uma instalação viva que estimula, em especial, as sensações auditivas e visuais, em meio a uma densa atmosfera surrealista Magritteana.

Um alívio existencial, protagonizado intensamente pela poeta Plath, sob o manto do escapismo, como a única solução perene para um problema, aparentemente, efêmero. A direção de André Guerreiro Lopes confronta a plateia com o absurdo e a faz degustá-lo nos moldes por ele concebido, através de uma cenografia fronteiriça que confronta o eu e o outro em um polimorfismo contraditório e encharcado de significados inconquistáveis. O terror do vazio que estimula o voo para a liberdade é materializado por Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes, nos papéis de Sylvia e Ted Hughes – marido e mulher que enfrentam a ausência da certeza com brilhantismo bizarro que traduz a delicada dramaturgia de Gabriela Mellão que, a partir dos escritos pessoais de Sylvia Plath, se mostra capaz de familiarizar o espectador com poemas aos quais, por alguma casualidade, nunca fora exposto. De braços dados com o projeto cenográfico de Guerreiro Lopes e complementando a sua concepção pictórica das cenas que retratam as ideias da protagonista, se fazem necessários o preciso desenho de figurino, assinado por Fause Haten, e a luminotecnia cênica, cuja paleta de cores, ora banha cenas como se uniformemente cromatizadas, ora transita entre o vigor dos claros e escuros e a penumbra capaz de levar o espectador ao mundo dos sonhos, mesmo que um tanto que sufocante. A direção musical de Gregory Slivar é generosa ao compartilhar sua trilha incidental com a paisagem sonora – tão sutil enquanto gotejamento, transbordamento, derramamento – submergindo pelos recortes de vida de Sylvia e delineando a melodiosa narrativa, ao atuar, como uma preparação, para o trágico final que conduz à liberdade após o cativeiro por um anjo exterminador.

Oportunamente, o aprofundamento de “Ilhada em Mim – Sylvia Plath” na clareza dos sentidos vem ao encontro da busca da consciência existencial e da compreensão de algumas atitudes conflitantes, para aqueles que nunca mergulharam nas profundezas de seu ser.

Circuito Geral - Ilhada em Mim – Sylvia Plath

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Deadpool 2


Provoca gargalhadas como se extraídas por um contexto que demanda considerável ‘overwork’ do conjunto de neurônios do espectador, tamanha é a carga de informações proferidas ao longo de toda a projeção

A sequência do filme de 2016, estrelado por Ryan Reynolds, que incorpora um super mercenário, sarcasticamente violento e com capacidade de se curar de qualquer lesão, reduz a pó a quarta parede em “Deadpool 2”, arremessando, em direção à plateia, uma enxurrada de referências cinematográficas, cultura pop e piadas com requintes de sutileza inversamente proporcional ao pudor do protagonista.

A segunda parte da franquia, sob a direção de David Leitch – que segue o viés do embrionário “Deadpool”, dirigido por Tim Miller – provoca gargalhadas como se extraídas por um contexto que demanda considerável ‘overwork’ do conjunto de neurônios do espectador, tamanha é a carga de informações proferidas ao longo de toda a projeção, incrementada pelo aglomerado verborrágico que, em muitos momentos, rouba a atenção, que deveria estar voltada para a ação, de modo a assumir um papel de pura inteligibilidade.

A violência explícita, alegremente gratuita e com uma aura fuzilante e concentrada de comédia, marca a essência de “Deadpool 2” – um cínico e vigoroso longa que não rejeita os princípios éticos, a sinceridade, as restrições morais, a abnegação e o altruísmo e, diferentemente dos demais filmes de heróis, não estanca o desejo de vingança do espectador sedento por justiça, além de lhe oferecer uma sensacional trilha sonora que revive surpreendentes sucessos do passado.



quarta-feira, 16 de maio de 2018

O Processo


Mergulha em um mar profundo e repleto de comoções surreais, à sombra de uma lei maior e inacessível, mas em perfeita conformidade com os parâmetros legais da sociedade


O impeachment que destituiu Dilma Rousseff da Presidência da República do Brasil, cujo transcurso se deu entre 2 de dezembro de 2015 e 31 de agosto de 2016, é recontado no documentário cinematográfico “O Processo”. O cenário político da ocasião é levado ao espectador através do olhar das câmeras, permitindo-lhe reconhecer a morosidade que acomete o sistema político brasileiro ao comprometer a então presidente Dilma Russef a partir de denúncias, aparentemente sem provas cabais. Como uma imagem paralela ao livro, homônimo do filme, de autoria do escritor tcheco Franz Kafka – que conta a história de Joseph K. que, a partir de um dado instante de sua vida no qual é processado e submetido a uma ininteligível ação, por conta de um crime não explicitado – “O Processo” mergulha em um mar profundo e repleto de comoções surreais, à sombra de uma lei maior e inacessível, mas em perfeita conformidade com os parâmetros legais da sociedade.

A direção de Maria Augusta Ramos tende a retratar a fragmentação das personalidades políticas no contexto de um país sórdido, mesquinho, impessoal, mas totalitariamente democrático. As figuras centrais são representadas pela advogada Janaína Paschoal – PSDB e pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, coautores da peça jurídica inicial do processo de impeachment, acolhida por Eduardo Cunha – então Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil – e por José Eduardo Cardozo – advogado de defesa de Dilma e também ex-ministro da justiça. A partir desse núcleo político, é desenhada a fragilidade dos cidadãos brasileiros, agravada pela revelação de conversas de bastidores entre senadores componentes da base governista, suas estratégias para defender o mandato de Dilma, a todo custo, a despeito da tentativa de tornar crível a articulação jurídica em prol do grupo que não se elegeu pelos votos nas urnas, relegando em segundo plano, Michel Temer – o vice presidente que toma posse logo após a destituição da Presidente da República.

Segundo o documentário, a destituição de Dilma é responsabilizada pela destruição de todos os direitos sociais, pela precarização das leis trabalhistas e pela condução do país em direção a uma nuvem cinzenta e assustadora – deixando, sob a penumbra dos acontecimentos, a aliança do PT com o PMDB, que correram juntos rumo à Presidência da República.

sábado, 12 de maio de 2018

Nara - A menina disse coisas



Contabilizando músicos, cantores, marchinhas e sambas como elementos que se bastam para manter a plateia desperta e contrariar um depoimento de 1964 da protagonista, no qual declara que a bossa nova lhe dava sono

Final dos anos 1950 – uma burguesinha de 15 anos de idade, moradora do bairro consagrado como ‘Princesinha do Mar’ – nada menos do que em plena Avenida Atlântica – em um apartamento que, por muito tempo, fora o reduto de, atualmente, consagrados musicistas precursores da Bossa Nova. Em meio a esse movimento da música popular brasileira, a partir de meados dos anos 1960, a jovem Nara Leão passa a ocupar um papel secundário, mas não menos importante, levando-se em conta a sua célebre imagem durante os anos de chumbo.

Com base nesse argumento, o espetáculo “Nara - A menina disse coisas” traça a trajetória do engajamento musical da cantora, com muita leveza, sorriso, amor e magia, resgatando a essência da intérprete desde o início de sua produção quando de seu namoro com Ronaldo Bôscoli. A ambígua direção de Priscila Vidca releva as reticências da artista diante da esfera política e do mercado musical da época, evidenciando o caráter show musical do espetáculo, sem compromisso com a dissertação biográfica dos fatos. A discografia, sintetizada pela direção musical de Guilherme Borges, expressa cada apresentação de forma temática, norteando o protesto e o lirismo musical ideológico de Nara. O êxito do elenco, estrelado por Aline Carrocino e por Marcos França, fica por conta do desempenho de ambos como intérpretes de uma seleta gama de estilos musicais. Acompanhados pela impecável banda – cuja presença no palco se faz de forma explícita, constituída por Ralphen Rocca, Nelson Freitas, Erick Soares, David Nascimento e Leo Bandeira - Carrocino e França são respaldados em sua performance contextual frente a cada uma das quinze canções que compõem o setlist do espetáculo, impactando o espectador ao se deparar com a projeção vocal da atriz que interpreta a outrora rotulada por seu ‘fiozinho de voz’. A demanda por uma confortável concepção de desenho de luz, por parte de Paulo Cesar Medeiros, privilegia o distanciamento do show business e permite a manutenção da apresentação intimista - quase banquinho e violão. Tal gancho foi habilmente arrebatado pelo acertado parâmetro cenográfico de Pati Faedo que, a partir das seis cordas de um violão que serpenteiam todas as dimensões da boca de cena, lança o olhar do espectador para muito além do, possivelmente voluntários, moderado cunho político e tênues protestos dos festivais de canção, por parte da dramaturgia assinada, a quatro mãos, por Hugo Sukman e Marcos França.  Ao não evidenciar a figura classe média alta em que se enquadrava Nara, o figurino de Paula Ströher também desvincula a necessidade de imitá-la, afastando chances equivocadas do espetáculo se propor a uma caricatura não crível da realidade – distanciamento esse que também é percebido pelo comedido visagismo de Vitor Martinez, que não interfere no processo de remissão à artista por Carrocino.

Idealizações como “Nara - A menina disse coisas”, da forma que o fora concebido por Christovam de Chevalier, são contribuições que formam um leque de produções necessárias e viáveis ao grande público, sem demandar um status Mega ao espetáculo, mas capaz de satisfazer o espectador enquanto entretenimento sadio e honesto – contabilizando músicos, cantores, marchinhas e sambas como elementos que se bastam para manter a plateia desperta e contrariar um depoimento de 1964 da protagonista, no qual declara que a bossa nova lhe dava sono.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Noite do Jogo


Sob a sacadíssima direção de John Francis Daley e Jonathan Goldstein. A dupla se esmera na manipulação de seus personagens como se peões frenéticos se comportassem em um tabuleiro repleto de surpresas surreais


Três casais tomam parte em um jogo de investigação criminal, durante o qual, um dentre esses seis participantes é raptado. Quanto aos demais, o primeiro a descobrir o paradeiro da vítima e salvá-la, leva a termo a competição e se torna o ganhador de um valioso prêmio – mera descrição de uma das dinâmicas do longa – “A Noite do Jogo”, sob a sacadíssima direção de John Francis Daley e Jonathan Goldstein. A dupla se esmera na manipulação de seus personagens como se peões frenéticos se comportassem em um tabuleiro repleto de surpresas surreais. O resultado dessa peleja define como vitorioso o espectador, torcendo pela continuidade da franquia.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Todos os Paulos do Mundo


Uma aconchegante colcha de retalhos dentre paixões, encontros, criação, dramaturgia e vida

“Todos os Paulos do Mundo” – um compilado de cenas, cuja montagem não assume qualquer compromisso para com a cronologia dos fatos, discorre sobre a vida e a obra do ator, roteirista e diretor brasileiro – Paulo José.  Sua trajetória é registrada, não somente, por produções cinematográficas consagradas que fazem parte de seu currículo como ator – desde ‘Macunaíma’, 1969, de autoria de Joaquim Pedro de Andrade, até ‘O Palhaço’, 2011, por Selton Mello – mas também por inúmeras novelas e peças teatrais nas quais atuou.

O engenhoso roteiro arquitetado por Gustavo Ribeiro e Rodrigo Oliveira, também responsáveis pela direção documental, faz da cinebiografia uma aconchegante colcha de retalhos dentre paixões, encontros, criação, dramaturgia e vida, de maneira perspicaz, misturando o passado com o presente – uma consistente e rica contribuição para a arte brasileira que vai, muito além, de qualquer tentativa de homenagem pública ao artista que completa este ano, 80 anos de vida.



segunda-feira, 7 de maio de 2018

Dançando no Escuro


Crueldade e fatalidade em seu anti-musical soberano e devastador, como uma guilhotina que ceifa anseios e certezas de cada um dos espectadores

Uma mulher onírica que se projeta nas cenas de grandes musicais americanos – assim é Selma Jezkova, nascida na antiga Tchecoslováquia, imigrante nos EUA. Em paralelo aos seus sonhos como estrela de musicais, Selma não poupa esforços para que seu filho pré adolescente – Gene, possa vir a se submeter a uma cirurgia capaz de lhe poupar o desenvolvimento de uma hereditária e progressiva degeneração da visão – doença que já se manifestara em Selma e que já se encontra nela, em estado avançado. Além de assumir incansável empenho em sua labuta diária em uma indústria local, Selma se mostra incapaz de medir qualquer sacrifício objetivando garantir a importância necessária para o pagamento de tão dispendioso, porém necessário, tratamento de seu filho.

Baseado no longa homônimo “Dançando no Escuro”, de Lars von Trier, a adaptação de Patrick Ellsworth capta o rígido código moral e as regras coercitivas transcendentes do drama imaginado pelo diretor do filme, que teve Björk como protagonista e autora da trilha sonora.

A tradução assinada por Elidia Novaes é obstinada e certeira, ao cultivar a culpa com retidão e nobreza e sem retratá-la como uma virtude. Dani Barros dirige o espetáculo com excelência de qualidade, afetando o nada, preenchendo o vazio e, transpondo hiatos, decreta a morte das palavras de maneira lancinante, após o que, resta somente a estranheza sonora de Björk, cuja influência marca, inconfundivelmente, a trilha do espetáculo. Tais momentos - perceptíveis aos olhos, graças ao desenho de luz de Feliciano Mafra, que assume a vestimenta radicalmente perturbadora do drama - são degustados pelo espectador sob o tempero do sensorial arranjo e pela direção musical de Marcelo Alonso Neves, a partir dos quais, remorsos são processados e, convulsões culposas, destiladas pelos músicos: Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (baterista), Allan Bass (baixo) e Dilson Nascimento (multi tecladista). O núcleo entristecido, claustrofóbico e sufocante que conduz “Dançando no Escuro” é composto por um elenco de primeira grandeza – Juliane Bodini (Selma Jezková), Cyria Coentro (Carmen Baker), Luis Antonio Fortes (Jeff), AndrêasGatto (Samuel), Fábio Cardoso (Gene Jezková), Julia Gorman (Linda Houston), Lucas Gouvêa (Bill Houston), Marino Rocha / Gabriel Salabert (Norman) e Suzana Nascimento (Brenda Young) – responsável por estabelecer a equilibrada conexão dramática entre plateia e palco. O contraste estético entre a realidade e sonho concebido por Mina Quental se manifesta no cenário de sua autoria, intuitivo e delimitado pela violência formal, provocando momentos de tensão e choque junto ao espectador. Carol Lobato assina um figurino que dilui, com dinamismo, o cotidiano dos personagens e clarifica os limites e embates nas dissimuladas relações sociais, em total sintonia com a fronteira gerada pela materialidade das imagens intrínsecas dos personagens, construída pelo visagismo de Marcio Mello, que esbarra no mistério, sem perder a sua dimensão estética. Enquanto que a modulação rítmica distinguida pela direção de movimento de Denise Stutz protagoniza os momentos de devaneios que transmutam para a realidade de maneira harmoniosa, com o caos das instâncias individuais de cada personagem, a obscura sonoridade vocal empalidecida nas canções feitas para a obra de Lars von Trier, pela voz ambígua e contraditória de Björk, conta com a preparação vocal de Mirna Rubim que materializa a aspereza flutuante entre o despertar e a vigília em cada canção realizada por Juliane Bodini.

Em compasso desajustado e irregular, o desequilíbrio de “Dançando no Escuro” comporta crueldade e fatalidade em seu anti-musical soberano e devastador, como uma guilhotina que ceifa anseios e certezas de cada um dos espectadores os quais, ainda atônitos, avaliam as suas inexoráveis limitações frente à vida.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ciganos da Ciambra


Um democrático instrumento de manipulação ao evidenciar os menos visíveis, seus dramas por causa da pobreza e a desconfiança e a hostilidade social longe de qualquer sinal de melhora


Sem manter distância da realidade dos países de terceiro mundo o longa “Ciganos da Ciambra” retrata a infância, a adolescência e a maturidade sem nenhuma função de moral da história. Uma família que é sustentada por dois parentes ladrões e sobrevivem sob o manto dos mafiosos em Ciambra, uma comunidade romana na Calábria. Tem a sua vida desestruturada quando a ‘fonte de renda’ é pega pela polícia, fazendo com que Pio (Pio Amato) - um adolescente de 14 anos, mas com todos os vícios de um homem adulto e as manhas de seus irmãos infratores - resolva tomar a posição de o provedor da família, tornando-se assim, uma cópia de seus irmãos presidiários.

A miséria persuasiva na direção de Jonas Carpignano e insidiosa com o seu despudor social que parece banal após alguns minutos do filme, e tornasse um democrático instrumento de manipulação ao evidenciar os menos visíveis, seus dramas por causa da pobreza e a desconfiança e a hostilidade social longe de qualquer sinal de melhora.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos

Torna impossível a capacidade de enxergar e, ao mesmo tempo, se manter cego - exemplificada pela a vida e escolhas equivocadas de muitos que nascem com o sentido da visão em perfeito estado, mas que não abrem mão da conveniência da cegueira voluntária


Vitório (Edson Celulari) – um homem casado, dono de uma pizzaria e pai de uma adolescente – é o típico cidadão que vive a sua vida, dela captando suas mensagens pelo tato, pelo olfato, pela audição e pelo paladar. Dessa forma, mantém o total controle do seu dia a dia, sem a necessidade de enxergar a luz ou a imagem daqueles que o cercam, pois sempre fora um deficiente visual. Dado instante, seu sogro descobre um tratamento para a sua cegueira e, com isso, conquista o apoio unânime de todos ao seu redor, uma vez que também acreditam que a reversão do quadro do deficiente é de suma importância para sua vida.

A açucarada história do longa “Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos” excede por sua delicadeza e não explica a desconstrução sustentada pelo diretor Paulo Nascimento, que torna impossível a capacidade de enxergar e, ao mesmo tempo, se manter cego - exemplificada pela a vida e escolhas equivocadas de muitos que nascem com o sentido da visão em perfeito estado, mas que não abrem mão da conveniência da cegueira voluntária. 

Como um melodrama monocromático que visa à inclusão dos deficientes visuais, a mensagem fotográfica contida em cada cena torna-se um forte aliado. Contudo, conquistar a liberdade exige carga considerável de auto suficiência e o protagonista não parece entender o real sentido dessa condição - a valorização de cada momento da vida e a compreensão de que aqueles contemplados pela acuidade que capacita os seus cinco sentidos, também são sujeitos a sentirem sua liberdade cerceada.

Caso pudessem ter autonomia sobre suas escolhas e sobre o seu próprio corpo, entenderiam que não se tratam apenas de indivíduos isolados, mas parte de um grupo de pessoas que também são afetadas por tamanho egoísmo, com a opção de fecharem os olhos quando necessário e abri-los somente por opção.