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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Dançando no Escuro


Crueldade e fatalidade em seu anti-musical soberano e devastador, como uma guilhotina que ceifa anseios e certezas de cada um dos espectadores

Uma mulher onírica que se projeta nas cenas de grandes musicais americanos – assim é Selma Jezkova, nascida na antiga Tchecoslováquia, imigrante nos EUA. Em paralelo aos seus sonhos como estrela de musicais, Selma não poupa esforços para que seu filho pré adolescente – Gene, possa vir a se submeter a uma cirurgia capaz de lhe poupar o desenvolvimento de uma hereditária e progressiva degeneração da visão – doença que já se manifestara em Selma e que já se encontra nela, em estado avançado. Além de assumir incansável empenho em sua labuta diária em uma indústria local, Selma se mostra incapaz de medir qualquer sacrifício objetivando garantir a importância necessária para o pagamento de tão dispendioso, porém necessário, tratamento de seu filho.

Baseado no longa homônimo “Dançando no Escuro”, de Lars von Trier, a adaptação de Patrick Ellsworth capta o rígido código moral e as regras coercitivas transcendentes do drama imaginado pelo diretor do filme, que teve Björk como protagonista e autora da trilha sonora.

A tradução assinada por Elidia Novaes é obstinada e certeira, ao cultivar a culpa com retidão e nobreza e sem retratá-la como uma virtude. Dani Barros dirige o espetáculo com excelência de qualidade, afetando o nada, preenchendo o vazio e, transpondo hiatos, decreta a morte das palavras de maneira lancinante, após o que, resta somente a estranheza sonora de Björk, cuja influência marca, inconfundivelmente, a trilha do espetáculo. Tais momentos - perceptíveis aos olhos, graças ao desenho de luz de Feliciano Mafra, que assume a vestimenta radicalmente perturbadora do drama - são degustados pelo espectador sob o tempero do sensorial arranjo e pela direção musical de Marcelo Alonso Neves, a partir dos quais, remorsos são processados e, convulsões culposas, destiladas pelos músicos: Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (baterista), Allan Bass (baixo) e Dilson Nascimento (multi tecladista). O núcleo entristecido, claustrofóbico e sufocante que conduz “Dançando no Escuro” é composto por um elenco de primeira grandeza – Juliane Bodini (Selma Jezková), Cyria Coentro (Carmen Baker), Luis Antonio Fortes (Jeff), AndrêasGatto (Samuel), Fábio Cardoso (Gene Jezková), Julia Gorman (Linda Houston), Lucas Gouvêa (Bill Houston), Marino Rocha / Gabriel Salabert (Norman) e Suzana Nascimento (Brenda Young) – responsável por estabelecer a equilibrada conexão dramática entre plateia e palco. O contraste estético entre a realidade e sonho concebido por Mina Quental se manifesta no cenário de sua autoria, intuitivo e delimitado pela violência formal, provocando momentos de tensão e choque junto ao espectador. Carol Lobato assina um figurino que dilui, com dinamismo, o cotidiano dos personagens e clarifica os limites e embates nas dissimuladas relações sociais, em total sintonia com a fronteira gerada pela materialidade das imagens intrínsecas dos personagens, construída pelo visagismo de Marcio Mello, que esbarra no mistério, sem perder a sua dimensão estética. Enquanto que a modulação rítmica distinguida pela direção de movimento de Denise Stutz protagoniza os momentos de devaneios que transmutam para a realidade de maneira harmoniosa, com o caos das instâncias individuais de cada personagem, a obscura sonoridade vocal empalidecida nas canções feitas para a obra de Lars von Trier, pela voz ambígua e contraditória de Björk, conta com a preparação vocal de Mirna Rubim que materializa a aspereza flutuante entre o despertar e a vigília em cada canção realizada por Juliane Bodini.

Em compasso desajustado e irregular, o desequilíbrio de “Dançando no Escuro” comporta crueldade e fatalidade em seu anti-musical soberano e devastador, como uma guilhotina que ceifa anseios e certezas de cada um dos espectadores os quais, ainda atônitos, avaliam as suas inexoráveis limitações frente à vida.

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