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sábado, 12 de maio de 2018

Nara - A menina disse coisas



Contabilizando músicos, cantores, marchinhas e sambas como elementos que se bastam para manter a plateia desperta e contrariar um depoimento de 1964 da protagonista, no qual declara que a bossa nova lhe dava sono

Final dos anos 1950 – uma burguesinha de 15 anos de idade, moradora do bairro consagrado como ‘Princesinha do Mar’ – nada menos do que em plena Avenida Atlântica – em um apartamento que, por muito tempo, fora o reduto de, atualmente, consagrados musicistas precursores da Bossa Nova. Em meio a esse movimento da música popular brasileira, a partir de meados dos anos 1960, a jovem Nara Leão passa a ocupar um papel secundário, mas não menos importante, levando-se em conta a sua célebre imagem durante os anos de chumbo.

Com base nesse argumento, o espetáculo “Nara - A menina disse coisas” traça a trajetória do engajamento musical da cantora, com muita leveza, sorriso, amor e magia, resgatando a essência da intérprete desde o início de sua produção quando de seu namoro com Ronaldo Bôscoli. A ambígua direção de Priscila Vidca releva as reticências da artista diante da esfera política e do mercado musical da época, evidenciando o caráter show musical do espetáculo, sem compromisso com a dissertação biográfica dos fatos. A discografia, sintetizada pela direção musical de Guilherme Borges, expressa cada apresentação de forma temática, norteando o protesto e o lirismo musical ideológico de Nara. O êxito do elenco, estrelado por Aline Carrocino e por Marcos França, fica por conta do desempenho de ambos como intérpretes de uma seleta gama de estilos musicais. Acompanhados pela impecável banda – cuja presença no palco se faz de forma explícita, constituída por Ralphen Rocca, Nelson Freitas, Erick Soares, David Nascimento e Leo Bandeira - Carrocino e França são respaldados em sua performance contextual frente a cada uma das quinze canções que compõem o setlist do espetáculo, impactando o espectador ao se deparar com a projeção vocal da atriz que interpreta a outrora rotulada por seu ‘fiozinho de voz’. A demanda por uma confortável concepção de desenho de luz, por parte de Paulo Cesar Medeiros, privilegia o distanciamento do show business e permite a manutenção da apresentação intimista - quase banquinho e violão. Tal gancho foi habilmente arrebatado pelo acertado parâmetro cenográfico de Pati Faedo que, a partir das seis cordas de um violão que serpenteiam todas as dimensões da boca de cena, lança o olhar do espectador para muito além do, possivelmente voluntários, moderado cunho político e tênues protestos dos festivais de canção, por parte da dramaturgia assinada, a quatro mãos, por Hugo Sukman e Marcos França.  Ao não evidenciar a figura classe média alta em que se enquadrava Nara, o figurino de Paula Ströher também desvincula a necessidade de imitá-la, afastando chances equivocadas do espetáculo se propor a uma caricatura não crível da realidade – distanciamento esse que também é percebido pelo comedido visagismo de Vitor Martinez, que não interfere no processo de remissão à artista por Carrocino.

Idealizações como “Nara - A menina disse coisas”, da forma que o fora concebido por Christovam de Chevalier, são contribuições que formam um leque de produções necessárias e viáveis ao grande público, sem demandar um status Mega ao espetáculo, mas capaz de satisfazer o espectador enquanto entretenimento sadio e honesto – contabilizando músicos, cantores, marchinhas e sambas como elementos que se bastam para manter a plateia desperta e contrariar um depoimento de 1964 da protagonista, no qual declara que a bossa nova lhe dava sono.


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