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sábado, 26 de maio de 2018

O Porteiro


Cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias


A partir de uma coletânea de histórias extraídas de entrevistas de um universo de porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal em busca da realização de seus sonhos, o espetáculo “O Porteiro” é um convite ao espectador para um estreito contato com um personagem real e presente na vida de todos os frequentadores de condomínios – em especial, os moradores dos residenciais. Uma obra teatral que fala dos profissionais que gentilmente lhes abrem as portas, os recebem ou deles se despedem, com sinceros cumprimentos, ao transitarem pelas portarias ao longo do dia e que, como abnegados plantonistas, são os olhos e ouvidos de todos os apartamentos, das áreas comuns e de seus respectivos usuários – em suma, tudo sabem e, de forma muito simplória, carinhosa e naturalmente dedicada, tomam conta da vida de todos. Não são raros os momentos em que se prestam a ajudar os mais necessitados para carregarem as suas sacolas de compras, além de assumirem o papel de fiéis depositários de encomendas que vem e que vão, muitas vezes sem receberem, sequer, uma palavra de agradecimento. Por outro lado, corações afetivos são capazes de lhes retribuírem com mimos, simples que sejam, mas que somente a essência generosa que reside em cada um desses profissionais é capaz de reconhecer o valor de tais gestos. Sem ultrapassar o limite que a cerimônia lhes permite, se inserem nos núcleos multifamiliares como se a cada uma daquelas famílias fizessem parte e encaram suas, muitas vezes, longas trajetórias como funcionários dos condomínios como se estivessem vivendo parte de suas vidas em seus próprios lares.

A irreverente visibilidade contida no texto e na direção de Paulo Fontenelle, além de promover generosos minutos de entretenimento, capacita o espectador a se entregar à reflexão e à comoção, ao lhe ser apresentado aspectos do dia a dia que, eventualmente, lhe pode ser invisíveis aos olhos. A naturalidade e aparente facilidade com que tudo isso acontece, deve-se à espontaneidade e ao autêntico sangue nordestino que corre nas veias do ator, produtor de arte e documentarista pernambucano gravataense Alexandre Lino que, através de sua incomum interatividade ao personificar o protagonista, quebrar a quarta parede e doá-lo ao espectador, libera sentimentos de afeição em via dupla, saturando a sala de espetáculos de pura empatia.

A escassa monotonia da rotina de um porteiro é refletida no sensível desenho de luz de Renato Machado – ora difusa enquanto operante, ora intimista enquanto reservado, ora dramática enquanto quase invisível aos olhos de muitos. A estratificação, sob o ponto de vista social e funcional – muitas vezes varrida para debaixo dos tapetes, mas identificável por olhares zelosos direcionados aos trabalhadores de condomínios, neste caso específico, os porteiros – encontra-se presente, esteticamente amenizada porém, precisamente definida pela genuína leitura da realidade que precede a concepção dos elementos cenográficos e do figurino assinados por Karlla de Luca.

A mágica agregada ao espetáculo fica por conta da reação da plateia que se permite transmutar do teatro para o seu próprio habitat – fenômeno capaz de agigantar a interpretação de Lino e descarrilá-la do roteiro de Fontenelle, assumindo os moldes de uma intensa relação entre condôminos e porteiro.  Não obstante do caráter cômico do espetáculo, “O Porteiro” cumpre a função de conscientizar cada uma das plateias que o assiste, sobre a figura de um próximo que, muitas vezes, encontra-se menos distante do que muitos membros de nossas famílias. A partir do seu potencial humanitário, do orgulho que tem de suas origens, de seu carisma, e do carinho que tem para com o seu ofício, Lino não poupa o espectador de encontrar e de se pôr em seu devido lugar – mesmo que às custas de muito, inteligente e diferenciado, bom humor.

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