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quarta-feira, 16 de maio de 2018

O Processo


Mergulha em um mar profundo e repleto de comoções surreais, à sombra de uma lei maior e inacessível, mas em perfeita conformidade com os parâmetros legais da sociedade


O impeachment que destituiu Dilma Rousseff da Presidência da República do Brasil, cujo transcurso se deu entre 2 de dezembro de 2015 e 31 de agosto de 2016, é recontado no documentário cinematográfico “O Processo”. O cenário político da ocasião é levado ao espectador através do olhar das câmeras, permitindo-lhe reconhecer a morosidade que acomete o sistema político brasileiro ao comprometer a então presidente Dilma Russef a partir de denúncias, aparentemente sem provas cabais. Como uma imagem paralela ao livro, homônimo do filme, de autoria do escritor tcheco Franz Kafka – que conta a história de Joseph K. que, a partir de um dado instante de sua vida no qual é processado e submetido a uma ininteligível ação, por conta de um crime não explicitado – “O Processo” mergulha em um mar profundo e repleto de comoções surreais, à sombra de uma lei maior e inacessível, mas em perfeita conformidade com os parâmetros legais da sociedade.

A direção de Maria Augusta Ramos tende a retratar a fragmentação das personalidades políticas no contexto de um país sórdido, mesquinho, impessoal, mas totalitariamente democrático. As figuras centrais são representadas pela advogada Janaína Paschoal – PSDB e pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, coautores da peça jurídica inicial do processo de impeachment, acolhida por Eduardo Cunha – então Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil – e por José Eduardo Cardozo – advogado de defesa de Dilma e também ex-ministro da justiça. A partir desse núcleo político, é desenhada a fragilidade dos cidadãos brasileiros, agravada pela revelação de conversas de bastidores entre senadores componentes da base governista, suas estratégias para defender o mandato de Dilma, a todo custo, a despeito da tentativa de tornar crível a articulação jurídica em prol do grupo que não se elegeu pelos votos nas urnas, relegando em segundo plano, Michel Temer – o vice presidente que toma posse logo após a destituição da Presidente da República.

Segundo o documentário, a destituição de Dilma é responsabilizada pela destruição de todos os direitos sociais, pela precarização das leis trabalhistas e pela condução do país em direção a uma nuvem cinzenta e assustadora – deixando, sob a penumbra dos acontecimentos, a aliança do PT com o PMDB, que correram juntos rumo à Presidência da República.

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