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sábado, 30 de junho de 2018

Um Tom de Saudade


Uma aura familiar, um encontro entre amigos e um brinde aos fãs e a uma nova geração de ouvintes das obras do maestro Tom Jobim


Um tributo a Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é a missão do projeto “Um Tom de Saudade”, que acontece na noite de 29 de junho de 2018, no Teatro Clara Nunes, bairro da Gávea, Rio de Janeiro – produzido, de forma lapidar, por Maria Braga Produções Artísticas.

Em um palco desprovido de recursos cênicos, mas somente a necessária luminotecnia cênica comedidamente dosada e o desenho de som, tão confortável para os instrumentistas e vocais quanto para a plateia, os maestros Rafael Barros Castro (piano e voz) e Jaime Alem (violão e voz) – responsáveis pela direção musical do show – acompanhados pela cantora Nair Cândia e pelo quinteto de cordas da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro (OSRJ) composto por André Cunha (violino I); Leonardo Fantini (violino II); Bernardo Fantini (viola); João Bustamante (violoncelo); e Cláudio Alves (contrabaixo acústico) apresentam dezesseis canções de Tom Jobim, dentre elas: ‘Chega de Saudade’, ‘Insensatez’ e ‘Anos Dourados’ que se misturam a outros sucessos instrumentais –  todos com arranjos exclusivamente criados para o show, assinados por Castro e Alem.

A proposta de levar a configuração de “Um Tom de Saudade” para uma casa de espetáculos como o Teatro Clara Nunes, cuja vocação é consagrada pelas peças de teatro e musicais, resulta em uma plateia lotada – da mesma forma que já ocorre em outros espaços voltados para a execução de música e realização de shows – em plena noite de quinta-feira e que, ao final do espetáculo, deixa o estabelecimento proferindo comentários mais que elogiosos,  sob o encantamento da experiência musical a que foi submetida.

A abrangência da seleção musical e a maneira descontraída com a qual os dois maestros conduzem o espetáculo, conseguem criar uma aura familiar, um encontro entre amigos e um brinde aos fãs e a uma nova geração de ouvintes das obras do maestro Tom Jobim.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

50 São os Novos 30


Ousa lançar mão da comicidade para dar continuidade ao longa que não tem muito a dizer ao espectador

Uma mulher de 50 anos de idade, com alta formação profissional, perde o emprego, ao mesmo tempo que descobre que o marido irá abandoná-la para viver com uma mulher bem mais jovem. Sem hesitar, ela decide abandonar a sua casa e se mudar para a de seus pais, septuagenários.

Essa é a efervescência inicial do filme “50 São os Novos 30”, que ousa lançar mão da comicidade para dar continuidade ao longa que não tem muito a dizer ao espectador e, portanto, dificulta a sua compreensão deste sobre a protagonista cinquentona – talvez pelo fato de que Valérie Lemerciera, além de interpretar, acumula a direção do filme.

A trilha sonora, integra os clichês e consegue impedir que o filme Francês, desague para a monotonia, com o seu tom ansioso-depressivo.


Sicario: Dia do Soldado


Evidencia, em sua continuação, o senso de realismo e de perigo permanente, até mesmo em seu final

Total desesperança política é a mensagem explícita na continuação do longa “Sicario: Dia do Soldado”.

Após um ataque terrorista brutal e chocante em uma mercearia em Kansas City, Missouri, o agente do governo Matt Graver (Josh Brolin) planeja fazer um teatro político e, dessa forma, encontrar o grupo que facilita a entrada de homens-bomba, cruzando os Estados Unidos pela fronteira mexicana. O plano é causar caos entre os cartéis que controlam a fronteira, facilitando o ataque do seu melhor sicário - Alejandro (Benicio del Toro) e partem para sequestrar a filha do chefão do cartel Carlos Reyes. O estilo observacional da direção de Stefano Sollima coloca o espectador dentro dos eventos violentos, inicialmente reproduzidos em ‘Sicário – Terra de Ninguém’ de Denis Villeneuve, em 2015. O longa evidencia, em sua continuação, o senso de realismo e de perigo permanente, até mesmo em seu final, que fomenta comentários sobre o assunto quando da saída dos espectadores da sala de cinema.

Em 2015, a violência do narcotráfico que rastejava pela fronteira, era o tópico de Villeneuve. No presente momento, o foco de Sollima é a atual crise de deportações, centros de detenção e o niilismo de um governo que opera nas sombras, de maneira violenta, sem propósito, isento de código moral e sem cerimônia em estampar nas costas de sua jaqueta da Zara ‘I Really Don´t Care. Do You?’ – em plena visita surpresa a um centro que abriga crianças imigrantes detidas na fronteira do Texas.

Sexy por Acidente

Triunfa ao não enfatizar diferenças entre homens e mulheres, mas sublinha os medos e inseguranças presentes em todos os indivíduos

Rejeitando as maneiras pelas quais as mulheres devem aderir a predeterminados padrões de beleza e normas comportamentais ditadas pela sociedade consumista, o longa “Sexy por Acidente” triunfa ao não enfatizar diferenças entre homens e mulheres, mas sublinha os medos e inseguranças presentes em todos os indivíduos, com humor inteligente e, muitas vezes, impiedoso.

A direção de Marc Silverstein e Abby Kohn define um novo ponto de vista da autoconfiança, ao contar a história de Renee Barrett – uma mulher insegura, de trinta anos de idade que, ao cair de uma bike de spinning na academia, acorda aparentemente consciente do que lhe havia acontecido. E como se num passe de mágica, ao se olhar no espelho, Renee enxerga o seu reflexo como se ela mesma tivesse assumido a imagem dos seus sonhos – a de uma mulher ‘perfeita’.

A consciência do inquestionável poder feminino contido no longa soa como um grito de autoafirmação – um clamor que anuncia que qualquer mulher pode ser bela a partir de seus próprios atributos, sem acovardar-se diante do espelho. “Sexy Por Acidente” é uma comédia turva pela sua carga simplória, a ponto de perturbar o espectador em alguns momentos, durante os quais, ao se enxergar uma linda mulher, a protagonista não se dá conta de que, os que estão ao seu redor, a vêm, fisicamente, como realmente ela é. Por outro lado, a sua autoconfiança e consciente tomada, de decisões assumem as rédeas de uma nova postura responsável por provocar a admiração de muitos e, quem sabe, lhe garantir o seu primeiro amor.

“Sexy por acidente” não traduz o que, de fato, “I Feel Pretty” transmite como título original, mas uma simples referência jocosa para o despertar da protagonista para o processo de resgate de sua autoestima, com o aval da vocação de divertimento e de estímulo do próprio roteiro.

Além do Homem


Vai ao encontro da tradicional filosofia que define a trajetória do longa e o coloca em um patamar fora do convencional

“Além do Homem” – a história de Alberto Luppo (Sergio Guizé) – um ambicioso escritor brasileiro que vive em Paris e que não parece nutrir qualquer simpatia pelo seu país de origem. Dado momento, Alberto se vê convencido pelo sogro a retornar ao Brasil, especificamente, para o interior do Estado de Minas Gerais, em busca de inspiração para escrever sobre o misterioso desaparecimento de um famoso antropólogo naquela região.

Ao esbanjar felicidade artificial em sua primeira empreitada como diretor cinematográfico, Willy Biondani lança mão de proposital precariedade contextual para fazer com que o protagonista redescubra a sua identidade brasileira e, o espectador acredite em lendas que pairam no universo do longa. Os sonhos alucinógenos de Alberto são acentuados pela hipnotizante trilha sonora de Egberto Gismonti que, ao longo da película, juntamente com a delirante fotografia de Olivier Cocaul, povoa os olhares estáticos do espectador diante da experiência sensorial que o filme proporciona.

A delicada redescoberta que a trama resvala no surreal, vai ao encontro da tradicional filosofia que define a trajetória do longa e o coloca em um patamar fora do convencional, levando-se em conta “Além do Homem”, uma produção nacional.

Minha


Uma semente que germina no jardim criativo de Sayão, cuja sucessão de etapas retoma o desenvolvimento de novos embriões, em um moto-contínuo a partir do qual transforma ‘nossas’ vidas

O olhar do espectador se manifesta na presente resenha crítica, com foco na configuração de um espetáculo teatral, possivelmente única ou que raramente se repetirá. O acesso acontece pelos bastidores de um teatro projetado segundo o estilo art déco, cuja história se confunde com a construção da Cinelândia, na primeira metade do século XX.

Uma plateia intimista em pleno palco, limitada a oitenta lugares dispostos em arena, coloca o espectador na fronteira com o epicentro de um drama prestes a eclodir e que aguarda o descortinar reverso de uma boca de cena. O precioso capricho da direção de Fátima Leite faz da plateia e dos dois níveis de balcões do Teatro Dulcina, um fundo de cena com dimensões monumentais, emoldurada pelo avesso das bambolinas que dão lugar a uma cama hospitalar e um dossel sobre um tablado, em primeiro plano. Sobre a cama, um corpo inerte que ainda respira, mas que não fala e que não vê; que não ouve e que não sente, de forma consciente. Sob o dossel, o dualismo entre a iminência da morte e a persistência de uma vida, privada do gozo de uma vida ainda não expirada. Entre a cama e o dossel, a expectativa diária por um encontro de uma personagem em coma com seu amado, tomado por um amor tão alienado quanto talvez não o fora até sua mulher ser combalida por uma corriqueira cirurgia de varizes malsucedida.

Como visitantes sentados em uma generosa sala de espera de um hospital, os espectadores compartilham do diálogo monologado entre o casal, interpretado por Osvan Costa e por Cynthia C. Cada um a seu modo, ator e atriz se confundem com seus personagens – o ator, se revelando um catalisador de sentimentos que, juntamente com a verbalização de seu texto, se vale das expressões corporais, em especial, as faciais, ungidas por lágrimas sangradas por uma dor que brota da alma do artista, inexoravelmente, a cada apresentação do espetáculo; a atriz, atestando a sua capacidade de entrega ao personagem, como se em sessenta minutos de estado de hibernação, inerte, acompanha, remotamente, seu parceiro de palco quando de sua chegada para mais uma visita, quando de sua leitura do jornal para lhe pôr a par dos últimos acontecimentos, quando despe suas vestimentas como ato de exposição de suas verdades, quando lhe presenteia com flores, quando baila com seu vestido de noiva, quando compartilha do calor que ainda lhe resta deitados lado a lado em seu leito, quando invoca piedosamente seus santos protetores, quando se despede com a promessa de retorno no dia seguinte.

Trivial, como os registros da vida como ela é e conduzidos pela banalidade do cotidiano daqueles que se enquadram como somente mais um em meio à multidão, o texto “Minha” faz parte da produção literária do premiado autor carioca Wilson Sayão, transformado em espetáculo teatral, vinte e um anos após tê-lo escrito, em 1997. Um exemplo de resistência de produções do gênero, realizada pelo produtor cultural, músico e ator Rafael Fleury, “Minha” conta com a supervisão do diretor e ator mineiro, Amir Haddad, reconhecido pela sua linha de trabalho que explora disposições não convencionais de cena e a interação entre elenco e plateia. Seguindo, à risca, a linha concebida pela direção e supervisão do espetáculo, a iluminação de Aurélio de Simoni, o projeto cenográfico assinado por Fernando Mello da Costa, os figurinos desenhados por Liliam Butini, a coreografia marcada por Toni Rodrigues e a preparação vocal ministrada por Jaqueline Priston se apresentam como recursos cênicos coesos que retratam a verdade contida na obra de Sayão.

“Minha” – pronome possessivo da primeira pessoa do singular, indica a afetividade dedicada à sua amada, pelo personagem Henrique, como uma semente que germina no jardim criativo de Sayão, cuja sucessão de etapas retoma o desenvolvimento de novos embriões, em um moto-contínuo a partir do qual transforma ‘nossas’ vidas – regidas pelo pronome possessivo da primeira pessoa do plural – em seu universo observador.

domingo, 24 de junho de 2018

Nuon


O potencial destrutivo das guerras, das consequentes perdas individuais e do domínio político oportunista de sociedades que se prostram passivamente diante de um poder que não conseguem combater

O golpe de estado que derruba o príncipe Norodom Sihanouk, na ocasião da guerra civil que assola o Camboja a partir de 1970, estrutura o espetáculo “Nuon”. Através de um olhar poético, é desenhado o período compreendido entre 1975 a 1979, sob o governo do violento regime liderado pelo Partido Comunista de Kampuchea – a cujos seguidores fora dada a alcunha de Khmer Vermelho – responsável por eliminar todos os vestígios da sociedade ocidentalizada em nome de uma cultura imaculada por qualquer influência externa.

O purismo incutido na direção de Ana Rosa Tezza promove, no palco, um transbordamento ordenado de imagens narrativas sequenciais emocionalmente equilibradas, balizadas pela alegria e pela tristeza ao se perder a liberdade, a justiça e o bom senso. Onze viçosos personagens impactam o espectador através do desempenho do compromissado elenco composto por Evandro Santiago – como Arun, Kim, Sambath e Diretor do Campo de Refugiados; Helena Tezza – como Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa; Janine de Campos – como Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan; Marcelo Rodrigues – como Tã e Mestre Viseth; e Regina Bastos – como Nuon. Vale o registro de que a ativista Phalyn Nuon, que empresta o seu nome ao espetáculo, é retratada em três épocas, até se consolidar como protetora de refugiados abalados pela guerra.

O obscuro e turvo processo cognitivo, pelo qual passa o espectador da fluídica história, é musicalizado por Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari que, a cada nota emitida por seus instrumentos, sangra as mentes passivas da plateia em gradativos e crescentes buracos negros imaginativos, alimentados por luz, cores, formas e movimento. A exuberância encontra pista de pouso no figurino de Eduardo Giacomini, extrovertida, inquieta e intimidante, confundindo-se com as máscaras de Maria Adélia como extensões do corpo dos atores que se transformam em pinturas orientais cambojanas em franca composição com os diversos planos definidos pelo cenário de Fernando Marés – estruturado pelo elemento madeira, bruta e entalhada, que desviam o olhar do espectador das atrocidades contidas na história – que, de forma integrada, fazem com que sejam visualizadas aldeias, rios e pontes, com a capacidade de atenuar as atrocidades do líder comunista Pol Pot e resgatar a inocência infantil em franco contraste com a morte ideológica, com a dissolução familiar e com a conquista de novos amigos naqueles tempos de cólera. O dramático desenho de luz assinado por Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski, como por encanto e caprichoso ilusionismo, acentua a névoa negra da fome, o esmaecer do olhar devido à fadiga, o fomentar exasperador da raiva, a cegueira ofuscante do medo e o solitário vácuo da desesperança, como se pincéis luminosos deixassem seus rastros de tinta cintilante sobre seda.

A despeito da essência bélica cambojana contida em “Nuon”, o espetáculo denuncia, de forma ampla, o potencial destrutivo das guerras, das consequentes perdas individuais e do domínio político oportunista de sociedades que se prostram passivamente diante de um poder que não conseguem combater – tudo isso com beleza explícita, plástica e significantemente sensível como se ainda restasse motivação construtiva humana, a partir da qual sonhos não se enfraquecem, mesmo que diante da loucura e da morte.


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Desobediência


Uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa

Um célebre rabino da comunidade judaica ortodoxa de Londres sucumbe ao término de seu sermão sobre o livre-arbítrio, onde fala de anjos, bestas e os únicos seres que são ‘livres para escolher’ – os humanos. Sua filha, uma fotógrafa de Nova York, volta para aquele universo imutável de sua infância, que há muito tempo deixou para trás, tendo que ser alvo dos olhares de parentes e de velhas amizades, e constatar, de forma dolorosa, que seu pai, declara, em seu testamento, não possuir herdeiros, deixando a casa, o seu único bem, como herança para a sua comunidade, ignorando os direitos de sua filha de sangue.

A modelagem do assunto pela direção de Sebastián Lelio permite um aprofundamento da análise sobre as maneiras com as quais as sociedades repressivas enquadram o gênero feminino, através da história de amor entre duas mulheres – uma paixão proibida, aflorada na adolescência, que promove uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa. Contudo, a inércia assumida pelo roteiro não permite que a temática tome rumos, minimamente conclusivos, fazendo de “Desobediência” uma experiencia frustrante e desanimadora, conduzida por personagens perdidos em seus dilemas frente à ‘liberdade’ e às suas ‘escolhas’.

Tungstênio


Alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado

A primeira graphic novel assinada por Marcello Quintanilha, lançada em 2014 – “Tungstênio”, impulsiona a veia criativa do diretor, roteirista e ator pernambucano Heitor Dhalia que leva às telas do cinema, a partir de 21 de junho de 2018, o longa homônimo, adaptação da HQ do quadrinista brasileiro premiado no Festival Internacional de Quadrinhos de Angulême – França. Passível de ser interpretado livremente pelo leitor e pelo espectador, o título da obra de Quintanilha é alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado.

Atemporal, considerando-se as últimas décadas de mandos e desmandos que o Brasil tem passado, “Tungstênio” conta uma história situada, geograficamente, nas proximidades do forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, litoral da capital baiana, tendo como protagonistas o policial casca grossa – Richard (Fabrício Boliveira), sua mulher Keira (Samira Carvalho), Cajú - um jovem envolvido com tráfico e pequenos roubos (Wesley Guimarães) e Seu Ney - um sargento reformado (José Dumont), sendo narrada em off pelo ator Milhem Cortaz.

Quatro vidas e a ocorrência corriqueira de um crime ambiental definem o roteiro original, compartilhado na produção do longa entre Quintanilha, Marçal Aquino e Fernando Bonas, sedimentado pela proposta hiper-realista cinematográfica de Dalhia, que traduz os enquadramentos gráficos da HQ em fotogramas e mantém compromisso de fidelidade para com os diálogos, com o linguajar coloquial e com a estrutura sequencial definida por flashbacks e flashforwards tão acentuados quanto o compromisso do cartunista com a realidade de fato, refletida em suas obras.


Hereditário


O espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção


Uma mulher casada, mãe de dois filhos, maquetista por profissão – após a morte de sua própria mãe, torna-se insegura quanto à sua vocação como cuidadora de seus filhos e estranhamente perturbada para com o seu relacionamento familiar. Entre símbolos pagãos, invocações e sessões com velas, o ocultismo se apresenta à sombra e não define a essência da história que, lentamente, derrama no espectador algo pungente, não explícito, mas os conflitos presentes dentro dos núcleos familiares –  partir dos quais perseguem-se os responsáveis pelas causas de problemas e por distorções morais, sejam os componentes daquele núcleo , divindades, demônios, ou algo qualquer, mesmo incapaz de ser identificado.

A desconfortante direção de Ari Aster domina todo o longa – manipula os personagens com requintes de crueldade, da mesma forma que o faz com o espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção, que retrata uma doutrina horrorosa e terrível, que passa de geração em geração, como um maldito gene dominante que mina as relações e destrói qualquer vestígio de crescimento em comum.

A crueza ameaçadora do iniciante Aster na direção demonstra a frenética vontade de acertar e inovar em um gênero que já se encontra convalescendo há um tempo considerável e que ganha carga de fôlego em “Hereditário” – por seu aflitivo esforço na tentativa de subtrair dos fãs de filme de terror, o marasmo ou, jargonescamente falando, tirá-los da sua zona de conforto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O Amante Duplo

Parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador

A direção insana do labiríntico e delirante melodrama psicossexual francês, por François Ozon, desperta o estado cognitivo do espectador ao penetrar na teia psicológica da protagonista onde, intrometimento de vizinhança, exotismos felinos, abugalhação ocular e estilo musical causam forte impacto frente às vigorosas e ousadas cenas de sexo, capazes de escandalizar os espectadores mais conservadores. Ozon manipula, com esmero, a psiquê de uma jovem perturbada que se apaixona por seu psicanalista e que, logo em seguida, desposa aquele homem que aparenta esconder algo de seu passado – segundo a fantasiosa mente, em processo de degeneração, da protagonista.

Assuntos correlatos a transtornos dissociativos de identidade à parte, “O Amante Duplo” parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador e torna-se um vício. Sua atmosfera inquietante, reviravoltas, revelações instigantes e sequências repletas de tensão o torna assustadoramente pulsante a ponto de excitar e aterrorizar sua plateia.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Aproximando-se de A Fera na Selva


Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais

Personagens tonalizados pela incidência da luz solar difusa, em alguns momentos, sem contornos definidos, projetando silhuetas luminosas e matizadas em conformidade com os princípios das complementares, em franco contraponto com as sombras negras delineadas por diversa incidência luminosa, dessa vez, precisa. Como inertes esculturas vivas, fundem luz e sombras em meio ao relevo de seus corpos e do panejamento que os cobrem, postando-se como se obras inacabadas o fossem, para serem contempladas através de janelas abertas para o impressionismo, a partir do interior de uma caliginosa arquitetura barroca, saturada de emoções e do apelo aos sentidos visuais e auditivos.

Um texto, de cujas sementes germinam puro intelecto ao longo de três séculos, aborda condições inevitáveis a todo ser humano, incluindo os anseios, os receios e as frustrações. Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais.

A indagativa dramaturgia de Marina Corazza lança o seu olhar em ‘A Fera na Selva’ – obra de um dos mais marcantes escritores do realismo do século XIX, o americano, britânico naturalizado, Henry James, datada de 1903. Inspirada na sua relação com a escritora Constance Fenimore Woolson, James discorre sobre admiração, amizade e confiança, sobre narcisismo egoísta, entrega comedida e amor velado. Corazza, obstinada pela compreesão do mecanismo das relações interpessoais, escreve Aproximando-se de “A Fera na Selva”, aprofundando-se na alusiva embriagues dos processos emocionais que caracterizam os diferentes comportamentos humanos que direcionam e intensificam as decisões, evocando a capacidade analítica do espectador, de suas próprias reações diante dos obstáculos que a vida o reserva.

Com pitadas de sarcasmo, de ceticismo e de verdades abissais amparadas pela relação entre Woolson e James, o texto de Marina Corazza confere a base necessária para a arte da ficção desempenhada nos palcos, delineando os personagens May Bartran e John Marcher de maneira peculiar. As verdades retratadas durante todo o espetáculo são reveladas pela criteriosa direção de Malú Bazán, que valoriza cada pormenor factível de lapidação, merecedor de toda a percepção e apreciação por parte do espectador, a começar pela concepção cenográfica de Renato Caldas, capaz de converter a atmosfera pulsante em um vácuo seletivo – onde a luz não se propaga e que extermina qualquer vestígio de vida proveniente do inesperado – atenuado pelo desenho de luz de Miló Martins que, se por um lado, rompe o equilíbrio entre o sentimento e a razão, por outro, traz à luz, as verdades dos personagens sob efeitos, ora da aurora, ora do crepúsculo. Os registros simbólicos capturados por Bázan transmutam os figurinos, assinados por Mareu Nitschke, em obra de arte – estejam em estado dinâmico ou estático – até o desenlace, quando lhes são conferidos status de reflexos inanimados dos próprios protagonistas. Sombria, ao mesmo tempo, delicada, a trilha sonora de Daniel Maia, intriga, ao criar expectativas que não se cumprem, entre a surdez do destino incerto e a cegueira do amor improvável. Incorporando os protagonistas, declamam o texto de Corazza com clareza de dicção ímpar e interagem com os recursos técnicos de palco como se extensão de seus desempenhos os fossem, os pictóricos Helô Cintra Castilho e Gabriel Miziara se relacionam no palco como mulher instigante, lúcida, serena e apaixonada e como homem preso às conjecturas que controlam a sua vida.

Seja intencional por parte da dramaturga ou voluntario pela direção de um espetáculo impregnado de sentimentos, perdas e sequelas, Aproximando-se de “A Fera na Selva”, com desvelo ao espectador, lhe concede, em seu final, nada mais que fragmentos desconjuntados de certezas arrebatadoras que sugerem convicções merecedoras de plena confiança – uma angustiante advertência expressa nas entrelinhas não menos tortas, do que as linhas certas escritas por mãos divinas.




quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sol da Meia-Noite


A história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas

Uma adolescente, se exposta à mais baixa radiação solar, tem a sua vida ceifada pela doença herdada de sua falecida mãe - Xerodermia Pigmentosa, conhecida como XP – um mal genético que se caracteriza por uma extrema sensibilidade à luz do sol e que resulta no desenvolvimento de um tipo de câncer de pele e de problemas severos no sistema nervoso. Uma história na qual a protagonista passa os dias vendo o mundo através de uma abertura vedada por vidros escurecidos, sendo educada pelo pai, escrevendo letras de músicas, dormindo e que descobre o amor quando, de sua janela, avista um jovem que passa por sua casa todos os dias a caminho da escola.

Uma temática estranha abordada por um filme que é claramente direcionado ao público adolescente. “Sol da Meia-Noite” é desenhado pela sensível direção assinada por Scott Speer, trazendo à luz do conhecimento coletivo, uma doença genética que afeta 0,0004% das pessoas do grupo demográfico dos Estados Unidos da América. Vertente documentária à parte, a história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas.  O roteiro é pouco esclarecedor omitindo, ao espectador: o lado familiar do jovem enamorado; o fato dele não levantar suspeitas quanto a razão pela qual os encontros são marcados para ocorrerem somente à noite; a fonte de sua renda justificar gastos elevados, como alugar um estúdio de gravação para que a sua amada pudesse gravar uma canção de sua própria autoria.

Possivelmente, por essas razões, o longa assume um caráter extrema e absurdamente melodramático, além de confundir o espectador ao optar pela reflexão ou pelo sentimentalismo – escolha que acaba pairando no ar, de forma tão clara quanto um adorável dia nublado.



Talvez uma História de Amor


A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor


Um homem inupto, tomado por costumes muito rígidos, monomaníaco com aversão à vida social, inclusive, ao casamento – é o que de melhor pode se afirmar sobre a personalidade do protagonista do filme “Talvez uma História de Amor”.

Um dia, ao voltar do trabalho, o personagem encontra uma mensagem de uma mulher, em sua secretária eletrônica, rompendo o relacionamento entre eles. Mas a questão é que lhe falta lembrança de qualquer relacionamento recente.

A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor. O protagonista de Bernardo não é cativante e sem capacidade de sustentar, sequer, a loucura necessária para dar convencimento à delirante história, tão bem arquitetada por Page.

Baronesa



Ao fazer o espectador indagar o quanto da projeção é ficção ou documentário, “Baronesa” se mostra a que veio

A história de duas mulheres – a de uma manicure de Vila Mariquinhas, na região metropolitana de Belo Horizonte, que tem como sonho morar na favela da Baronesa; e a de sua amiga, que luta para cuidar dos filhos – é a base do roteiro do longa “Baronesa”, a partir de temas abordados de maneira simples e objetiva, tais como: a  masturbação feminina, instruções comportamentais dentro do casamento e as melhores posições para se fazer sexo – que se trombam com a violência na favela em que as protagonistas vivem.

A direção de Juliana Antunes flui naturalmente, como se fosse, simplesmente, mais um dia na comunidade, sem poesia e com muita tensão, diante da iminência de um tiroteio e da tentativa de escape para se proteger a própria vida. A suposta fortaleza imposta aos personagens femininos não se diferencia dos preconceitos dos ainda jurássicos masculinos – como se o fato de se ter um homossexual como membro da família fosse motivo de vergonha ou até mesmo a razão para matar, caso o pai viesse tomar ciência de tal comportamento por parte de um dos filhos, segundo uma das protagonistas.

Ao fazer o espectador indagar o quanto da projeção é ficção ou documentário, “Baronesa” se mostra a que veio, promovendo um contato maior do público com o que pode ser classificado como gênero híbrido.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tia Julia e o Escrevinhador


Processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia


O romancista, dramaturgo, jornalista, ensaísta e crítico Mario Vargas Llosa, natural de Arequipa, responsável por levar a literatura peruana à aclamação internacional, através do sétimo livro de sua autoria - uma inspiração autobiográfica intitulada “Tia Julia e o Escrevinhador” –  homenageia duas figuras responsáveis por moldar a sua juventude: um jornalista de rádio boliviano, com quem trabalhou em Lima, na década de 1950; e Julia, sua tia, muito embora, não consanguínea. Cerca de quarenta anos após a publicação da obra de Llosa, em 1977, a comédia romântica situada na cidade de Lima dos anos 1950 e contemplando forte viés crítico sócio racial, é transportada para aos palcos pela adaptação da dramaturga norte americana Caridad Svich e da engenhosa tradução assinada por Gonzalo Martinez Cortez.

“Tia Julia e o Escrevinhador” conta a história de Julia – uma mulher divorciada, com cerca de 40 anos de idade, que retorna ao Peru para encontrar um outro homem disposto a bancar o seu estilo de vida, mas que acaba se casando com Mário – sobrinho do marido de sua irmã - estudante de direito, com 19 anos de idade, ainda imaturo e sem vida financeira consolidada. Nesse meio tempo, Mário se torna uma espécie de discípulo de Pedro Camacho – autor de radionovelas, conceituado pelos peruanos, revoltado com os interesses exclusivamente comerciais sobre o seu trabalho. Exposto aos conflitos vivenciados por Mário e Júlia, Camacho entra em processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia.

A direção de Ritcheli Santana é estampada na complexidade que a trama que, de um simples envolvimento amoroso, se avoluma e se formata cômica e absurdamente, através do empenho, quase lúdico, do coeso elenco composto por Arthur Portella, Fernanda Teixeira, Flavio Moraes, Gabi Soledade, Gonzalo Martinez Cortez, Lucas Gonjú, Marcelo Ferreira, Otavio Tardelli e Relise Adamo, que metamorfoseiam heróis em vítimas e vilões. De forma integrada ao multifacetado projeto cenográfico de Alice Cruz – que define as diversas camadas temporais de atuação dos personagens – o desenho de luz de Anderson Ratto viabiliza, através dos reflexos e não reflexos dos personagens nos elementos cenográficos, a intercalação da história dos protagonistas. Diogo Matos assina uma consistente trilha sonora, febril, non sense e passionalmente latina, dando margem para que o permissivo figurino de Maria Duarte assuma, livremente, os movimentos dos personagens – por sua vez, explorados em potencial pela direção de movimento de Laura de Castro, moldando, harmoniosamente, imaginação do espectador e história.

A audiência de “Tia Julia e o Escrevinhador” – como ouvintes de uma clássica transmissão de uma radionovela dos meados do século XX –  é testemunha da inusitada construção de personagens em meio a um enredo colorido pelas nuances cromáticas definidas pela jovialidade e maturidade, pela imaturidade e pelo devaneio da responsabilidade.  Um público que anseia por um final feliz – cuja mágica se traduz na expectativa pelos próximos capítulos, mesmo que, ao apagar das luzes do palco do teatro, sejam apresentados no palco da vida real.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Memória D’Alma


Um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle


O abuso sexual infantil responsável pela atrofia do desenvolvimento moral e emocional entre mãe e filho e a estrutura da baixa hierarquia social, danosa somente àqueles que se situam na passageira cronologia dos simbolismos religiosos, são causas viróticas que acometem “Memória D’Alma” – um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle.

A natureza humana, perversamente romantizada no texto de Fabiano Barros, expia a culpa de cada um dos envolvidos e cresce, patologicamente, nas mãos da direção de Guilherme Scarpa e Camilo Pellegrini que, em sua efervescência e propositais distorções religiosas, não apontam um caminho quando se trata de amor incondicional. A explosiva interpretação de Juliana Teixeira, em fusão simbiótica com a renúncia de Niaze Neto de seu próprio arbítrio em prol de seu personagem,  acua, sabota, confunde e induz à fatalidade em nome da intimidade intergeracional. As faces dramáticas são evidenciadas pela subjetiva trilha sonora de Danni Carlos, que tende à um sensualismo desconcertante e sombrio. A completude do desejo harmonizada com o figurino de Carolina Monte e Ivã Ribeiro, encobre a castração moral e a insuportável inocência do gozo. A desconstrução da hipocrisia, que desponta na invenção da infância, é revelada pelo cenário de Vanessa Alves de maneira rústica e hostil, com essência severina que toma conta de vidas castigadas pela secura do esquecimento de um povo que habita os confins das desigualdades de classe.  O criterioso desenho de luz de Mauricio Cardoso atua como um bisturi que disseca corpos e expõe a perversidade, desde sempre, neles incorporada e latente e que, como um jato de sangue, atinge em cheio a face do espectador. As expressões de desejo e de prazer violam o visagismo de Tainá Lasmar, como um não consentimento dos atos de força reprimidos naquele micromundo, repugnados por mãe e filho.

O caminho do conflito entre a tendência sexual do espectador e o temeroso erotismo de uma história – em que são concebidas coisas que não se deveria conceber –  torna cada indivíduo presente na plateia um voyeur das perversões delineadas pelos protagonistas de uma história real – dentre muitas outras amplamente denunciadas pelas mídias que empunham a bandeira da defesa ao Estatuto da Criança e do Adolescente – que faz de “Memoria D’Alma”, um necessário canal multiplicador em potencial.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Martinho da Vila 8.0 | Uma Filosofia de Vida


Pouco contribui para com a potencialização do tributo ao primeiro sambista a conquistar o disco de diamante pela venda de mais de um milhão de cópias


Discorrer sobre a pluricultural vida de Martinho da Vila é evocar as forças ancestrais dos orixás, é descrever sua fé, é exaltar a sua comunidade e a sua família. É levar a identidade cultural do artista a um público que anseia conhecer e se permitir ser aliciado pela chamada de um espetáculo, que se propõe a homenagear o sambista, classificado pelas mídias de divulgação cultural, ora como espetáculo musical – gênero teatral que combina música, canções, dança, e diálogos falados ; ora como musicado – que transcorre ao som de música, muitas vezes, com o desempenho vocal de um ou mais integrantes do elenco.

O lado obscuro de divulgações como essas fica por conta do uso de palavras ambíguas para adjetivar um espetáculo biográfico-jornalístico-iconográfico em um momento de proliferação dos musicais nos teatros do eixo Rio-São Paulo, induzindo o espectador desinformado ao erro – como ocorre com “Martinho da Vila 8.0 | Uma Filosofia de Vida”, baseado em um livro de autoria do protagonista – “Memórias Póstumas de Teresa de Jesus”.

A extensa produção videográfica, sem muito aprimoramento, a partir de registros extraídos da obra do homenageado, pela direção de William Vita, é responsável pela condução da história, da sabedoria, das lições e dos valores do artista, que acaba se sobrepondo ao simplório texto assinado por Ana Ferguson e Solange Bighetti, cuja dramaturgia é timidamente desempenhada pelo elenco composto por Nill Marcondes, Victor Hugo, Junior Vieira, Ana Miranda e Babi Xavier.

A iluminação de Marlon Ribeiro e Mariana Pitta pouco contribui para com a potencialização do tributo ao primeiro sambista a conquistar o disco de diamante pela venda de mais de um milhão de cópias – muito provavelmente, pelo fato de não terem sido contemplados números em que o canto e a coreografia demandassem um caráter apoteótico ao espetáculo, por mais reservado que o seja – promovendo uma ambientação equivalente à mínima necessária para se escutar Martinho da Vila a partir de um toca-discos, à meia-luz, na Santa paz do lar.

Acompanhando a falta do aprimoramento conceitual e da estética temática, a cenografia e de Ana Paula Lopes cumpre seu papel funcional, dentro de uma zona de conforto suficiente a ponto de contentar os olhares menos exigentes. O figurino, também de responsabilidade de Lopes, não poderia ser mais elementar porém, retratando a forma despretensiosa e genuína com que os personagens se apresentam na vida real. Com aparente simplicidade, contida na análise de uma complexa e diversa realidade histórica do artista, o visagismo de Vavá Torres contribui para com a representação de imagem conceitual estruturada, através da caracterização de cada personagem.

O Circuito Geral - sob a ótica do espectador, decepcionado quanto às suas expectativas relativas ao espetáculo em comparação ao espetáculo propriamente assistido, vale a pena recorrer à matéria publicada em 6/12/2015, na coluna do  jornalista, apresentador de televisão e escritor brasileiro, Amaury Jr., na página Band.com.br, sobre a crítica de ‘enredos sem mensagem’ por Martinho da Vila – que justifica a bronca do artista para “com enredos que fazem mera exaltação, sem contar algo mais para a reflexão do público”.

Os Estranhos: Caçada Noturna


História – repleta de infinitas cenas de personagens correndo, tropeçando e gritando em meio a um banho de sangue e sem mistério a ser desvendado


Sem nenhum compromisso para com qualquer tipo de justificativa e costurado a partir de um terror atmosférico, “Os Estranhos: Caçada Noturna” soa como uma ensanguentada e frustrada homenagem ao primeiro filme de 2008 – ‘Estranhos’, subtraído da sua inquietude peculiar e assustadora, digna da direção de Bryan Bertino – o responsável pelo roteiro da atual versão dirigida por Johannes Roberts.

A previsível história – repleta de infinitas cenas de personagens correndo, tropeçando e gritando em meio a um banho de sangue e sem mistério a ser desvendado – em muito pouco se assemelha ao filme de 2008, restando apenas uma pergunta proferida por uma das vítimas dos personagens mascarados: “Porque você está fazendo isso?” E sua respectiva resposta: “Porque não fazer?”.

Oito Mulheres e um Segredo



Gary Ross, confiante de sua direção, rouba a franquia de seus proprietários originais e transforma a comunhão feminina em algo inegavelmente significativo e propenso ao sucesso


Sofisticação e trama extremamente bem desenhada definem o perfil do spin off da trilogia ‘Onze Homens e um Segredo’ – o longa intitulado “Oito Mulheres e um Segredo”, contemplando um elenco estelar constituído por Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling, Awkwafina e Sarah Paulson.


Assistir a um elenco dessa magnitude tramando o roubo do colar de diamantes mais valioso do mundo, no prestigiado Met Gala, em Nova York, definitivamente, não tem preço. Gary Ross, confiante de sua direção, rouba a franquia de seus proprietários originais e transforma a comunhão feminina em algo inegavelmente significativo e propenso ao sucesso - tamanha a elegância com que o filme se apresenta ao espectador e a atração que desperta aos apreciadores dos golpes de mestre, que endossam a negativa da máxima de que o crime não compensa.

Assumindo tal vertente, o longa de Ross desafia e subverte todas as expectativas e, sem ponderação, sai vitorioso ao elevar o entretenimento em algo espetacular, quase mágico, tal e qual uma linda história infantil que conta que ‘em algum lugar existe uma menina de oito anos deitada na cama, sonhando em ser uma criminosa’ – fazendo com que, quem conta o conto, convoque suas sete ouvintes a praticarem um crime em nome da pequena personagem.


As Boas Maneiras



A despeito da atmosfera de terror na qual o longa se insere, a carga emotiva presente no roteiro faz da projeção, um percurso repleto de loopings em uma montanha russa de inúmeras sensações.


A corajosa insanidade da dupla de cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra estampada no longa “Boas Maneiras” inunda a tela de nuances em meio a um universo fantástico, onde uma jovem é contratada por uma mulher grávida para ser sua enfermeira, com vistas a que, tão logo venha dar à luz, ela se torne a babá de seu filho. Contudo, com o avanço da gravidez, a contratada passa a perceber o estranho comportamento de sua contratante – em particular, os seus hábitos noturnos.

O rumo inesperado tomado pelo filme é mágico à percepção do espectador, ao dividir a história em dois momentos – o anterior e o posterior ao nascimento do primogênito da estranha mulher.

A despeito da atmosfera de terror na qual o longa se insere, a carga emotiva presente no roteiro faz da projeção, um percurso repleto de loopings em uma montanha russa de inúmeras sensações.