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terça-feira, 19 de junho de 2018

Aproximando-se de A Fera na Selva


Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais

Personagens tonalizados pela incidência da luz solar difusa, em alguns momentos, sem contornos definidos, projetando silhuetas luminosas e matizadas em conformidade com os princípios das complementares, em franco contraponto com as sombras negras delineadas por diversa incidência luminosa, dessa vez, precisa. Como inertes esculturas vivas, fundem luz e sombras em meio ao relevo de seus corpos e do panejamento que os cobrem, postando-se como se obras inacabadas o fossem, para serem contempladas através de janelas abertas para o impressionismo, a partir do interior de uma caliginosa arquitetura barroca, saturada de emoções e do apelo aos sentidos visuais e auditivos.

Um texto, de cujas sementes germinam puro intelecto ao longo de três séculos, aborda condições inevitáveis a todo ser humano, incluindo os anseios, os receios e as frustrações. Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais.

A indagativa dramaturgia de Marina Corazza lança o seu olhar em ‘A Fera na Selva’ – obra de um dos mais marcantes escritores do realismo do século XIX, o americano, britânico naturalizado, Henry James, datada de 1903. Inspirada na sua relação com a escritora Constance Fenimore Woolson, James discorre sobre admiração, amizade e confiança, sobre narcisismo egoísta, entrega comedida e amor velado. Corazza, obstinada pela compreesão do mecanismo das relações interpessoais, escreve Aproximando-se de “A Fera na Selva”, aprofundando-se na alusiva embriagues dos processos emocionais que caracterizam os diferentes comportamentos humanos que direcionam e intensificam as decisões, evocando a capacidade analítica do espectador, de suas próprias reações diante dos obstáculos que a vida o reserva.

Com pitadas de sarcasmo, de ceticismo e de verdades abissais amparadas pela relação entre Woolson e James, o texto de Marina Corazza confere a base necessária para a arte da ficção desempenhada nos palcos, delineando os personagens May Bartran e John Marcher de maneira peculiar. As verdades retratadas durante todo o espetáculo são reveladas pela criteriosa direção de Malú Bazán, que valoriza cada pormenor factível de lapidação, merecedor de toda a percepção e apreciação por parte do espectador, a começar pela concepção cenográfica de Renato Caldas, capaz de converter a atmosfera pulsante em um vácuo seletivo – onde a luz não se propaga e que extermina qualquer vestígio de vida proveniente do inesperado – atenuado pelo desenho de luz de Miló Martins que, se por um lado, rompe o equilíbrio entre o sentimento e a razão, por outro, traz à luz, as verdades dos personagens sob efeitos, ora da aurora, ora do crepúsculo. Os registros simbólicos capturados por Bázan transmutam os figurinos, assinados por Mareu Nitschke, em obra de arte – estejam em estado dinâmico ou estático – até o desenlace, quando lhes são conferidos status de reflexos inanimados dos próprios protagonistas. Sombria, ao mesmo tempo, delicada, a trilha sonora de Daniel Maia, intriga, ao criar expectativas que não se cumprem, entre a surdez do destino incerto e a cegueira do amor improvável. Incorporando os protagonistas, declamam o texto de Corazza com clareza de dicção ímpar e interagem com os recursos técnicos de palco como se extensão de seus desempenhos os fossem, os pictóricos Helô Cintra Castilho e Gabriel Miziara se relacionam no palco como mulher instigante, lúcida, serena e apaixonada e como homem preso às conjecturas que controlam a sua vida.

Seja intencional por parte da dramaturga ou voluntario pela direção de um espetáculo impregnado de sentimentos, perdas e sequelas, Aproximando-se de “A Fera na Selva”, com desvelo ao espectador, lhe concede, em seu final, nada mais que fragmentos desconjuntados de certezas arrebatadoras que sugerem convicções merecedoras de plena confiança – uma angustiante advertência expressa nas entrelinhas não menos tortas, do que as linhas certas escritas por mãos divinas.




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