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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Contracapa


Ultrapassa a simplicidade do existencialismo e se embrenha em terrenos onde mentiras carecem de significados para se tornarem verdades concretas


A geometria de um relacionamento familiar, não tão incomum – um casal e sua filha, o patriarca da família e um amigo que faz parte do passado do casal – com capacidade de potencializar os meandros que conduzem a concepção literária. A inspiração arrastada à expiração temporal, cuja indefinição do prazo fica por conta dos esforços da escritora na tentativa de desatar os nós do passado. A negativa diante da compreensão da legitimidade dos papéis desempenhados na vida real e a consequente entrega de um esboço criativo da ficção, de sua autoria, ao futuro leitor.

O espetáculo “Contracapa” ultrapassa a simplicidade do existencialismo e se embrenha em terrenos onde mentiras carecem de significados para se tornarem verdades concretas. Ao idealizar a história, Rócio Durán expõe a sua espontaneidade reflexiva contemplando impulsividade e potencial calculista que priva a dramaturgia – criativamente assinada por Suzana Nascimento – de qualquer possibilidade de desempenho involuntário por parte do elenco. O fluxo e o refluxo, instrumentalizados pela direção geral de Priscila Vidca, fazem dos personagens dóceis instrumentos em mãos hábeis que os guiam no processo da realização de um projeto – no caso específico, um livro. A espontaneidade dos personagens é transmitida ao espectador da mesma forma que é meticulosamente capturada e traduzida pela trilha sonora de Federico Puppi e Gastão Villeroy, que realizam, sem muito esforço, o encantamento de toda a plateia pela criação de um livro. A complexidade que reside na essência de cada papel é mutuamente compartilhada – em consequência da interdependência de todos daquele núcleo – pelo coeso elenco formado por José Karini, Rocio Durán, Roberto Frota e Saulo Rodrigues. O dualismo entre a ficção e a não ficção, traduzido sob a forma de inúmeras camadas temporais e presenciais diante da plateia,  são viabilizadas pela dobradinha formada pela simplicidade e pela eficiência contempladas na concepção cenográfica de José Dias – que rege as regras da imaginação criadora, a partir da qual os grandes segredos são deflagrados; e pela riqueza cromática e intensidade do fluxo luminoso orquestrados pelo desenho de luz de Paulo Denozot – que banha o palco de sensualidade em alguns momentos. Passível de ser analisado a partir das entrelinhas, o institucional totalitário e enigmático figurino desenhado por Desirée Bastos, contempla marcas quase hieroglíficas, em sutis alusões ao formato ditatorial de comportamento do patriarca e à profissão literata de sua filha – remetendo aos marcadores de texto para os que são da família.

Embora não tenha sido levado ao público, o segmento da história que define as razões pelas quais o casal se entregou ao desejo mútuo e estabelecer a configuração familiar que perdura até o momento presente dos personagens, é possível responsabilizar a postura do patriarca pela hibernação das evidências, um dia responsáveis por aquela atração e que, ao longo do tempo, passou a dar lugar a cobranças e constrangimentos em meio a uma relação amparada pela inércia. Omitindo tal hipótese, o espetáculo “Contracapa” concede autonomia para que o espectador conjecture toda uma gama de possibilidades de finalização da história, de forma entusiasmante e sem fundamentar a paixão, mas abrindo um espaço para a reflexão sobre a mesquinhez que age em nome de um amor incondicional.

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