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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Memória D’Alma


Um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle


O abuso sexual infantil responsável pela atrofia do desenvolvimento moral e emocional entre mãe e filho e a estrutura da baixa hierarquia social, danosa somente àqueles que se situam na passageira cronologia dos simbolismos religiosos, são causas viróticas que acometem “Memória D’Alma” – um espetáculo sem padrão normativo que discursa para uma sociedade conivente, composta por adultos moralmente malformados e tomados pela cegueira seletiva, diante de fatos que saem do seu controle.

A natureza humana, perversamente romantizada no texto de Fabiano Barros, expia a culpa de cada um dos envolvidos e cresce, patologicamente, nas mãos da direção de Guilherme Scarpa e Camilo Pellegrini que, em sua efervescência e propositais distorções religiosas, não apontam um caminho quando se trata de amor incondicional. A explosiva interpretação de Juliana Teixeira, em fusão simbiótica com a renúncia de Niaze Neto de seu próprio arbítrio em prol de seu personagem,  acua, sabota, confunde e induz à fatalidade em nome da intimidade intergeracional. As faces dramáticas são evidenciadas pela subjetiva trilha sonora de Danni Carlos, que tende à um sensualismo desconcertante e sombrio. A completude do desejo harmonizada com o figurino de Carolina Monte e Ivã Ribeiro, encobre a castração moral e a insuportável inocência do gozo. A desconstrução da hipocrisia, que desponta na invenção da infância, é revelada pelo cenário de Vanessa Alves de maneira rústica e hostil, com essência severina que toma conta de vidas castigadas pela secura do esquecimento de um povo que habita os confins das desigualdades de classe.  O criterioso desenho de luz de Mauricio Cardoso atua como um bisturi que disseca corpos e expõe a perversidade, desde sempre, neles incorporada e latente e que, como um jato de sangue, atinge em cheio a face do espectador. As expressões de desejo e de prazer violam o visagismo de Tainá Lasmar, como um não consentimento dos atos de força reprimidos naquele micromundo, repugnados por mãe e filho.

O caminho do conflito entre a tendência sexual do espectador e o temeroso erotismo de uma história – em que são concebidas coisas que não se deveria conceber –  torna cada indivíduo presente na plateia um voyeur das perversões delineadas pelos protagonistas de uma história real – dentre muitas outras amplamente denunciadas pelas mídias que empunham a bandeira da defesa ao Estatuto da Criança e do Adolescente – que faz de “Memoria D’Alma”, um necessário canal multiplicador em potencial.

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