Counter

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Minha


Uma semente que germina no jardim criativo de Sayão, cuja sucessão de etapas retoma o desenvolvimento de novos embriões, em um moto-contínuo a partir do qual transforma ‘nossas’ vidas

O olhar do espectador se manifesta na presente resenha crítica, com foco na configuração de um espetáculo teatral, possivelmente única ou que raramente se repetirá. O acesso acontece pelos bastidores de um teatro projetado segundo o estilo art déco, cuja história se confunde com a construção da Cinelândia, na primeira metade do século XX.

Uma plateia intimista em pleno palco, limitada a oitenta lugares dispostos em arena, coloca o espectador na fronteira com o epicentro de um drama prestes a eclodir e que aguarda o descortinar reverso de uma boca de cena. O precioso capricho da direção de Fátima Leite faz da plateia e dos dois níveis de balcões do Teatro Dulcina, um fundo de cena com dimensões monumentais, emoldurada pelo avesso das bambolinas que dão lugar a uma cama hospitalar e um dossel sobre um tablado, em primeiro plano. Sobre a cama, um corpo inerte que ainda respira, mas que não fala e que não vê; que não ouve e que não sente, de forma consciente. Sob o dossel, o dualismo entre a iminência da morte e a persistência de uma vida, privada do gozo de uma vida ainda não expirada. Entre a cama e o dossel, a expectativa diária por um encontro de uma personagem em coma com seu amado, tomado por um amor tão alienado quanto talvez não o fora até sua mulher ser combalida por uma corriqueira cirurgia de varizes malsucedida.

Como visitantes sentados em uma generosa sala de espera de um hospital, os espectadores compartilham do diálogo monologado entre o casal, interpretado por Osvan Costa e por Cynthia C. Cada um a seu modo, ator e atriz se confundem com seus personagens – o ator, se revelando um catalisador de sentimentos que, juntamente com a verbalização de seu texto, se vale das expressões corporais, em especial, as faciais, ungidas por lágrimas sangradas por uma dor que brota da alma do artista, inexoravelmente, a cada apresentação do espetáculo; a atriz, atestando a sua capacidade de entrega ao personagem, como se em sessenta minutos de estado de hibernação, inerte, acompanha, remotamente, seu parceiro de palco quando de sua chegada para mais uma visita, quando de sua leitura do jornal para lhe pôr a par dos últimos acontecimentos, quando despe suas vestimentas como ato de exposição de suas verdades, quando lhe presenteia com flores, quando baila com seu vestido de noiva, quando compartilha do calor que ainda lhe resta deitados lado a lado em seu leito, quando invoca piedosamente seus santos protetores, quando se despede com a promessa de retorno no dia seguinte.

Trivial, como os registros da vida como ela é e conduzidos pela banalidade do cotidiano daqueles que se enquadram como somente mais um em meio à multidão, o texto “Minha” faz parte da produção literária do premiado autor carioca Wilson Sayão, transformado em espetáculo teatral, vinte e um anos após tê-lo escrito, em 1997. Um exemplo de resistência de produções do gênero, realizada pelo produtor cultural, músico e ator Rafael Fleury, “Minha” conta com a supervisão do diretor e ator mineiro, Amir Haddad, reconhecido pela sua linha de trabalho que explora disposições não convencionais de cena e a interação entre elenco e plateia. Seguindo, à risca, a linha concebida pela direção e supervisão do espetáculo, a iluminação de Aurélio de Simoni, o projeto cenográfico assinado por Fernando Mello da Costa, os figurinos desenhados por Liliam Butini, a coreografia marcada por Toni Rodrigues e a preparação vocal ministrada por Jaqueline Priston se apresentam como recursos cênicos coesos que retratam a verdade contida na obra de Sayão.

“Minha” – pronome possessivo da primeira pessoa do singular, indica a afetividade dedicada à sua amada, pelo personagem Henrique, como uma semente que germina no jardim criativo de Sayão, cuja sucessão de etapas retoma o desenvolvimento de novos embriões, em um moto-contínuo a partir do qual transforma ‘nossas’ vidas – regidas pelo pronome possessivo da primeira pessoa do plural – em seu universo observador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário