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domingo, 24 de junho de 2018

Nuon


O potencial destrutivo das guerras, das consequentes perdas individuais e do domínio político oportunista de sociedades que se prostram passivamente diante de um poder que não conseguem combater

O golpe de estado que derruba o príncipe Norodom Sihanouk, na ocasião da guerra civil que assola o Camboja a partir de 1970, estrutura o espetáculo “Nuon”. Através de um olhar poético, é desenhado o período compreendido entre 1975 a 1979, sob o governo do violento regime liderado pelo Partido Comunista de Kampuchea – a cujos seguidores fora dada a alcunha de Khmer Vermelho – responsável por eliminar todos os vestígios da sociedade ocidentalizada em nome de uma cultura imaculada por qualquer influência externa.

O purismo incutido na direção de Ana Rosa Tezza promove, no palco, um transbordamento ordenado de imagens narrativas sequenciais emocionalmente equilibradas, balizadas pela alegria e pela tristeza ao se perder a liberdade, a justiça e o bom senso. Onze viçosos personagens impactam o espectador através do desempenho do compromissado elenco composto por Evandro Santiago – como Arun, Kim, Sambath e Diretor do Campo de Refugiados; Helena Tezza – como Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa; Janine de Campos – como Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan; Marcelo Rodrigues – como Tã e Mestre Viseth; e Regina Bastos – como Nuon. Vale o registro de que a ativista Phalyn Nuon, que empresta o seu nome ao espetáculo, é retratada em três épocas, até se consolidar como protetora de refugiados abalados pela guerra.

O obscuro e turvo processo cognitivo, pelo qual passa o espectador da fluídica história, é musicalizado por Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari que, a cada nota emitida por seus instrumentos, sangra as mentes passivas da plateia em gradativos e crescentes buracos negros imaginativos, alimentados por luz, cores, formas e movimento. A exuberância encontra pista de pouso no figurino de Eduardo Giacomini, extrovertida, inquieta e intimidante, confundindo-se com as máscaras de Maria Adélia como extensões do corpo dos atores que se transformam em pinturas orientais cambojanas em franca composição com os diversos planos definidos pelo cenário de Fernando Marés – estruturado pelo elemento madeira, bruta e entalhada, que desviam o olhar do espectador das atrocidades contidas na história – que, de forma integrada, fazem com que sejam visualizadas aldeias, rios e pontes, com a capacidade de atenuar as atrocidades do líder comunista Pol Pot e resgatar a inocência infantil em franco contraste com a morte ideológica, com a dissolução familiar e com a conquista de novos amigos naqueles tempos de cólera. O dramático desenho de luz assinado por Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski, como por encanto e caprichoso ilusionismo, acentua a névoa negra da fome, o esmaecer do olhar devido à fadiga, o fomentar exasperador da raiva, a cegueira ofuscante do medo e o solitário vácuo da desesperança, como se pincéis luminosos deixassem seus rastros de tinta cintilante sobre seda.

A despeito da essência bélica cambojana contida em “Nuon”, o espetáculo denuncia, de forma ampla, o potencial destrutivo das guerras, das consequentes perdas individuais e do domínio político oportunista de sociedades que se prostram passivamente diante de um poder que não conseguem combater – tudo isso com beleza explícita, plástica e significantemente sensível como se ainda restasse motivação construtiva humana, a partir da qual sonhos não se enfraquecem, mesmo que diante da loucura e da morte.


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