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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tia Julia e o Escrevinhador


Processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia


O romancista, dramaturgo, jornalista, ensaísta e crítico Mario Vargas Llosa, natural de Arequipa, responsável por levar a literatura peruana à aclamação internacional, através do sétimo livro de sua autoria - uma inspiração autobiográfica intitulada “Tia Julia e o Escrevinhador” –  homenageia duas figuras responsáveis por moldar a sua juventude: um jornalista de rádio boliviano, com quem trabalhou em Lima, na década de 1950; e Julia, sua tia, muito embora, não consanguínea. Cerca de quarenta anos após a publicação da obra de Llosa, em 1977, a comédia romântica situada na cidade de Lima dos anos 1950 e contemplando forte viés crítico sócio racial, é transportada para aos palcos pela adaptação da dramaturga norte americana Caridad Svich e da engenhosa tradução assinada por Gonzalo Martinez Cortez.

“Tia Julia e o Escrevinhador” conta a história de Julia – uma mulher divorciada, com cerca de 40 anos de idade, que retorna ao Peru para encontrar um outro homem disposto a bancar o seu estilo de vida, mas que acaba se casando com Mário – sobrinho do marido de sua irmã - estudante de direito, com 19 anos de idade, ainda imaturo e sem vida financeira consolidada. Nesse meio tempo, Mário se torna uma espécie de discípulo de Pedro Camacho – autor de radionovelas, conceituado pelos peruanos, revoltado com os interesses exclusivamente comerciais sobre o seu trabalho. Exposto aos conflitos vivenciados por Mário e Júlia, Camacho entra em processo de devaneio criativo ionesco, perde o discernimento e forja uma realidade que se funde com fantasia.

A direção de Ritcheli Santana é estampada na complexidade que a trama que, de um simples envolvimento amoroso, se avoluma e se formata cômica e absurdamente, através do empenho, quase lúdico, do coeso elenco composto por Arthur Portella, Fernanda Teixeira, Flavio Moraes, Gabi Soledade, Gonzalo Martinez Cortez, Lucas Gonjú, Marcelo Ferreira, Otavio Tardelli e Relise Adamo, que metamorfoseiam heróis em vítimas e vilões. De forma integrada ao multifacetado projeto cenográfico de Alice Cruz – que define as diversas camadas temporais de atuação dos personagens – o desenho de luz de Anderson Ratto viabiliza, através dos reflexos e não reflexos dos personagens nos elementos cenográficos, a intercalação da história dos protagonistas. Diogo Matos assina uma consistente trilha sonora, febril, non sense e passionalmente latina, dando margem para que o permissivo figurino de Maria Duarte assuma, livremente, os movimentos dos personagens – por sua vez, explorados em potencial pela direção de movimento de Laura de Castro, moldando, harmoniosamente, imaginação do espectador e história.

A audiência de “Tia Julia e o Escrevinhador” – como ouvintes de uma clássica transmissão de uma radionovela dos meados do século XX –  é testemunha da inusitada construção de personagens em meio a um enredo colorido pelas nuances cromáticas definidas pela jovialidade e maturidade, pela imaturidade e pelo devaneio da responsabilidade.  Um público que anseia por um final feliz – cuja mágica se traduz na expectativa pelos próximos capítulos, mesmo que, ao apagar das luzes do palco do teatro, sejam apresentados no palco da vida real.

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