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segunda-feira, 23 de julho de 2018

A Incrível Jornada do Narcoléptico Edmundo em Busca da Impenetrável, porém, Coração Nobre, Catharina… Ou, Ed & Cath


Dois indubitáveis talentosos atores


Sem qualquer aviso prévio, toda uma plateia sofre a sugestão de que deve transportar as suas atenções para algum ponto da Idade Média, onde um monarca, ao perceber sua dinastia sob forte ameaça – na hipótese de sua filha, de 30 anos, não se casar imediatamente – promove um torneio entre nobres, cujo vencedor, desposará a sua primogênita. Um plebeu, apaixonado pela princesa, vê no torneio, a chance de realização de seu sonho de amor. Contudo, o pobre enamorado sofre de narcolepsia – uma perturbação neurológica caracterizada pela diminuição da capacidade de regulação do ritmo do sono e do despertar – o que comprometeria o seu desempenho durante a competição, pela mão de sua amada.  Arrasado, o desolado apaixonado pede ajuda à sua melhor amiga. Juntos, convocam a Fada Madrinha dos Amigos para que a torne invisível, permitindo, dessa forma, interagir com seu parceiro durante a peleja, de forma imperceptível.

Assim, fica estabelecido o ciclo soporífero da peça “A Incrível Jornada do Narcoléptico Edmundo em Busca da Impenetrável, porém, Coração Nobre, Catharina… Ou, Ed & Cath”, com potencial latente de condução das atenções do público à apatia, durante longos sessenta minutos de apresentação. A voluntária inexistência da luminotécnica cênica entrega os refletores à sorte de uma tediosa iluminação difusa, assemelhando-se a uma luz de serviço, que banha toda a sala de espetáculos, deixando a plateia na expectativa quanto ao apagar dos refletores para dar início ao espetáculo.

No palco, em formato de arena do Teatro Cândido Mendes, dois indubitáveis talentosos atores – Helena de Almeida e Ruy Carvalho – vestem um figurino performático atemático, concebido de tal forma a lhes dar a liberdade de movimento necessária ao desempenho de ambos. De resto, só desolação – sem cenário, sem trilha sonora, sob uma direção, aparentemente, sem vigília, e sob uma nebulosa e pouco visionária direção de produção. Uma performance, cuja vocação consagrou-se pelas apresentações em espaços urbanos públicos, é desviada para um espaço fechado, privado dos recursos técnicos naturais presentes em ambientes externos, por sua vez, iluminados a partir da incidência da radiação solar – atenuada pelas nuvens ou pelas copas das árvores – e sonorizada pela trilha composta pela paisagem acústica a céu aberto.

A tentativa de firmar uma interatividade com o expectador presente em uma sala de espetáculos esbarra no abismo que diferencia a plateia formada por indivíduos circulantes em praças públicas, por alunos de uma escola em Sepetiba no refeitório do estabelecimento de ensino e por aqueles que selecionam os espetáculos através das mídias, de modo se prevenirem, tanto quanto possível, contra produções que não se encaixam dentro de suas preferências. Consequentemente, a inevitável participação, não muito voluntária por parte da plateia, não contribui para com o desenrolar da história, mas cuja narrativa conta com a inquestionável qualidade do desempenho interpretativo e da acrobacia dramática indissociáveis do nome de Ruy Carvalho – certamente, o responsável por aliviar o espectador contra o mal que acomete o apaixonado plebeu sonhador.

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