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segunda-feira, 23 de julho de 2018

A Vida ao Lado


Laços que transformam o sofrimento e as neuroses em sucessivas e dosadas pérolas de bom humor

O conteúdo alegórico contido no texto da diretora teatral e atriz carioca, Cristina Fagundes invade o território de cada espectador presente ao espetáculo “A Vida ao Lado”, como se estivesse se apropriando da capacidade correlativa entre o que se passa na sala de espetáculos e na vida privada de cada espectador. Quebrando o estigma da figurinha repetida, Fagundes completa a ficha técnica como integrante do elenco e como diretora que define uma dinâmica para o espetáculo visando dissecar cada um dos presentes, com precisão cirúrgica, aflorando seus medos, suas angústias, seus preconceitos e suas revoltas.

Tais sentimentos são pontuados em núcleos familiares que compõem uma sociedade edificada que se protege às custas de seus muros, de suas restrições, de sua vigilância e de regras promulgadas e executadas por grupos alheios ao coletivo. Prisioneira de si mesma, uma edificação que constitui um condomínio residencial vive o drama da contagem regressiva de trinta dias para a sua implosão, dando lugar a um expansivo e exótico aquário municipal.

Como se radiografando as entranhas dos labirintos condominiais – de forma minimalista e engenhosamente estilizados pela concepção cenográfica assinada por Alice Cruz e Tuca Benvenutti – o dramático e agressivo desenho de luz de Aurélio De Simoni diagnostica a patologia que pulsa no sistema vascular que mantém o ciclo da vida nos grandes complexos de moradia - nada mais do que conjuntos habitacionais, não importando o status socioeconômico e cultural de seus ocupantes, onde a vida se repete, alucinadamente. Inserida em uma atmosfera contaminada por um pseudo déjà-vu, a desprotegida plateia se presta como testemunha da opressão, de rituais de ostentação e de humilhação que eclodem com requintes de violência, a despeito da segurança sugerida dentro dos frágeis limites de um condomínio fechado. Na esfera do coletivo, percebe-se a desarticulação de interesses dos personagens vividos por Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flavia Espírito Santo e Marcello Gonçalves com fidelidade comportamental irrepreensível, contemplando déficits de reconhecimento de suas intolerâncias e de suas equidades, a despeito do sofrimento promovido pelos interesses individuais de representantes das classes empresarial e política. A avaliação das perdas é substituída pela criação do inimigo de porta, reinventado e materializado pelo figurino de Sol Azulay, permitindo que os personagens se reformulem a ponto de estabelecerem uma regra do jogo, cuja vitória conduz ao podium, ninguém mais, do que o espectador. A aparente supressão dos sentimentos desenhada para cada um dos personagens, com reflexos na aceitação das mesmices que lhe são impostas, reage, de forma catártica, junto à revigorante trilha sonora de Isadora Medella, como se oásis pontuados em meio à aridez desértica, banalizada pelo lema ‘cada um por si’. A linguagem corporal do coletivo sob a direção de movimento de Daniel Leuback, define percursos virtuais por onde transitam condôminos e funcionários do edifício, criando laços que transformam o sofrimento e as neuroses em sucessivas e dosadas pérolas de bom humor.

“A Vida ao Lado” promove uma grata surpresa ao expor a coexistência desestabilizada de diversos fatores dentro da coletividade, lançando mão do bom senso e da essência da vida em grupo em um momento contemporâneo que garante que os direitos de uns não terminam quando começam os de outros.

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