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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Esse Vazio

Compartilhamento afetivo, junto ao espectador, desencadeando uma apatia frente ao implacável sentimento que aflora diante de uma perda - a solidão

A cumplicidade contagiante entre três amigos que compartilham seus medos, suas frustrações e seus sonhos estrutura a tônica do espetáculo “Esse Vazio”, cujos personagens se escondem sob um silêncio moral, arranham verbalmente a confiança e os ressentimentos disfarçados que, pouco a pouco, abrem o enorme buraco existencial descrito no texto de autoria dos portenhos Patricio Aramburu, Nahuel Cano, Alejandro Hener e Juan Pablo Gómez. O acridoce e as notas de humor delirante depositados na história devem-se à elaborada tradução de Daniel Dias da Silva, que também atua com Gil Hernandez e Sávio Moll em meio ao drama que os coloca diante de um dia pincelado pelas tintas sombrias que compõem a paleta de tons repletos de esperança e de resignação – dignos da observação atenta do espectador que lança o seu olhar sobre os três amigos que ao longo da história, se refugiam no vestiário de um clube da cidade em que cresceram, de onde observam a cerimônia do velório de um amigo.

Intensa carga emocional, opressão sufocante, culpa dolorosa e angústia profunda orbitam pelo nebuloso e claustrofóbico cenário de Claudio Bittencourt, concebido a partir de um vestiário equipado com dois armários de aço, um banco e uma mesa de apoio, delimitado por um piso alusivo a um revestimento cerâmico que, como uma trincheira, funciona para palavras que não possam ser proferidas olhando-se nos olhos de quem as escuta. Os ternos mal vestidos e acabrunhados definidos pelo figurino de Victor Guedes, envelopam os personagens como um catalizador de lembranças felizes e ingratas e de lacunas certeiras, dedicadas ao esquecimento a partir de uma tradicional subordinação ao luto. A solidão evocada pela possibilidade da morte é visível aos olhos do público, como se lesionados por uma névoa ocular, voluntariamente aliada ao desenho de luz de Tomás Ribas que traduz a imensidão do vazio, extensiva após o término do espetáculo. Alinhavando a póstuma homenagem sob as rédeas da observação à distância, a emocional direção de Sérgio Modena desnuda as relações dos protagonistas a partir do seu compartilhamento afetivo, junto ao espectador, desencadeando uma apatia frente ao implacável sentimento que aflora diante de uma perda - a solidão.

A carência de uma descarga emocional pulsante e aprofundada, não atinge o cerne do espetáculo “Esse Vazio”, mas aprisiona o espectador nas entranhas dos personagens que, por sua vez, parecem paralisados em um mundo tomado pelo vácuo, onde luz e som não se propagam.

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