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quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ilha dos Cachorros


Um questionamento que se encrusta na mente dos espectadores sobre a essência da espécie humana e do papel de cada indivíduo ao longo de sua efêmera existência

Na contramão comportamental de uma fração da população humana de todo o planeta – que, apesar do nível de penúria e de violência em que vivem, não atentam para um necessário planejamento familiar visando à garantia do mínimo de dignidade à sobrevivência de sua espécie – uma frase proferida por uma cadela, na performática animação “Ilha dos Cachorros”, reflete o seu testemunho de vida e confessa não ter coragem de trazer cachorrinhos para o mundo em que vive.

Um mundo onde cães se combatem, se ferem, se sangram; um mundo onde os personagens são mortos a queima roupa, em franca composição de um conjunto de imagens assombrosas aos olhos de quem as vê; um mundo onde palavras de baixo calão são proferidas sem o menor constrangimento; um mundo que banaliza as referências ao acasalamento e a exposição do nu explícito – tudo isso posto em cena através da impiedosa visão de Wes Anderson, que transcende o simples relatar de uma história comovente sobre um menino em busca de seu cachorrinho de estimação. 

“Ilha dos Cachorros” também retrata uma comunidade de caninos indesejados, deportados para uma ilha artificial, formada pelo despejo de lixo na costa de um distópico futuro Japão, comandado por um demagogo fanático, que tem a disseminação do medo como sua plataforma política. Anderson flerta com a grotesca atualidade do mundo contemporâneo, fazendo com que o espectador saia de sua zona de conforto e desconsidere, por completo, que a arte da animação esteja atrelada, exclusivamente, ao gênero infantil. A preciosidade artística da animação desenvolvida através da técnica de stop motion, se traduz em um alerta de que o mundo em que vivemos não se encontra tão defasado da “Ilha dos Cachorros” e demanda uma réplica a um questionamento que se encrusta na mente dos espectadores sobre a essência da espécie humana e do papel de cada indivíduo ao longo de sua efêmera existência.

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