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sexta-feira, 13 de julho de 2018

S'Blood


Provoca sentimentos de desestabilização e de deslocamento entre realidade e ficção, e promove tensões geradas por dúvidas e por ansiedade frente ao desejo pela compreensão da obra como um todo

A sugestão de um casamento entre uma mulher branca e um homem negro que, como verdadeiro líder, comanda os seus seguidores. Um aparente soldado, cuja ambição é destroçada ao constatar o posto que anseia escalar, ser dado a um outro homem. Uma mulher que se rebela como se somente em respeito aos seus instintos. A desconstrução da ordem definindo os rumos de uma tragédia.

Tendo como meta promover encontros criativos e fomentar processos artísticos através de um programa de residências voltado para produtores culturais e artistas, em um ambiente amigável às articulações de novas redes de colaboração criativa, uma casa do início do século XX - tombada por decreto específico em área de proteção de ambiente cultural, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde, atualmente, se encontra instalada a Casa Rio – abre as suas portas ao público teatral para uma experiência imersiva, interdisciplinar e intercultural, a partir da montagem de uma instalação performativa, configurada segundo uma situação espacial específica para aquele local e fundamentada no conceito de Site Specific, através do espetáculo ”S’Blood”.

A montagem faz parte da linha filosófica do processo criativo antropofágico do diretor Renato Rocha, cuja carreira internacional se caracteriza pela intervenção de espaços de criação como interface, plataforma de diálogo e local de concentração de diversos segmentos de expressões de arte. Sua transgressiva direção borra as fronteiras da nitidez e das certezas não estabelecidas, provoca sentimentos de desestabilização e de deslocamento entre realidade e ficção, e promove tensões geradas por dúvidas e por ansiedade frente ao desejo pela compreensão da obra como um todo.

Desconstruindo a configuração de palco e plateia, Rocha projeta o espectador em meio ao desempenho performático dramatúrgico experimental, sem qualquer condução que contrarie o seu livre arbítrio de como percorrer os cinco cômodos da Casa Rio e, consequentemente, definir a construção de sua própria dramaturgia, de acordo com o roteiro escolhido, com o seu olhar e da sua interação com a obra, formulando o seu final de acordo com o que foi vivenciado durante o espetáculo.

Produto de pesquisa artística de Rocha, “S’Blood” é concebido a partir de umas das mais comoventes tragédias shakespearianas, ‘Othello – o Mouro de Veneza’, impregnada de amor, de ciúme, de inveja, de traição e de preconceito racial.

A ilusão promovida pelo olhar seletivo de quem assiste e interage com o espetáculo está intimamente relacionada ao elenco que, embora composto por Camila Santanioni, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Edu Ibraim, Gabriel Delfino Marques, Gabrielle Novello, Joana Poppe, Miguel Malahary, Priscila Soeiro, Renan Fidalgo, Stella Brajterman e Tatyane Meyer, também conta com a participação indissociável do espectador que, ao se misturar ao elenco, é capaz de inflacionar a ficha técnica em proporção geométrica aos olhos que confundem quem é quem em meio a ilustres desconhecidos personagens do palco e da vida real. Os momentos exponenciais do drama são reiterados segundo um sensual balé de corpos sob a direção de movimento de Tony Rodrigues, que impinge a farsa ao desviar os olhares externos sedentos por respostas. Enquanto que o desenho de luz de Renato Machado interage com a instalação de Fernando Mello da Costa e Renato Rocha, ao estimular o sentido da visão e definir uma razão para o que parece renascer a cada instante - através da noite, da desordem, da anomia e do caos instaurado em um lugar selvagem - a audição dos nômades  espectadores é capturada pela instalação sonora de Daniel Castanheira que atua no subconsciente como um entorpecente que, juntamente com estímulos olfativos, é capaz de embriagar e promover dependência até o final do espetáculo. Tarsila Takahashi assina o figurino influenciado pelo signo da maldade, sob o qual nascem todos os personagens.

O produto final concebido por Renato Rocha não denuncia a negritude ou a denegação ao ocultar a hipocrisia muda e a religiosidade cega, mas revela a falha da virtude ao expor a visibilidade entre espectadores, lhes oferecendo uma genuína reflexão sobre as verdades dominantes daqueles que acreditam somente naquilo que não se pode enxergar.


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