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domingo, 8 de julho de 2018

Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?


Assistir a “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” não basta – é necessário degustá-la e levar consigo a adorável sensação de que acabara de saborear o seu doce predileto ou, até mesmo, de experimentar os efeitos de uma droga obcecante

A crescente indústria em meio aos canais de multimídia e às redes sociais, dedicada ao suporte de encontros interpessoais, ao aprimoramento da forma de expressar sentimentos e à conservação de relacionamentos que se encontram na trilha do insucesso,  deixa a cargo do fiel da balança, o equilíbrio entre individualismo pseudo libertador e desapego em nome do amor – um dualismo presente no título do espetáculo “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” que, essencialmente, é definido por uma questão de escolha. 

O texto, baseado nos argumentos de Claudia Wildberger e Yuri Ribeiro, discorre sobre o amor, que mistura a ficção com a história de suas próprias vidas, imerso em uma atmosfera impregnada de humor, de romantismo, de poesia e de ternura. Concebido de forma lúdico circense, o espetáculo conta com a experiente direção de Jorge Farjalla, que imprime a real intensidade dos pensamentos intrusivos, a dependência emocional e o brilho no olhar que aborda as várias etapas do relacionamento dos protagonistas – Andrea, com 52 anos e Daniel, com 27 – interpretados por Paula Burlamaqui e Yuri Ribeiro, respectivamente. Ambos desempenham seus papéis, com elevado grau de interação fluida, ao darem vida ao casal estável que valoriza a relação monogâmica. Atuando como antagonista, dentre outros personagens coadjuvantes, Vitor Thiré vive Caio, filho de Andrea, que não vê com bons olhos o relacionamento da mãe com um homem com idade de ser seu irmão. Alimentando a realidade com o imaginário de Farjalla, o ator, palhaço e músico Jujuba Cantador se impõe nas cenas musicalizadas por uma diversidade de instrumentos, como um cicerone responsável por amenizar o drama vivenciado pelo casal – um estimulo a ser provocado pela diuturna trilha sonora de João Paulo Mendonça que se faz presente desde o acesso dos espectadores à sala de espetáculos, em franco preparo à incitação do desejo, do prazer, da felicidade e do amor compensatório, segundo o dito popular: "dou-lhe o pão em troca de um beijo".

O status transferencial canalizado pela direção de arte e da concepção cenográfica de José Dias atribui um caráter sublimativo de resgate da origem dos protagonistas – à frente de um fundo infinito negro enevoado, um panejamento tratado como desgastadas lonas de circo definem os limites das páginas de um livro pop-up de onde saltam, aos olhos dos espectadores atentos, personagens estruturados por dobraduras como se tomados pela missão de uma fábula, lhes fossem transmitida uma lição de moral a ser decodificada ao longo da vida de quem a lê. Em consonância com a irretocável identidade visual do espetáculo concebida por Farjalla, o figurino, também de sua autoria, e o visagismo de Rosa Bandeira, atuam como elementos responsáveis por transportar os personagens ao mundo imaginário cobiçado como instrumento da transformação de um sonho em realidade. Assumindo o ofício de folhear as páginas do livro do diretor do espetáculo, o desenho de luz cênica de Jacson Inácio e Vladimir Freire, desenvolve harmonicamente os estágios do desejo, da paixão e do amor e, de maneira complexa, influenciam na overdose de dopamina à qual o espectador é exposto ao desfecho do romance, muito em função da construção de cenas com sutil doses de surrealismo .

Assistir a “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” não basta – é necessário degustá-la e levar consigo a adorável sensação de que acabara de saborear o seu doce predileto ou, até mesmo, de experimentar os efeitos de uma droga obcecante capaz de estimular a formulação de uma resposta convincente à indagação título do espetáculo.

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