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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Minha Futura Ex


Tem muito mais a dizer ao público e fazê-lo pensar do que fazê-lo gargalhar


Com a promessa de despertar fortes emoções, o matrimônio passa a falsa impressão de que autoriza àqueles que se curvam ao seu apelo, não levá-lo tão à sério, omitindo, nesse velho ritual, não haver lugar para fantasias quando os incautos despertam em um universo onde o contraditório é o resultado final. Essa insuportável e insustentável verdade é compartilhada por um casal na vida real, ao mesmo tempo personagens fictícios no espetáculo “Minha Futura Ex” que, sem evitar as armadilhas e desarmando o lúdico do relacionamento à dois, Agnes Xavier e Hélio Zachi definem, de forma precisa, a diferença entre a felicidade e a insatisfação dentro de um elevador que para de funcionar, no momento em que os personagens incorporados por ambos saem de casa para assinar os papéis do divórcio. Dessa forma, a iluminação cênica necessária à visibilidade do palco a partir da plateia – ou seja, permeabilidade de visão de fora para dentro – passa a ser entendida como escuridão total dentro do ascensor, demandando do casal de atores, além da exímia capacidade de convencimento frente ao expectador, sobre a crise conjugal que vêm atravessando por tantos anos, um preciso controle do foco de seus olhares limitados às paredes, ao teto e ao piso do cubículo onde se encontram – salvo os poucos minutos quando o breu é sangrado pela chama de um isqueiro ou pelo facho de uma lanterna de bolso.

A avalanche de sentimentos e ressentimentos que pululam no palco causa calafrios na plateia, uma vez estabelecida uma relação Orwelliana entre espectadores e personagens, tendo como ponto de fuga a cenografia de Francisco Leite, concebida segundo padrões estéticos minimalistas capazes de convergir os olhares atentos do público para o interior do elevador enguiçado. Tão estático quanto o ascensor, um enorme relógio marca a paralização do tempo durante o qual o relacionamento passa a ser discutido entre as partes, antes mesmo que a separação seja levada a termo no escritório de advocacia – destino do casal interrompido pela pane do equipamento de circulação vertical.  Tão objetivamente quanto a concepção do cenário, Leite desenha um figurino que dispensa legendas – definindo o marido apaixonado, inconformado com o pedido de separação e a esposa frustrada, decidida pelo divórcio – qualificativos plenamente correspondidos pelo desempenho e interação de Zachi e Xavier face às suas vestimentas, respectivamente. Sob a classificação comédia através da qual se camufla, “Minha Futura Ex” tem muito mais a dizer ao público e fazê-lo pensar do que fazê-lo gargalhar – sutileza levada a cabo pelo desenho de luz de Demétrio Nicolau que, além de cumprir seu papel funcional, assume a responsabilidade de definir o que está por detrás dos momentos em que o casal se permite ao diálogo sincero e aberto e aqueles em que se entregam ao combate verbal. Com a mesma sensibilidade que Nicolau pincela cenário e atores com sua paleta de luz, o lighting designer se entrega à leveza da trilha sonora, também de sua autoria.

O texto de Lina Rossana Ostrovsky revela os enganos assumidos como verdades anteriormente ao casamento, que se tornam o mal necessário que sustenta a paixão diluída pela acomodação involuntária, em meio à rotina do convívio sob um mesmo teto. Fiel à vertente definida por Ostrovsky, a direção de Rogério Fabiano se apropria, a ferro e fogo, da instituição do casamento e a compartilha com o público como  um instrumento de busca da felicidade, mas sem a menor garantia de que seja para sempre sem o empenho dos envolvidos.


“Minha Futura Ex” vai além de uma bem-humorada história de um marido e de uma esposa presos no elevador, onde lavam a roupa suja acumulada durante o seu relacionamento conjugal. O espetáculo contempla o potencial de promover a sensação de um passeio em um trem fantasma durante o qual, os casais ou aqueles que desejam se tornar a metade de uma laranja, e que se encontram na fila de espera daquele “brinquedo”, ouvem gritos do pavor e das gargalhadas do medo que estão prestes a vivenciar ou com os quais já convivem, até que o destino se encarregue da separação, seja pelo motivo que for, em algum momento de suas vidas.



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