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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Grelo em Obras


Uma grata surpresa dentre os espetáculos do gênero cujo clímax se manifesta em uma catarse a partir da voluntariedade do público

Ao comemorar os vinte anos de jornada, iniciada em 1998, o grupo ‘O Grelo Falante’ tenta erradicar o machismo tóxico que, em pleno ano de 2018, incomoda os que ainda vivem do significado de ser ‘menos’ homem ou ‘menos’ mulher e exalta aqueles que defendem a necessidade de dar espaço, respeito e igualdade a todos, independentemente de seu gênero.

A partir de uma reação contra resistentes fragmentos da evolução dos costumes, dos entraves religiosos, da atrofia cultural e das distorções entre hierarquia social e desigualdade de gênero, o espetáculo “O Grelo em Obras” lança uma lente de aumento na desigualdade presente nos direitos e deveres entre homens e mulheres, denunciando o estigma da superioridade do gênero masculino sobre o gênero feminino. De forma ativa, três mulheres fazem valer suas vozes ao explicitar seus desejos, suas frustrações e a reviravolta à qual se propõem para firmarem a sua individualidade, à despeito de qualquer sugestão de demérito, seja pela prepotência, seja pelo descaso do sexo oposto.

A envolvente direção de Fabiano de Freitas transmite intensa repulsa e menosprezo à hostil agressividade contida na exclusão seletiva do sexo feminino por parte de homens e, até mesmo, por parte de mulheres machistas, em meio aos movimentos pela igualdade de gêneros. Longe de qualquer apologia ao femismo, o elenco composto por Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucília de Assis não se presta a induzir a plateia considerar uma eventual inferioridade dos homens em relação ao sexo oposto e, com isso, definem um contraponto com o machismo, sem ditar regras, procedimentos e comportamentos pró-feministas.  Os padrões da direção de arte e do figurino de Nivea Faso conferem ao espetáculo uma paleta de cores e um padrão vestuário indicativos de um embrionário movimento social, político e filosófico, em potencial, desconstruído pelo enraizado discurso machista contra o sistema femista e estruturado pelo respeito entre os gêneros. Adicionalmente, a transformação das atrizes nas imagens concebidas pelo diretor fica por conta de Duoelo Visagismo, que estampa em cada uma das personagens o caráter de quem não vê nos filhos uma benção, que a formação de uma prole está muito aquém de sua realização pessoal e que a felicidade não se resume em constituir uma família visando colocá-la acima de suas vontades. O desenho de luz de Renato Machado ludibria os olhares e transforma o palco em uma pista dançante iluminada, poupa a atuação das protagonistas de qualquer vínculo com a sexualidade, dramatiza os momentos que passam ao largo da comédia e media a relação entre personagens e espectadores quando estes são metamorfoseados em transitórios protagonistas do espetáculo.

“O Grelo em Obras” é uma grata surpresa dentre os espetáculos do gênero cujo clímax se manifesta em uma catarse a partir da voluntariedade do público, que passa a se manifestar como se em uma plenária mediada pelas atrizes, limítrofe a uma terapia em grupo que desbanca o monopólio dos monólogos outrora proferidos somente por uma das partes situadas no exterior dos órgãos genitais femininos.

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