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domingo, 23 de setembro de 2018

Bonifácio Bilhões

Limites pré-definidos pela essência de um texto original de quarenta e três anos de idade

A justiça social, levada à reflexão como democracia econômica e social, é passível de definir a essência do espetáculo “Bonifácio Bilhões”, onde o abismo entre classes sociais assume proporções perceptíveis a olhos nus. Tal ruptura, aparentemente racional, não insurge como algo razoável. O texto de 1975, de autoria de João Bethencourt, parece não buscar um lugar comum, mesmo sendo apresentado como uma comédia de costumes. Mas a direção de Marcus Alvisi, ao neutralizar o plausível posicionamento político no texto, também assume um caminho politizado. Conta a história de Walter – um economista de verve pretensamente socialista que ganha um prêmio da loteria de quase 4 bilhões de cruzeiros. Ao contrário do que prometera ao humilde profissional de vendas Bonifácio, na fila da lotérica, Walter não divide com o vendedor o prêmio. Para isso, o pseudossocialista foge do proletariado, que o persegue, em busca do cumprimento do que lhe fora prometido.

Conduzido pelo seleto elenco composto por Fernando Ceylão, Flávia Monteiro e João Camargo, o espetáculo recebe pontual e limitada cota de comicidade que, apesar de ser bem explorada pelo trio de atores, na medida em que lhes foi possível, se mostrava balizada segundo limites pré-definidos pela essência de um texto original de quarenta e três anos de idade. A concepção do desenho de luz de Marcus Alvisi e Carlos Lafert se mostra superficial e sem sinais de evolução voluntária, com passagens de cenas repentinamente abruptas e tão inexorável quanto a encenação do texto. O cenário e o figurino assinados por Cláudio Tovar, a partir de visível qualidade técnica e plástica, não são explorados na proporção do seu potencial ao longo do espetáculo, como se alheios ao seu papel interativo junto aos personagens. Até mesmo a trilha sonora de Marcus Alvisi reflete um ranço de uma desestrutura geral da concepção de um todo – muito possivelmente, por questões ligadas à voluntariedade, mas longe de razões denunciadas por incapacidade.

Sem retórica demagógica e sem abonar a carência de um esforço adicional, mais que merecido, por um “Bonifácio Bilhões” de João Bethencourt, o espetáculo dirigido por Alvisi reforça a matriz factual implementada na visão político social de cada um dos espectadores, ressentida pelo não cumprimento de uma promessa que não se traduz em dívida, mas em dúvida – como já dizia Fábio Jr.

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