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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Nossas Mulheres


Um espetáculo onipresente, palpável e, até mesmo pérfido, cujo papel principal se faz como o de difusor da questão de violência que está longe de ser cheio de graça


‘Uma mentira que acalma é menos grave que uma verdade que destrói’ – questionável assertiva acolhida pelo despretensioso texto ‘Nos femmes’, de autoria do dramaturgo, diretor e roteirista tunisiano Éric Assous, residente na França. A despeito de seu recente lançamento e de ter sido transportado para o palco do Teatro de Paris em 2013, sob a direção de Richard Berry, o argumento se perde em meio à atualidade uma vez que, de forma evidente, banaliza a violência doméstica e familiar contra a mulher, à sombra de uma perniciosa cumplicidade entre comparsas do sexo masculino.

Classificado segundo o gênero comédia, o texto de Assous ganha a fiel tradução para a língua portuguesa por Beatriz Ittah e, acolhido pela zelosa produção de Maria Siman, “Nossas mulheres” estreia no Teatro Ipanema em 11 de agosto de 2018, sob a minuciosa e precisa direção de André Paes Leme que, mais uma vez, demonstra a sua segurança e habilidade em reger e integrar as disciplinas que compõem a dramaturgia cênica teatral.

Embora o título do texto de Assus tenha um forte potencial para definir uma vertente em prol da exaltação ao sexo feminino –  ou minimamente, às esposas dos três personagens, o conteúdo se perde em meio a um simplório convite ao riso frente a um feminicídio que perde em relevância para a preconização do egocentrismo masculino e para a forma pela qual a soberba é compartilhada entre camaradas.  O roteiro desenha a história de um homem que chega atrasado a um carteado com seus dois melhores amigos, os informa ter estrangulado sua mulher e que precisa da amizade de ambos para que lhe conceda um álibi, mesmo que, para isso, tenham que mentir durante a investigação do caso pela polícia. Ao optar pelo respeito à fidelidade textual em detrimento de uma sedutora e apelativa invocação ao riso fácil, a direção de Leme introduz considerável dose de formalidade a uma reunião de amigos, à base de pizza e vinho, que não passa de uma nauseabunda reflexão sobre os dilemas existenciais e morais do trio de machistas mesquinhos e individualistas.

A comédia encobre as proporções dramáticas dos fatos no interior de um apartamento, nos moldes de um loft industrial, que reflete o estilo e os momentos passados e presentes do anfitrião, a partir de elementos que conferem fidedignidade ao cenário assinado por Miguel Pinto Guimaraes, concebido segundo a austeridade sombria da solidão à três, à dois ou daquela que se presta coabitar com um único solitário. Os argumentos elementares dos amigos ganham destaque individual e coletivo, propagando-se em meio à tridimensionalidade espacial cênica graças ao sucinto e diversificado desenho de luz de Renato Machado que incorpora, com suas nuances, o dilema real do espetáculo – o estrangulamento – e não apenas um simples acerto de contas entre velhos amigos. As insinuações ritmadas com a trilha sonora de Ricco Viana soam cômicas, mas sem perder o seu verdadeiro peso – o da omissão covarde individual e da cumplicidade ideológica coletiva. Esquivando-se do ênfase à essência clichê dos personagens, o figurino de Bruno Perlatto se comporta como o fiel da balança, sem qualquer apelativo caricata tendencioso cômico ou dramático. Hábeis agentes ativos do mágico conteúdo cênico, representando fragmentos do universo comportamental da sociedade e incorporando papéis de maridos, Edwin Luisi, Isio Ghelman e Edmilson Barros promovem momentos de lazer mas, acima de tudo, de reflexões e de alertas no palco de “Nossas Mulheres” – um espetáculo onipresente, palpável e, até mesmo pérfido, cujo papel principal se faz como o de difusor da questão de violência que está longe de ser cheio de graça.

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