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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os Inocentes de Ipanema


Um breve e voluntário luto



Dentre as inúmeras situações que, de fato, endossam a clássica assertiva suassunesca que proclama que “tudo que é vivo, morre”, o funeral se impõe como um evento social exaustivo, enfadonho e temperado, invariavelmente, por forte carga de dissimulação.

De forma burlesca, o espetáculo “Os Inocentes de Ipanema” transmuta a essência religiosa contida no ritual de despedida dos seres humanos que “partem desta para melhor”, em uma agnóstica assembleia cuja presença se impõe como obrigação, a despeito da vontade e da maneira de encarar a vida e a morte por parte de quem se foi – conforme a máxima de John Green, em sua obra ‘A Culpa é das Estrelas’ que sugere que “os funerais não são para os mortos, mas sim para os vivos”. O expressivo texto e a brilhante direção de Fabrisio Coelho processam a perda de um ente, supostamente, querido, como o apoio terapêutico para a prole – a partir de então, órfã – presenteando o expectador, com a vivência de um momento que encerra o ciclo de um ser.

A história da súbita morte da matriarca Brenda de Cândida – moradora do tradicional bairro de Ipanema – abala toda a estrutura da família que não compartilha de momentos em comum por vinte anos. Dessa forma, o funeral promove para os quatro irmãos, o momento de reencontro, de quatro indivíduos – naquela altura, praticamente, quatro desconhecidos. Compartilhando de, aparentemente, infindáveis embaraçosos momentos, Rita Luz, Jefferson Jima, Susana Savedra e Leonardo Gutierrez protagonizam, com mórbida naturalidade humorística, a coadjuvação da totalidade do elenco do espetáculo – fragilizando e divertindo o espectador, ao sugerirem ainda estar sob o domínio da finada progenitora que, mesmo inerte em seu esquife, mantém a sua capacidade de interferir na vida de seus filhos, como se ainda estivesse viva.

O espetáculo, concebido livre das pressões dos dogmas religiosos e familiares, ao permitir a reflexão sobre a realidade que paira sobre a existência terrena e espiritual e sobre o legado post mortem, aponta para a possibilidade de opção por um modus vivendi  e, com isso, enxergar a morte sob um ponto de vista diferenciado, facilitando a sua aceitação como um fato tão natural quanto grotesco se apresenta em meio a um funeral, onde o espectador de “Os Inocentes de Ipanema” se submete a um breve e voluntário luto.

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