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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Sabe Quem Dançou?


Se faz necessário ao conduzir o espectador à releitura e ao questionamento de suas próprias crenças, de seus valores herdados, do moralismo de ocasião e do preconceito travestido de liberdade de expressão

Diferenças subgrupais, datadas dos idos anos de 1980 – que rotulavam efeminados, bombados, ursos, maduros, drag queens, travestis, bissexuais, lésbicas, homossexuais, enrustidos e, simplesmente, entendidos – definiam guetos distintos, voluntariamente imiscíveis. Em meio a essa diversidade de papéis, nada fictícios, brota a personagem Madonna – um receptador de objetos roubados, que “ampara” homens jovens em sua casa.

A partir do intrigante texto de Zeno Wilde, o espetáculo “Sabe Quem Dançou?” aborda temas que envolvem fanchonos, michês, milícia, furto, receptação e homicídio. Em cena, um desfile de personagens e suas mazelas são contextualizadas em total sintonia com a atualidade, onde o desrespeito às minorias é identificado na política em nome de Deus, dos menores desamparados e da família.

A discriminação que parte dos ‘vigilantes da moral e dos bons costumes’ assume uma postura provocante na direção de Hermes Carpes que, por sua vez, também provoca um choque de realidade com a sua interpretação como protagonista da história, em conjunto com a fiel reprodução do habitat gay underground – cuja concepção cenográfica também é de sua autoria.  A desconstrução compulsiva da heterossexualidade é garantida pelos másculos personagens que orbitam o protagonista como satélites descartáveis, interpretados por Ronaldo Spedaletti, Saint-Clair de Castro e Alexandre Amaral, que interpelam a sociedade responsável pela criação de padrões tomados como ‘normais’ segundo o egocentrismo e prepotência daqueles que a comanda. As positivas referências, delimitadas pelo sadio e pelo depravado, são delineadas, com precisão, pelo visagismo de Max Vitor que carrega na tinta a consciência da imagem que rotula o homossexual como um ser ‘pecador’, em sintonia fina com o figurino assinado por Nonna Vintage, que associa a feiura do preconceito à beleza. O discurso dominante de cumplicidade do protagonista com seus jovens é ampliado pelas músicas de Louise Veronica Ciccone – Madonna, a partir de uma sonoplastia quase marginal de Flavio Toda, amplificado a tal ponto capaz de manter o espectador em involuntário estado de vigília. Os preconceitos heteronormativos, mesmo presentes em uma plateia diversificada, podem parecer ‘normais’ porém, não se perpetuam diante do tímido  desenho de luz de Drigo de Lisboa - que somente mostra para o que veio, quando da interação de Carpes com o espectador, a partir de quando os conceitos de luminotecnia cênica dão sinais de vida, necessária para promover a reflexão sobre a sexualidade, como um dos aspectos culturais da sociedade.

Os valores introjetados pelo preconceito só fortalece a homofobia e, um espetáculo como “Sabe Quem Dançou?” se faz necessário ao conduzir o espectador à releitura e ao questionamento de suas próprias crenças, de seus valores herdados, do moralismo de ocasião e do preconceito travestido de liberdade de expressão.

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