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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças


Traça um paralelo entre um reino fictício, arcaico, contaminado por tradições severas e ditatoriais e um país cuja cultura de massa vislumbra a insubmissão e a democracia

O movimento cultural eminentemente brasileiro denominado Tropicalismo durou pouco mais que um ano e chegou ao seu final, reprimido pelo governo militar, culminando na prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, em dezembro de 1968 – uma história que mudou totalmente a cultura do País e que marcou para sempre a descoberta da modernidade ao se aprofundar no som experimental e romper com a passividade de uma geração que vinha almejando a liberdade de expressão.

Em terna homenagem que visa, antes de tudo, preservar a memória de grandes nomes da música popular brasileira, o projeto ‘Grandes Músicos para Pequenos’, leva aos palcos do teatro infantil, mais um inquestionável sucesso: “Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças”. O espetáculo conta uma história que se passa no Reino de Pindorama, governado por uma rainha autoritária que usa o seu poder para baixar decretos que proíbem a execução de músicas e a proliferação das cores no seu império. Contra tudo isso, dois amigos, Caê e Gil, se unem para trazer sons e cores de volta a Pindorama – uma alusão ao movimento tropicalista. Incorporando novas informações e referências de suma importância ao universo infantil, a direção de Diego Morais traça um paralelo entre um reino fictício, arcaico, contaminado por tradições severas e ditatoriais e um país cuja cultura de massa vislumbra a insubmissão e a democracia.

A sincrética e sedutora direção musical de Guilherme Borges, que transcende as diferenças existentes em meio à diversidade de gerações de espectadores presentes na sala de espetáculos, incorpora a mistura sonora às músicas sem a necessidade de serem somente do movimento, mas de autoria de Caetano e Gil. A assimilação do sedutor e instigante texto de Pedro Henrique Lopes pelo público infantil fragmenta a estranheza contraditória de um país desigual frente ao discurso de resistência dos dois amigos. A construção sensível do elenco formado por Pedro Henrique Lopes, Orlando Caldeira, Martina Blink, Rafael de Castro, Flora Menezes e Hamilton Dias – na sua totalidade, comprometido com uma interpretação contagiante – faz do uso da linguagem híbrida munição sofisticada e desenha um panorama crítico ao conservadorismo acentuado e ao falso nacionalismo.

A linha evolutiva contida no cenário e no figurino de Clívia Cohen sugere a temporalidade ideológica e reafirmação cultural vinculada à arte e a uma sociedade justa diante dos olhares dos futuros cidadãos infantis e de seus já combalidos soldados do passado – todos entoando as canções que marcaram época e que ainda conquistam adeptos no presente. O manifestante desenho de luz de Tiago e Fernanda Mantovani dá o tom convergente ao procedimento artístico dos fundadores do movimento vanguardista, dotando-os de consciência e civilidade, marcando momentos de eterna alegria e de levemente sugeridos momentos dramáticos, percebidos pelo público adulto. A explosão de alegria contida no espetáculo conta com o visagismo de Vitor Martinez que evoca a pureza infantil sem banalizar um dos maiores movimentos artísticos do Brasil.

Mais uma vez, percebe-se o respeito que muitas produções pontuais têm prestado, não só ao público infantil, mas aos seus acompanhantes de todas as idades – é o caso do projeto “Grandes Músicos para Pequenos” produzido pela ENTRE Entretenimento que, através do diluído esboço de engajamento político e cultural subjetivado em “Tropicalinha – Caetano e Gil para Crianças” amplia a noção de que a resistência tem que ser aprendida desde o berço.

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