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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Doutrinador


‘Democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.


O sentimento de revolta frente à indignação, à injustiça, à afronta ao bem comum e, até mesmo, ao desprezo à ética social desencadeia em um cidadão consciente dos ilícitos políticos, uma demonstração de violência implacável por conta de sua inconformidade, diante de liminares, de habeas corpus, de desmentidos do indesmentível e de tantas pizzas que sua geração é forçada a engolir.

O filme “O Doutrinador”, baseado na HQ homônima de Luciano Cunha, tem a sua adaptação realizada por Gabriel Wainer que, com a sua elegante direção, além de adaptar, transpõe, de maneira brilhante, a revolta contra o sistema político, do qual o espectador também é vítima. Conta a história de uma nação chafurdada nos problemas sociais, onde a elite política corrupta se utiliza das brechas da constituição e das leis e da doutrinação pela bíblia e, com isso, tira proveito de um povo em busca de um Messias. O potente roteiro, realizado a oito mãos traz, à tona, o ledo engano dos ingênuos que costumam citar o voto como ferramenta de mudança social, diante de fatos que contrariam o bom senso, a ética e a decência, dando lugar ao sentimento de impotência por parte do anti-herói Miguel (Kiko Pissolato) que, cansado, exaurido e sem nenhuma ponta de esperança, decide fazer justiça com as próprias mãos.

O longa se insere em um cenário onde não há espaço para ambiguidades e que define como coadjuvante, o verdadeiro herói, Edu (Samuel de Assis) – alguém que acredita que a justiça se faz dentro das leis e que estas existem para proteger as pessoas contra os malfeitores,  incluindo os corruptos e os salvadores da pátria, para os quais, a palavra ‘democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Fúria em Alto Mar



O impacto junto ao espectador é potente e nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra

Baseado no romance de 2012 “Firing Point”, de autoria de Don Keith e George Wallace, o filme “Fúria em Alto Mar” se concentra em uma missão, comandada por Joe Glass (Gerard Butler), em um submarino norte-americano, visando ao resgate do presidente da Rússia, refém de seu próprio ministro da Defesa Dmitri Durov (Mikhail Gorevoy), em pleno solo russo.


A produção subaquática, sob a direção de  Donovan Marsh, seria irretocável, não fosse o ranço de moral patriótica e a insipidez decorrente falta de humor. Em compensação, o impacto junto aos espectadores é potente e os nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Fantasma Autoral


Vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina

O ponto de partida – um texto sem maiores pretensões, senão fazer rir, que conta a história de Miguel (Bemvindo Sequeira) – um diretor cênico frente ao desafio da produção de um espetáculo teatral. Imediatamente após a conquista de um amparo, Miguel se vê coagido a submeter seu trabalho a diversas alterações, por exigência do patrocinador.


Em meio ao despojamento de Sequeira, que não se contém diante da menor possibilidade de interagir junto à plateia, o espectador emerge sob o impacto da comicidade intrínseca em “O Fantasma Autoral”. O texto, assinado por Maria Queiroz Azevedo, promove um pensamento sobre as dificuldades enfrentadas pelo mercado artístico, tais como as barreiras impostas aos produtores na luta para a obtenção de patrocínio e a dualidade definida pelo respeito a uma obra em nome da arte e pela venda da alma ao diabo, imposta pelo sucesso conquistado às custas da banalização da arte em detrimento da obra.

A direção de Ernesto Piccolo é outorgante, tendo em vista os contumazes e arrastados improvisos – marca registrada de Bemvindo Sequeira – que, em alguns momentos, torna o entendimento do espetáculo um tanto confuso e disperso mas que, de modo algum, impacta negativamente a plateia a ponto de impedi-la demonstrar a receptividade com que acolhe os viciosos predicados cênicos do comediante mineiro de Carangola. Entregando-se à complacência de Piccolo, Alexandre Lino dá a vez à comicidade rasgada e faz brotar personagens díspares aos até então criados ao longo de sua carreira. Pedro Garcia compartilha com Sequeira, hilários instantes em que se permite rir das cenas em que toma parte com a estrela do espetáculo, em pleno palco e diante de uma plateia que, em não raros momentos, não se priva de instigar os atores com sugestões para proferirem novos cacos. As nuances dramáticas ficam por conta da carismática participação afetiva composta por Paulo Vilela, Maria Queiroz Azevedo, Pedro Roquette-Pinto e Giulia Boccaletti.

Os recursos cênicos “minimalistas”, conforme definição caricata dos mesmos pelo personagem Miguel, no texto de Azevedo, conferem dignidade à produção na medida certa, de modo a permitir que o brilho do espetáculo fique por conta do desempenho do elenco, seja no palco ou, invasivamente, na plateia. As restrições tão peculiares no universo teatral, onde a pouca verba se rende à enorme vontade de levar um espetáculo ao público é muito bem definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Débora Cancio, retratando o diálogo entre bastidores e a realidade enfrentada pela grande maioria dos produtores. Nesse embate, o jogo de poder e o duelo de personalidades enquadram o desenho de luz de  Aurélio de Simoni que adota o conceito do menos ser mais.

Por entre mortos e feridos, a monocórdia fenda cômica de “O Fantasma Autoral” vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina e que não se rende à perversidade de entregar ao público uma obra que já teria nascido fadada ao fracasso.



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carmen


O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios

Dotada de profusa carga de criatividade na adaptação do roteiro e de sensualidade emanada pela triangulação amorosa definida pela linha mestra do argumento, a mais nova versão da trágica ópera francesa “Carmen” conta com a performance e a beleza de Natalia Gonsales que incorpora a protagonista, mantendo-se afastada do estereótipo de diva – o que confere à sua Carmen, um apelo que aproxima o espectador de uma realidade palpável. O segundo vértice do triângulo é ocupado pelo charme natural e generosamente doado por  Flávio Tolezani ao seu extremado José – cabo do exército enlouquecido por um sentimento desgovernado e passional. A formatação do relacionamento é definida pela virilidade do toureiro – o grande amor de Carmem – incorporado por Vitor Vieira.

Sob a espontânea e instintiva direção de Nelson Baskerville, o espetáculo é esculpido de modo a promover, ao espectador, impactos que vão muito além da obviedade de expressões faciais e de movimentos corporais já explorados em produções à luz do mesmo tema. Notavelmente, a viciosa e egocêntrica lascívia emanada pelos personagens torna-se fascinante através do olhar de Baskerville.

A direção de movimento e a coreografia de Fernando Bueno define um dinâmico bailar de corpos ao longo de toda a dramatização, com marcações de cenas e de bailado que explora a totalidade do palco com requintes de composição cênica, para o deleite do olhar do espectador. Ameaçado de privação de seu fôlego, o público acompanha a história de uma mulher sensual e independente, que seduz José a fim de aliciá-lo para a prática do contrabando. Cego de amor, José se entrega a Carmem e se permite mergulhar em um relacionamento amoroso triangular fadado a um final trágico.

Fomentando o drama, a trilha sonora de Marcelo Pellegrini reage à explosiva química entre Carmem e José e preenche a sala de espetáculos com retumbante flamenco, com potencial inebriante sobre todos os espectadores. A concepção do projeto cenográfico funde plateia e palco, aproxima público e personagens através de elementos simbólicos, muitos deles, artisticamente artesanais, conferindo intensa tridimensionalidade às cenas em comum união ao desenho de luz –  ambos assinados por Marisa Bentivegna – que incinera os espectadores com o fogo da paixão, asperge o sangue da tragédia por toda a sala de espetáculos, e chicoteia cada um dos presentes com jatos de areia que cobre as arenas da vida. Tecidos selecionados segundo textura, cor, transparência e densidade são moldados, recortados e costurados em obediência ao figurino concebido por Leopoldo Pacheco e Carol Badra e repousam sobre os corpos esculturais do elenco.

“Carmen”, com seu feminismo tácito contido, chega ao espectador como algo trágico e fatal. O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Legalize Já



Fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock

Uma história ocorrida na década de 1990 – contemplando problemas financeiros, gravidez não planejada, conflitos familiares e opressão policial – é resgatada segundo um olhar que, de tão atual, acaba por conferir aos fundadores do grupo ‘Planet Hemp’ uma significativa parcela de responsabilidade pela luta contra o preconceito e pela quebra de paradigmas.


“Legalize Já” leva para as telas do cinema uma visão em preto e branco, com toques de sutil cromatismo aguado, a batalha de um vendedor ambulante pela sua sobrevivência, através da venda de camisetas tematizadas segundo o mundo do Rock. Em um extremo, Marcelo divide sua luta com o amor que sente por sua namorada grávida; no outro, acrescenta ao seu esforço, um pai que faz de tudo um pouco para colocá-lo para fora de casa.

Em meio a essa peleja, o capricho da vida faz com que a sua trajetória cruze com a de outro jovem envolvido em constante conflito com a PM – um jovem que não se permite entregar-se ao derrotismo e que canaliza todo o seu potencial de investimento em paixão e amizade para o seu mais recente companheiro de vida dura. Fruto desse acaso, nasce a parceria de Marcelo (Renato Góes ) e Skunk (Ícaro Silva ).

Assinada por Pedro Cardillo, a fuscalva fotografia, concebida a partir de sólida veia artística, confere à trama uma aspereza poeticamente realista, desenhando a ascensão de jovens discriminados que vivem à margem de uma sociedade que os encara como mero delinquentes. A ousada e concisa direção de Gustavo Bonafé e Johnny Araújo manda o recado, sem conferir à obra uma essência biográfica, mas uma história nos moldes de fábula hard sobre a gênese de uma amizade sedimentada na paixão e na verdade contida na vida de cada integrante do grupo de rap rock, explicitamente posicionado a favor da legalização da maconha.

Um prato cheio para debates sobre os pós e os contras à liberação da maconha e para muita divergência sobre o assunto.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nasce uma Estrela



O inovador olhar do diretor e ator Bradley Cooper para o clássico “Nasce uma Estrela” desfoca a leitura reducionista contida em uma trivial história de amor entre duas pessoas, insistentemente presente nas quatro versões anteriores que fazem parte da galeria de sucessos do cinema, desde o lançamento de “A verdade sobre Hollywood”, dirigida por George Cukor em 1932.

Embora seja evidente o engessamento do argumento que alimenta as cinco versões, a excelência contida na adaptação do roteiro para os dias atuais – em espantoso franco contraste com a versão de quarenta e dois anos de idade, dirigida por Frank Pierson – manipula o lugar comum de mais uma frustrada tentativa de um “e viveram felizes para sempre” – metamorfoseia envolvimento amoroso fruto de paixão desmedida em admiração mútua sustentada pela maturidade conquistada por intensa experiência de vida.

Ancorado por uma trilha sonora capaz de suprimir o fôlego do espectador – definida por clássicos, tais como “La Vie En Rose”, “Somewhere Over The Rainbow” e versões exclusivas para o filme – o longa conta a história de um guitarrista e cantor de meia idade, reconhecido por sua consagrada carreira e uma talentosa jovem aspirante ao estrelato dos palcos como cantora e musicista, conferindo uma atmosfera nostálgica porém, digna de Oscar, graças ao desempenho de Bradley Cooper (Jackson Maine) e Lady Gaga (Alli) que traduzem, apenas no olhar, o que está contido nas entrelinhas desta adaptação da obra original de William A. Wellman – notório diretor, produtor e consultor cinematográfico cuja produção se deu, em sua grande maioria, na primeira metade do século XX.

O casual encontro dos protagonistas Maine e Alli reage com potencial químico em igual proporção à empatia e entrosamento profissional de Cooper e Gaga. Enquanto Alli ascende ao estrelato – impulsionado pela admiração e pela confiança mútua que envolve a relação do casal – Cooper se entrega ao ostracismo, em função de sua dependência de drogas psicoativas. A autenticidade do roteiro é sólida o suficiente de modo a encantar o espectador que, certamente, se renderá ao cavalheirismo com que Cooper interage com Gaga que, por sua vez, se despe da sua própria fama para fazer nascer uma nova estrela de Wellman, pela quinta vez.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Venom


Aponta para uma tendenciosa franquia meia-bomba


Na contramão das expectativas do público MARVEL, o personagem ficcional das histórias em quadrinhos na série do Homem-Aranha – “Venom”, que deveria ter sua origem revelada como um supervilão, se apresenta como um anti-herói – um ser fracassado conforme definido pelos demais seres de sua espécie.

A abordagem radicalmente díspar da direção de Ruben Fleischer, contra o que vem sendo estabelecido pela Marvel ao formular o seu universo cinematográfico, não confere ao filme o status de uma obra consistente. Conta a história do jornalista investigativo Eddie Brock (Tom Hardy) que tem como objetivo detonar o bilionário Carlton Drake (Riz Ahmed) – dono da Fundação Vida e responsável pelo programa espacial para encontrar curas para os males da população e para a mudança climática. O simbionte alienígena passa a ser grande cartada de Drake, até o momento que o material orgânico mole se funde ao corpo de Brock, transformando-o em um hospedeiro perfeito e escravo de seus desejos.

De forma lamentável, com desenrolar do roteiro, a película assume o viés de algo similar a um estudo sobre o caráter humano – a despeito da ação, da ficção científica, do suspense e do terror propostos pela MARVEL – que aponta para uma tendenciosa franquia meia-bomba.

Juliet, nua e crua


Uma combinação de farsa com psicodrama

Em uma pacata cidade litorânea na Grã-Bretanha, vive Annie (Rose Byrne) – uma mulher cuja rotina é ditada por um emprego desmotivador; uma mulher integrante de um núcleo familiar dividido com uma irmã amante da liberdade; uma mulher que se entrega a um relacionamento amoroso contemplando um namorado impassível.

É visivelmente desoladora a complacência de Annie frente a um homem que a repreende pelo simples fato de não admirar o que ele, de fato, aprecia –  no contexto da película, o objeto passível de admiração por parte dele e de, minimamente, indiferença, por parte dela trata-se de um misterioso cantor e compositor chamado Tucker Crowe (Ethan Hawke) que, há muito, não faz sucesso. O hit mais conhecido do artista ressurge após 25 anos o seu lançamento no meio musical, através de uma gravação demo com a versão acústica de ‘Juliet, Naked’,  criticada por Annie em um fórum digital dedicado ao músico. Ao receber um e-mail de Crowe a protagonista é surpreendida e, ao mesmo tempo estimulada a se aprofundar na busca de informações sobre o artista.

O longa é acometido pela apática direção de Jesse Peretz, que se baseia no livro homônimo de Nick Hornby. “Juliet, nua e crua” coloca todos os aspectos familiares previsíveis de tal forma a sufocar o espectador com as frustrações, com a raiva e com a ironia da empatia, fazendo do filme uma combinação de farsa com psicodrama.