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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carmen


O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios

Dotada de profusa carga de criatividade na adaptação do roteiro e de sensualidade emanada pela triangulação amorosa definida pela linha mestra do argumento, a mais nova versão da trágica ópera francesa “Carmen” conta com a performance e a beleza de Natalia Gonsales que incorpora a protagonista, mantendo-se afastada do estereótipo de diva – o que confere à sua Carmen, um apelo que aproxima o espectador de uma realidade palpável. O segundo vértice do triângulo é ocupado pelo charme natural e generosamente doado por  Flávio Tolezani ao seu extremado José – cabo do exército enlouquecido por um sentimento desgovernado e passional. A formatação do relacionamento é definida pela virilidade do toureiro – o grande amor de Carmem – incorporado por Vitor Vieira.

Sob a espontânea e instintiva direção de Nelson Baskerville, o espetáculo é esculpido de modo a promover, ao espectador, impactos que vão muito além da obviedade de expressões faciais e de movimentos corporais já explorados em produções à luz do mesmo tema. Notavelmente, a viciosa e egocêntrica lascívia emanada pelos personagens torna-se fascinante através do olhar de Baskerville.

A direção de movimento e a coreografia de Fernando Bueno define um dinâmico bailar de corpos ao longo de toda a dramatização, com marcações de cenas e de bailado que explora a totalidade do palco com requintes de composição cênica, para o deleite do olhar do espectador. Ameaçado de privação de seu fôlego, o público acompanha a história de uma mulher sensual e independente, que seduz José a fim de aliciá-lo para a prática do contrabando. Cego de amor, José se entrega a Carmem e se permite mergulhar em um relacionamento amoroso triangular fadado a um final trágico.

Fomentando o drama, a trilha sonora de Marcelo Pellegrini reage à explosiva química entre Carmem e José e preenche a sala de espetáculos com retumbante flamenco, com potencial inebriante sobre todos os espectadores. A concepção do projeto cenográfico funde plateia e palco, aproxima público e personagens através de elementos simbólicos, muitos deles, artisticamente artesanais, conferindo intensa tridimensionalidade às cenas em comum união ao desenho de luz –  ambos assinados por Marisa Bentivegna – que incinera os espectadores com o fogo da paixão, asperge o sangue da tragédia por toda a sala de espetáculos, e chicoteia cada um dos presentes com jatos de areia que cobre as arenas da vida. Tecidos selecionados segundo textura, cor, transparência e densidade são moldados, recortados e costurados em obediência ao figurino concebido por Leopoldo Pacheco e Carol Badra e repousam sobre os corpos esculturais do elenco.

“Carmen”, com seu feminismo tácito contido, chega ao espectador como algo trágico e fatal. O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios.


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