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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Fantasma Autoral


Vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina

O ponto de partida – um texto sem maiores pretensões, senão fazer rir, que conta a história de Miguel (Bemvindo Sequeira) – um diretor cênico frente ao desafio da produção de um espetáculo teatral. Imediatamente após a conquista de um amparo, Miguel se vê coagido a submeter seu trabalho a diversas alterações, por exigência do patrocinador.


Em meio ao despojamento de Sequeira, que não se contém diante da menor possibilidade de interagir junto à plateia, o espectador emerge sob o impacto da comicidade intrínseca em “O Fantasma Autoral”. O texto, assinado por Maria Queiroz Azevedo, promove um pensamento sobre as dificuldades enfrentadas pelo mercado artístico, tais como as barreiras impostas aos produtores na luta para a obtenção de patrocínio e a dualidade definida pelo respeito a uma obra em nome da arte e pela venda da alma ao diabo, imposta pelo sucesso conquistado às custas da banalização da arte em detrimento da obra.

A direção de Ernesto Piccolo é outorgante, tendo em vista os contumazes e arrastados improvisos – marca registrada de Bemvindo Sequeira – que, em alguns momentos, torna o entendimento do espetáculo um tanto confuso e disperso mas que, de modo algum, impacta negativamente a plateia a ponto de impedi-la demonstrar a receptividade com que acolhe os viciosos predicados cênicos do comediante mineiro de Carangola. Entregando-se à complacência de Piccolo, Alexandre Lino dá a vez à comicidade rasgada e faz brotar personagens díspares aos até então criados ao longo de sua carreira. Pedro Garcia compartilha com Sequeira, hilários instantes em que se permite rir das cenas em que toma parte com a estrela do espetáculo, em pleno palco e diante de uma plateia que, em não raros momentos, não se priva de instigar os atores com sugestões para proferirem novos cacos. As nuances dramáticas ficam por conta da carismática participação afetiva composta por Paulo Vilela, Maria Queiroz Azevedo, Pedro Roquette-Pinto e Giulia Boccaletti.

Os recursos cênicos “minimalistas”, conforme definição caricata dos mesmos pelo personagem Miguel, no texto de Azevedo, conferem dignidade à produção na medida certa, de modo a permitir que o brilho do espetáculo fique por conta do desempenho do elenco, seja no palco ou, invasivamente, na plateia. As restrições tão peculiares no universo teatral, onde a pouca verba se rende à enorme vontade de levar um espetáculo ao público é muito bem definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Débora Cancio, retratando o diálogo entre bastidores e a realidade enfrentada pela grande maioria dos produtores. Nesse embate, o jogo de poder e o duelo de personalidades enquadram o desenho de luz de  Aurélio de Simoni que adota o conceito do menos ser mais.

Por entre mortos e feridos, a monocórdia fenda cômica de “O Fantasma Autoral” vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina e que não se rende à perversidade de entregar ao público uma obra que já teria nascido fadada ao fracasso.



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