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domingo, 25 de novembro de 2018

As Brasas



Potencial de despertar, junto à plateia, sensações de tortura através de labaredas ardentes que conduzem à angústia promovidas pelas incertezas e pelos segredos que não se permitem ser desvendados

Passados quarenta e um anos, um reencontro entre um velho general – Henrik (Herson Capri) – e seu amigo de infância – Konrad (Genézio de Barros) – no castelo do primeiro, na região dos Cárpatos - Hungria. Durante o encontro, um colóquio oscila entre a perfeição de um passado e o suave e permanente declínio de um mundo, há muito, sendo soterrado. Mas algo incomoda o velho general, sedento pela verdade sobre o ocorrera na última vez em que se viram – um misterioso fato que, pouco a pouco, toma corpo, a ponto de evocar silêncios preteridos.


O mote do espetáculo “As Brasas” – cuja realização é inspirada na obra do escritor húngaro Sándor Márai, por Felipe Lima e Duda Rachid – embora aparentemente elementar, trata-se de um genuíno exercício dramatúrgico praticado por Rachid e Julio Fischer, em parceria com o ator, dramaturgo e diretor – Pedro Brício. Como se em uma prosa fluida, a direção do espetáculo regida por Brício não se extingue frente à mera impressão do tempo real em um mundo em que o passado se mantém vivo dentro dos protagonistas. A monumental elegância do elenco composto por Capri, Barros e Nana Carneiro da Cunha, investiga, com proficiência, a decadência de um universo repleto de perguntas sem respostas. A escuridão de um velho castelo imerso em atmosfera nostálgica é concebida pela cenógrafa Bia Junqueira que, com sua floresta esculpida com requintes de diversidade de materiais inusitados, recria os áureos tempos dos dois amigos.
O requinte contido no texto proferido pela dupla de atores passeia pela precisa direção musical de Marcelo Alonso Neves que, oscilando entre o rancor e a calmaria de dores vividas e sofridas, avança, de mãos dadas ao austeramente básico figurino de Marina Franco que, como em um encontro de almas, desperta lembranças e narrativas da infância e da juventude da memória visual do espectador. Renato Machado concebe um desenho de luz repleto de contemporaneidade usando técnicas que definem linhas, planos, sugerem imagens projetadas em meio ao fundo infinito desprovido de cor, delineiam silhuetas através de contornos reluzentes, e levam o espectador à reflexão sobre o significado de formas vegetais retorcidas e moldadas por Junqueira – recursos cênicos que abrilhantam a exposição sobre uma amizade consolidada, que precede um amor disputado.

A percepção do conjunto da obra de Brício tem o potencial de despertar, junto à plateia, sensações de tortura através de labaredas ardentes que conduzem à angústia promovidas pelas incertezas e pelos segredos que não se permitem ser desvendados – mesmo após o apagar das luzes e o cerrar das cortinas de “As Brasas”.





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