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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A Pé Ele Não Vai Longe


Regendo a história de maneira incômoda e, muitas vezes, revoltante, Van Sant concede à sua obra um olhar de um homem sofredor, antes de se enxergar como um artista

Em um contexto desértico de uma charge temporizada no Velho Oeste, três xerifes encontram uma cadeira de rodas abandonada. Contrastando com a imprevisibilidade da situação, um deles sugere, aos outros dois, não se preocuparem quanto ao usuário do equipamento, concluindo que o mesmo não iria longe a pé.

A despeito do aspecto surreal da mensagem, sua essência rudimentar se mostra suficiente para que o cineasta Gus Van Sant conferisse à frase proferida pelo xerife, status do título do longa “A Pé Ele Não Vai Longe” – homônimo da autobiografia de John Callahan, cartunista memorável do século XX, que passou a se dedicar ao ofício e à luta contra o alcoolismo, até o fim de seus dias, após tornar-se tetraplégico em decorrência de um acidente automobilístico, durante um dia de bebedeira, de bar em bar, juntamente com parceiro de copo que dirigia o veículo.

Regendo a história de maneira incômoda e, muitas vezes, revoltante, Van Sant concede à sua obra um olhar de um homem sofredor, antes de se enxergar como um artista e, considerar a vida, a verdadeira riqueza que de que necessitava. Os cartoons, com teores datados e estereotipados de maneira tacanha por Callaham, são depressivos, autodestrutivos, profanos e temperados com pitadas de perversão, transmitindo, ao espectador, a sua auto rendição a um hábito mais destrutivo do que o alcoolismo – que, de fato, não o deixou ir tão longe a pé.

Era uma vez um Deadpool


O grande deboche do ano


“A Princesa Prometida” – filme de Rob Reiner lançado em 1987, baseado no romance assinado por William Goldman – tem início com a cena de um menino que se encontra enfermo (Fred Savage) e que ouve o seu avô contar-lhe a história do livro homônimo do filme. Ao longo da narração, o idoso é interrompido diversas vezes pelo neto, principalmente quando o menino pede ao avô para pular as “partes de beijo”.

Baseado nessa narrativa moldura, o dublê, ator e diretor David Leitch lança o grande deboche do ano – “Era uma vez um Deadpool”– para o suposto ‘público-alvo’ composto pelos adolescentes de treze a quinze anos, que foram barrados no filme ‘Deadpool 2’ que recebeu a classificação indicativa para maiores de dezesseis anos, quando de seu lançamento em 2018.

Em “ Era uma vez um Deadpool”, ao sequestrar Fred Savage – atualmente, um homem e não mais uma criança – Deadpool recria a cena do filme de Reiner: Deadpool (Ryan Reynolds), como o narrador; e Savage, como a ‘criança enferma’ – papel que interpretara em 1987 em “A Princesa Prometida”.

A grande abismo entre “ Era uma vez um Deadpool” e “Deadpool 2” se configura na supressão das cenas de carnificina, das referências sexuais e dos palavrões, uma vez que, a atual versão é voltada para que os ingênuos adolescentes de até quinze anos de idade, não fiquem traumatizados – conforme justificativa do sistema de classificação de filmes, outrora descrito como ‘censurado para menores’. As cenas pós créditos definem o desfecho do sarcástico anti-herói e do seu sequestrado, além de prestar um emocionante tributo a Stan Lee – falecido, apenas, há algumas semanas antes do lançamento de “ Era uma vez um Deadpool”.

A dificuldade na abordagem do longa de Leitch encontra-se no fato de se tratar de um filme novo, mas não de um novo filme da franquia, configurando-o como um instrumento de ironia e um revide contra o sistema que se acha no direito de decidir pelos pais, a idade certa para que seus rebentos travem contato com o que já faz parte do cotidiano do mundo real.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O Inoportuno



Destila um rosário composto por símbolos e por segredos, demandando, por parte do espectador, dedicada atenção a cada palavra proferida e a cada cena que aflora no palco do espetáculo


Uma trama que se passa em um sótão decadente de uma casa abandonada, em algum subúrbio londrino, envolvendo dois irmãos – Mick (Well Aguiar) e Aston (André Junqueira) – e um mendigo chamado Davies (Daniel Dantas). Graças a um inexplicável e atípico convite de Aston, o sem teto Davies passa uma noite na casa, sendo, em seguida, convidado pelos irmãos para se tornar o zelador do imóvel.

O texto assinado pelo ator, diretor, poeta, roteirista e dramaturgo britânico que desponta, dentre outros célebres representantes do teatro do absurdo – Harold Pinter – destila um rosário composto por símbolos e por segredos, demandando, por parte do espectador, dedicada atenção a cada palavra proferida e a cada cena que aflora no palco do espetáculo “O Inoportuno”. Mais uma vez, o diretor carioca Ary Coslov lança mão de seus predicados que vem conquistado através da sua trajetória pelos mais diversificados veículos de comunicação e rege, de forma acolhedora, os personagens que se vêem impelidos à destruição mútua, focando o seu trabalho em direção ao lado nefasto do ser humano, que esconde tudo o que há de ruim para que ninguém suspeite de sua pseudo bondade. A trilha sonora, também assinada por Coslov, alimenta o sentido auditivo do espectador, aguçando a sua curiosidade pelo desvendar dos enigmas contidos no caos do apartamento e nas atitudes específicas que, e função da versão de Alexandre Tenório para o português - preciso ao dosar a comicidade contida em Pinter - são capazes de remeter a relação tríplice a uma amorosa e feliz, típica de uma família, de conhecimento de qualquer um dos espectadores.

A inegável habilidade dos atores Daniel Dantas, André Junqueira e Well Aguiar mostra a vulnerabilidade da minoria em um jogo brutal de sobrevivência, conduzido pelo preconceito. O dramático resíduo de sentimentos que oscila em meio à raiva e à obsessão é materializado pelo desenho de luz de Paulo César Medeiros, como se uma arma intimidatória carregada com rajadas de luz, na estranha comédia sobre um trio de pessoas iludidas em seu paranoico universo. O mimetismo contido no cenário concebido por Marcos Flaksman encrusta os personagens envelopados pelo misterioso e filosoficamente ambíguo, figurino assinado por Kika Lopes, em meio a peças de mobiliário, utensílios e equipamentos domésticos, jornais empilhados, caixas, caixotes, malas e outros fragmentos de objetos inservíveis, acumulados, quiçá, ao longo de anos de displicência para com o que pode ser chamado de lar, mas um purgatório que se faz presente a cada dia.

Embaraçosas e constrangedoras, as sombrias situações entregues ao espectador, como comédia, fazem de “O Inoportuno” algo estranhamente repleto de sincericídio risível por aqueles que gostariam de proferir frases e comentários indizíveis pelos mais recatados.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Acabou o Pó


A ótica masculina do espetáculo, em sua versão de 2014, foi atualizada pelo olhar atento da diversidade

Inspirado em situações cotidianas reais, a história de Nena e Kelly – duas donas de casa do subúrbio carioca que, em meio à fofoca diária, ocupam seu tempo com seus afazeres domésticos – conquista, novamente, seu espaço nos palcos, graças à percepção e à criatividade do dramaturgo Daniel Porto. Escaneada e plotada, com requintes de reprodução de detalhes do universo das protagonistas pela direção de Daniel Dias da Silva, a camada social, muito próxima ao espectador, se faz presente com suas necessidades e preceitos moralistas arraigados.

Os atores Anderson Cunha e Celso André, com a naturalidade de quem dedica tempos de laboratório ao seu trabalho, dão vida às suburbanas que não abrem mão de uma pausa no cotidiano para um cafezinho, durante o qual, colocam as fofocas em dia.

Adicionalmente ao desempenho da dramatização dos papéis, sob o dosado controle da direção de movimento, o suporte à cognição do espectador sobre o travestismo por parte dos atores do sexo masculino, em franco desempenho na atuação do sexo oposto, é concedido pelo figurino de Karlla de Luca e pelo visagismo de Max Vitor que, apesar da carga estereotipada presente nos personagens, cumpre a sua função ao explorar, com naturalidade e visão diversa, o universo sócio comportamental definido para o espetáculo “Acabou o Pó”. De Luca também é responsável pela simplicidade, pela alegria e pelo charme contidos no cenário que representa a classe que vislumbra e luta por vencer os patamares rumo à conquista do poder de consumo da classe média típica de uma metrópole brasileira. O desenho de luz de Jacqueline Winter se faz bastante funcional, cumprindo o seu papel de realçar a graça e a reflexão presente na dinâmica do diálogo das amigas.

A ótica masculina do espetáculo, em sua versão de 2014, foi atualizada pelo olhar atento à diversidade, a partir da atmosfera descompromissada e da dubiedade presente no título, reforçando, ainda mais, o seu compromisso para com a comédia e a realidade nua e crua, até mesmo nos momentos frustrantes, em que se constata que acabou o pó do café.

Circuito Geral - Acabou o Pó

domingo, 16 de dezembro de 2018

70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical



Sublinha os pontos marcantes de uma década marcada pela repressão política nas mais diversas áreas de manifestações culturais e ideológicas

Dizem que antes de morrer, sua vida inteira passa diante dos seus olhos. Para quem viveu os anos 70, o espetáculo “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” faz a sua parte e entrega, a todos os espectadores, um resumo dos acontecimentos mais importantes, embalados por produções nacionais e internacionais consagrados que marcaram aquela década. Para quem não viveu, um banho de cultura geral e um resgate de sucessos musicais que atravessam gerações, até os dias de hoje.


Os anos 70 - uma década que abalou a crença nos ícones dos anos 60, promovendo manifestações sutis e desregradas, pregando o amor livre e o consumo de drogas; uma década que moveu jovens idealistas levarem a cabo as suas ideologias políticas por meio do combate armado contra o regime militar; uma década a partir da qual germinaram as primeiras organizações não governamentais motivadas pelo sentimento de solidariedade; uma década em que a televisão passou a divulgar os escândalos dos famosos, o momento das discotecas e a ascensão da dance music dentre os estilos musicais que mais seduziram o espírito jovial das mais diversas faixas etárias; uma década na qual, o surgimento do movimento Punk, com a sua ideologia anárquica, foi marcada pelos grupos musicais Sex Pistols, The Clash e Ramones; uma década na qual os grandes festivais da música popular brasileira revelaram nomes como Belchior, Gonzaguinha, Djavan e Ivan Lins; uma década que enviou a primeira sonda para marte como meta da missão espacial Viking I.

Dando sequência à retrospectiva musical que teve início em 2016, com ‘60! Década de Arromba’, o dramaturgo e roteirista Marcos Nauer e o diretor e produtor Frederico Reder assinam a concepção de “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical”,  que sublinha os pontos marcantes de uma década marcada pela repressão política nas mais diversas áreas de manifestações culturais e ideológicas, pela consequente resistência estudantil e da classe artística, pela contra resistência manchada de sangue dos desaparecidos e pela expatriação forçada. A direção musical de Jules Vandystadt rege a busca pela liberdade e quebra de tabus sem a necessidade de diálogos ou fio narrativo para ser compreendido pelo espectador, em compasso com a efervescência política e cultural refletida pela coreografia e direção de movimento de Victor Maia, que, com muito estilo, discorrem sobre cada ano que compõe a década de 70. A concepção cenográfica de Natalia Lana configura uma grande angular que capta a atenção do espectador em 180°, como em um túnel do tempo, dispondo de forma ‘estereofônica’ a orquestra irretocável, em dois fragmentos, nos extremos laterais do balcão, regida engenhosa e tecnologicamente precisa – assumindo uma condição clarividente, digna de substâncias químicas muito consumida por frequentadores das discotecas, nos anos 70. O efusivo desempenho do elenco – composto por Amanda Döring, Amaury Soares, Aquiles Nascimento, Barbara Ferr, Bruno Boer, Camila Braunna, Debora Pinheiro, Diego Martins, Erika Affonso, Fernanda Biancamano, Larissa Landim, Laura Braga, Leandro Massaferri, Leilane Teles, Leo Araujo, Nando Motta, Pedro Navarro, Pedro Roldan, Rany Hilston, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro – é contagiante, impelindo a plateia à imediata identificação com os personagens e suas performances vocais, coreográficas e discursiva, unificados pelo figurino de Bruno Perlatto que, certamente, a partir de profunda pesquisa dos trajes da época, traduz a sociedade vigente, entendida com os seus costumes e ideologias. Dessa forma, passeiam pelo punk e desagüam nos clubes noturnos com pista de dança iluminadas e estreladas por globos incrustados por espelhos e pulsadas por efeitos estroboscópicos como um adicional ao cabal desenho de luz cênica assinado por Cesio Lima e Mariana Pitta. O estilo agressivo e compromissado com as posturas da época marca o visagismo de Adriana Almeida que ganha grande relevo ao se projetar do movimento hippie para o punk.

Emoção à flor da pele é o que pode ser imputado como qualificativo ao espetáculo “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” que, como na ficção de Irwin Allen dos anos 60 – ‘O Tunel do Tempo’, presenteia a plateia com a participação especialíssima de Dhu Moraes, Sandra Pêra e Leiloca Neves – as três remanescentes do grupo ‘As Frenéticas’ – trazendo-as de volta dos anos 70, diretamente, do frenético Danci’n Days.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dogville


Um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana

A falta de fé na humanidade, o fracasso de uma sociedade e a ilusão da fé religiosa podem ser considerados o tripé que sustenta espetáculo “Dogville”, expondo, de forma conseqüente e articulada, um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana.

A adaptação do filme de Lars Von Trier para os palcos conserva convenções estéticas da narrativa, própria de teatro filmado, amplificando os detalhes do universo mesquinho das intrigas, das invejas, dos preconceitos e dos julgamentos – uma inusitada interpretação de Zé Henrique de Paula que traduz, através de sua direção, a essência de “Dogville” em algo concreto, familiar e muito próximo a cada um dos espectadores. Assumindo um paralelismo ao roteiro original do filme, dividido em capítulos, os atos do espetáculo são precedidos por um prólogo pelo narrador incorporado pelo ator Eric Lenate, que apresenta os seguintes personagens no primeiro ato, interpretados por um elenco irretocável que assimila a força presente nos diversos papéis: Grace (Mel Lisboa), Chuck (Fábio Assunção), Vera (Bianca Byington), Tom Edison (Rodrigo Caetano), Martha (Anna Toledo), Ben (Marcelo Villas Boas),  Sr Henson (Gustavo Trestini), Liz (Fernanda Thuran), Bill Henson (Thalles Cabral), Sra Henson (Chris Couto), Thomas Pai (Blota Filho), Jack McKay (Munir Pedrosa), Ma Ginger (Selma Egrei), Glória (Fernanda Couto) e Jason (Dudu Ejchel). Uma trupe que induz o olhar do espectador para muito além daquela pequena comunidade – sua paisagem, suas montanhas, até mesmo, sua cidade vizinha.

De forma distinta à condução na versão cinematográfica, na qual a ação se passa sobre um cenário em 2D, traçado em branco sobre um fundo negro – de forma tão didática quanto a escrita de giz sobre uma lousa escolar – na versão assinada por de Paula, para o teatro, o cenário desenhado por Bruno Anselmo se impõe com eficiência, a despeito de sua simplicidade, ousando projetar o caos em telões com dimensões proporcionais às dores, às dúvidas e às inseguranças dos personagens de uma vila chamada Dogville, habitada por pessoas simples, com anseios modestos e sem nenhuma pretensão de mudança. Pessoas com escassos contatos com o mundo exterior, isoladas segundo limites que lhes são impostos, até a chegada de uma forasteira que muda, substancialmente, a rotina do pequeno vilarejo que, antes com ares de felicidade idílica, dá lugar à verdade por detrás das nuvens densas, fúnebres e tenebrosas do ser.

Ao revelar a verdadeira identidade do vilarejo, o desenho de luz de Fran Barros acolhe não só os habitantes, mas também o espectador que, como uma ave de rapina à espera de uma carnificina, é poupado em meio à penumbra voraz que contribui no esmagamento da identidade da protagonista e sua desumanização. O entrelaçamento do real com o irreal, durante todo o espetáculo, é subvertido pelo figurino, com ares surrealistas, assinado por João Pimenta, que altera a percepção padrão de que a roupa faz o monge. O visagismo intimista de Wanderley Nunes enfatiza a dramaticidade e a tensão necessária junto aos personagens. A atenuação da atmosfera cênica na qual a história se insere, fica por conta da trilha sonora de Fernanda Maia, que ampara o espectador de tal forma a não permitir que também seja aprisionado em Dogville e permaneça inerte no tempo, juntamente com seus habitantes vítimas de amarguras e solidão, em meio à mediocridade e imersos em torpor, vitimados pela cegueira e que não se reconhecem como indivíduos.

A Vila do Cão, onde o instinto animalesco do poder camuflado em aparências e declarações de amor e de zelo ao próximo, tem como preposto o algoz que açoita e flagela, respaldado pelo nome de Deus e pela intenção da prestação do bem a toda a humanidade. “Dogville” acontece em plena década de 1930, em meio à miséria causada pela Grande Depressão e à sorte da violência gângster – uma história repleta de similaridade aos tempos atuais, em que Deus está acima de todos e “Dogville”, apesar de tudo que já foi vivido, acima de tudo.

Aquaman


O aparente déjà-vu presente ao longo de todo o filme concede a Aquaman, ares de um personagem que tem sua chegada atrasada no universo cinematográfico dos heróis

Uma história de amor que tem início a partir de um incidental encontro entre o faroleiro Thomas (Temuera Morrison) e Atlanna (Nicole Kidman) – a rainha do reino submerso de Atlântida, que aflora do mar à superfície – define a origem do garoto Arthur Curry (Jason Momoa), nos anos 1980, fruto do relacionamento amoroso entre dois mundos.

O longa-metragem “Aquaman” recicla o icônico herói DC, de olho na nova geração de fãs de HQs. A direção de James Wan, ao abraçar os personagens mitológicos do universo do herói, miscigena ficção científica, fantasia, drama e muita ação, sem a menor chance de apartar o espectador menos familiarizado com os personagens aquáticos. O aparente déjà-vu presente ao longo de todo o filme concede a Aquaman, ares de um personagem que tem sua chegada atrasada no universo cinematográfico dos heróis.

A perversidade de seu irmão não mestiço, sedento por poder e que forja uma batalha sobre o legítimo herdeiro do trono do reino de Atlântida, confronta os dois filhos de Atlanna em um ringue de gladiadores. A despeito da trilha sonora beirando a um metal pesado e das longas sequências de perseguição submarina impactada por muita porradaria, a galeria de seres com aspecto cem por cento submarino e aqueles com aparência humana, embora não mestiços como o herói protagonista, o filme não deixa de induzir o espectador a um estado de observação limítrofe à monotonia. Mas sem sombra de dúvida, o longa faz uma festa em meio aos efeitos especiais subaquáticos.

Pondo algo aqui e tirando algo dali, dentre nomes e locais e entre mortos e feridos, nada mais, nada menos do que uma sinopse da concorrente Marvel.

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Beijo no Asfalto


Formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original

Uma peça teatral escrita em 21 dias e publicada em 1960, inspirada em fatos reais, criteriosamente distorcidos pelo teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro – Nelson Rodrigues. Tomadas cinematográficas mixadas à leitura do texto no palco de um teatro se confundem com desempenho performático em estúdios de gravação, homenageiam a obra de Rodrigues através de todas as formas de manifestações artísticas – literatura, teatro e cinema. Um filme em preto e branco elenca, com requinte Suassuano, um ator negro para desempenhar o papel do protagonista. Dessa forma, o roteiro e a direção de Murilo Benício ousa reinventar “O Beijo no Asfalto” e o projeta nas telonas em formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original.

Amor e tragédia conduzem a polêmica em torno do drama que conta a história de um homem casado que corresponde ao pedido de um beijo de um homem que agoniza à beira da morte após ser atropelado em plena Praça da Bandeira. Sem se dar conta do potencial de repercussão de seu gesto de piedade, Arandir é arrolado em uma matéria de primeira capa de um jornal sensacionalista que deturpa aquele beijo no asfalto e o transforma no assunto de maior repercussão na cidade.

A ousadia de Benício trilha a essência Rodriguiana ao desiludir as crenças do espectador – manipulando, despudoradamente, a geografia dos fatos e o formato da narrativa – e ao transportá-lo para dimensões que vão muito além das poltronas das salas de projeção – ora para o compartilhamento da intimidade entre diretor, atores em plena leitura e análise do texto, ora para os bastidores de locações urbanas, ora para o confronto com a desmistificação das tomadas em estúdio. Com isso, Benício mostra a produção teatral e cinematográfica tal e qual a vida como ela é. A perversão do Anjo Pornográfico é destilada e sorvida por Benício ao redefinir a relação conjugal do casal protagonista como inter-racial, vivenciada, visceralmente, por Lázaro Ramos e por Debora Falabella. O diretor não deixa por menos ao elencar Augusto Madeira, Otávio Muller e Luiza Tiso como coadjuvantes e as participações especiais de Amir Haddad, Stênio Garcia e Fernanda Montenegro.

“O Beijo no Asfalto” conta uma história, de certa forma, elementar, contudo, com enredo intrincado e repleta de significados que se distancia do trivial ‘o bem e o mal’, concebida a partir de uma dinâmica teatral ágil com personagens que colecionam infindáveis segredos e que carregam consigo o moralismo natural dos hipócritas. Um thriller policial com mistério enxuto, atos eletrizantes e equilibradamente pesados em seu desfecho. Uma obra de um surpreendente novato diretor, imerso na amoralidade constante nas histórias de Rodrigues. Atual e provocativo, até mesmo com o seu término que, como música de fechamento, ouvimos Ney Matogrosso interpretando a canção “A Vida é Ruim”, cedida por Caetano Veloso.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Tinta Bruta


O longa promove uma falta de acolhimento através de um diálogo com o espectador a partir de um tom pessimista

A história de um jovem que assiste as suas performances eróticas com auxílio de tintas fluorescentes pela webcam, como seu único propósito de vida – um jovem com um passado recente um tanto quanto perturbador, que tem a sua vida virada de ponta-cabeça quando é expulso da faculdade e se vê na espera do julgamento pelo crime que lhe custou a sua expulsão.

Protagonista do longa “Tinta Bruta”, um jovem vive sem um destino definido, sem um projeto de vida, sem a certeza de um futuro edificante – um jovem que represa infelicidade por detrás de suas relações, que anda na corda-bamba da vida, que experimenta a solidão em toda a sua paleta de cores e que sofre da enfermidade dos sentimentos.

A direção dos gaúchos  Filipe Matzembacher e Márcio Reolon projeta uma cidade de Porto Alegre limítrofe ao antagonismo, prestes a sucumbir de mãos dadas ao protagonista e aos coadjuvantes – uma Porto Alegre repleta de insegurança e frustração atenuadas pela beleza  das cenas, pela luz negra, por neon e por música eletrônica.

O longa promove uma falta de acolhimento através de um diálogo com o espectador a partir de um tom pessimista. Não obstante, as cenas da vida íntima do protagonista assumem um seu papel coadjuvante, cedendo a relevância para a paisagem urbana local, para a pluralidade de gênero e para um Garoto Neon, possivelmente segundo uma existência latente dentro de cada jovem.

Encantado



A ideia central da animação “Encantado” é legítima, ao contar a verdadeira história por detrás do mito de um Príncipe Encantado – um infeliz garoto rico, cujo apelo irresistível às mulheres não é uma bênção, mas uma maldição, no verdadeiro sentido da palavra. Para quebrar o feitiço, é necessário confrontar uma série de perigosos desafios, auxiliado por Demore – uma ladra, cuja sua maldição é a incapacidade de amar, o que lhe dá a imunidade aos encantos do garoto.

Embalado por aborrecidas músicas pop e tendo Branca de Neve, Cinderela e a Bela Adormecida como coadjuvantes fúteis e egoístas, que brigam para serem eleitas a escolhida do príncipe, a animação aflora da leitura das histórias para dormir, pelo diretor Ross Venokur para suas filhas. Ao perceber que cada Princesa era casada com um Príncipe Encantado, Venokur passa a questionar a origem dos Príncipes e a sua verdadeira função no universo dos contos de fadas.

O público infantil, provavelmente, não tem a maturidade suficiente a ponto de perceber tais questões, tampouco os adultos não atinam para tal conflito, por completa falta de empatia com os personagens. Na contramão dos tempos, em “Encantado”, a carência da força feminina se manifesta como algo politicamente dosado,  no contexto de um mundo onde o homem ainda é o único meio de fazer com que uma mulher seja feliz para sempre.



sábado, 1 de dezembro de 2018

Filho do Pai


Carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração

Deixando-se tocar pela reivindicação de um pai, um filho transforma tal experiência na verbalização de sentimentos represados através do texto de autoria de Maurício Witczak que ousa mixar o drama de sua autoria com passagens da peça ‘Hamlet’, em total sintonia com a essência do texto do Bardo inglês. À frente da materialização desse argumento no palco, Antônio Pitanga e Nando Cunha discorrem acerca do ceticismo enraizado no amor entre um pai e um filho – personagens que não conseguem exprimir o que sentem um pelo outro, deixando, generosamente, o benefício da dúvida, nas mãos do espectador.


A vida estampada pelas interpretações de Pitanga e Cunha é configurada pela essência da busca – de um lado, pela negação de um relacionamento e, por outro, pelo resgate de algo não vivido por conta de um drama familiar. Cercando-se de cuidados para não carregar o desempenho no palco com tendenciosa erudição, Clarissa Kahane dirige o espetáculo de tal forma a demandar do espectador o processamento das palavras e gestuais em imagens, tornando a assimilação do texto palatável e permitindo, até mesmo, a identificação do público com diversas passagens da obra. Dando suporte ao trabalho imagético de Kahane, o desenho de luz de Aurélio di Simoni se alterna entre a angustiante e remota tragédia do ‘Ser ou não ser’ e a contemporaneidade do drama que sufoca o relacionamento entre duas gerações. O controverso e fascinante confronto entre pai e filho é personificado pela direção musical de Isabela Vicarpi, que acentua hesitação e inércia como causas e revanche familiar como efeito. O simbolismo temático que transita, quase como uma linha investigativa do ser, é traduzido pelo minimalismo contido na concepção do projeto cenográfico e pela neutralidade da configuração básica do figurino assinados por Desirrée Bastos.


Da mesma forma que em Hamlet, “Filho do Pai” carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração – tensões que afloram em momentos de conflito e que questionam o direito de optar pela morte, fundamentando o sofrimento humano como coisas da vida.