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domingo, 16 de dezembro de 2018

70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical



Sublinha os pontos marcantes de uma década marcada pela repressão política nas mais diversas áreas de manifestações culturais e ideológicas

Dizem que antes de morrer, sua vida inteira passa diante dos seus olhos. Para quem viveu os anos 70, o espetáculo “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” faz a sua parte e entrega, a todos os espectadores, um resumo dos acontecimentos mais importantes, embalados por produções nacionais e internacionais consagrados que marcaram aquela década. Para quem não viveu, um banho de cultura geral e um resgate de sucessos musicais que atravessam gerações, até os dias de hoje.


Os anos 70 - uma década que abalou a crença nos ícones dos anos 60, promovendo manifestações sutis e desregradas, pregando o amor livre e o consumo de drogas; uma década que moveu jovens idealistas levarem a cabo as suas ideologias políticas por meio do combate armado contra o regime militar; uma década a partir da qual germinaram as primeiras organizações não governamentais motivadas pelo sentimento de solidariedade; uma década em que a televisão passou a divulgar os escândalos dos famosos, o momento das discotecas e a ascensão da dance music dentre os estilos musicais que mais seduziram o espírito jovial das mais diversas faixas etárias; uma década na qual, o surgimento do movimento Punk, com a sua ideologia anárquica, foi marcada pelos grupos musicais Sex Pistols, The Clash e Ramones; uma década na qual os grandes festivais da música popular brasileira revelaram nomes como Belchior, Gonzaguinha, Djavan e Ivan Lins; uma década que enviou a primeira sonda para marte como meta da missão espacial Viking I.

Dando sequência à retrospectiva musical que teve início em 2016, com ‘60! Década de Arromba’, o dramaturgo e roteirista Marcos Nauer e o diretor e produtor Frederico Reder assinam a concepção de “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical”,  que sublinha os pontos marcantes de uma década marcada pela repressão política nas mais diversas áreas de manifestações culturais e ideológicas, pela consequente resistência estudantil e da classe artística, pela contra resistência manchada de sangue dos desaparecidos e pela expatriação forçada. A direção musical de Jules Vandystadt rege a busca pela liberdade e quebra de tabus sem a necessidade de diálogos ou fio narrativo para ser compreendido pelo espectador, em compasso com a efervescência política e cultural refletida pela coreografia e direção de movimento de Victor Maia, que, com muito estilo, discorrem sobre cada ano que compõe a década de 70. A concepção cenográfica de Natalia Lana configura uma grande angular que capta a atenção do espectador em 180°, como em um túnel do tempo, dispondo de forma ‘estereofônica’ a orquestra irretocável, em dois fragmentos, nos extremos laterais do balcão, regida engenhosa e tecnologicamente precisa – assumindo uma condição clarividente, digna de substâncias químicas muito consumida por frequentadores das discotecas, nos anos 70. O efusivo desempenho do elenco – composto por Amanda Döring, Amaury Soares, Aquiles Nascimento, Barbara Ferr, Bruno Boer, Camila Braunna, Debora Pinheiro, Diego Martins, Erika Affonso, Fernanda Biancamano, Larissa Landim, Laura Braga, Leandro Massaferri, Leilane Teles, Leo Araujo, Nando Motta, Pedro Navarro, Pedro Roldan, Rany Hilston, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro – é contagiante, impelindo a plateia à imediata identificação com os personagens e suas performances vocais, coreográficas e discursiva, unificados pelo figurino de Bruno Perlatto que, certamente, a partir de profunda pesquisa dos trajes da época, traduz a sociedade vigente, entendida com os seus costumes e ideologias. Dessa forma, passeiam pelo punk e desagüam nos clubes noturnos com pista de dança iluminadas e estreladas por globos incrustados por espelhos e pulsadas por efeitos estroboscópicos como um adicional ao cabal desenho de luz cênica assinado por Cesio Lima e Mariana Pitta. O estilo agressivo e compromissado com as posturas da época marca o visagismo de Adriana Almeida que ganha grande relevo ao se projetar do movimento hippie para o punk.

Emoção à flor da pele é o que pode ser imputado como qualificativo ao espetáculo “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” que, como na ficção de Irwin Allen dos anos 60 – ‘O Tunel do Tempo’, presenteia a plateia com a participação especialíssima de Dhu Moraes, Sandra Pêra e Leiloca Neves – as três remanescentes do grupo ‘As Frenéticas’ – trazendo-as de volta dos anos 70, diretamente, do frenético Danci’n Days.


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