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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A Pé Ele Não Vai Longe


Regendo a história de maneira incômoda e, muitas vezes, revoltante, Van Sant concede à sua obra um olhar de um homem sofredor, antes de se enxergar como um artista

Em um contexto desértico de uma charge temporizada no Velho Oeste, três xerifes encontram uma cadeira de rodas abandonada. Contrastando com a imprevisibilidade da situação, um deles sugere, aos outros dois, não se preocuparem quanto ao usuário do equipamento, concluindo que o mesmo não iria longe a pé.

A despeito do aspecto surreal da mensagem, sua essência rudimentar se mostra suficiente para que o cineasta Gus Van Sant conferisse à frase proferida pelo xerife, status do título do longa “A Pé Ele Não Vai Longe” – homônimo da autobiografia de John Callahan, cartunista memorável do século XX, que passou a se dedicar ao ofício e à luta contra o alcoolismo, até o fim de seus dias, após tornar-se tetraplégico em decorrência de um acidente automobilístico, durante um dia de bebedeira, de bar em bar, juntamente com parceiro de copo que dirigia o veículo.

Regendo a história de maneira incômoda e, muitas vezes, revoltante, Van Sant concede à sua obra um olhar de um homem sofredor, antes de se enxergar como um artista e, considerar a vida, a verdadeira riqueza que de que necessitava. Os cartoons, com teores datados e estereotipados de maneira tacanha por Callaham, são depressivos, autodestrutivos, profanos e temperados com pitadas de perversão, transmitindo, ao espectador, a sua auto rendição a um hábito mais destrutivo do que o alcoolismo – que, de fato, não o deixou ir tão longe a pé.

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