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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dogville


Um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana

A falta de fé na humanidade, o fracasso de uma sociedade e a ilusão da fé religiosa podem ser considerados o tripé que sustenta espetáculo “Dogville”, expondo, de forma conseqüente e articulada, um resumo de todas as misérias e fracassos da raça humana.

A adaptação do filme de Lars Von Trier para os palcos conserva convenções estéticas da narrativa, própria de teatro filmado, amplificando os detalhes do universo mesquinho das intrigas, das invejas, dos preconceitos e dos julgamentos – uma inusitada interpretação de Zé Henrique de Paula que traduz, através de sua direção, a essência de “Dogville” em algo concreto, familiar e muito próximo a cada um dos espectadores. Assumindo um paralelismo ao roteiro original do filme, dividido em capítulos, os atos do espetáculo são precedidos por um prólogo pelo narrador incorporado pelo ator Eric Lenate, que apresenta os seguintes personagens no primeiro ato, interpretados por um elenco irretocável que assimila a força presente nos diversos papéis: Grace (Mel Lisboa), Chuck (Fábio Assunção), Vera (Bianca Byington), Tom Edison (Rodrigo Caetano), Martha (Anna Toledo), Ben (Marcelo Villas Boas),  Sr Henson (Gustavo Trestini), Liz (Fernanda Thuran), Bill Henson (Thalles Cabral), Sra Henson (Chris Couto), Thomas Pai (Blota Filho), Jack McKay (Munir Pedrosa), Ma Ginger (Selma Egrei), Glória (Fernanda Couto) e Jason (Dudu Ejchel). Uma trupe que induz o olhar do espectador para muito além daquela pequena comunidade – sua paisagem, suas montanhas, até mesmo, sua cidade vizinha.

De forma distinta à condução na versão cinematográfica, na qual a ação se passa sobre um cenário em 2D, traçado em branco sobre um fundo negro – de forma tão didática quanto a escrita de giz sobre uma lousa escolar – na versão assinada por de Paula, para o teatro, o cenário desenhado por Bruno Anselmo se impõe com eficiência, a despeito de sua simplicidade, ousando projetar o caos em telões com dimensões proporcionais às dores, às dúvidas e às inseguranças dos personagens de uma vila chamada Dogville, habitada por pessoas simples, com anseios modestos e sem nenhuma pretensão de mudança. Pessoas com escassos contatos com o mundo exterior, isoladas segundo limites que lhes são impostos, até a chegada de uma forasteira que muda, substancialmente, a rotina do pequeno vilarejo que, antes com ares de felicidade idílica, dá lugar à verdade por detrás das nuvens densas, fúnebres e tenebrosas do ser.

Ao revelar a verdadeira identidade do vilarejo, o desenho de luz de Fran Barros acolhe não só os habitantes, mas também o espectador que, como uma ave de rapina à espera de uma carnificina, é poupado em meio à penumbra voraz que contribui no esmagamento da identidade da protagonista e sua desumanização. O entrelaçamento do real com o irreal, durante todo o espetáculo, é subvertido pelo figurino, com ares surrealistas, assinado por João Pimenta, que altera a percepção padrão de que a roupa faz o monge. O visagismo intimista de Wanderley Nunes enfatiza a dramaticidade e a tensão necessária junto aos personagens. A atenuação da atmosfera cênica na qual a história se insere, fica por conta da trilha sonora de Fernanda Maia, que ampara o espectador de tal forma a não permitir que também seja aprisionado em Dogville e permaneça inerte no tempo, juntamente com seus habitantes vítimas de amarguras e solidão, em meio à mediocridade e imersos em torpor, vitimados pela cegueira e que não se reconhecem como indivíduos.

A Vila do Cão, onde o instinto animalesco do poder camuflado em aparências e declarações de amor e de zelo ao próximo, tem como preposto o algoz que açoita e flagela, respaldado pelo nome de Deus e pela intenção da prestação do bem a toda a humanidade. “Dogville” acontece em plena década de 1930, em meio à miséria causada pela Grande Depressão e à sorte da violência gângster – uma história repleta de similaridade aos tempos atuais, em que Deus está acima de todos e “Dogville”, apesar de tudo que já foi vivido, acima de tudo.

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