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sábado, 1 de dezembro de 2018

Filho do Pai


Carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração

Deixando-se tocar pela reivindicação de um pai, um filho transforma tal experiência na verbalização de sentimentos represados através do texto de autoria de Maurício Witczak que ousa mixar o drama de sua autoria com passagens da peça ‘Hamlet’, em total sintonia com a essência do texto do Bardo inglês. À frente da materialização desse argumento no palco, Antônio Pitanga e Nando Cunha discorrem acerca do ceticismo enraizado no amor entre um pai e um filho – personagens que não conseguem exprimir o que sentem um pelo outro, deixando, generosamente, o benefício da dúvida, nas mãos do espectador.


A vida estampada pelas interpretações de Pitanga e Cunha é configurada pela essência da busca – de um lado, pela negação de um relacionamento e, por outro, pelo resgate de algo não vivido por conta de um drama familiar. Cercando-se de cuidados para não carregar o desempenho no palco com tendenciosa erudição, Clarissa Kahane dirige o espetáculo de tal forma a demandar do espectador o processamento das palavras e gestuais em imagens, tornando a assimilação do texto palatável e permitindo, até mesmo, a identificação do público com diversas passagens da obra. Dando suporte ao trabalho imagético de Kahane, o desenho de luz de Aurélio di Simoni se alterna entre a angustiante e remota tragédia do ‘Ser ou não ser’ e a contemporaneidade do drama que sufoca o relacionamento entre duas gerações. O controverso e fascinante confronto entre pai e filho é personificado pela direção musical de Isabela Vicarpi, que acentua hesitação e inércia como causas e revanche familiar como efeito. O simbolismo temático que transita, quase como uma linha investigativa do ser, é traduzido pelo minimalismo contido na concepção do projeto cenográfico e pela neutralidade da configuração básica do figurino assinados por Desirrée Bastos.


Da mesma forma que em Hamlet, “Filho do Pai” carrega o estigma da morte, mesmo que de forma atemporal, em uma queda de braços entre o homem e a maldade que reina na mente e no coração – tensões que afloram em momentos de conflito e que questionam o direito de optar pela morte, fundamentando o sofrimento humano como coisas da vida.


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