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domingo, 9 de dezembro de 2018

O Beijo no Asfalto


Formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original

Uma peça teatral escrita em 21 dias e publicada em 1960, inspirada em fatos reais, criteriosamente distorcidos pelo teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro – Nelson Rodrigues. Tomadas cinematográficas mixadas à leitura do texto no palco de um teatro se confundem com desempenho performático em estúdios de gravação, homenageiam a obra de Rodrigues através de todas as formas de manifestações artísticas – literatura, teatro e cinema. Um filme em preto e branco elenca, com requinte Suassuano, um ator negro para desempenhar o papel do protagonista. Dessa forma, o roteiro e a direção de Murilo Benício ousa reinventar “O Beijo no Asfalto” e o projeta nas telonas em formato inusitado e com requintes de cinema arte em total respeito à obra original.

Amor e tragédia conduzem a polêmica em torno do drama que conta a história de um homem casado que corresponde ao pedido de um beijo de um homem que agoniza à beira da morte após ser atropelado em plena Praça da Bandeira. Sem se dar conta do potencial de repercussão de seu gesto de piedade, Arandir é arrolado em uma matéria de primeira capa de um jornal sensacionalista que deturpa aquele beijo no asfalto e o transforma no assunto de maior repercussão na cidade.

A ousadia de Benício trilha a essência Rodriguiana ao desiludir as crenças do espectador – manipulando, despudoradamente, a geografia dos fatos e o formato da narrativa – e ao transportá-lo para dimensões que vão muito além das poltronas das salas de projeção – ora para o compartilhamento da intimidade entre diretor, atores em plena leitura e análise do texto, ora para os bastidores de locações urbanas, ora para o confronto com a desmistificação das tomadas em estúdio. Com isso, Benício mostra a produção teatral e cinematográfica tal e qual a vida como ela é. A perversão do Anjo Pornográfico é destilada e sorvida por Benício ao redefinir a relação conjugal do casal protagonista como inter-racial, vivenciada, visceralmente, por Lázaro Ramos e por Debora Falabella. O diretor não deixa por menos ao elencar Augusto Madeira, Otávio Muller e Luiza Tiso como coadjuvantes e as participações especiais de Amir Haddad, Stênio Garcia e Fernanda Montenegro.

“O Beijo no Asfalto” conta uma história, de certa forma, elementar, contudo, com enredo intrincado e repleta de significados que se distancia do trivial ‘o bem e o mal’, concebida a partir de uma dinâmica teatral ágil com personagens que colecionam infindáveis segredos e que carregam consigo o moralismo natural dos hipócritas. Um thriller policial com mistério enxuto, atos eletrizantes e equilibradamente pesados em seu desfecho. Uma obra de um surpreendente novato diretor, imerso na amoralidade constante nas histórias de Rodrigues. Atual e provocativo, até mesmo com o seu término que, como música de fechamento, ouvimos Ney Matogrosso interpretando a canção “A Vida é Ruim”, cedida por Caetano Veloso.



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