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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O Inoportuno



Destila um rosário composto por símbolos e por segredos, demandando, por parte do espectador, dedicada atenção a cada palavra proferida e a cada cena que aflora no palco do espetáculo


Uma trama que se passa em um sótão decadente de uma casa abandonada, em algum subúrbio londrino, envolvendo dois irmãos – Mick (Well Aguiar) e Aston (André Junqueira) – e um mendigo chamado Davies (Daniel Dantas). Graças a um inexplicável e atípico convite de Aston, o sem teto Davies passa uma noite na casa, sendo, em seguida, convidado pelos irmãos para se tornar o zelador do imóvel.

O texto assinado pelo ator, diretor, poeta, roteirista e dramaturgo britânico que desponta, dentre outros célebres representantes do teatro do absurdo – Harold Pinter – destila um rosário composto por símbolos e por segredos, demandando, por parte do espectador, dedicada atenção a cada palavra proferida e a cada cena que aflora no palco do espetáculo “O Inoportuno”. Mais uma vez, o diretor carioca Ary Coslov lança mão de seus predicados que vem conquistado através da sua trajetória pelos mais diversificados veículos de comunicação e rege, de forma acolhedora, os personagens que se vêem impelidos à destruição mútua, focando o seu trabalho em direção ao lado nefasto do ser humano, que esconde tudo o que há de ruim para que ninguém suspeite de sua pseudo bondade. A trilha sonora, também assinada por Coslov, alimenta o sentido auditivo do espectador, aguçando a sua curiosidade pelo desvendar dos enigmas contidos no caos do apartamento e nas atitudes específicas que, e função da versão de Alexandre Tenório para o português - preciso ao dosar a comicidade contida em Pinter - são capazes de remeter a relação tríplice a uma amorosa e feliz, típica de uma família, de conhecimento de qualquer um dos espectadores.

A inegável habilidade dos atores Daniel Dantas, André Junqueira e Well Aguiar mostra a vulnerabilidade da minoria em um jogo brutal de sobrevivência, conduzido pelo preconceito. O dramático resíduo de sentimentos que oscila em meio à raiva e à obsessão é materializado pelo desenho de luz de Paulo César Medeiros, como se uma arma intimidatória carregada com rajadas de luz, na estranha comédia sobre um trio de pessoas iludidas em seu paranoico universo. O mimetismo contido no cenário concebido por Marcos Flaksman encrusta os personagens envelopados pelo misterioso e filosoficamente ambíguo, figurino assinado por Kika Lopes, em meio a peças de mobiliário, utensílios e equipamentos domésticos, jornais empilhados, caixas, caixotes, malas e outros fragmentos de objetos inservíveis, acumulados, quiçá, ao longo de anos de displicência para com o que pode ser chamado de lar, mas um purgatório que se faz presente a cada dia.

Embaraçosas e constrangedoras, as sombrias situações entregues ao espectador, como comédia, fazem de “O Inoportuno” algo estranhamente repleto de sincericídio risível por aqueles que gostariam de proferir frases e comentários indizíveis pelos mais recatados.



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